A TERRA DO SILÊNCIO 1 DE 3

Em uma cidade qualquer, como tantas outras cidades no mundo, as pessoas seguiam sua vida de maneira apressada e sem uma real consciência do que havia ao seu redor.

Não havia tempo para ouvir, escutava-se, é verdade, mas não se compreendia realmente o significado por trás das palavras.

Havia uma espécie de consciência coletiva e tudo que soasse de forma diferente disso era considerado como loucura.

Cada vez mais, as pessoas pareciam partilhar de um êxtase coletivo que os fazia sentir uma certa segurança baseada no anonimato de suas próprias ideias e aspirações.

Não é que não houvesse lá diferenças entre o modo de se vestir ou a maneira de falar. Isso havia,
Mas embora os grupos sociais naquela cidade, se dividissem em tribos urbanas, uma coisa era comum a todas elas: a falta de saber ouvir opiniões contrárias e estabelecer um diálogo real.

Parecia que havia uma lei não escrita em que a diversidade ideológica deveria ser rechaçada  sem mais delongas.

Claro que essa era uma sociedade fragmentada e, como tal, sujeita ao isolamento coletivo e até mesmo individual.

Como acontece em toda sociedade, algumas pessoas ganhavam destaque em suas próprias áreas e tribos, na maioria das vezes por conta de seu talento individual.

Assim criavam-se ícones e formavam-se lideranças espontâneas, informais.

Um dia algo de muito estranho aconteceu nessa cidade: as pessoas aos poucos foram parando de falar.

A princípio não se deu muita importância, afinal já eram bem poucos os que paravam para ouvir, no entanto, com o crescente número de silenciosos, as relações foram se tornando cada vez mais simplistas e a estagnação das idéias já não permitia qualquer avanço em qualquer área.

Tudo se tornou ainda mais monótono na terra do silêncio. O pouco que se falava era para repetir conceitos e frases derivadas de um senso comum.
A arbitrariedade passou a ser o modo de vida e os habitantes da cidade cada vez mais se fechavam em si mesmos.

Aparentemente todos se haviam esquecido de que todos os progressos feitos pela humanidade vieram exatamente da contestação de alguém.

Quando o homem aprendeu a dominar o fogo
isso aconteceu porque alguém resolveu contestar o medo que esse elemento causava aos humanos e animais. Esse anônimo indivíduo resolveu primeiro apropriar-se de um galho em chamas e buscar perpetuar o fogo, alimentando-a com outros combustíveis.

Não é difícil imaginar que isso deve ter causado pavor entre os seus companheiros, bem como a inveja e a cobiça de outros grupos.

O mito de Prometeu Acorrentado, castigado pelos deuses por haver roubado o fogo do Monte Olimpo, retrata bem as conseqüências que se abatem sobre quem ousa ir além do senso comum.

Prometeu preso ao alto de uma montanha simboliza o isolamento social de quem é capaz de contestar a vontade ou os padrões de um grupo acomodado em sua mesmice entorpecente.

Os abutres que vinham bicar-lhe o fígado, noite após noite, simbolizam exatamente aquele tipo de pessoa incapaz de perdoar aos que agem de acordo com os seus princípios e que, sequiosos de vingança, aguardam nas sombras o momento de atacar, insaciáveis, o que se julgava na época, o centro das emoções humanas.

Voltando agora à nossa cidade, igual a tantas cidades que há por aí, ela também tinha, por certo, seus Prometeus, no entanto, o silêncio das massas era tão opressivo que mui raramente acabavam por se descobrirem em meio à multidão silenciosa.

Alguns desses pensadores apenas pensavam e guardavam, para si, ou no máximo, pra um grupo restrito de amigos, as suas ideias.

Alguns agiam desse modo por certo medo de represálias; outros por um ceticismo em relação a crerem que alguém haveria de dar-lhes ouvidos e um outro grupo, apenas havia desistido de pensar e rendera-se às novas relações sociais.

Mas ainda havia aqueles que, vez por outra, abriam suas bocas e expunham as suas ideias.

Claro que estes acabavam invariavelmente na berlinda, afinal o livre pensar era considerado como um cancro incurável. Era inegável que esse comportamento causava, aos falantes, uma boa dose de sofrimento que provavelmente acabaria por se estender àqueles mais próximos.

Esse era um dos motivos pelos quais as pessoas preferiam manter certo distanciamento.

Ocorre, entretanto, que quem nasceu com esse dom de ter uma mente mais ativa, analítica e até contestadora, não consegue guardar por muito tempo os seus pensamentos aprisionados em sua própria mente, existe neles a necessidade inata de partilhar o conhecimento adquirido.

É neste contexto se desenrola a nossa história.

Por Jorge Linhaça

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