ALÉM DA MIRAGEM – 3 DE 3 – FINAL

Desceu de um dos dromedários um lagarto leão que abatera durante a tarde e colocou-o para assar no fogo.  O sol já havia se posto por completo e a lua empalidecia o céu. Vendo o astro tomar o firmamento, o soldado voltou sua atenção para o ibn layla e acompanhou o ritual recorrente a todas as noites.

Ajoelhado na areia, Amin mantinha os olhos fechados enquanto fazia uma prece silenciosa. Ao mesmo tempo, com a mão direita, apanhava um punhado de areia do chão e jogava por sobre os ombros alternadamente. Por fim, reclinava-se para tocar o solo com os lábios e reiniciava todo o processo. Em geral, apenas após meia hora o nativo dava por encerrado o rito. Norris sempre reagiu com estranheza ao costume, como bem fazia com os demais, mas a curiosidade, a espontaneidade que a notícia do fim da jornada trouxe e uma certa intimidade de viajantes, o fez querer pela primeira vez entender a cerimônia.

—Sei de homens que beijam menos uma mulher do que você beija esse chão.- disse em uma zombaria. – O que significa?
—Por acaso você não seria um destes homens, não é i’anq?- continuou o outro risonho enquanto se levantava. -Oro para as setenta e sete sentenças de Qamar, para que elas rejam minha vida e por terem me guiado no meu passado. Para cada uma delas, beijo o chão como agradecimento por ainda estar no mundo, e jogo a terra pelos ombros pois sou grato por somarem outro dia ao meu passado. Tudo com a luminosa face de Qamar como testemunha.
—E Qamar é… a lua?
—A divindade de Qamar se manifesta no plano do homem como o belo astro, sim, mas ela é mais que isso. É mãe dos homens e de tudo que veio e virá. Antes, ela criou a vida por toda a terra. Porém, quando dormiu, o maligno Shams, o sol, queimou toda criação. No dia seguinte, a mãe chorou pelos filhos perdidos, e os sobreviventes se reuniram ao redor de suas lágrimas. Então elas tornaram-se duras como pedra, mas conservando parte da magia da Mãe. E os homens aprenderam a usar essa mágica a seu favor. Foi isto o que os permitiu sobreviverem aos dias que viriam, quando enfrentaram novamente a fúria de Shams, e é assim que sobrevivemos até hoje. Desta forma surgiram as ed-dam’a al-layla, as lágrimas da noite, trazendo para nossas jazidas toda a clemência da deusa. Sem as ed-dam’a e sua mágica, os ibn layla não viveriam.
—Ed-dam’a al-layla? Você quer dizer o lapis magicae?
—Sim, assim que vocês as chamam. Muito valiosas para o seu povo, não?
—Praticamente toda a base de nossos estudos arcanos se desenvolvem a partir dela. Infelizmente, são raros os depósitos desse mineral em meu continente, diferentemente daqui.
—Este sabe. Homens de todo o mundo pagam pelas dam’a dos ed-layla. Soldado Norris, em Vespúcia vocês têm muitos feiticeiros?
—Bem, há o Conselho Arcano de Magia e Maldições. Algumas dezenas de feiticeiros trabalhando a serviço do Império.
—Feiticeiros são todos perigosos. Um estalo de dedos e podem sumir com uma cidade. Outro, e podem sumir com o planeta.
—São úteis, se mantidos sob controle. O problema são as mãos que os controla.
—Por isso querem matar Allamr’ey?
—Sim. Desde quando há dois séculos seu povo derrubou os Pilares do Mundo de Vespúcia com o ataque das titânicas aves Rocas, o Império não vê prudência nas mãos dos ibn layla. Tirar um feiticeiro de vocês é uma medida profilática para o mundo. Certos dedos estalam com mais facilidade que outros.
—Aí que se engana, i’anq. Quem tem dedos, um dia sentirá tentado a estalá-los. Basta um único feiticeiro, e terá seu mundo condenado.

***

O sol avançava quando desmontaram o acampamento. Na noite anterior, Norris mal dormira devido à alusão de que finalmente alcançaria Allamr’ey. Por três vezes usou o pêndulo e se satisfez ao conseguir uma tênue alteração em seu percurso. Selando suas montarias, seguiram viagem.

Já próximos do meio dia, pequenas estruturas calcárias começaram a saltar esporadicamente da areia, como braços disformes inutilmente tentando tocar o céu. Pouco tempo depois, as formas foram se avolumando até darem espaço para paredes e construções inteiras ferindo a falsa lisura da areia.

—A Vila do Cego. – Amin estalou os dedos três vezes atrás de sua nuca e repetiu uma oração silenciosa para espantar o mau agouro. – Quando a feiticeira pisou nestas terras sob a proteção da noite, a população entrou em alvoroço para vê-la. No dia da celebração do pranto de Qamar, importunaram tanto Allamr’ey que ela deixou-se ser vista. Dizem que todo homem e mulher que voltou seus olhos para a feiticeira desapareceu no mesmo instante. Apenas um homem sobreviveu. Um desafortunado que teve os olhos roubados pelo flagelo da cegueira na infância. Passou o resto de seus dias repassando essa história e afastando os nômades da cidade. Isto foi há centenas de anos. Dizem que a voz do homem ainda corre com o vento prevenindo os forasteiros. O que temos aqui é o cemitério daquela vila. Aquilo que sobrou depois de o deserto reivindicá-la.

