ORAÇÃO COM O SUJEITO OCULTO

Não acredito que exista um local determinado para se conversar com Deus. Afinal, se Ele é onipresente, para que procurá-Lo em algum lugar? Mas se precisasse escolher um para isso, acho que Búzios seria ideal. Esperaria anoitecer. Lá pelas onze, caminharia descalço pela praia deserta e escura de Caravelas. De um lado, ouviria somente os grilos e sapos no mato. Do outro, a rebentação das ondas do mar. Sentaria então de frente para o oceano e sussurraria:

– Deus, o Senhor esta aí?

Um raio cortaria o céu logo após a pergunta, iluminando o firmamento por um instante e morrendo no meio das ondas. Uma delas traria por entre suas espumas um velhinho simpático de longas barbas brancas até a areia. Pingando água salgada, Ele viria sentar ao meu lado. E diria com um belo sorriso:

– Me chame de Você.

Eu olharia então aquela figura bonachona de cima a baixo e tentaria me manter impassível.

– Um velhinho de barbas brancas? Engraçado. Imaginei que para ser politicamente correto, o Senhor, digo, Você seria negro ou mulher. Talvez os dois.

– É assim que você sempre Me imaginou. – responderia Ele sem considerar minha provocação – E além do que, se eu viesse como mulher, na certa você Me cantaria. Não se esqueça que te conheço como um filho.

Sentiríamos então lado a lado o vento que traria o cheiro salgado de mar até nós. Após um ou dois minutos de silêncio, eu desabafaria com um pingo de despeito:

– Você não costuma atender aos meus chamados.

– Não pessoalmente, – diria Ele sem pestanejar – mas admita que sempre estive ao seu lado, mesmo quando você não Me via.

– Mas por que hoje, então?

– Porque desta vez você só queria conversar. Bater um papinho informal, sem os pedidos de sempre. Até Eu preciso descansar no sétimo dia.

– E como Você sabia que eu não ia pedir nada? – insistiria eu.

– Sou onisciente.

Boa resposta, pensaria eu.

– Obrigado – responderia Ele, lendo meus pensamentos.

Passado esse primeiro momento de desconforto (afinal não é todo dia que se conversa pessoalmente com o Criador), eu já estaria mais relaxado para engatar um papo mais descontraído. Provavelmente eu começaria com algo simples como:

– E aí, muito trabalho?

– Bastante. – E após um longo suspiro, complementaria – Se já não é nada fácil cuidar de uma paróquia ou de uma cidade, imagine olhar por um planeta inteiro e todos os seus habitantes. Antigamente era diferente. Como existiam vários deuses, um para cada coisa, Eu só precisava gerenciar. Mas os tempos mudaram, as exigências aumentaram… Era um tal de pagar décimo terceiro, PIS, PASEP, COFINS, férias coletivas, que a verba ficou pequena. Tive que dar uma enxugada na máquina.

– É, não é fácil. – comentaria eu com um sorriso nos lábios.

– Mas sabe que Eu prefiro assim? O problema deste planeta são os intermediários!

E nosso papo seria assim, descompromissado, como se estivéssemos em um bar bebendo um choppinho, falando de mulher e futebol. Sobre este último, Deus reafirmaria sua total imparcialidade. E acrescentaria:

– Imagine se Eu atendesse a todos os pedidos dos torcedores. Não ia ter um jogo que não acabasse empatado. – Mas depois de umas cervejinhas, Ele acabaria confessando uma simpatia pelo Santos. E admitiria um dedo Seu na criação de Pelé.

Claro que eu não resistiria e faria perguntas sobre meu futuro, se eu seria rico e famoso. A estas questões, Deus só sorriria para mim respondendo:

– O futuro Me pertence. – e mudaria de assunto.

Lá pelas cinco da manhã, já meio tonto de tanta cerveja, Ele se levantaria, bateria a areia da túnica e diria para mim:

– Papo tá muito bom, mas amanhã Eu preciso acordar cedo. Tenho um planeta inteiro para cuidar.

– Obrigado pela companhia, Deus. – diria eu – E obrigado também por ter transformado água salgada em cerveja. Não conhecia essa variante do milagre.

– É… – responderia Ele com modéstia. – a Gente faz o que pode. E acrescentaria, já caminhando para o mar. – Mas Eu que agradeço pela conversa sem segundas intenções, sem os pedidos de sempre. Estava precisando de uma destas há séculos.

– Deus?

– Sim?

– Será que dava para, bom, Você sabe, continuar olhando por mim, minha família e meus amigos? – perguntaria eu encabulado.

Com um pé já na água, Ele daria um sorriso maroto e responderia:

– Fica tranqüilo. Você sabe que tá Comigo, tá com Deus.

E assim como aparecera, sumiria, deixando um belo arco-íris num céu cor-de-rosa recém-amanhecido.

Por Maurício Holthauzen

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