VÁ DORMIR BRUCE – PARTE 3 DE 3 – FINAL


– Bruce, acorde. Você tem visita.
Foi a voz que o trouxe de volta. Mas a luz no local ofuscou seus olhos e ele levou a mão
ao rosto para amenizar. Só então notou que a beliche e a cela tinham sumido, ele estava numa sala totalmente branca, vestido de branco, deitado em uma cama branca.
Uma moça de rosto amigável o chamava.
– Onde está? Onde está o Ary?
– Bruce, você foi transferido para cá. Não se lembra?
– Eu… – ele apertou os olhos – Por que? – Você matou o Ary, Bruce. Já faz 6 dias.
Ele sentiu um choque transpassar seu corpo inteiro.
– Por isso te transferiram para essa clínica. Você precisa de tratamentos. Você precisa de ajuda.
– Eu nunca… Ele era meu amigo.
– Eu sei. Não foi culpa sua. Você fez o que precisava fazer. Agora venha, você tem visita.
Bruce levantou e a moça lhe deu alguns bolinhos de chuva enquanto avançavam para uma sala mais ampla onde vários loucos se espalhavam ao redor como vespas. No meio de todo alvoroço, ele enxergou Ray. Sim, era seu grande amigo. Com o casaco de couro, a calça jeans e a camisa azul.
Bruce correu ao seu encontro e o abraçou. Ray retribuiu o abraço.
– Como você está?
– É bom vê-lo – Bruce sorriu, trêmulo.
– Eu soube de tudo. É terrível que a situação tenha se tornado pior.
Bruce abaixou os olhos.
– A Denise virá vê-lo amanhã – comentou Ray.
O rapaz ficou surpreso.
– Então… Ela…
– Ela não está com raiva. Você fez o que precisava fazer.
Ela não estava morta? Bruce abriu um leve sorriso. Então era verdade. Ele não era um assassino.
– Todos sabemos que você pensou que o sequestrador estivesse morto, mas descobrir que Ary era o sequestrador. Cara, até eu teria pirado!
Bruce recuou, surpreso.
– Ary… Ele…
– Sim, cara. Não se lembra? O velho Bill contou toda a verdade e até lhe entregou a arma para fazer vingança.
– Eu… – ele apertou os olhos – Não lembro.
Ray tocou seu ombro. Não estava dolorido.
– Não se culpe. Você é um herói – Ray retirou o casaco – Isso é um presente para você.
Bruce tomou o casaco nas mãos e sentiu o couro entre os dedos.
– Mas é o seu favorito?
– Não importa. Você é um herói e heróis ganham presentes. Até mais.
O horário de visitas havia acabado, mas Bruce estava feliz porque logo Denise viria vê-lo.

Bruce acordou. Nem se lembrava de ter dormido. Mas se espantou quando enxergou a beliche acima de si. Saltou para fora da cama, enxergando Ary dormindo do mesmo modo de sempre. Ele estava na cela.
– Não pode ser… Não pode ser! – o rapaz agarrou as grades tentando arrancá-las.
– Que diabos está fazendo, Bruce? – era a voz de Ary.
O rapaz abaixou a cabeça, frustrado.
– Eu pensei que…
– Pegue um chiclete, cara.
Bruce pegou o chiclete e sentou na beirada da cama.
– Então era só um sonho – ele suspirou.
– O que é um sonho?
– Ary, eu matei minha mulher, não foi?
– Claro que não. Ela veio visitá-lo hoje, não se lembra?
– Eu…
– Vá dormir, Bruce. Você está paranóico hoje.
Bruce se deitou e continuou mascando seu chiclete, apertou o casaco de couro contra seu corpo até adormecer novamente.

FIM

Por Ômega Produções

VÁ DORMIR BRUCE – PARTE 2 DE 3


Bruce não tinha conseguido fechar os olhos desde que voltara para a cela. Deitado, rolava de um lado para o outro sem encontrar o sono. Denise e suas palavras bombardeavam sua mente e o rapaz continuava inquieto quanto aos questionamentos de sua cabeça.

– Que diabos está havendo, Bruce? – era a voz de Ary na cama de cima.

– Eu não sei. Vamos me dê um chiclete ou eu vou ficar louco.

A mão de seu companheiro apareceu e Bruce pegou o chiclete.

– O que te atormenta, meu jovem aprendiz?

– Recebi uma visita de Denise – comentou ele – Ela me disse que eu não a matei. Que eu tenho uma filha – lágrimas surgiram em seus olhos, não sabia se era emoção ou angústia – Cara, isso é loucura.

– Loucura mesmo. Você não recebeu visitas hoje. Com certeza foi um sonho.

