LEMBRANÇAS DE UM CASARÃO

Era uma noite iluminada por uma lua minguante resplandescente, as estrelas cintilavam pelo céu afora. Eu andava pela rua 8, hoje nem é chamada mais assim, agora possui o nome de algum industrial emergente que nem me lembro o nome. Passei pelo casarão dos Serafins, uma família tradicional daqui da cidade, de maioria médicos, os que não eram, seguiam alguma área científica. Há muito tempo não passo por aqui; vi tanta coisa nesta cidade, desde do período que ainda lecionava psicologia, a vi crescer, sair de uma pequena cidadezinha com algumas ruas e se tornar uma cidade industrializada. Vi fazendeiros venderem suas terras e montarem um negócio com metalúrgica, tão extasiante a atitude da sociedade rural da época, abandonarem as tradições e montarem a indústria. Também vi o céu azul se tornar acinzentado, isto não é nada extasiante.

Quando percebi já não andava, estava parado à frente do casarão, enquanto me lembrava, nem me movia. Então vi a praça. Oh, a praça! Eu gostava da praça, sentava, e via as crianças brincarem, oh doces crianças, como levam a vida como se não importasse o amanhã, e os velhos, sempre de papo, sorrindo, adorava ver as pessoas passearem. Não, hoje a praça está suja, quase ninguém passa, preferem outros lugares barulhentos. Mas mesmo assim ainda gosto de ver a juventude atual, eles ainda sorriem, alguns sorriem; são muito mais abertos do que os de minha época, mas também sem objetivos, porém, não freqüentam a praça.

Mas o casarão, ele estava lá, eu me lembrava dele caindo aos pedaços da última vez em que passei pela rua oito, mas agora estava reformado. Já não tinha a sua cor bege, estava pintado de branco, nunca vi nem sequer um Serafim dizer que pintaria a casa de branco. O jardim estava replantado, alguém havia comprado e reformado o velho casarão. Vi-me tentado a entrar, lembrei-me das festas que freqüentei em tal casarão, sobre a presença do Dr. Augusto Serafim, o melhor médico que a cidade já teve, e também o mais cordial. Lembro-me que tinha uma filha, ela era linda, se chamava Leonice, era três anos mais nova do que eu, a cortejava; porém acabou casando com um Gionini, mas padeceu nova por tuberculose, deixando uma menina.
Ah sim, o casarão! Estava com a porta aberta, como se me convidando a entrar, enfiei a cabeça pela porta, mas não via ninguém, relutei ao entrar, mas quando percebi já estava colocando o segundo pé lá dentro. Estava linda, reformaram toda, e bem reformado, deve ter custado um bom investimento. Nem eu, grande admirador, e um senhor com certa quantia, me daria ao luxo de reforma-la, a anos não a habitavam, quem teria a comprado? Todos os Serafim se mudaram, foram pra cidades maiores, pois aqui não estava oferecendo muito, mesmo pra uma família de médicos tradicional.
Estava no corredor, e no fundo vi um quadro de Leonice, bem na flor de sua juventude, um pouco antes de falecer, que desgraça… Senti calafrios, não entendi, deveria estar acostumado, mas não estava. Logo, alguém pulou pra cima de mim, e me beijou, era doce o beijo, lábios sedosos, a pele era macia, nova. Após o término do beijo, eu vi quem me atacara, era Bárbara, idêntica a mãe, filha do desgraçado do Gionini. Seus cabelos castanhos escuros, seus olhos claros, sua pele branca, eu via apenas Leonice. Ela sorriu devassamente, desvencilhando minha ilusão, pois a minha querida nunca sorriria daquela maneira; despiu os seios e disse: “Me possua”. Eu até ameacei a ir, mas permaneci, e indaguei: “Aqui? Alguém pode ver-nos”. E ela disse: “Você sabe que ninguém nos verá”.

