OS DOIS PRÍNCIPES E O CAMPONÊS – 2 de 10

Certo dia, passou pela vila uma velha de aparência horrenda. Era corcunda e caminhava com a ajuda de uma bengala.

Havia na vila, e em todos os demais lugares daquele reino, uma lenda que falava sobre fadas e bruxas, e tal era sua grandiosidade e complexidade que grandes estudiosos do rei se dedicavam a desvanecer seus mistérios, pois sempre foi diversão dos estudiosos buscarem cada vez mais respostas para perguntas cada vez menos sensatas.

Seriam necessárias páginas e páginas para registrar aqui todo o conteúdo de tal fabulosa lenda. Entretanto, para me manter sucinto e evitar devaneios, somente narrarei a ideia principal, deixando o conjunto de ideias a cargo de vossa imaginação. Afinal, os contos de fadas só existem na imaginação de cada um.

De um modo geral, a lenda falava sobre uma boa fada e uma bruxa horrível. Enquanto a bruxa dedicava-se a disseminar discórdias através de poderosas magias de origens sombrias, a fada usava seu poder celestial para encontrar e salvar as pessoas merecedoras que por ventura viessem a se tornar alvos da bruxa. E merecedoras eram todas as pessoas que a bruxa visava, pois sua mente de maldade só encontrava diversão ao arruinar a vida das pessoas de bem. E, embora as lendas originais citassem as motivações das duas feiticeiras, a população em geral não se preocupava com isso. Cada pessoa estava, obviamente, preocupada apenas com a parte da história que lhe dizia respeito.

Todos tinham medo da bruxa.

E eis que a população era supersticiosa e, uma vez que o preconceito data da mesma época que os conceitos, preconceituosa. No dia em que a velha senhora passou pela vila, esta imediatamente se fechou para ela. Os adultos se trancaram em suas casas e as crianças choravam em seu interior enquanto os pais lhe falavam sobre os horrores da bruxa, para que eles perpetuassem a história e os conceitos ali determinados por gerações e gerações.

Em alguns momentos a senhora bateu em porta ou outra, e clamou por um pedaço de pão. Porém a única coisa que recebeu foram pedradas dos mais corajosos, ou talvez mais tolos (ou mais preconceituosos). Resolveu chamar no portão do castelo, que se trancara ao tomar conhecimento de sua presença. E após muito clamar recebeu uma maçã e um pão, que foram defenestrados sobre ela por uma bela figura feminina.

Então a senhora agradeceu e se retirou. E resolveu passar pela parte menos habitada da vila a fim de evitar incômodos.

— Bom dia!

A senhora olhou para o lado e viu o camponês sorrindo enquanto regava suas flores.

— Por que não te escondes, camponês? — indagou a senhora, que já estava irritada com o tratamento que recebera na vila. — Por acaso não ouvires dizer que sou uma bruxa, e que posso lançar uma maldição sobre ti?

— Paredes não protegem contra maldições. Além disso, minhas flores precisam de água. Não posso abandoná-las por causa de histórias fantásticas.

— Por acaso não acreditas na existência da bruxa?

— Não é de minha capacidade dizer se ela existe ou não. Sou apenas um simples carpinteiro. São os teólogos e doutores do castelo que possuem essa resposta. Contudo, a mim não parece que tu sejas uma bruxa.

A velha senhora se surpreendeu.

— E como seria a bruxa que tu imaginaste?

— Uma mulher que não agradecesse pelo alimento que lhe foi dado.

E ao ouvir isso a senhora sorriu.

— Tu tens uma boa alma, camponês! Porém percebo que és uma alma solitária. Acho que mereces encontrar tua felicidade.

E ao dizer isso, a senhora foi embora sem olhar para trás.

CONTINUA…

Por Ramon Nogueira da Silva

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