ALÉM DA MIRAGEM – 1 DE 3

O sol rasgava o manto de areia a leste, causando em Norris a incômoda sensação de que o mundo incendiava. A bem da verdade, a ele tudo naquelas terras milenares, em suas devidas proporções, poderia converter-se em alguma imagem de morte imediata, não tanto pelo caráter bélico de sua empreitada quanto pelo ar hermético e conspiratório daquele povo. Afastando os resquícios da madrugada de vigília de seus músculos, o soldado levantou-se para caminhar pela guarita improvisada feita sob o teto de uma torre em ruínas. Lá fora, o burburinho dos comerciantes de camelos começava mansamente. Norris afagou sua barba rala enquanto instintivamente metia a outra mão no bolso para apanhar um cigarro. Prendeu-o entre os lábios, roçou duas pedras de dragão entre os dedos até faiscarem e tragou.  Segurou a fumaça o quanto pode, pois naquele mundo estranho ela era como uma velha amiga. Por fim, soltou uma baforada espessa e adocicada pela erva de sente-bem. E o mundo pegava fogo.

***

O sol já batia a pino quando foi interceptado por outro oficial para a troca de turnos. Não sem certo alívio, cedeu o posto e já descia as escadas desniveladas da ruína quando foi informado pelo outro sobre interesse do capitão em ter com ele. Gingando entre a fadiga e a obrigação, atravessou o umbral dos restos da torre oblíqua e seguiu em direção ao acampamento itinerante. Ao aproximar-se, sentia como se as grandes bandeiras o saudassem enquanto tremeluziam ao jugo do vento arenoso. Era como se o Império Ocidental de Vespúcia recebesse novamente um filho desgarrado. Mas ainda assim, o vento continuava salgado e aquele era o sol de outras terras.

***

—Soldado Yates Torrance Norris se apresentando, senhor!

A saudação proferida logo a frente da grande tenda cortinada teve resposta imediata. De dentro da estrutura, uma voz grave e imperativa autorizou-lhe a entrada. Afastando o tecido, que debilmente fazia a vez de porta, com uma das mãos, Norris torceu o corpo e caminhou em direção ao comandante enquanto acostumava os olhos à diferença de luminosidade entre os ambientes. A luz âmbar suave que se destilava dos tecidos da tenda pareciam trevas para quem a pouco estava no mar de luz do deserto. Mantendo uma postura ereta e com os braços rijos ao lado do corpo, o oficial novamente apresentou-se ritualisticamente, como mandam os protocolos militares.

—Senhor.
Parado ali, deu conta de sua deplorável aparência. Seu cabelo castanho estava embebido em suor sob o capacete, fazendo que o pouco de sua franja aderisse à testa. A barba por fazer em outros tempos poderia significar represália, mas o rosto liso era uma tradição paulatinamente abandonada nos tempos de guerra. Sua pele seca já havia tomado um tom levemente olivado nas partes desprotegidas do sol, aproximando-o mais dos nativos do que imaginara. Os lábios racharam, as unhas quebraram e tudo parecia ter a textura de areia. Para seu alívio, todos ali compadeciam com sua apresentação, pois não se distanciavam muito daquele estado. O próprio comandante parecia ter dobrado seus quarenta anos durante o tempo de serviço. Os cabelos aos poucos se enevoaram, como que em um protesto irônico ao calor do deserto, e ele parecia curvar-se sobre si mesmo, seja por magreza ou pelo peso da responsabilidade. Dos tempos áureos, apenas a voz gutural conservara.

—Descansar, soldado.  – proferiu com o timbre encorpado. – Agora se aproxime, sente-se e descanse. Nossos batedores voltaram. Teremos algo para você em pouco tempo. – terminou o comandante, indicando com a cabeça outros dois oficiais postados a sua direita em uma mesa. Do lado oposto, outros três homens aguardavam as ordens.

Seguindo o comando, Norris sentou-se na cadeira sobressalente ao lado dos dois batedores. Com um olhar significativo e um maneio de cabeça, o comandante incitou um dos dois homens a prosseguir com o discurso interrompido:

—Então aos poucos a radiestesia nos levou até a Cidade Velha, no extremo norte da cidade. Logo ao fim da feira livre, o pêndulo pareceu ficar louco. Girava rapidamente sobre minha mão em circunferências de uns três, quatro centímetros de raio. Esquadrinhamos a área até conseguirmos um pico em frente aos restos de um sobrado ilhado em um pequeno monte nos limites da cidade. Comandante, com as poucas fibras do manto da feiticeira que dispomos para o pêndulo, um sinal destes é tremendamente significativo. Ainda não ouvi relato de sintonização tão boa quanto a esta conseguida por outros esquadrões. Não quero ser precipitado, mas acredito que a encontramos.

