O CAMAFEU

Soprava o vento lá fora, os poucos vidros que restavam suspensos da caixilharia de uma das janelas da casa, pareciam estremecer de frio com cada novo sopro do vento, ou talvez com medo de acabar como mais um escombro daquele lugar perdido entre eucaliptos, pinheiros e alguma palmeira exótica trazida doutro clima por algum emigrante que crescia resignada entre estranhos. Nesses tempos, éramos poucos os que ainda vivíamos aqui depois do incêndio do grande hotel do qual só tinha sobrevivido o palco da música, a gente tinha decidido esquecer…
Só uns quantos velhos nostálgicos e eu, um lobo solitário, vagueávamos neste lugar. Nessa tarde de tempestade estava a passear sob o meu guarda-chuva entre o entulho de sonhos frustrados, pisando com raiva as folhas que se estendiam a meus pés, como um entardecer de verão e ouvindo o seu estalar. De repente senti algo duro sob a sola da minha bota, instintivamente baixei-me, e, com a ponta dos meus dedos toquei algo belíssimo, puro, pude sentir a sua magia, algo intenso, uma sensação única, o mesmo que um explorador a descobrir um sarcófago. Era um camafeu de marfim atravessado por uma estrela de prata velha e com uma pérola sem brilho num dos extremos. Desde a infância não tinha visto nada assim, parecido com os que costumavam usar as mulheres estrangeiras dos emigrantes que regressaram enriquecidos da diáspora. Recordo a minha mãe quando cozinhava para uma destas senhoras, dizia-me que, à noite, praticavam rituais estranhos para falar com os seus antepassados e parentes crioulos, envolvidas por uma atmosfera carregada de odores de erva molhada e de almíscar. Por isso pensei um pouco antes de levantar a bisagra corroída que o mantinha fechado porque podia guardar um mal olhado ou uma maldição… mas não pensei muito mais porque um ruído que vinha de uns arbustos tirou-me da minha cisma… Guardei o medalhão ainda fechado no bolso, fechei o meu guarda chuva de xadrez e com passo rápido fui para casa.
Ao chegar, a primeira coisa que fiz foi pôr-me cómodo, vesti o pijama de flanela para que me protegesse do frio intenso e sentei-me no cadeirão que está ao lado da lareira. Depois de passar uns momentos acariciando o relicário, decidi dar o passo que faltava e abri-lo. Assim que levantei o fecho, o sol colou-se às cortinas da sala iluminando-a e inundando o lugar de uma côr extraordinária que me cegava. Dando um passo até à janela pousei os meus olhos no sol que agora luzia entre os restos da tempestade como a polpa de uma romã madura, e, ainda que fechando a cortina, o sol continuou a colorir a sala de âmbar. Finalmente, já impaciente devido às contínuas interrupções, levantei a tampa e o que vi seria a última que esperava ver, nada, nada de nada, o camafeu estava vazio, nem um retrato, nem uns cabelos, nem os ponteiros parados de um relógio, nada. O que via era uma superfície de nácar irisado que toquei instantaneamente e que sob o reflexo daquela luz, brilhava como se fosse ouro. Ao fazê-lo, imagens de desespero, de sonhos desfeitos, de pena e impotência invadiram-me. Prantos, muitos prantos, e gritos, e de fundo, música de violinos e flautas que se tornava mais aguda e mais aguda… Era tanto o mau estar causado por aquela melodia cada vez mais rápida e penetrante, acompanhada por aquelas terríveis imagens, que soltei a medalha, deixando-a cair ao chão e sentei-me no meu cadeirão com a cabeça para trás.
Estive assim vários minutos até ter coragem de enfrentar aquele objecto. Depois de reflectir um tempo, decidi que era melhor guardar a jóia e não voltar a tocá-la. Passado alguns dias, fruto da atracção que exercia sobre mim, abri-o novamente mas, para minha surpresa, onde antes havia nácar, só havia uma supefície lisa e negra. Decidi que o melhor seria vender a jóia, embrulhei-a em papel de jornal, amarrei o embrulho tosco com uma corda velha e meti-o no bolso do casaco, mas ao sair de casa tudo havia mudado, no lugar dos escombros calcinados do velho hotel erguia-se um majestoso edifício do qual saía gente muito elegante e famílias sorridentes, a margem do rio estava cheia de famílias que brincavam na água e os anciãos caminhavam pelos passeios cumprimentando-se. Não entendia o que se estava a passar, porquê tanta animação na cidade? Reparei que tudo o que via se tinha tingido da mesma côr que tinha visto havia alguns dias no nácar. Como se de um pergaminho ou de um retrato antigo se tratasse, tudo tinha tons de sépia que davam ao ambiente uma aparência de recordação.
Pestanejei e quando abri os olhos, tudo era normal, tudo menos uma coisa, o nó da corda com que tinha atado o medalhão estava desfeito, ao abrir o embrulho, reparei que o camafeu estava aberto, e quando o quis fechar algo me impediu, a superfície do que eu supunha ser azeviche, tinha adquirido relevo e nele podia apreciar a cara de uma velha de rosto sulcado pelo tempo, de cabelo branco como tingido de flocos de neve e tão comprido que não cabia na reduzida superfície. Na sua cabeça repousava o vento encolhido e ao redor do seu pescoço havia amoras doces e morangos silvestres, e folhas secas, e penas e ramos. O seu sorriso era uma torrente de água fresca e no seu olhar via uma luz mágica que baixava da abóbada celeste e, dividindo-se em cores infinitas, penetrava o oceano e dele saia chocando com a concha esmaltada de um caracol. Nunca tinha visto olhar tão bonito, irradiava ternura, sabedoria e uma gotas de tristeza. Absorto nesta imagem, introduzi a ponta dos meus dedos na pedra como quem acaricia o seu cabelo sem despertar o vento que descansava nele como se fosse um ninho de pássaro. A anciã falou-me sem dizer nada, fez entrar em mim a sua mensagem e desvaneceu-se.
Agora eu sabia aquilo em que muito poucos acreditariam, sabia o segredo para devolver áquela terra a sua alma, o seu espírito, a sua alegria, o seu bulício. A solução estava sob as velhas tábuas de madeira corroída do palco de música. Tinha sobrevivido ao impassível exército do fogo e, debaixo desse cenário de madeira que desfiz com facilidade, pude ver que algo palpitava com ritmo constante nas entranhas da terra. Cravei o camafeu no centro do círculo que formava o palacete e, nesse mesmo instante, um manancial de água brotou do chão libertando centenas de bolbulhas que continham os sonhos perdidos de tanta e tanta gente, os seus esforços, as suas lágrimas… dispersaram-se com o vento que polonizou todos os cantos da cidade. A música voltou a tocar, violinos e flautas, mas desta vez uma melodia de esperança, que acariciava as folhas das árvores. Radica-se nesse canto o segredo desta cidade, na sua fonte onde se dissolvem sonhos e alegrias, memórias e tristezas: almas. Nunca mais soube do camafeu, não sei onde o levaram as águas, espero que tenha sido levado a outra aldeia ou cidade, que esteja onde alguém necessite recuperar a ilusão.
Por Músico Guerreiro aka Melões
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