– O que? – questionou Bruce, ainda trêmulo de suas emoções.

– Isso mesmo que você ouviu. Ninguém veio te visitar hoje. Bruce, você está aqui há 9

anos e ninguém nunca veio te visitar.

O rapaz sentou-se na beirada da cama e enterrou a cabeça entre as mãos.

– Não foi um sonho – ele levantou num pulo, Ary estava deitado de costas como sempre, virado com aquele maldito e enorme traseiro para seu rosto – Eu a vi. Eu senti o cheiro e as sensações. Meu braço até doeu. Cara, a gente não sente esse tipo de coisa em um sonho.
– Então aqui é o sonho, Bruce? – questionou a voz sonolenta de Ary.

– Eu não sei. Mas foi real. Eu a vi. E ela me disse que eu salvei nossa filha. Salvei nossa filha. Eu sou um herói, acredita?

– Bruce, vá dormir. Você está ficando paranóico.

De fato, o rapaz deitou, mas levou algum tempo até que pegasse no sono enquanto resmungava para si mesmo que era um herói.

Conclui a seguir…

Por Ômega Produções

VÁ DORMIR BRUCE – PARTE 1 DE 3


Bruce acordou com o som do policial chamando seu nome. Ele nem tinha percebido quando pegara no sono, mas seu corpo estava dolorido – o colchão era da pior qualidade, ele constatara – e seu braço rangeu feito uma porta velha quando ele se apoiou para levantar – era aquele velho ferimento do seu trabalho como carpinteiro.
– Bruce, você tem visita – alegou o velho Bill, um policial na casa dos quarenta.
O rapaz cutucou Ary, um homem negro deitado na parte de cima da beliche. Bruce ainda não entendia como um metro e noventa de altura se encaixavam dentro daquele cubículo que chamavam de cela. E muito menos, como Ary conseguia fazer suas necessidades fisiológicas no vaso ao fundo da cela. Ele deixou este pensamento de lado e puxou um chiclete embaixo do travesseiro do companheiro de cela enquanto o guarda abria a cela.
Bruce foi algemado e levado ao salão de visitas. Ele ainda não sabia quem era. O advogado querendo ganhar mais dinheiro com uma causa encerrada, pensou. Mas o rapaz estava disposto a pagar sua pena. Cada dia. Cada hora. Cada minuto. Independente das intenções do advogado pilantra, Bruce considerava justa a sua pena e não se arrependia de estar ali. Fiz o que qualquer homem em meu lugar faria, resmungou um pouco alto demais pois o guarda o encarou por um instante.
As longas e enormes portas de ferro do salão de visitas abriram-se rugindo e as mesas espalhadas no enorme salão apareceram. Aquele lugar tinha um cheiro de mofo e as paredes mal lavadas causavam uma sensação de tédio em Bruce. Mas foi então que o rapaz a viu. E quando isso aconteceu, ele travou. Parou de mascar o chiclete imediatamente. Apertou seu casaco de couro contra o peito. Um tremor súbito escalou suas pernas e seus braços até arrepiar todo seu corpo. Ele olhou, incrédulo. Era Denise? Não podia ser verdade. Não podia ser real. Mas era. Lá estava ela com o velho vestido azul marinho que ele tinha presenteado no terceiro aniversário de casamento.
Bill o cutucou forçando a andar rumo à mesa onde a mulher esperava. Bruce identificou a mancha de nascimento na bochecha de Denise. Era mesmo real?
– Você veio – ela sorriu ao vê-lo.
Ele sentou lentamente com os olhos arregalados e as mãos trêmulas.
– O que houve? Você está bem? – as mãos dela se aproximaram, mas ele afastou.
– Você… Como isso é possível?
– O quê? Eu vir te visitar?
Ele engoliu seco.
– Por que eu não viria? Você é meu esposo e eu te amo – ela sorriu, o mesmo sorriso
belo que Bruce amava.
– Você… Eu – seus olhos abaixaram rodopiando em volta de si mesmo.
– Você fez o que precisava fazer, Bruce. Aquele homem ia matar nossa filha. Você não
teve escolha.
– Filha? – ele não lembrava de filhos ou filhas.
– Jessica – Denise respondeu ajeitando o cabelo – Pequenina, branquinha, que tem os
mesmos olhos do pai.
Ele a encarou, confuso.
– Eu não… Eu não tenho filha.
– Como não? Você adorava levá-la nos ombros e depois ficava com o braço dolorido.
Bruce mascou o chiclete, quase se esquecera que ainda estava em sua boca.
– Bruce, você não se lembra da Jessica?
Ele balançou a cabeça negativamente.
– E você… – apontou para Denise – Eu… Eu matei você.
– O quê? Que diabo está dizendo?
Bruce colocou suas mãos na cabeça e apertou. O que estava acontecendo?
– Eu matei você! Você estava me traindo com o Ray, não se lembra, vadia? Então eu te matei! – as mãos se fecharam num punho e ele socou a mesa. Uma. Duas. Três vezes.
Denise pulou para o lado, enquanto dois guardas apareciam para agarrar o desnorteado rapaz.
– Bruce, você enlouqueceu? Eu nunca trai você! – os guardas o ergueram, agora dominado – E o Ray é seu melhor amigo! Ele nunca faria isso contigo.
Bruce olhou incrédulo. Como era possível? Ela estava ali, falando, se movimentando, sorrindo como sempre fizera. Mas ele lembrava muito bem do facão e do sangue. Recordava dos miolos e do rosto desfigurado de Denise. Como era possível?
– Você está aqui porque matou o sequestrador de nosso filha. Você não é um assassino.
– Você é um herói, Bruce.
Não houve tempo para mais nada. Os policiais o levaram de volta à cela e a única coisa que ficou para trás foi o som da voz de Denise gritando: “Um herói. Um herói, Bruce.”

