DIANA – PARTE 4 DE 6

Um mês correu ainda entre esta carta e a terceira remetida por Luís ao amigo Alberto.

Assistiremos eu e o leitor aos fatos que o advogado narrou na terceira carta.

Basta-nos para isso transportarmo-nos para Porto Alegre, à casa de Luís, vinte e oito dias depois da segunda carta.

O amor de Luís e Diana (conservemos à moça o nome que lhe dera o namorado) caminhava às mil maravilhas.

A moça correspondera ao sentimento do rapaz, ao ponto de receber afetuosamente uma declaração positiva de casamento.

Como sempre se encontrassem em casa do major, onde Diana ia tomar chá todas as noites, nunca Luís fora a casa dela.

Um dia, porém, em que ele manifestou desejo de lá ir, Diana disse-lhe que fosse, pediu-lhe, fez até uma intimação.

No meio de tudo isto, o legado e o segredo tinham ficado esquecidos inteiramente.

 Na manhã do dia marcado Luís levantou-se alegre como andorinha em tempo de verão. Vestiu-se, perfumou-se, encouraçou-se para todas as comoções e partiu.

Ele levava em mente fazer nesse dia o pedido à velha. Sabia por boca de Diana que ela olhava esse amor com bons olhos.

Quando se aproximava da porta de Diana tirou o relógio e viu que se adiantara duas horas. Eram dez e a entrevista devia ter lugar ao meio-dia.

Quis voltar para esperar a hora convencionada. Mas a vista da jardim o desanimou. Teve uma tentação: esperar no jardim que batesse a hora decisiva da sua existência e da sua felicidade.

Hesitou alguns minutos.

Depois, fazendo um esforço, como a porta estivesse aberta, entrou.

Seus primeiros passos foram de receio. A areia rangia debaixo dos pés, e podia despertar alguém, o que seria estragar o romance.

A fortuna deparou-lhe uma espécie de caramanchel, naturalmente construído pela rama de quatro árvores plantadas em quadrado.

Luís encaminhou-se para lá.

A casa estava silenciosa; as janelas fechadas; tudo parecia dormir ainda. Ele sabia que ela se levantava tarde, mas não pôde supor que às dez horas da manhã ainda estivesse na cama.

É certo que a manhã era das mais frias e tinha chovido na véspera.

Luís sentou-se em um banquinho de pedra que havia embaixo do caramanchel.

Descalçou as luvas, guardou-as no bolso, tirou um cigarro, concertou-o, riscou um fósforo, acendeu o cigarro e começou a fumá-lo tranqüilamente.

Quem o visse não diria que era um homem que dali a duas horas podia estar casado… em promessa.

Ele mesmo fez algumas reflexões análogas a esta. Naturalmente chamado ao terreno das idéias próprias de um homem que vai pedir uma mulher em casamento, Luís deixou-se ficar no campo vasto da fantasia e da memória.

A fantasia para o futuro, a memória para o passado.

O passado era a vida malfadada, erma de afeições, cheia de necessidades. Era a luta dolorosa entre a vida material e as aspirações do espírito, luta de que, por um lance de sorte, achava-se agora salvo, podendo gozar de um amor e de uma fortuna.

O futuro era o gozo dessa fortuna e desse amor. O advogado pintava já na imaginação o que faria quando se visse na posse de Diana e do legado. Faltava-lhe ainda o segredo que, se não podia ser uma mulher, podia muito bem ser sua fortuna ainda, o que seria uma fortuna acumulada.

Nessas explicações do passado e do futuro lembrou-se do amigo que ficara na corte. Ocorreu-lhe então que de há muito tempo lhe não escrevia. Não queria de modo algum ser acusado de ingrato, e resolveu, apenas acabada a entrevista, escrever para o Rio de Janeiro. O vapor partia no dia seguinte.

Durante este longo tempo de espera, Luís fumou três cigarros, e consultou vinte vezes o relógio.

Os ponteiros corriam lentamente como uma agonia.

Luís levantava-se, espiava por entre as folhagens e via as janelas ainda fechadas.

Dar-se-á caso que ainda dormissem ou teriam saído?

Esta pergunta feita a si mesmo trouxe ao espírito do namorado uma dúvida cruel. Se tivessem saído seria uma desilusão.

Nisto sentiu passos.

Voltou-se para o lado de onde partia o rumor da areia calcada por pés vagarosos.

Viu dois vestidos de mulher.

Imaginou logo que seriam Diana e sua mãe.

Naturalmente tinham deixado a cama nesse momento e andavam passeando no jardim, fazendo apetite.

Luís lembrou-se que ouvira algumas vezes a Diana dizer que tinha este hábito de longos meses.

Melhor, pensou ele, causo-lhes a surpresa de me verem aqui, e é mais uma prova do amor que dou a Diana.

E comprimiu a respiração para não ser pressentido e aparecer como nos romances o herói avisado por algum bilhete misterioso.

As duas aproximavam-se cada vez mais.

Luís deixou que elas se aproximassem bastante para aparecer então.

Entretanto quis ainda uma vez cravar os olhos naquela que era já senhora do coração.

Arredou cautelosamente as folhas para melhor ver e colou os olhos à abertura.

CONTINUA…

Por Machado de Assis

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