TEU NOME EM LETRAS PÚRPURAS

São com grandes expectativas que escrevo esta carta. Mas o que espero? Espero atingir, nem que seja de levezinho, o coração de quem a lê. Espero encontrar uma moça compreensiva e inteligente, uma espécie de alma-irmã. Espero que esta seja a primeira de muitas cartas. E acima de tudo, espero o nascimento de uma ligação entre nós. Mas antes de você perguntar “Quem é esse cara e como conseguiu meu endereço?”, eu irei explicar:

 Eu sou Apolo, um jovem-idoso-menino de 22 anos. Escrevo cartas há anos e amo esse passatempo. Com o crescimento da internet até pensei que minha pena estaria com os dias contados, mas ao contrário: a internet me aproximou de muitos correspondentes. E foi em um site, solitariosperdidos.br que achei seu perfil e, confesso, foi amor a primeira clicada! Gostei bastante de suas fotos e descrição no “quem vos fala”. Não sei explicar, mas tive uma sensação boa e forte, uma necessidade de entrar em contato! E fiquei ainda mais eufórico ao ver que você gostava de cartas e deixou até o número de sua caixa postal.

 Outra coisa interessante: Moramos na mesma cidade! Salvador é um belo local para viver, não acha? Qual sua opinião sobre nossa cidade? Onde você mais gosta de passear? Você conhece outras cidades?

 Eu nasci em Salvador, mas conheço muitas outras cidades. Recentemente eu mudei de bairro. Não sei se é falta de costume, mas gostava mais do anterior. :/

 Meus pais se divorciaram há muitos anos. Moro com minha mãe desde então, mas mantenho uma relação, digamos, amistosa com meu pai e sua nova família. Só tenho irmãos por parte de pai. Eu me sinto muito só, e a solidão parece não ter fim. As cartas e internet ajudam, mas o vazio é grande. Será que a Diana vai ajudar a diminuí-lo?

 Abraços,

 Até breve,

 Apolo

Diana relia pelo que parecia ser a milésima vez a carta de Apolo. De tão manuseado o papel delicado como um pergaminho já estava amarfanhado. “Se não me contiver vou acabar rasgando a carta!”, pensou alarmada. Colocou a folha com cuidado no envelope amarelado onde o nome do destinatário cintilava num roxo muito escuro.

Não sabia bem o porquê, mas aquela carta havia mexido com ela. Desde a escolha do papel, da tinta, até as palavras. Sem dúvida ela adoraria se corresponder com Apolo, mas tinha medo. E esse medo vinha justamente do que deveria aproximá-los: moravam na mesma cidade, na verdade no mesmo bairro! Pelo endereço Diana sabia que ele morava a apenas 2 quarteirões, mas não o conhecia. Isso não era surpreendente, pois a garota não falava com quase ninguém, não por arrogância, mas por sua timidez. E se Apolo quisesse encontrá-la pessoalmente quando soubesse que estavam tão perto?Ele não sabia que eram praticamente vizinhos, pois Diana usava uma caixa postal, onde não consta o nome do bairro. Ela achara o rapaz envolvente, mas teria vergonha se o encontrasse e sua timidez estragaria tudo.

 – Diana, vem jantar!- gritou seu pai da cozinha.

 Após dar mais uma olhada no envelope Diana o guardou numa caixa cheia de cartas. Já decidira o que fazer.

Bruna Souza Matos

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