Continua…

Por Ômega Produções

CORREIO BR: O RETORNO


Caros leitores:

A partir do dia primeiro do mês de fevereiro (rimou kkk) estaremos de volta com as publicações de Contos.br. Notem que neste primeiro momento publicaremos contos de outros escritores sem ter dias certos. As publicações serão eventuais.

Em relação a esse ano, podemos ter novidades, mas não posso informá-los ainda do que se trata. Aguardem.

Por enquanto, me despeço…

Alci Santos – Editor

FELIZ ANO NOVO


Finda mais um ano
Ficam boas recordações
Renove as esperanças
Esqueça os traumas e decepções

Quebrante o coração
A partir de hoje é dia de recomeçar
Faça o bem, libere o perdão
Se entregue totalmente a Deus
Deixe o Altíssimo te usar
Como instrumento em suas mãos

Nesta nova etapa, pense nos sonhos
Na família, e nas outras pessoas
que fazem parte da tua vida;
Nos excluídos da sociedade
Que sentem frio e passam fome

Conquiste novas amizades
Conte sempre comigo
Se precisar do meu abraço
De um ombro amigo

Reflita sobre a história de Jesus Cristo
Obedeça ao criador do universo
Torne-se jovem em espírito
Renuncie este mundo perverso

Acredite mais em ti, lhe desejo tudo de bom
Paz, felicidades e sucessos
lute pelos seus ideais, conclua projetos
Feliz ano novo, todos nós temos méritos

Por Sidney Alves das Virgens

Um feliz 2016 para todos. São os votos de Alci Santos, editor e coordenador deste blog.

