OS DOIS PRÍNCIPES E O CAMPONÊS – 4 de 10

Uma vez passou pela vila uma jovem peregrina, ou assim diziam as línguas (ou talvez assim dissesse ela mesma, mas os detalhes estão perdidos). Tratava-se de uma jovem curiosa e bela. Andava com uma roupa que parecia ser nobre, entretanto estava em trapos, e usava um véu descorado, mas que também parecia ter sido tecido pela mais fina seda.

Em algumas horas de perambulação a viajante já atraíra inimizades. Além de curiosa mostrou-se crítica. E falava àquele povo sobre direitos, e também sobre um conceito já tão antigo, mas que só seria realmente criado em gerações futuras: a democracia. E também falava sobre verdades das quais o povo temia, como, por exemplo, a frivolidade de coisas que faziam.

Talvez possa vos parecer que somente isso não seria necessário para atrair tanto descon-tentamento do povo, todavia nossa pequena aventureira (o melhor conceito que lhe posso atribuir) não se limitava a dizer o que o certo para aqueles camponeses.

Também lhes apontava os erros.

Já tentaste remover conceitos de ignorantes? Na mente dos plebeus inibidos, críticas construtivas passavam como grosserias.

E a moça, como quem não se importasse, saiu a dizer a cada um que encontrava alguma tolice atribuída às ações da criatura. Sempre achava algo a criticar, e mostrava-se realmente indignada com a inocência daquele povo.

Inocência! Uma palavra para simplificar os tolos, os sonhadores, os visionários e os ignorantes, e reuni-los em um mesmo grupo.

E não só sua face tornara-se indignada, como também a face daqueles que cruzaram com ela. E assim a moça rumou, frustrada, para os campos externos da vila.

Mas estamos nos desviando do principal: um certo camponês que regava flores.

E assim que passou pela casa do camponês, este, que estava em seu jardim a regar suas flores, sorriu e disse:

— Bom dia!

A moça olhou-o desconcertada, dada a espontaneidade do cumprimento.

— O que fazes aí, camponês? — indagou a moça.

— Estou apenas a regar minhas flores, como de costume faço todos os dias.

— E com que intuito regas essas flores?

— Ora! Para fazê-las crescer e ficarem bonitas, naturalmente! Com que outro intuito estaria eu a regá-las?

— Se tendes tempo para regar, por que não fazes nada com relação as suas condições de vida, que pelo visto, não são das mais convenientes.

— Minha vida é suficientemente boa, da forma que o destino desejou que fosse. Não me cabe reclamar ou criar turbulência sobre isso. Ademais, as flores são mais importantes para mim.

Mais um inocente.

— Como podes dizer isso? Por um acaso pensais que a vida de vegetais são mais importantes do que sua própria?

— Óbvio que não. A suposição criada por ti é absurda! Mas a vida dessas flores é mais importante do que qualquer riqueza material que eu venha a possuir.

— Acaso já viveste no luxo para comparares com tua situação medíocre?

— Acaso já regaste uma flor para comparares com tua situação ambiciosa?

Houve um breve instante de silêncio. Então a moça retomou:

— Por que não entendeis que as coisas que lhe digo apenas te guiarão para teu próprio benefício?

— Antes de aqui chegar vivi de vários benefícios e malefícios. E somente agora acredito ter encontrado a paz necessária para viver. Posso parecer jovem, mas me parece que conheço melhor que qualquer outro os meus próprios benefícios.

Antes que a viajante tivesse tempo para retrucar um grupo de pessoas (formado pelos mesmos que atiraram pedras na velha que por ali passara) a abordara. Um dos homens, que parecia ser o líder (não que tivesse as qualidades necessárias, obviamente) começou a discursar em nome de todos:

— Aviso-te agora, peregrina desconhecida. A menos que seja convidada por alguém em nossa vila não toleraremos tua presença aqui novamente. E vai-te embora agora de uma vez, antes que danemos seu nome!

E então a voz do camponês foi ouvida. Suave, calma, contudo mais respeitosa do que a voz do homem que acabara de se pronunciar:

— E como lhe disse agora pouco, senhorita, estás convidada a voltares aqui quando bem entendeste. E na próxima oportunidade te ensinarei a regar, para que possas tirar tuas próprias conclusões.

O ameaçador se sentiu desmoralizado e então se virou para o camponês:

— Por que te intromete, camponês? Por acaso é de teu intuito fazer-me de tolo?

— Estou apenas convidando a moça para me ajudar com as flores de que cuido. Não te preocupes, pois se teu problema é com ela, aqui ela permanecerá caso venha me visitar. Nada tens a ver com ti.

Então todos ficaram em silêncio, e, por fim, foram embora. A moça continuou a encarar o camponês, que regava despreocupadamente.

“Obrigada”, disse a moça, ao que o camponês respondeu “Disponha”.

E ao dizer isso a viajante se foi.

E falou para si mesma que jamais retornaria ali.

CONTINUA…

Por Ramon Nogueira da Silva

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