OS DOIS PRÍNCIPES E O CAMPONÊS – 8 de 10

Passou-se algum tempo(e já não se sabe mais sua quantidade exata) antes que a jovem peregrina pusesse novamente seus pés na vila do nosso camponês. Surgiu novamente e dirigiu-se direto à casa do homem, que lhe recebeu com o habitual cumprimento:

— Bom dia!

— Não consigo. — Precipitou-se a moça, emburrada, sem nem lhe responder a saudação.

O camponês soltou uma sonora gargalhada. E é uma pena que a data de tal evento tenha sido perdida, pois foi a primeira vez que os habitantes daquele lugar o viram rir com tamanha espontaneidade.

A peregrina, contudo, trovejou impaciente(e a impaciência era característica marcante daquela menina, assim como de todos aqueles que são bons na arte de proferir críticas):

— O que tens de tão engraçado? Nunca me dei ao luxo de cuidar de vegetais, e não sou capacitada para tal. Achas correto debochares de mim?

— Não estou a debochar de ti, mas sem dúvida foi algo divertido de ver-te proferir. Todavia, fico feliz em ver que agora passais a considerar meus simplórios passatempos como luxo.

A moça continuou irritada. Sabia ser inútil argumentar contra aquilo. Via no camponês um homem simplório e ignorante(o que não era uma ofensa: todos eram simplórios e ignorantes naquele tempo), que jamais seria capaz de entender a situação “real” de sua vida. Mas vamos discutir sobre esse “real” mais à frente.

O camponês então ofereceu-lhe:

— Acaso vieste aprender como tratar de teu pequeno jardim?

— Chamas de “jardim” um único vaso que me concedeste?

— Naturalmente. Um único vaso já é um jardim, se você lhe dedica tempo e amor para o cultivo de tuas plantas.

— Teus conceitos são estranhos, camponês.

— Então vejas. Vou lhe mostrar como se faz e começarás a entender tais conceitos.

O camponês então começou a ensinar à moça as minuciosas técnicas que empregava em seu curioso jardim.E divertiu-se incrivelmente com o desajeito da outra, sua falta de paciência e sua atitude indelicada e prepotente.

Ao fim do dia, a jovem partiu. Mas disse-lhe antes:

— Não voltarei mais, camponês. Tentarei descobrir o que lhe tanto agrada em uma arte tão simplória.

— Descobrirás. — Respondeu-lhe o outro, sorrindo.

E logo depois a peregrina foi embora.

E falou para si mesma que jamais retornaria ali.

CONTINUA…

Por Ramon Nogueira da Silva

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