DISTROPIA – 1 DE 3

Certa manhã, despertando de uma noite de sonhos inquietantes, dei por mim… não, eu não estava metamorfoseado num baratão gigantesco! Descobriria mais tarde que acordar metamorfoseado num inseto gigantesco nem seria assim uma situação tão absurda comparada àquela em que me encontrava agora, mas no momento eu não tinha a mínima consciência dela. Pura e simplesmente, eu apenas acordei num lugar estranho, desconhecido, sem a mínima lembrança de como havia parado lá.

Um relógio de pêndulo balançava na parede em frente à minha cama. Seis e vinte e dois da manhã, e uma luz tênue na fresta da janela mostrava que começava a nascer um sol de verão. Levantei. Onde estava? Que lugar era aquele?

A construção era bem rústica. Um relógio á minha frente, um mini-fogão numa bancada à minha direita, debaixo da janela fechada. Uma pia improvisada no meio da bancada. À esquerda uma porta fechada. Ao que parecia, uma construção de um único cômodo. No meio de onde? Era hora de descobrir.

Me levantei da cama, me dirigi até a porta, e abri. A pequena casa de madeira (agora estava claro o que era) estava no meio de uma clareira cercada de densa vegetação. A luz tênue do sol nascente aumentava aos poucos. A grande questão: onde estava? que fazia lá?

Voltei para a pequena casa de madeira. Pequena, mas aparentemente bem funcional! Torneiras? Nenhuma, mas vi logo um barril de água ao lado da bancada onde estava o mini-fogão. Uma caixa de ovos sobre a bancada. Estava com fome! Era o mais prático de se preparar no momento! Coloquei um pouco de água numa caneca metálica que estava sobre a bancada, coloquei dentro dela dois ovos, e tentei acender o mini-fogão. Inútil! Os fósforos não acendiam… Frustrante, por mais que tentasse não obtinha resultado.

Me sentei na cama, tentei buscar na memória fatos recentes. Nada! Vazio completo! Parecia não ter passado! Estaria vitimado de amnésia?

Olhei mais uma vez para o relógio. Seis e quinze?? Como?? Teria percebido isto logo se o mostrador apresentasse também os ponteiros dos segundos,m mas não era o caso. Porém estava claro agora: o relógio estava com defeito, corria ao contrário. Maravilha! Perdido, num lugar desconhecido, sem saber como havia chegado lá, e para “melhorar” tudo, nem podia confiar no relógio, que corria ao contrário! Que situação absurda!

A tempestade começou quando o relógio marcava 5 horas e 43 minutos. Uma tempestade bem estranha! O normal é se observar o clarão e, algum tempo depois, seu barulho. Inclusive a contagem deste intervalo indicava a que distância está tempestade de onde você se encontrava.  Como a luz é bem mais rápida que o som, nós vemos primeiro o clarão dos raios e algum tempo depois o som causado pela sua perturbação atmosférica, aquecendo e pressurizando bem rápido o ar à sua volta. Mas algo estranho acontecia lá! Os sons vinham primeiro, para algum tempo depois surgir o clarão. Passei algum tempo observando o estranho fenômeno, antes de sair para observar a chuva.

Finalmente saí, abrindo a porta, para ver o que acontecia lá fora. À primeira vista nada de extraordinário. Até começar a prestar atenção no gotejamento das bordas do telhado. Seria uma estranha ilusão de ótica, ou as gotas estavam subindo? Observei aquilo atônito por minutos, até enfim resolver estender a mão para fora, para sentir aquela curiosa precipitação. Que sensação estranha! Estava claro agora para mim que as gotas subiam, não era  ilusão de ótica! Esperava então que, ao estender a mão com a palma para baixo, esta se molhasse. Não foi o que observei. As gotas pareciam fugir da minha palma, se agrupar nas bordas de minha mão e dedos estendidos e se reunir, subindo, no dorso de minha mão, de onde subiam em direção às nuvens. Que estava acontecendo ali? Estaria ficando louco? Ou uma estranha corrente de ar ascendente provocava aquilo?

Voltei assustado para dentro do casebre de madeira. Fome! Deveria ser efeito da fome aquela louca alucinação. Tentei novamente riscar fósforos sem resultado. Olhei para o relógio: cinco horas e 27 da manhã. Associei em minha mente: chuva subindo, relógio que conta o tempo ao contrário… Era alguma brincadeira de mal gosto? Bom, por hora então vou entrar nela. Vi uma pilha de fósforos riscados na bancada, e pensei: “por que não?”. Risquei um deles na caixa, e, surpresa! Ele acendeu! Aproximei-o da boca do mini-fogão, que logo apresentou uma chama. Coloquei a caneca com os  ovos sobre ela. Sim, talvez com o estômago ao menos saciado eu começasse a raciocinar melhor.

