A TERRA DO SILÊNCIO 3 DE 3 – FINAL

AS RÃS

As rãs são outra das tribos que habita aquela cidade silenciosa.
Assim como os anuros de quem herdaram o nome, possuem algumas características bastante interessantes:

-Vivem pulando de um para o outro lado sempre que se sentem ameaçadas por alguma opinião contrária. Hoje estão aplaudindo alguém e amanhã fogem dele como o diabo foge da cruz se apenas e tão somente são confrontadas com alguma opinião que não lhes agrade.

-A melhor maneira de capturar uma rã em seu habitat é acenar-lhe com uma isca feita de cores berrantes, como o vermelho ou o dourado, logo elas saltam e abocanham a armadilha.
As rãs urbanas mantêm essa sina porque os seus olhos não distinguem a diferença entre a mais pura artificialidade e a veracidade concreta das idéias.

-Para manter as rãs confortáveis em uma panela onde se pretende cozinha-las basta coloca-las ali enquanto a água está fria e depois acender o fogo.
Elas ali permanecerão confortavelmente instaladas
até  a morte já que vão se acostumando ao calor gradativamente.

– Como os anfíbios, cuja temperatura do sangue vária de acordo com o meio ambiente, as rãs urbanas variam de estado emocional de acordo com as variações das massas ao seu redor.
Dificilmente conseguem separar a razão da emoção e, por isso, são facilmente manipuláveis pelos corvos que se alimentam de sua inconsistência emocional.

Sua maneira intempestiva de se expressar e a propensão de apoiarem ora um dos lados, ora outro, impedem que sejam levadas realmente a sério, servindo apenas como massa de manobra por outras tribos.

Ser uma rã tem suas vantagens na terra do silêncio:
-Nada se espera delas senão coaxarem o que ouviram em algum lugar.
-Não se espera que sejam capazes de pensar por si mesmas, ou se pensarem, não se espera que manifestem uma opinião fundamentada sobre nada.

OS BEIJA-FLORES

Os beija-flores são espécimes de outro segmento da fauna urbana da cidade do silêncio.
Assim como os pássaros dos quais emprestam o seu apelido, alimentam-se do néctar das flores.
Estão constantemente em busca de doces palavras independente da origem que tenham as mesmas
Assim como os pássaros, são facilmente atraídos para flores artificiais contendo uma mistura de água com açúcar.
Assim como os pássaros, não percebem o real perigo da proliferação de fungos causada pela falsa alimentação que pode ser conseguida de maneira mais fácil do que sorver o néctar puro contido em muitas flores verdadeiras.
O problema de se alimentarem de água com açúcar é que, além da infecção bucal as línguas acabam inchando por conta dos fungos causando a asfixia e a consequente morte dos pássaros.
Além disso, a mistura de água com açúcar das flores artificiais não supre as necessidades de proteínas e sais minerais só encontradas nas flores naturais e nos pequenos insetos que acabam sendo consumidos por eles.

Na tribo dos beija-flores ocorre algo bastante semelhante. Seus integrantes, acostumados aos elogios fáceis e palavras adocicadas, como os pássaros, deixam de se nutrir de palavras que levem à reflexão e construção de um pensamento crítico.
Os beija-flores, diferentemente das rãs, não se envolvem em discussões mudando de lado e agindo de acordo com os seus interesses momentâneos.
São, por assim dizer, sinceros cultuadores do que seja belo e não se importam com de onde ele provenha.

Claro que isso acaba por torná-los alienados de todas as mudanças ou discussões.
Poderíamos dizer que vivem em um mundo de faz de conta onde o que acontece aqui e acolá não os afeta.

É uma das tribos mais populosas da terra do silêncio.

Por Jorge Linhaça

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