O comandante olhava catatônico para o centro da mesa, comprimindo e relaxando esporadicamente os olhos enquanto sustentava o queixo com os dois indicadores unidos.

—E pensar que um pedaço de pano poderia virar uma guerra.- disse por fim, abandonando o seu transe.- Allamr’ey perder-se por esta miudeza será como o rei imponente que morreu ao cair do cavalo numa manhã de domingo. Figuras lendárias não deveriam morrer por insignificâncias. Mas é sempre assim, não é?
—São as miudezas que nos matam a todos, senhor.- emendou Norris.
—São. Sim, são elas, soldado.- continuou o comandante, dirigindo-lhe um sorriso cansado.- O dedo que escorrega do gatilho, o sono que cai na vigília, a esquina errada dobrada… Sempre as miudezas. Mas não hoje. Hoje a miudeza é outra. É o trapo do manto dourado rasgado por Allamr’ey. E, pelos deuses, as mortes não serão as nossas. Selem os grifos. Iremos até este sobrado. E, por favor… muito zelo com os pequenos detalhes. A roda da fortuna é muito volátil.

***

Em poucos instantes de vôo, Norris atravessou a caótica cidade do deserto enquanto desviava das pipas coloridas que revestiam o céu. Vista por cima, as ruelas que serpenteavam entre templos e mercados pareciam as artérias de um ser maior; opressivo e pulsante. Súbito, direcionando o grupo, os dois batedores mergulharam rumo ao chão, mirando uma mata fechada que ornava um pequeno oásis no fim da cidade. Ali, encontraram um lugar suficientemente amplo e sigiloso para esconder suas montarias.

—Fica a poucas centenas de metros daqui, não mais que um quilômetro. – disse o mais velho dos batedores enquanto metia uma mão no bolso para retirar o pêndulo. Segurou com a mão direita a corrente estendida e manteve suspenso o cone de metal da outra extremidade sobre a mão esquerda espalmada. Aguardou alguns instantes até que o objeto se estabilizasse, ficando estático no centro de sua palma, para então sussurrar:

– Perdido na vida, perdido na morte, encurte a ida e seja meu norte.

Com um leve sopro, deu o movimento inicial ao pêndulo, que por sua vez gradativamente ganhou velocidade e definiu um percurso. Girava rapidamente e com uma abertura ampla, tal como havia dito na reunião de horas antes.

—Ainda está aqui. Ganhará mais força quando nos aproximarmos do sobrado, verão. – retirou o olhar por alguns instantes do pêndulo. – Comandante?
—Mostre o caminho, Wade. Até o fim do dia, quero que este pêndulo não tenha mais por quem oscilar.

***

Sorrateiro, o grupo se esgueirou por entre dunas e edificações ancestrais na porção antiga da cidade, orientados pelos giros do pêndulo. Já a poucos metros do sobrado, encontraram abrigo em uma parede solitária que resistira a alguma batalha antiga, seja contra o tempo ou contra homens, e puseram-se a repassar os detalhes da invasão. Agachado, Norris sacou seu rifle e conferiu o pente de balas. Cautelosamente, abriu o reservatório traseiro da arma e verificou a carga de pó de lápis magicae, o qual tratou de completar. Roçando um dos compartimentos de seu cinto, pinçou uma porção de chifre de unicórnio triturado e salpicou por toda a superfície metálica. Em seguida, apanhou de outro compartimento uma minúscula garrafa de líquido lilás espesso e odor adocicado. Desrolhando o recipiente, fez o líquido escoar por dentro da boca do cano. Por fim, baixou os olhos, aproximou-se da arma e sussurrou:

—E o que fazemos quando escapam da morte? Desejamos-lhes sorte, desejamos-lhes sorte.

Um estalido seguiu o verso, emanando conjuntamente um brilho intenso e momentâneo no rifle, atraindo assim a atenção do comandante.

—Estamos impiedosos hoje, não?- até mesmo em um murmúrio, sua voz parecia exageradamente alta. Com um maneio, indicou a arma. – Unicório e mantícora?
—Anfisbena. Unicórnio e anfisbena. Soube que essas serpentes de duas cabeças liquidaram com um pelotão inteiro de nossos homens a serviço no Primeiro Continente. Consegui um pouco disto com um comerciante local.