UM CONTO DE FIM DE ANO


Era a noite logo antes da noite de Natal. Em Brookline, Massachusetts, reinava uma paz quase perfeita. Fazia frio, 10 abaixo de zero, mas o céu estava limpo e luminoso a ponto de apagar o brilho das estrelas. Até os jovens pareciam preferir os prazeres do lar e passar em casa a primeira noite das férias. Pelas ruas desertas, difundia-se uma sensação de harmonia.
Paz na terra aos homens de boa vontade. As casas ronronavam satisfeitas empurrando ao máximo suas caldeiras. As lareiras acesas soltavam fios delicados de fumaça. Esses arabescos, o murmúrio das calefações e o código morse das luzes natalinas piscando compunham uma linguagem que subia ao céu como uma prece de gratidão.
As decorações luminosas das casas vistas de cima deviam configurar um sinal à intenção do Salvador, para que caso decidisse voltar entre nós, Ele reconhecesse seu aeroporto. Sem dúvida, alguma divindade deveria ser sensível ao cântico dessa e de outras prósperas cidades. Pois as notícias, no fim daquele dia, eram a prova de uma bênção divina respondendo à boa vontade dos homens: ambos os índices -o Dow Jones e o Nasdaq- fecharam com novos recordes.
Nas casas, o calor fomentava o amor e os bons sentimentos. Nos fundos de investimento, o dinheiro poupado se multiplicava como bacilos numa estufa. Envelheceremos tranquilos ao abrigo da necessidade, pois o deus de Wall Street reconheceu os seus. As festas de fim de ano são uma época prona às visitações. As pessoas se visitam. No mínimo, trocam presentes, cartões ou e-mails. Os pequenos contam com a mágica manifestação de Papai Noel. Os adultos esperam ser visitados por algum tipo de graça: por isso é época de reavaliação do passado e de propósitos para o futuro.
Mesmo assim, quando por volta das 21h tocou a campainha, foi uma surpresa. Era uma jovem de uns 20 anos, magra, cabelos curtos, os lábios e o rosto brancos pelo frio; assim como as mãos que seguravam uma prancheta. Ela estava absurdamente pouco agasalhada: calças de brim e uma daquelas malhas espessas de lã crua. Parado no limiar, eu sentia nas costas o calor da casa e na frente o vento gélido no meio do qual ela se erguia e de onde ela me olhava. Solicitava uma assinatura para alguma petição. Não consegui escutar direito: talvez fosse contra as emissões de gás carbônico e o aquecimento do planeta (que aliás naquela noite teria sido bem-vindo). Ou então contra a fome na Somália.
Ou a favor dos gorilas. Não conseguia escutar porque, fascinado, eu contemplava no olhar dela, lá naquele frio danado, meu próprio olhar aos 20 anos. Na verdade, enquanto ela falava, eu não a via, mas me olhava pelos olhos dela. Sei que o ano 2000 não é o começo do novo século nem do novo milênio, ambos acontecerão em 2001. Também é uma medida de tempo que vale apenas em nossa cultura. Mas acontece que, 20 ou 30 anos atrás, o 2000 já funcionava como uma marca. O ano se tornou significativo por força de antecipação. Como seremos no 2000? Chegaremos lá? Minha antecipação quanto a mim mesmo era negativa. Na verdade, eu não queria viver até hoje, desconfiava que a esta altura estaria decrépito.
Pouco a ver com o envelhecimento do corpo: previa que o Contardo do ano 2000 seria uma decepção. Pior, ele me trairia. Agora estava descobrindo e julgando este eu do ano 2000 por meio dos olhos de minha visita inesperada. O ano quase acabou, os números estão virando, você está ainda vivo e gosta do que está vendo? Não sei. A moça falava e eu pensava nas esperanças mortas, nas repetidas vitórias do que é razoável sobre o que é certo. Pensava que viver é uma permanente invenção de terceiras vias. Também que a adolescência é o momento moral da vida, quando os ideais são assumidos na ruptura, contra pais e mestres, e portanto durante um tempo valem sem reservas. Por isso desconfiamos dos jovens: neles, receamos nosso próprio olhar adolescente (e impiedoso) sobre nós mesmos. Deles também podemos temer um absolutismo moral absurdo, sem compromissos. Em outras épocas e longitudes, por exemplo, minha visita poderia ser um grupo de adolescentes cambojanos me anunciando que era tempo de deixar luxo e conforto para me reeducar no campo.
Perguntei-me dos dois extremos qual seria o pior: adolescentes fanáticos no poder ou então jovens que perdem a ocasião de ser a consciência moral de seus tempos e, tornando-se coroinhas dos piores deuses dos adultos, envelhecem antes da hora e apodrecem? Minha visita terminara de falar. Assinei não sei o quê. Mastiguei um “feliz Ano Novo”, fechei a porta e voltei para a lareira, às conversas e aos risos. A cena cabia no cartão-postal privilegiado e um pouco hipócrita do espírito natalino da cidade. Por que não participaria? O mundo não ia ser muito pior por causa disso. Mas certamente o mundo era um pouco melhor pela generosidade da jovem que, sem sorrir, fora embora no frio e no escuro, para bater a outra porta.

FIM

Por Contardo Calligaris

UM FELIZ ANO NOVO A TODOS OS LEITORES DE CONTOS.BR

12º DP – A MÃO NA CAIXA – EPÍLOGO


– Uma semana após a resolução do caso no 12º DP…

– Will venha depressa recebemos uma carta para você e Ming. Já o chamamos

– Ok Roger, estou de saída.

Quinze minutos depois…

– Sinto muito Will e Ming. Como veio direcionada para nossa agência sem remetente, tivemos que abrir. Quando lemos, ficamos receosos em relação à vocês.

Will pegou a carta e leu em voz alta.

“Dessa vez vocês me pegaram, mas logo vou sair daqui, e quando isso acontecer eu vou atrás de vocês”.

E assim a carta terminou, sem assinatura.

– Estranho Will. Será o louco que prendemos?

– Não sei Ming, mas já prendi vários antes de nossa parceria e você também. Alguém que sabe que somos parceiros.

– Não adianta quebrar a cuca pessoal. Que venha qualquer bandido que estaremos preparados não é Ming?

– E o 12º DP em peso estará sempre com vocês! Ou não me chamo Roger.

FIM!

ATÉ A PRÓXIMA TEMPORADA

Por Alci Santos