A FAZENDA DO VOVÔ JEREMIAS – IV de IV

Dona Santa, a velha rabugenta, não proferira as inúmeras exclamações avessas à tal fazenda de Vovô Jeremias em vão, não; ao menos a longa vida que ali passou mostrou-lhe motivos que ajudaram a engrossar o caldo da desconfiança e do temor para com aquele lugar!
Essa mulher nunca presenciara com os próprios olhos qualquer cena, qualquer fato concreto na vida isolada do sr. Jeremias que a enchesse de razões para afirmar que aquele homem possuía estranhos poderes ou, quem sabe, tivesse até algum pacto demoníaco…Uma coisa era certa, toda vez que uma pessoa da cidade era dada como desaparecida, dona Santa passava noites horríveis, com pesadelos horripilantes que chegavam – ao que parece – a transpor a tênue linha do onírico, caindo no abismo da realidade, e uma realidade dura e cruel, pois se sonhava com um monstro pavoroso, de olhos incandescentes e longos caninos perseguindo uma vítima, podia ter certeza de que alguém estaria em vias de desaparecer e… desaparecia mesmo! Só não sabia quem seria a vítima, mas, o rosto do monstro, ahhh, esse era sempre o mesmo, garras enormes, uma cor pálida de morto, um morto-vivo, parecia até coisa de… vampiro! Bem, mas vampiros eram seres danados, frutos do imaginário coletivo e de uma porção de lendas espalhadas pelo mundo afora, não é verdade? E, religiosa como era, fazia suas orações diárias e pedia muita proteção para si e para os outros.
– Há mais mistérios entre o céu e a terra que a gente não consegue imaginar! – dizia consigo mesma.
E o tempo passou depressa, devorando a saúde e a vitalidade daquela senhora até devolvê-la ao pó de onde viera…

Vitório nada sabia sobre isso, mas, curioso como estava e com a imaginação afiada comum num garoto de dez anos, abriu o diário e adentrou uma madrugada que nunca mais esqueceria. De uma coisa tinha certeza, lera o suficiente para concluir que ou seu avô era louco e dotado de uma imaginação fora do comum, ou, então, a fazenda que seu pai herdara fora palco de uma sórdida e nefasta mancomunação entre Jeremias e um filho das trevas, um vampiro real… que coisa!
A história começa em 1949, um pouco depois do final da 2a. Grande Guerra, quando Jeremias era ainda um homem de 32 anos de idade, cheio de vitalidade e vontade de abraçar o mundo… Trabalhava na marinha mercante e pouco pisava o solo firme, mas, em compensação, conseguia guardar praticamente todo seu salário, pois o emprego lhe oferecia moradia e alimentação, além, é lógico, de inúmeros encontros amorosos clandestinos.
Se marinheiro possuía fama de aventureiro no amor, ele não ficava para trás, justificando muito bem seu apelido de “big man”, seja pela sua compleição física como, também, pelo seu jeito especial de conquistar mulheres…
– Mulher, pra mim, só ‘filet mignon’, boa de bolso e de rebolado! – brincava com os demais, vangloriando-se das inúmeras histórias com o sexo frágil.
Numa noite quente e de lua cheia, o feitiço virou contra o feiticeiro; ele foi cortejado por uma mulher muito linda, fascinante e sedutora e, ao mesmo tempo, exótica e misteriosa, dona de uma beleza escultural inigualável, uma pele tão alva quanto a luz do luar.
Nunca acontecera coisa assim; não parava de pensar nela o dia inteirinho e,à noite, no mesmo local, lá estava ela esperando-o, sabendo-o fora de si e louco de vontade em possuí-la. Num desses momentos mágicos, levava-o até seu camarote, possuindo-o com uma voracidade e um ritmo incomuns que no dia seguinte se sentia como que anestesiado ou, quem sabe, embriagado, e nunca havia sentido algo assim tão delicioso com qualquer mulher que já conhecera!
Contava as horas do dia para, depois de seu expediente, ir direto ao encontro dessa fantástica fêmea, que já o esperava com o trinco da porta aberto… E cada noite que passava, tornava-se mais afoito por encontrá-la o mais rapidamente possível, e o interessante é que ela permanecia o dia inteiro ali trancafiada e com a janela fechada, como se a noite fosse seu habitat natural. E foi numa dessas noites que ela o mordeu de leve na jugular, sugando um pouco de seu sangue, o suficiente para deixá-lo louco de prazer, como se estivesse viajando num sonho onde se todas as suas células estivessem pegando fogo e essa incandescência estimulasse ainda mais seu gozo da cabeça aos pés…
– Coisa louca, ela sabe fazer isso tudo e nem deixa marcas no dia seguinte! Mulher nenhuma me fez sentir isso, nenhuma!