O comandante franziu o cenho.

—Não é adequado confiar tanto nos nativos, soldado. Somos invasores, e invasores nunca são bem quistos.
—Não confio, senhor. Mas o comerciante me pareceu verdadeiramente aflito quando o fiz beijar o lado embebido da rolha deste veneno. – encerrou com um sorriso de soslaio.
—Ora, já não sei se te castigo ou se te promovo. Espero que o coitado tenha sobrevivido. Aos dois mil diabos e todos os seus nomes, Norris! – prosseguiu o comandante afogando o riso. Guinou a cabeça na direção oposta conferindo os preparativos de seus homens. – Todos prontos?

Um a um, os soldados anuíram, trazendo seus rifles para junto do corpo. Norris arrastou-se contra o muro até sua extremidade e, cuidadosamente, observou a entrada do sobrado. De prima, constatou que sobrado nada mais era do que uma mera alcunha para classificar aquela casa que obviamente não tinha um segundo andar, mas era relativamente maior do que suas vizinhas.  No mais, a casa era erguida em barro cru e madeira, ostentando a mesma fragilidade aparente que todas naquela porção da cidade ofereciam. Uma porta entreaberta e duas janelas eram as três rotas possíveis para a invasão.

—Algum najm?
—Nenhum, comandante. E isto é estranho.
—Não tanto, considerando ainda ser dia. Não expor-se ao sol não chega a ser um tabu para eles, mas ainda assim é algo que consideram tremendamente desaconselhável. E as entradas?
—Pela frente uma porta, duas janelas. Posso sondar o prédio, se ordenar.
—Não. Iremos pela frente. Lá dentro checaremos outras saídas. Quero um batedor e outro soldado em cada janela. Norris, Willis, comigo pela porta. Vamos.

Norris tomou a dianteira de seu grupo e correu curvado até a porta do prédio, abrindo-a lentamente com o ombro enquanto mantinha o rifle a sua frente. O lugar estava tomado pelo cheiro de bolor, putrefação e abandono. No canto da primeira sala, algumas cabeças de galinha cediam ao calor e as moscas. No cômodo conjugado, deu com o outro grupo, onde Wade empenhava-se com sua radiestesia, o pêndulo perdido em giros alucinados. Contudo, quanto mais a fundo seguiam na casa, mais a escuridão se condensava, o que forçou Norris a pegar de seu bolso traseiro um tubo de fogo frio e jogar um punhado de lapis magicae em seu interior, criando um feixe de luz levemente  azulado a partir do cilindro. Uma mesma luminosidade brotou no terceiro quarto, logo à frente e à direita, trazendo consigo os homens restantes e, desta forma, reintegrando o grupo. Ainda não haviam encontrado nada, embora o pêndulo insistisse em indicar uma presença sob aquele teto.

Afastando o breu, Norris percorreu os cantos dos três cômodos na busca por alguma portinhola ou escotilha secreta que levassem a um quarto ambiente. Sem sucesso, retornou para a entrada para refazer sua busca. Foi então que, por mero capricho da sorte, a luz de seu tubo de fogo frio banhou o grotesco monte de cabeças de galinha, tendo como resposta um minúsculo lampejo dourado. Agachando-se ao lado das partes mutiladas, pôs-se a afastá-las com a ponta de seu rifle, até que por fim deu com uma pasta enegrecida de onde um fio dourado e espesso brotava. Deslizando o indicador pela goma, o soldado pinçou um punhado da substância e testou sua consistência. Pegajosa. Granulosa. Com um toque do mindinho, averiguou o sabor básico da mistura, cuspindo logo em seguida. Em um estalo, agarrou o fio dourado e removeu-o da pasta, ostentando um brusco e inesperado entendimento da situação.

—Wade! Wade! Rápido, aqui.- sinalizou para o batedor.

Vindo do cômodo ao lado, Wade aproximou-se de Norris intrigado, ao que ele apenas estendeu a espessa fibra dourada. Com a aproximação, a oscilação do pêndulo abria-se e acelerava proporcionalmente.

—Os desgraçados usaram uma parte do manto! Meteram essa porcaria junto a um monte de lápis magicae engomada para potencializar seu sinal. Comandante! O senhor precisa ver…

Continua…

Por Vitor TS

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