Assim, eu fui, voei sobre sua pele pálida, e a despi. Por lá permanecemos por horas, fazia tempo que não me deixava seduzir por tais prazeres, a apertava contra o meu corpo, como se não quisesse que nos separasse, ela me mordia deliciosamente, como se quisesse beber o meu sangue, seus gemidos, como pedidos para que a penetrasse mais, até que chegavam a berros estonteantes de prazer. Mas me senti tonto, fraco, e logo pensei em Leonice, quando abri os olhos, vi o defunto. Estava sobre mim, aquela pútrida visão. Era Bárbara, em decomposição. Ela estava que nem eu, morta, morrera jovem; agora me lembro de uma reportagem a respeito, mas no momento não me lembrei, e me senti confuso. Ela me desgraçou, estava irada, com anos de ódio guardado, anos analisando tais criaturas me levou a perceber isto, seus olhos estavam levemente arregalados, mesmo para tal visão mórbida.
Blasfemou por um longo tempo, aquela horrenda visão, onde a pele sedosa se tornara contorcida e seca. Blasfemou por eu não dar o que ela queria, amor, mas é que as lembranças de Leonice pairavam em minha cabeça, e eu só pensava em seu sorriso meigo. E este pequeno demônio se tentou passar por ela me iludindo, mas não possuía nem metade da beleza dela, nem enquanto estava viva. E a criatura irada se sacudia e me ameaçava. Estava louca, com sede, sede de luxúria.

Dei-lhe uma bofetada, minha alma doeu, apesar de um monstro, era uma mulher, e minha ética nunca me permitiu fazer tal coisa, mas estava descontrolada, e precisava se recompor. Ela olhara em minha fronte, com olhos de ódio, mas estava calada, como se seu olhar bastasse pra me trazer dor, e trazia. Disse-lhe: “Verme imundo, não se compare com a tua mãe, nunca será o que ela foi; veja o que a sua inveja a transformou, um luxurioso demônio sugador de prazer, é disto que vive, ou existe”.
Por um instante alguém passou por dentre mim, era um jovem, loiro, com olhos cativantes. Ele olhara pra foto de Leonice e sorrira, e Bárbara também sorrira, mas maliciosamente. “Demônio, trouxe este jovem pra cá, assim como me seduziu a entrar nesta casa?” Ela apenas olhou pra mim e sorriu. Ao olhar pro rapaz novamente, vi certa semelhança, se não me engano seu nome era Carlos, quando foi embora era apenas um menino, sobrinho de Leonice. Agora um rapaz forte, vigoroso.

“Ele veio me ver” disse o monstro com seu semblante maléfico. “Eu o trouxe aqui, com suas lembranças deste casarão, lembranças de quando me possuiu, no jardim, quando ainda era uma menina, de quando morri, com remédios que eu mesmo manipulei; chorava sobre o meu corpo frio, eu o vi, eu o senti, me desejava, passava a sua mão pelas minhas pernas, mesmo de longe sentia o calor de suas mãos”.
“Criatura vil, trouxe em memórias os desejos impuros do jovem, olhe o que tornaste, uma aparição presa a este casarão, desejando a leviandade, uma sucubbus, que atormenta sonhos e pensamentos dos vivos e mortos. Não és que nem os senhores e senhoras da alta sociedade que se prendem por suas terras e posses, que apodrecem junto com elas; não, és como a sua própria carne que apodrece dentro de seu túmulo, pois estás presa a ela”.

“Não me julgueis, não sabes o que passei, não sabeis o que é estar casada com alguém que odeia!” Bradou ela, inconformada. “Não sabes o que é ver seu marido com outra mulher na cama, pois ele não cobiçava mais a sua própria esposa. Não entenderia”. Disse-lhe confortando-a. “Jovem, teu marido era um salafrário, um verdadeiro vigarista, lembro-me com quem casara, um inútil herdeiro de uma montadora de automóveis, tão vigarista, quanto o próprio pai, não choreis por ele, não lamenteis pelo amor que não teve, ele não seria capaz de amar a própria mãe, quanto mais a você”. Em prantos ela tentou dizer algo, mas desistiu. “Levanta-te, não se humilhe mais por um destino de tormentas que tiveras. Deixe teu primo em paz, e parta, parta pra fora das fronteiras desta cidade aonde não posso ir além, mas tu o podes. Não se prenda mais além da vida, por uma história de miséria e dor, já não basta o que sofreu durante a vida, queres sofrer durante a morte?”.
Ela olhou pra mim, seus olhos estavam mudados, eram confortantes, ou melhor, confortados, ela sorriu, se levantou, olhou para o quadro, e partiu. Nunca mais vi seu corpo espectral desde que ela passou pela porta ainda entreaberta. Partiu sem agradecer, sem dizer adeus.

Por Benjamim Telini

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