Norris sentiu algo tocar-lhe a espinha enquanto olhava as paredes esquecidas daquela vila, como se um choro manso de cem almas se desprendesse das construções. Vendo a magnitude da tragédia que apenas um vislumbre da feiticeira causou, sentiu-se como um menino caçando mamutes. Suas pernas tremiam conforme o ritmo que sua taquicardia ditava. A garganta seca e a língua colada ao céu da boca já não eram mais apenas uma resposta ao sol escaldante. Como que fazendo uso de um pequeno hábito para driblar o nervosismo, o soldado pegou em seu bolso o pêndulo, espalmou a mão esquerda sob ele e sussurrou:

– Perdido na vida, perdido na morte, encurte a ida e seja meu norte.

Mal soprou o instrumento e o cone metálico já ganhava velocidade em uma progressão absurda, abrindo o raio de sua rotação com vigor, a ponto de Norris precisar esticar o seu braço para que a extremidade não batesse contra seu peito. As correntes de aço zuniam enquanto cortavam rapidamente o ar.

—É ali. – a voz de Amin parecia vinda do passado, de tão distante e fraca. Com o dedo em riste, indicava um largo depósito a poucos metros de distância.

Dois viajantes mudos, os companheiros seguiram lado a lado até as sombras da opressiva construção. Como quem procura tarefas inadiáveis para procrastinar outra, Norris conferiu e enfeitiçou o rifle, vestiu-se com talismãs contra quebrantos e secretamente orou aos deuses e todos os seus nomes. Pego em um beco sem saída, decidiu entregar-se ao seu destino e enfrentar sua batalha.

—Vamos.- disse por fim a Amin.
—Não vou. Sinto, i’anq. – emendou enquanto baixava os olhos derrotados.
—Como não? Irá me trair agora?
—Há algo que não contei sobre a Vila do Cego. Não foi apenas um que sobreviveu. Houve outro. Um mercador do Continente Antigo que estava na vila e olhou nos olhos de Allamr’ey, mas a este não aconteceu nada. Partiu aos gritos enquanto os outros sumiam, sem nem ao menos notar o cego. Algum motivo impede os ibn layla de encarar a feiticeira, Norris. Algum motivo impede Amin de encarar a feiticeira. Já você, você é um i’anq. Só os forasteiros podem ver a face de Allamr’ey.
—Por isto precisava de mim?
—Na, i’anq. Sim. Sinto muito.
—Não é a primeira vez que fico sozinho, ibn layla. Não se culpe. Você cumpriu sua parte do trato.

***

O interior do galpão era amplo e abandonado. Várias lascas diminutas do teto de zinco já haviam cedido aos efeitos do tempo, fazendo com que as aberturas polvilhassem o chão com lascas de sol. No canto oposto do salão, um cortinado de seda diáfana contornava grandes almofadas de plumas. Em seu centro, uma mulher olhava-o faminta. Seus olhos eram cor de âmbar, e os cabelos do negro dos ibn layla. Vestia-se apenas com leves tecidos brancos que moldavam seu corpo acobreado, e, sobre eles, um manto dourado rasgado revestia-lhe as costas nuas.

—E então o destino me trouxe Yates Torrance Norris. – sua voz escorregava por seus lábios como o mais doce mel. – Alívio e angústia te acompanham, soldado… Aproxime-se.

Com passos falhos, o estrangeiro aproximou-se da mulher enquanto compensava sua respiração alterada. Mantendo sua arma erguida, fazia as pequenas porções de sol refletirem em sua superfície.

—Você é Allamr’ey?- disse com um vacilo na voz.
—Já fui muitas coisas, mas hoje a sou, sim. Agora abaixe esta arma, criança. Estou a tanto tempo sozinha que até uma conversa com meu carrasco me soa sedutora. Foi boa coisa tê-lo trazido até aqui.

Sem o controle de seus braços, Norris baixou guarda involuntariamente.

