SEU JUCA

Mesmo os moradores mais antigos de São Bento da Trindade não conseguiam lembrar quando ou como Seu Juca chegara àquela cidadezinha do interior de Pernambuco. Tudo o que sabiam dele eram duas coisas:

1 – Um velho esquisito, morando na periferia, sem família ou amigos e que jamais recebia visitas. Por algum motivo – sobre o qual jamais conversavam, embora não soubessem o porquê disso – os moradores de São Bento nunca se aproximavam daquele velho. Contudo, Dona Marieta, que há trinta anos vendia milho assado na esquina da Rua Emília Madureira com a Coronel Bragantino Sarapió, costumava falar que “é desse jeito porque Seu Juca quer assim”. Os mais supersticiosos se arrepiavam ao ouvir isso, contudo a maioria ignorava. Afinal, Marieta já não tinha juízo desde que o marido morrera na guerra.

2 – Igualmente, não se sabia de onde Juca tirava seu sustento, nem o que fazia o tempo todo isolado naquela casa. Uma história, porém, começou a correr. Espalharam que o ancião fazia e colecionava globos de neve. Por mais estranho que isso parecesse àquele lugar, a história se fixou no senso comum daquela gente.

E assim tudo corria tão normalmente quanto era possível para São Bento da Trindade. No entanto, certa vez a mocinha Maria Rosa – treze anos, cujo tio, Cássio Valeriano, foi morar na capital e ficou famoso escrevendo livros – precisava entrevistar algum morador ilustre da cidade para um trabalho escolar e teimou que seria Seu Juca.

O mais curioso, e isso as pessoas comentariam por muito tempo, é que, ela realmente foi até a casa do velho. Ele a recebeu com grande surpresa, o bastante para aceitar a tal entrevista (ora, aquela menina devia realmente ser uma criaturinha bem incomum, pois conseguira chegar até ali – meditou Juca).

Os dois se sentaram na varanda da casa. A menina com caderno e caneta na mão e a lista de perguntas, contudo antes de fazer a primeira, alguma coisa apareceu na mente dela e Maria saiu-se com essa:

– O que o senhor faz aqui nessa casa, Seu Juca? O que é que o senhor faz de verdade?

O ancião sorriu (o primeiro sorriso talvez em décadas) e questionou:

– Quer mesmo saber?

Ela confirmou com a cabeça.

A resposta, porém… Foi absurda demais. Tudo bem que Tio Cássio escrevia histórias de ficção, mas nem ele acreditaria naquilo. O velho devia estar zombando dela, tomando-a por tola ou doida ou algo parecido. Maria Rosa juntou a educação que tinha, inventou uma desculpa qualquer para sair, disse que voltava outro dia para continuar a entrevista (por dentro, jurou a si mesma nunca mais se aproximar daquele louco) e partiu o mais rápido que pôde. Velho mentiroso – ela pensou enquanto se afastava.

Seu Juca, ao menos esse foi o nome que ele adotara fazia muito tempo, riu pela segunda vez naquele dia. Já havia se esquecido como era agradável perturbar as pessoas deste mundo. Fora divertido lidar com a menina e ela não repetiria a ninguém o que escutara (ele cuidara disso. Mentes humanas, até mesmo uma incomum como aquela moça, são coisas fáceis de manipular). Embora fosse quase impossível alguém deste planeta acreditar na história da menina.

Entrou e abriu um armário onde estavam alguns de seus trabalhos, as coisas que criara para passar o tempo. Guardava-os em esferas de vidro – de um tipo que ninguém, exceto ele, já fabricara na Terra. Globos de neve? De onde tiraram essa idéia? Aparentemente – Juca considerou – os humanos são pródigos em inventar histórias.

Juca beijou uma das esferas, orgulhoso do pequeno universo que estava se formando ali dentro. Esse seria sua obra-prima, tão perfeito que desejou retê-lo para si mesmo. Lamentou, pois, breve, certa divindade flamejante – um desses deuses jovens e impacientes, porém freguês assíduo e que pagava bem – viria buscar aquele novo cosmo. Balançou a cabeça resignadamente. Melhor deixar o sentimentalismo de lado. Os negócios vêm em primeiro lugar.

Por Rita Maria Félix da Silva

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