ADORMECIDA

Silêncio…apenas o silêncio a envolvia, a garganta obstruída pelas verdades não ditas, os ouvidos latejavam palavras proferidas por alguém, a angústia de ver-se despida de suas defesas levava-a a assumir uma posição fetal, procurando abrigar-se em si mesma, protegendo-se do medo do despertar. Tanto medo disfarçado de ira, de um pseudo-afronte ao seu modo de agir. Sentia-se acuada, sem forças para  aceitar as próprias falhas e mudar…
Mudar? Mudar jamais, acostumara-se ao medo, o medo disfarçado de coragem que a impedia de retroceder, afinal era uma mulher independente, não precisava de ninguém…bastava-se em si mesma e por isso assumira o papel de mártir voluntário em prol de desculpar a si mesma por não lutar pela felicidade que despontava qual um bruxuleante raio de luz em meio à penumbra de sua vida cheia de rotinas, algumas necessárias, outras criadas como muralhas a defende-la do mundo lá fora.

Havia tentado sim, acostumar-se ao raio de luz que teimava em invadir seus aposentos…as partículas de poeira em suspensão, no entanto, a bailar pelo facho luminoso, a faziam temer…não se dava conta de que a poeira sempre estivera ali, que apenas o raio de luz a colocava à vista…sonhava com arco-íris coloridos, afinal arco-íris não mostram a poeira a ser sacudida das vestes sacerdotais, acumulada ao longo dos anos de luto da alma.
Tentara abrir as portas do seu mundo, mas ao abri-las, esqueceu-se de que quem vem de fora o vê de outra maneira, isento dos vícios arraigados, da complacência instituída como forma de proteção de quem privou-se por tanto tempo da liberdade de ser plena e de aceitar a chegada da felicidade.

 Quem chegar que se acostume ao ciclo vicioso! Afinal, que sabe ele dos meus sofrimentos? Foram tantos anos de luto recolhido na alma, tantos anos a me entregar, me sublimar em prol dos outros…deixai-me em meu mundo turvo.
Deitada, semi-consciente, luta contra si mesma, razão e emoção se confundem em um tal amálgama que já não é possível distinguir  a realidade da fantasia incrustada em sua alma. Mudança….palavra que desperta o medo que corrói sua alma…Mudar pra que meu Deus? A penumbra que a envolve é como um escudo, nem luz, nem trevas, apenas aquela zona de conforto, um deixar as coisas como estão…arriscar? Não arriscar jamais…a rotina instituirá é a sua segurança. A alma grita dentro do peito….LIBERTA-ME!…mas a mente temerosa a subjuga…não é a hora de pensares em liberdade…aquieta-te! Olha à tua volta, tens tantas promessas feitas em leitos de morte…não tens o direito de ser feliz! Tua missão é sofrer….cala-te alma ingrata! Deixa para ser feliz em outra vida…aceita os grilhões que te impuseste, os reais e os imaginários, não permitas que te soem aos ouvidos os cânticos da liberdade, afastai de ti a felicidade!

Parecia-lhe impossível conciliar a felicidade com as responsabilidades. Caminhou, é verdade, aos poucos deu um ou outro passo, mas a culpa a acomete, a cada grilhão rompido sente como se traísse a si mesma…a liberdade a assusta…liberdade para amar? O amor parece, em meio às brumas de sua mente um novo feitor a exigir-lhe mudanças…Encolhe-se em seu canto… recolhe-se, encarando a liberdade como um mal a ser evitado…sente o desejo…sente o amor lutando para escapar das malhas do medo inclemente…mas faltam forças para assumir a novidade, busca então em mil detalhes inertes os motivos para fugir de si mesma, da felicidade a seu alcance.
Então dorme a mulher, querendo um dia despertar, como num toque de mágica, sem medos. Ou, quem sabe, deseje não mais despertar, entregue a um sono eterno, a olhar de outro plano, aquilo que deixou para trás…sem lembrar-se no entanto, que lá também se cobrará o não ter sido feliz.

Por Jorge Linhaça

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