—E desde quando você tem parte em minha jornada, bruxa?- respondeu em protesto.
—Desde quando pisou nestes desertos, i’anq. Desde que encontrou o meu povo. Sou os nujum que matam os homens do Império; sou os homens que amaldiçoam o sol e bendizem a lua; sou Amin, aquele que quer matar Allamr’ey. Sou todos os ibn layla, e todos eles são eu.
—Que loucura é essa?
—Os ibn layla existem porque um dia eu assim o quis. Certa noite, adormeci e sonhei com estes homens e mulheres. Com seus rostos, gênios, gostos e cheiros, todo ínfimo detalhe da vida de cada um deles. O dia em que mataram um pássaro na infância e se penalizaram por isso, quando espancaram a esposa por adultério e já não sentiram o mesmo pesar, o primeiro beijo, o vislumbre do mar, o dia de sua morte. Cada instante de cada existência. Quando despertei, vi que havia trazido todos para o mundo. Mas isto foi há muito tempo, ah, muito tempo. Na época em que viver era uma novidade, e o peso da eternidade não era um farol solitário e assustador. E isto se tornou um velho hábito. A cada vez que cresce a lua, meu sono traz vida aos ibn layla.
—Você é Qamar?
—Não. Mas talvez ela tenha me sonhado. Ou talvez eu é que tenha sonhado ela.
—Então o quê é você?- Norris comprimia os olhos e se aproximava sem dar conta da autonomia de seus pés.
—Esta foi minha primeira resposta, i’anq. Já fui muitas coisas, hoje sou Allamr’ey.
—Ao menos diga se você é humana ou não-humana.
—A humanidade é um caráter muito vago para definir um parâmetro. Digamos simplesmente que sou.

Desconcertado, Norris refletia sobre a possibilidade de toda uma raça ser fruto da imaginação de outro ser.

—O que disse sobre Amin…
—Sim, eu sou ele, assim como ele é eu. Uma diminuta manifestação daquilo que sou e sinto. Se bem que de minhas nuances, ele se saiu uma das mais interessantes.
—O que quer dizer?
—Amin surgiu a partir do meu cansaço com o mundo e com a vida. Do medo de ser por toda eternidade uma sombra solitária de Qamar. A solidão mata aos poucos, Norris, mas não mata de fato. Há muito, uma parte de mim anseia pela morte, mas sempre fui muito fraca para por fim a minha própria vida. Desta ânsia autodestrutiva, deste lampejo de libertação, surgiu Amin. E ele o encontrou.
—Se todos ao redor são produtos de sua mente, por que precisaria de mim quando tem uma nação a seus pés?
—Como te disse, apenas uma parte de mim desejava a morte. Cada uma dessas manifestações física, cada homem e mulher de meu povo, é formado por uma idéia autônoma, individual. De certa forma, possuem um livre arbítrio dentro do código de conduta que o formou. Os nujum, por exemplo, são um sinal de minha autopreservação. São a força que a todo custo quer me manter viva. Apenas com Amin podia contar,mas ele jamais poderia puxar o gatilho.
—E por que não? Por que os ibn layla não podem vê-la?
—Já viu um deus, Norris? Já confrontou a idéia de ser produto de uma mente, de não existir de fato, de ser dependente da vontade de outro? De ter sua existência fundamentada no jugo de um superior? Ninguém tolera tamanho confronto, jovem. Ao ver o criador, as criaturas simplesmente têm a certeza de sua natureza. É como quando sabemos que estamos dentro de um sonho, e ele perde todo o seu sentido de ser. Tudo soa artificial e plástico. Por isto, Amin deixaria de existir tão logo descesse os olhos sobre mim.

A cabeça de Norris girava com o bombardeio de informações.

—E o que quer de mim, Allamr’ey?
—Não pareci clara, Soldado Norris? Quero a morte.
—E o por que alguém a altura de um deus iria querer morrer?
—Os deuses são sós, Norris, e a solidão nos envenena.
—E quanto aos ibn layla?
—Partirão assim que eu me for. Um sonho não pode permanecer sem seu sonhador.
—Amin?
—Cumpriu seu motivo de existir. Deixará o gosto de um sonho bom, mas partirá com os outros.

Não sem um leve pesar pelo companheiro de viagem, Norris empunhou seu rifle assim que voltou a sentir o controle de seus braços.

—Pode mesmo um homem matar um deus?
—Vocês o fazem mais do que imaginam.
—Desperte bem, feiticeira. De certa forma, também acordou parte de mim.
—Gostaria de ter sido eu a sonhar com alguém como você, i’anq Norris.

Com um tiro certeiro, o soldado fez uma fenda na cabeça de feiticeira, queimando o cortinado de seda branca e manchado as almofadas de plumas com poças rubras e tristonhas. Atravessou pelas manchas de luz melancolicamente, com o peso do remorso por deixar o corpo da feiticeira solitário no deserto, tal como ela repudiara em vida.

Ao sair, Norris notou os dromedários soltos pelas areias, como que libertos por um velho amo. Olhou ao redor, mas não encontrou nenhum sinal de Amin. Dias depois, ficaria sabendo que o mundo estava perplexo com o desaparecimento de todos os ibn layla e como suas cidades fantasmas eram aos poucos devoradas pelo deserto. Com os meses, o Império Ocidental de Vespúcia solidariamente se proporia a pesquisar a relação do lapis magicae e sumiço, ao passo que aumentariam secretamente seus estoques do mineral. Mas a tudo isso Norris seria indiferente. Como saldo de sua jornada, apenas a amarga sensação de também ser parte de um sonho lhe pesava o peito.

Por Vitor TS

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