E como tudo tem seu preço, o que no início era novo e delicioso, acabou virando uma necessidade, e se sentia como que usado por ela – um objeto – e, pior de tudo, não conseguia mais ficar sem aquele rápido beijo mordido que o permitia alçar vôo e tocar as nuvens em êxtase total sem tirar os pés do chão…
– Quero mais, preciso mais, você só me dá uma míngua e, mesmo assim, só que não está a fim…
– Calma, querido, reservo grandes surpresas para ti, é apenas uma questão de tempo! Temos de fazer aquela tal viagem, até Varna, na Bulgária, estás lembrado?
– Mas, e meu emprego? Não tenho permissão de sair assim, tão de repente, eu…
– Já te disse que terás uma surpresa e tanto, e verás o quão medíocre ainda és neste teu emprego também medíocre se comparado ao que te possibilitarei num futuro próximo! Não gostas de jogar? E te garanto que o prêmio será tão surpreendente que me agradecerás de joelhos por tudo que te permitirei ter…
– Mas, nem conheço você direito, apenas essas noites em que…
– Cala-te! Se falares assim uma vez mais acabo contigo! Prefiro ouvir um ‘não’ teu, curto e grosso, porém decidido; saiba que odeio indecisos, e tu estás me deixando irritada com isso! Vamos, tens de decidir agora, caso contrário te deixo aqui e nunca mais me verás, muito menos…
– Não, não!!! Eu… bem, lógico que quero ir, mas tenho de preparar terreno e…
– Tolinho, teu terreno é isto aqui! – e lhe aplicou uma mordida profunda, o suficiente para deixá-lo em estado hipnótico, semi-consciente e totalmente entregue à vontade de Frantiska.
Quando voltou a si, encontrou-se num lugar completamente estranho, escuro e inimaginável, parecendo mais uma cripta – sim, uma enorme cripta – onde dava para se ver enormes túmulos divididos em dois segmentos de seis gavetas cada. Havia poucas velas acesas que permitiam iluminar bem pouco o ambiente.
– Seja bem-vindo, caro Jeremias, e fique à vontade! Apenas não te assustes com o que estás vendo… E peço desculpas pela forma como aqui chegaste, mas dentro de instantes compreenderás tudo, e dentro do teu livre-arbítrio poderás escolher entre voltar à tua vida de antes ou, então, ajudar-me e, a partir daí, conquistar, assim, os benesses que te farão jus…
O marinheiro não acreditava no que estava vendo e ouvindo, um misto de história macabra e realidade.
– E quando sairei daqui!?
– Quando escutar o que tenho a te falar e, como já foi dito, fará a escolha que quiser. Senta-te, estás um pouco tonto mas isso já passa! Meu nome é Lottar Gan Amom e sou o que realmente imaginas, um vampiro! – ante o olhar confuso e atônito do indefeso homem ele continuou…
– Sou antigo, tenho mais de 300 anos, e já presenciei fatos indescritíveis no decorrer de todo esse tempo. Como posso ter essa idade? Hahaha, ao tornar-me um vampiro abri mão de minha vida, morri para ela mas, em compensação, renasci com a morte, acredite, por isso sou predador e me alimento de sangue – a fonte inesgotável de minhas energias e de minha imortalidade!
