AS CINCO PANELAS DE OURO – 6 DE 12

– Monsenhor Benedito de Moura. Homem bom. Um santo.
– Que dúvida! Cada vez que vinha aqui arranjar o jardinzinho…
– Que jardinzinho?
– Ué! O jardinzinho que tinha! Antes do túmulo só tinha um jardinzinho e uma cruz no meio. Desse jardinzinho é que Padre Dito cuidava todas as semanas que Deus dava. Quando podia ajudava ele. E ele já sabe: me…
Nicolau disse de repente:
– Até outro dia, Crispim!
Não podia mais. Se ficava mais um minuto se traía contava tudo. Mas meu Deus do céu, como é difícil a gente guardar um segredo assim dentro da gente. Hoje mesmo precisava resolver tudo. Senão não agüentava: morria de aflição. Agora é ir almoçar que já são horas. Nem se discute: Padre Dito com a desculpa de arranjar a sepultura da velha o que fazia era enterrar ouro e mais ouro, o filho da m…
– Está falando sozinho, rapaz?
– Hein? Ah sim! Estava fazendo uns cálculos. Estou com muita pressa. Lembranças em casa. Passar bem, Abílio. Apareça.
Depois do almoço mandou Dona Esmeralda dizer para o major e o Antônio Vicente que estava doente sem poder sair de casa mas que queria muito conversar com eles. Eles que viessem logo. E na reunião convenceu os companheiros políticos de que era uma infâmia a permanência de  perrepistas na comissão das obras da matriz. Era preciso organizar outra com o major na presidência e ele Nicolau feito tesoureiro.
Assentado isso Dona Esmeralda foi buscar Padre Zoroastro. Padre Zoroastro foi dizendo que sim com a cabeça mas na hora de resolver a coisa falou:
– Está tudo muito certo. Porém não pode ser.
– Por que que não pode ser?
– Não pode ser porque Zéquinha Silva é pessoa – não é – de muita confiança do bispo. É.
E não permitiu mais que Nicolau abrisse a boca. Não é? é, os amigos bem compreendiam a situação. não é? é, apertou a mão dos três, foi-se. Botando Nicolau no auge da indignação.
Começou a injuriar Padre Zoroastro, a falar o diabo do bispo, a dizer coisas de Zéquinha Silva, da  filha de Zéquinha Silva. Insinuou mesmo que entre Dona Isolina e Padre Zoroastro havia grossa patifaria. Então o major saiu de seu silêncio espantado:
– Mas afinal de contas, Nicolauzito dos meus pecados, o caso não tem assim tanta importância. Não se trata de cargos políticos. São cargos – como direi – são cargos… técnicos!
– Olha a grande besteira!
De seu lado Antônio Vicente não percebia também a causa de tanto ódio. Está claro que seria melhor arranjar outra comissão mas o bispo não querendo não valia a pena brigar com o bispo por tão pouco.
– Eu acho assim. Com saias a gente não briga que saí perdendo na certa.
Nicolau ia e vinha na sala bufando. Tapava os ouvidos quando os outros falavam, dava murros na parede, dizia palavrões. E por fim estourou:
– Vocês querem saber o que há, não é verdade? Vocês estão cheirando qualquer segredo, não é isso? Pois têm toda a razão: há um segredo! Eu conto. Não tenham medo não!
Contou à moda dele. E porque os outros assumiram uns ares incrédulos, até caçoistas, contou, gritou duas, três, quatro vezes o sonho da mulher.
– Caramba, carambolas! – disse o major. – É muito capaz de ser verdade mesmo! E olhem que as ervas são muitas!
– Mas quatro quintas partes são pro Nicolau – disse Antônio Vicente com um jeitinho malandro. – Quase tudo é pro Nicolau! E o resto pra matriz!
– Naturalmente! – disse Nicolau.
O major coçou a nuca, fechou os olhos, pensou, depois falou:
– Mas o nosso Nicolau tem que ser cordato, tem que ser camarada. Que diabo! A gente pode entrar aí num entendimentozinho… Hein? Que e que diz a isso o nosso amigo?
Nicolau não disse nada. E começou a andar de novo pisando duro. Houve um silêncio cacete. Antônio Vicente acabou com ele:
– Talvez… Eu também penso assim… A bolada é grande, dá para satisfazer todos… Você não acha, Nicolau?
– Digam com franqueza! Vamos! Desembuchem! O que vocês querem é ganhar no negócio, levar sua vantagenzinha, não é?
Os dois tentaram protestar mas Nicolau cortou a palavra deles:
– Pois muito bem! Eu já esperava isso! Quanto é que vocês querem? Mas fiquem desde já sabendo que da minha parte eu não cedo um tusta, ouviram bem? Agora na que é pras obras da matriz podem avançar à vontade!
O acordo custou. Mais de uma vez Antônio Vicente pegou no chapéu e ofendido ameaçou se retirar. O major porém não deixava.
– Senta-te aí, homem! Não saias que te arrependes logo!
E foi ele que disposto a não perder o negócio forçou Nicolau a se contentar com sessenta por cento.  Ele  e  Antônio  Vicente  se  comprometiam  a  auxiliar  o  amigo  em  qualquer  terreno recebendo cada um quinze. Os dez restantes seriam para as obras da matriz.
– Está bem. Mas não está de acordo com a vontade de Padre Dito.
– Deixa-te de bobagens, homem! Tu modificas o sonho e acabou-se! Quem é que vai provar que o padre disse coisa diversa à tua patroa? Olhe que até me acode um trocadilho bem feliz: fica o dito do Padre Dito por não dito e pronto! Otimíssimo, hem? Não há nada como um bom negócio para pôr a gente alegre! Eu até sou capaz de pagar uma cervejinha!
Nicolau recusou. E despediu os amigos. Precisava de sossego para estabelecer um plano seguro a ser executado sem perda de tempo. Pensou o resto do dia, pensou parte da noite e na manhã seguinte combinou a coisa com os sócios.
Os 18 de Copacabana foram convocados para as 19 horas em casa do major. Compareceram dez.  Nicolau  arranjou  mais  uns  malandros  e marcharam  todos  incorporados  para casa  de Zéquinha Silva. A fim de exigir a renúncia coletiva da comissão. Ou ao menos a do presidente e tesoureiro que era o genro do presidente. Mas Zéquinha Silva mandou dizer que não recebia ninguém. E quando a coisa já estava quente chegaram Padre Zoroastro, o Doutor Salomão e o Prefeito Idílio. Discutiram na rua mais de meia hora. Afinal os 18 de Copacabana concordaram em que no dia  seguinte haveria uma reunião na Câmara Municipal a fim de se resolver com calma  e   definitivamente  o  assunto,  presentes  as  autoridades,  interessados  e  pessoas conspícuas de  Jataí-Vila. Concordaram a muque (Paulista não tem ânimo bélico! costumava afirmar o Prefeito Idílio) porque o Doutor Salomão mandou chamar o destacamento.
Nicolau pensou a noite toda, gastou a manhã limpando o revólver, encheu o tambor, pôs outras balas no bolso, beijou a mulher aflita, respondeu carrancudo ao sorriso da vizinha sua comadre, tomou a Rua Siqueira Campos (antiga Júlio Prestes), atravessou o Largo Juarez Távora (antigo de  São  Paulo),  deu  um  esbarrão  distraído  no  Solicitador  Raimundo  de  Matos,  não  pediu desculpa, também não ouviu o palavrão do solicitador, passou pelo Correio sem perguntar se havia carta, entrou na Câmara Municipal com a braguilha da calça aberta.

Continua…

Por Alcântara Machado

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