A MOÇA MAIS BONITA DO RIO DE JANEIRO – 1 DE 13

Era em 1875. Numa pequena casa do Engenho Novo habitava, em companhia dos pais, a moça mais bonita do Rio de Janeiro. Como houvesse nascido a 2 de maio, recebera na pia batismal, por simples indicação da folhinha, o nome de Mafalda; entretanto, ninguém a conhecia por esse nome, pois desde o berço começaram todos de casa a chamar-lhe Fadinha, corruptela e diminutivo de Mafalda. E bem lhe assentavam aquelas três sílabas, porque a moça, aos dezoito anos, possuía todos os encantos que têm, ou devem ter, as fadas, e na sua beleza extraordinária havia, realmente, qualquer coisa de sobrenatural e fantástico.

Morena, desse moreno fluido que só Murillo encontrou na sua maravilhosa paleta, de olhos negros e úmidos, narinas dilatadas, lábios grossos mas graciosamente contornados, abrindo-se, de vez em quando, para mostrar os mais belos dentes, cabelos negros como os olhos, abundantes, ligeiramente ondeados, apanhados sempre com um desalinho estético, deixando ver duas orelhas de um desenho tão impecável, que fora crime cobri-las – e todas essas partes completando-se umas às outras no oval harmonioso do rosto, Fadinha, por unânime deliberação do júri mais rigoroso, ganharia com toda a certeza o primeiro prêmio, se naquela época se lembrassem de abrir no Rio de Janeiro um concurso de beleza feminina. Todo o seu corpo se compadecia com a cabeça; era esbelta sem ser alta, robusta sem ser gorda, e as suas formas apresentavam uma extraordinária correção de linhas. As mãos e os pés eram modelos.

Exagerado parecerei, talvez, dizendo que Fadinha reunia a esses dotes físicos as melhores qualidades de alma; entretanto, a verdade é que era boa, afetuosa, submissa e compassiva. Tinha a sua ponta de vaidade, isso tinha, mas que outra mulher não a teria, sendo assim tão bonita?

Duas coisas, portanto, a desgostavam: ter vindo ao mundo a 2 de maio e chamar-se Mafalda, quando poderia nascer a 10 de julho e se chamar Amélia – e não ter nascido rica, muito rica, para fazer valer ainda mais a sua formosura. Todavia conformava-se alegremente com a precária condição de filha de um funcionário público paupérrimo. Sim, porque seu pai, o Raposo, chegara aos cinqüenta anos simples oficial de Secretaria, sendo obrigado, para agüentar a vida, a empregar os afazeres escriturando livros comerciais, ora numa padaria, ora numa venda, ora numa casa de penhores. E a vida sedentária fez com que ele engordasse extraordinariamente. O dr. Souto, médico da família, costumava dizer: o Raposo é uma apoplexia ambulante.

Fadinha não era filha única: tinha um irmão mais velho arrumado no comércio, e outro, ainda muito novo, que estudava para doutor, porque o pai o considerava o “talento da família”.

A mãe era uma senhora de quarenta e cinco anos, que não se parecia absolutamente com a filha. Não sei por que fenômeno fisiológico, de um casal tão feio (porque o Raposo, coitado! era outro desfavorecido da natureza) saiu aquele esplêndido produto, aquela criatura escultural, aquela beleza inverossímil! Note-se que os dois rapazes também eram feios, principalmente o futuro doutor – narigudo, orelhudo, enfezado, anêmico, insignificante.

Não contente de levar parte da existência às voltas com os santos do seu oratório particular, d. Firmina – assim se chamava a mãe de Fadinha – andava constantemente pelas igrejas, adorando os de fora; mas, em que pesasse a tanta piedade não perdoava à filha o ser tão bonita, e revoltava-se intimamente contra o singular monopólio que a moça recebera da natureza como se fosse uma dádiva escandalosa; entretanto, Fadinha era toda a sua ambição de fortuna, toda a sua esperança de melhores tempos. O seu sonho era ser sogra de um argentário, pois que o não poderia ser de um príncipe. Se o Raposo não fosse um chefe de família, às direitas, essa mulher tê-lo-ia dominado, usurpando toda a autoridade no lar; felizmente ele batia o pé, não consentia em nada que lhe desagradasse.

Mas a nossa Fadinha tem um namorado. E tempo de apresentá-lo aos leitores.

CONTINUA…

Por Artur de Azevedo

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