– Ma… Mas eu…
– Sem mas, pois não és estúpido e sabes muito bem que falo a verdade! Mas não estou aqui para oferecer-te a eternidade, em absoluto! Pelas nossas leis próprias não me é permitido conceber esse dom a qualquer um, temos códigos de ética nossos e os mesmos têm de ser cumpridos! Quero te propor uma coisa, necessito de tua ajuda e meus poderes telepsíquicos me fizeram descobrir-te em meio a toda essa massa humana, pois és um ser especial, tens vitalidade, energia, beleza física, personalidade forte e uma têmpera sexual que faz inveja a muitos dos de tua espécie… Aqui em meu território, já não é mais possível me comprazer em meus limites, entendes, o lugar é pequeno, a população tem aumentado sensivelmente e estou percebendo que necessito de um lugar maior e melhor, onde possa me transferir juntamente com minha amada Frantiska! e sei que em teu país, o Brasil, há lugar para muita gente, muita gente que pode vir a se tornar presa fácil e, lógico, amparado em tua ajuda e colaboração. Para isso, basta apenas que me ajude a firmar meu território por lá e te farei meu servo fiel, onde terás propriedades, dinheiro e, o principal, fartura e abundância em tua vida mortal. Veja bem, não te proponho em absoluto conceder-te o Dom das Trevas… reinarei juntamente com minha parceira por tempos que não conceberias imaginar, e serás meu primeiro ajudante – um fiel ajudante em quem depositarei meu segredo e dividirei direitos e obrigações. Mas tuas obrigações serão justas, precisas e imutáveis; nunca me farás quaisquer ameaças à guiza de chantagem, nunca! E te falo isso por experiência própria, adiantando-te que se isso um dia vier a acontecer, terás um fim horrível, esse é o preço que pagarás por tua infidelidade. Mas, ao contrário disso tudo, terás uma vida normal invejável, serás respeitado por teus domínios, teus bens e tua imagem social.
– E se eu não quiser saber disso? Se quiser ir embora agora e nunca mais voltar, como é que…
– Então vais e te prometo que nunca mais saberás de mim. Mas pensa bem, há oportunidades e ofertas irrecusáveis que chegam escancaradas aos olhos que, quando negadas, nunca mais voltarão a nos seduzir, nunca mais! É um direito teu recusar, mas tenho certeza que teu espírito aventureiro e desejoso do querer mais e mais não há de te trair agora, pense bem! E… Um detalhe a mais, apenas saiba que, como parte de nosso pacto, no dia que vieres a falecer, teu corpo será reclamado por um filho meu que continuará por aqui por um bom tempo ainda, e serás enterrado aqui, neste solo. É só!
– Mas por quê deverei ser enterrado aqui, neste lugar!?
– Por uma questão de tradição nossa, uma homenagem aos nossos que já deixaram de existir ou que já se foram para outros lugares distantes, e a ti próprio, que propiciaria uma nova ramificação em tua terra, entendeste…?
O diário era bem extenso, mas Vitorio leu o suficiente para, compreender a trama densa e horrível que representou e ainda representava a fazenda de vovô Jeremias. Estava atônito, não sabia o que fazer, sua irmã o esperava lá fora e sabia muito bem quais eram suas intenções…
A leitura foi o suficiente para que Vitório entendesse o no que estava envolvido. Mas queria ajudar Suzana, e não sabia como. Ela era um deles agora e o queria. E estava lá fora, ele podia ouvi-la cantar uma música sombria, numa língua que lhe soou estranha, porém a horripilancia tomava conta de seu corpo. Largou o diário no chão, andando de um lado a outro freneticamente, tomado pelo desespero total.
_ Irmãozinho… Eu tenho todo o tempo do mundo! A eternidade, pra ser mais clara. Mas se sair daí logo, tudo ficará melhor, especialmente para nós!
A voz dela agora era mais suave, mas carregada de ironia. E ele sabia que não podia fugir.
_ Venha, Vitório, venha para nós…Venha para a vida eterna! Aceite a dádiva que lhe foi dada.
Ele percebe agora outras vozes, como num coro, e eles repetem a frase várias vezes.
_ Venha para nós, venha para a eternidade…
Os sons externos mesclam-se com seus pensamentos perturbados pela melodia macabra que toma conta de seus ouvidos. Tudo girando agora. Ele escuta o riso deliberado de Suzana, e as outras vozes repetem a frase incessantemente. Tudo girando, o desespero em cada parte do corpo. Tudo girando.
A claridade o desperta, está deitado em sua cama, Suzana abriu as cortinas rispidamente. Sua cabeça dói e sente-se atordoado. Aos poucos entende que desmaiou e fora levado de volta a casa. Ela se aproxima dele, toca em suas mãos, mas Vitório bruscamente sai correndo.
_ Não há para onde fugir…_ Ela fala e sua voz parece penetrar a mente dele._ Você é o escolhido, aceite seu destino, essa dádiva que lhe foi dada. Vovó Jeremias estará te guiando. Ele e os outros. Não tenha medo, você não está só.
Era clara a maldição que recairia sobre ele. Enquanto corria inevitavelmente, a voz de Suzana e suas palavras o perseguiam. Não teria como escapar do seu macabro destino.

Por Carlos Junior

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