Enquanto preparava meus ovos cozidos, coloquei-me a pensar naquela situação.  Vestia um velho casaco marrom (dele me lembrava muito bem), acordara num lugar estranho, com um relógio defeituoso, acabara de presenciar uma tempestade incomum… que mais poderia acontecer de estranho? Percebi rápido que havia questionado isto cedo demais…

Faminto, me dirigi ao mini-fogão para devorar meus ovos quentes. Tirei a caneca, virei sobre a pia improvisada no centro da bancada, mas… eles não caem?? Olhei para dentro da caneca. Vi que a água congelara, e dois ovos permaneciam estáticos envoltos em gelo. Que significava aquilo? Aproximei minha mão da chama ainda acesa, mas a recolhi de imediato. Não por estar quente, como seria de se esperar. Mas por estar gelada!!! A estranha chama daquele mini-fogão esfriava tudo aquilo com que tinha contato, ao invés de aquecer. Que brincadeira de mal gosto era aquela? Bem elaborada, sem dúvida alguma! Mas de péssimo gosto!

Evidente que  desisti rápido da idéia de tentar cozinhar qualquer coisa que fosse naquele fogareiro com defeito. Felizmente descobri caixas com biscoitos debaixo da cama, e por hora poderia matar a minha fome com eles. Logo pensei: “precisaria então utilizar uma geladeira para cozinhar alguma coisa?”. Não havendo nenhuma disponível, muito menos a leve sombra de energia elétrica, não seria capaz de verificar isto por enquanto…

Estava assustado, sem dúvida alguma! Mas vendo o estranho relógio marcar 2 horas, resolvi sair. Independente dele contar o tempo ao contrário ou não, o fato é que eu já estava trancado a 4 horas naquele cubículo. Precisava agir!

O sol radiante sugeria um quente dia de verão, mas o frio ao redor me confirmou ter sido uma boa idéia trazer comigo o velho casaco marrom surrado. Aquela insolação intensa realmente não combinava com o frio absurdo… Apertei o casaco contra o corpo, e caminhei pela clareira em torno da casa para tentar lembrar onde estava. Nada veio de minhas lembranças.

“César, César… onde foi que você se meteu desta vez?” Não me sentia mal, nem com dores de cabeça, de forma que definitivamente aquilo tudo não era conseqüência de um porre da noite anterior. Havia algo estranho em tudo à volta, em cada balançar de galhos, em cada pio de pássaro, embora no momento eu fosse incapaz de determinar com exatidão o que estava errado. Só sabia que estava errado!

Havia um carro estacionado à frente, semi-oculto por um alto arbusto. Trancado. Onde estariam as chaves? Resolvi voltar ao casebre de madeira.

Era estranho, o interior da casa parecia um cenário preparado para o momento em que eu despertasse. Não demorei para encontrar as chaves numa gaveta de um criado mudo ao lado da cama. Pareciam ter previsto minha atual confusão, meu estado amnésico, e tentado preparar tudo para me facilitar as decisões o máximo possível! Quem estaria por trás disso tudo?

Com chave do carro em mãos, sentei-me na cama e pus-me a pensar. Noventa porcento do problema já estava resolvido, não faria mal perder um tempo mais em reflexões. Então vamos lá, fazer um checkup geral da situação. Quem sou eu? Lembro bem quem sou, César Dias, minha amnésia não era assim tão grave a ponto de esquecer meu próprio nome. Onde estava? Não tinha a mínima idéia… Qual minha última lembrança antes de acordar hoje? Me esforcei, mas… não havia nenhuma! Quem eram meus pais, amigos, conhecidos? O que fazia da vida? Nada se revelava! Comecei a me desesperar… Onde morava?  Ah! Enfim, um resquício de memória começou a surgir. Lembrava muito bem de meu pequeno apartamento de rapaz solteiro. Onde ficava? Como chegar a ele? Grande problema! Não fazia a mínima idéia. Certamente numa cidade grande, e não no meio do mato onde agora me encontrava. Mas como chegar lá?

Doze horas em ponto naquele relógio maluco. De nada adiantaria eu ficar lá sentado, delirando. Precisava agir! Coloquei vários pacotes de biscoitos salgados e doces numa mochila que descobri meticulosamente pendurada acima da cabeceira da cama, e novamente me aventurei no estranho exterior da casa.

Fui até o carro, abri a porta, entrei, girei a chave. Ótimo, ele deu partida! Para onde ir? Uma estradinha de terra se estendia à minha frente. E se eu a seguisse na esperança de reconhecer alguma paisagem familiar? Foi o que fiz. Pisei na embreagem, movi o câmbio para a primeira marcha, e… o carro começou a andar para trás!!! “Praga!!! O que tem de errado com as máquinas daqui???”

Desliguei o carro e saí dele desapontado. Deitei-me no chão. “Pensa, César, pensa!!! Você já passou por coisas piores!!”. Adormeci uns minutos exausto na grama, atormentado pelos recentes absurdos. A solução me veio dentro destes delírios loucos que costumamos vivenciar quando estamos no limite vigília-sono. “Relógio que gira ao contrário? Chuva que cai para cima? Fósforos que precisar ser ‘desriscados’ para acender? Chamas que congelam? Carros que andam para trás?” Acordei num pulo já sabendo muito bem o que fazer!

Entrei de novo no carro, girei a chave, e o coloquei em marcha ré. Surpreso? Nem fiquei surpreso ao perceber que o carro, lentamente, começava a marchar para a frente! Segui então aquela bucólica estradinha de terra, esperando reconhecer alguma parte do caminho e entender o que estava se passando…

CONTINUA…

Por David Machado Santos Filho

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