NOITES NO GELO – 4 DE 4 – FINAL

Rastros contínuos trilhavam a neve em um caminho que se perdia de vista. Seguido por um homem a cavalo, o velho, também usando uma montaria cedida pela estalagem, acompanhava o cavalgar ligeiro. Na outra montaria seguia um homem alto e de ombros largos que se revelou um minerador da região, numa conversa que vinham tendo pelo caminho. A cavalo eram capazes de cobrir maior trajeto em menos tempo e, com a ajuda dos deuses, podiam ter uma chance de encontrar os companheiros com vida. Mesmo desacreditados dessa possibilidade, deviam continuar. Era uma obrigação, até mesmo para enterrar os corpos caso fosse necessário.
Andaram o dia todo, parando a cada três ou quatro horas para descansar os animais, uma precaução importante se quisessem continuar o caminho montados. Cada parada durava cerca de meia hora, não variando muito esse tempo. Descanso para eles, mesmo o velho dando sinais de esgotamento físico pela noite sem sono e caminhada ininterrupta, era só quando os animais descansavam. Ademais, o frio intenso e a neve fina que caía afastavam qualquer possibilidade de um repouso eficiente.
Preocupado em chegar rápido, o grandalhão encorajava o velho a manter o pique, que já parecia abandoná-lo.
Ia chegando a noite. O dia sem sol terminava, levando consigo a fraca claridade que proporcionava segurança aos cavaleiros, obrigando-os a acenderem tochas para enxergarem o caminho. Percorriam a galope a tímida estrada que dividia espaço com as imponentes montanhas alvas que, em raros momentos, davam a chance de uma ou outra árvore mostrar seus galhos sobre a neve.
Percebendo os sinais de cansaço dos cavalos, o robusto lenhador ia alertar o velho da necessidade de fazerem uma parada, mesmo que curta, quando viu algo na estrada. Rompendo o padrão branco do cenário, uma mancha escura sob a neve da estrada chamou sua atenção. Apontou para o chão à frente, dirigindo para lá o olhar do exausto velho sobre o cavalo. Golpeando os animais, correram para a mancha o mais rápido possível.
Terrível e dolorosa visão tiveram os solitários cavaleiros ao se depararem com dois corpos ressequidos e contorcidos. Um deles deitado, como se estivesse desacordado no momento do ataque e o outro, ajoelhado, debruçado sobre o primeiro, talvez numa vã intenção de proteger o companheiro do mal que se lançava sobre eles. O velho reconheceu pelas roupas os companheiros de viagem. Caído na neve, e sem expressão no rosto, estava o homem com quem viajara por anos e, em cima ele, como se fizesse um casulo protetor, o novato debruçado. Em sua face óssea e sem vida, um brilho de horror nos olhos miúdos. O último registro do ataque dos Vultos da Neve.
Por um instante o velho orou aos deuses, em honra às vidas perdidas pelos amigos. Em seguida combinou com o outro homem de enterrá-los na neve, ali mesmo, no lugar onde morreram. O lenhador convenceu o velho a irem embora com os cadáveres para enterrá-los durante o dia, protegidos de possíveis ataques. Com o pesar angustiando os cavaleiros, mais ainda o velho, eles envolveram os corpos em cobertores e os amarraram às selas dos animais, montando e partindo sem demora.
No dia seguinte, enterraram os amigos de viagem.

Dor e culpa acompanharam aquele homem cansado e velho. Dor e culpa consumiram gradativamente sua vida depois do fatídico inverno, sem abandoná-lo um dia sequer. Eram como partes de sua alma, de sua vida; partes que o mantinham vivo apenas para que sofresse. Apesar de dia após dia ter desejado morrer o mais cedo possível, viveu por vinte anos, como um castigo dos deuses, condenado a suportar a culpa de ter deixado, além do amigo, um rapaz tão novo perecer nas mãos de criaturas sombrias. Nunca teve um instante de paz até o último dia de sua vida triste e nula.

Por Luciano Rodrigues
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