DIANA – PARTE 2 DE 6

Alberto não respondeu à carta de Luís por não ter certeza do lugar em que estaria este, se em Porto Alegre, se em Pelotas.

Esperou que da parte do amigo lhe chegassem comunicações necessárias.

Mas esperou em vão.

No fim de dois meses resolveu escrever uma carta em duplicata, mandando uma para cada uma das cidades onde Luís podia ser encontrado.

A carta de Alberto dizia assim:

Alberto a Luís. — Resolvi escrever-te depois de esperar em vão uma carta tua. Esta vai em duplicata, uma para Porto Alegre, outra para Pelotas. Onde quer que estejas lá te há de achar.

Devo crer que estejas em Pelotas, e que o silêncio se explique pelas ocupações em que estás realmente com a procura desse segredo do teu finado padrinho.

Eu já sabia de quanta excentricidade era capaz esse sujeito, mas esta é de mestre, e eu não atino com o fim de toda esta meada.

Por isso mesmo é que é segredo.

O que for soará.

Peço-te que não te esqueças, se for possível, de me comunicares os progressos do trabalho, e, quando chegar a ocasião, a natureza do segredo que faz condição do legado.

Segredo em casa que se não abre há cinco anos… deve ser coisa misteriosa!

Olha lá; não vás esbarrar com alguma daquelas surpresas das fantasias alemãs… Quem sabe se o teu padrinho não tinha comércio com o diabo?

Disse uma tolice, perdoa-me.

Enfim, escreve-me. Sou curioso, como uma criança. Dize-me o que houver e continua a votar-me aquela amizade antiga.

Alberto escreveu as duas cartas, subscritou-as e remeteu-as para o correio.

Feito o que, esperou resposta.

Daí a algum tempo recebeu uma carta de Luís.

Dizia ele:

Luís a Alberto. — É segredo e segredo do diabo. Mas não é por ora o que pensas. O do padrinho ainda está por descobrir, pela razão de que ainda não fui a Pelotas. E não penses que é porque não possa. Não; tenho podido ir. Mas que me prende? perguntas tu.

Vais saber.

Prende-me um anjo…

Não te rias, lê até o fim.

 Prende-me um anjo com formas de mulher. Ou anjo ou o diabo, que tanto importa esta criatura que conseguiu transtornar-me a razão e fazer do meu coração uma verdadeira ruína a respeito de todos os outros sentimentos.

Amo, meu Alberto, amo!

A primeira vez que a vi foi em uma noite… ah! até agora só a tenho visto à noite, pelo que já lhe pus um nome simbólico: Diana.

Mas, como dizia, foi em uma noite que a vi pela primeira vez, noite de sexta, noite de luar, noite de sedução: estava linda, como a irmã que então atravessava a planície celeste, calma e suave, influindo amor, inspiração, poesia…

Dessa noite para cá fiquei perdido. Bem sabes como nasce o amor; é de súbito. Eu senti que naquele momento o anjo encarregado de escrever no céu a minha biografia (porque eu acredito que há anjos biógrafos ao céu) adicionou ao capítulo do amor o nome de Diana.

Diana! sabes tu que beleza é esta? Como encanta, como fascina, como seduz? Tu não sabes nada, pobre lorpa, nessa cidade de lama e de prosa, cativo da prosa e da lama. Aqui, sim; aqui resido com este serafim, a luz, a vida, a poesia…

Reli o que tinha escrito até aqui e tive idéia de rasgar. Não irás tu pensar que eu estou doido ou caí na pieguice? Não creias nada que não seja isto: amo. É a palavra da criação, diz o poeta das Orientais.

Mas deixe-me contar como foi que eu vi e amei esta mulher.

Costumava eu ir tomar chá em casa do major O… meu parente afastado, bom velho que possui filhas bonitas e de excelentes qualidades.

Ia às oito horas e voltava à meia-noite para casa.

Ouvia lá falar muitas vezes da viúva Caldas, mas nunca prestei maior atenção a essa referência, e ouvia como se não ouvisse.

CONTINUA…

Por Machado de Assis

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