CLARICE DANÇAVA – 2 DE 2

Certo dia, resolveram levar a terna e ainda ingênua Clarice para uma academia de dança profissional. Nas rápidas semanas seguintes Clarice aprendera os segredos da salsa, os passos marcados da valsa, a disciplina e altivez dos clássicos. “Ao requebrar-se no samba parecia criada entre os bambas”. Dançava o can-can, o vira, o afoxé. Dançava nas óperas, brilhava nas danças dos orixás do candomblé.

O mestre então disse que Clarice estava pronta. Nada mais tinha para ensinar para Clarice.

“Ela é a própria arte da dança..”.

Recomendou-a aos melhores empresários que ele conhecia. Aqueles que foram ver Clarice dançar quase não acreditaram…

Disputaram entre si o direito de contratá-la. Dispuseram e discutiram com os pais dela motivos e acordos contratuais, lançamentos e excursões, passeios, lucros e estadias, que Clarice com seu talento pagaria.

No dia da “première” novamente chovia. Clarice adentrou ao palco, confusa e impressionada com todo aquele aparato. Bem notou como a assistência estava lotada. Lá estavam seus pais, seus amigos, muitos conhecidos e desconhecidos da cidade.

Pouco Clarice havia dançado e eles começaram a aplaudir. Durante todo o tempo eles aplaudiram. Mal se podia ver, mal se podia ouvir. Quando Clarice terminou, aplaudiam todos:

– Aplaudim-na o diretor, os músicos, a platéia e o bilheteiro.

Vieram as grandes excursões e ao mundo Clarice encantou.

Ela não entendia bem por que ficar tão longe dos seus para dançar; mas sempre divinamente dançou. Encantados, os leigos a aplaudiam, os críticos aplaudiam.

– os artistas aplaudiam.

Assim o tempo fora passando. Clarice se destacava nos palcos, nos vídeos, nos jornais. Onde no mundo, a pequena Clarice estava, a bilheteria superfaturava.

Foi então que notaram que Clarice dançava demais…

“Clarice dançava demais, DEMAIS !”

Clarice vivia dançando! Colhia flores dançando? “Beijava as crianças dançando”; Abraçava os amigos dançando…

Estivessem seus pés calçados ou nus…

“Que perigo… Também dançava!”

Alguém, se pedisse para seus passos demonstrar – “Que prejuízo!” – graciosamente partia Clarice dançando.

Foi então “para sua própria segurança” que impuseram para Clarice: Fora do palco ela não poderia dançar (Cláusula contratual).

Também seus pés teriam de ser mantidos calçados, intocados, presos e oleados.

No dia que Clarice dançava na platibanda do topo do edifício…

– A platéia não aplaudia… seus pais não entendiam, seu empresário blasfemava.

Na verdade, ela não estava se importando de estar ali, rompendo cláusulas contratuais.

Da borda da laje do altíssimo edifício de fria arquitetura de cimento e aço, Clarice perscrutou o horizonte e maravilhou-se, pois achou que todo o hemisfério dançava.

Dançavam os astros, dançavam as nuvens, dançavam as marés, dançavam as galeras e as gaivotas, ao ritmo da brisa do mar. Clarice viu também que imersas na mesma brisa fluídica as folhas das copas das árvores dançavam.

Ela agora se sentia mais alegre, liberta; porquanto realmente concebia haver dança em tudo.

“Em tudo? Nem tanto… “

Observou que algo estava inerte lá embaixo.

“Mesmo assim, a seu redor várias pessoas dançavam.”

De repente, pode ver melhor… Era seu próprio corpo!

Mas que importância poderia isto ter? Era apenas uma infinitésima parte de matéria do universo paralisada.

Além do mais, ela nunca compreendera bem essas coisas.

Ela agora finalmente se sentia em um verdadeiro estado de êxtase; fascinada! Percebera que dispunha diante de si de todo o infinito para poder livremente dançar.

Foi assim que a pequena Terpsícore partiu…

– Dançando no ar.

Por Lázaro Marback D’Oliveira

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s