DISTROPIA – 3 DE 3 – FINAL

Caminhei resoluto até o elevador, decidido a encarar o mundo lá fora fôsse como ele fôsse agora. Três figuras já lá dentro me encararam com estranheza. As conhecia de vista, mas não havia motivo maior algum para iniciar um bate-papo. A propósito, não estranhei nem um pouco ao perceber que os botões do elevador não respondiam aos meus desejos. Aguardei paciente que alguém também se dirigisse ao térreo, meu destino, para sair junto com ele.

Foi bem estranho ver meia dúzia de pessoas, simultaneamente, dando as costas para a porta que se abria e saindo do elevador caminhando para trás. Considerei na hora uma brincadeira de mal gosto, e saí dele me dirigindo de frente, aparentemente para espanto geral! Mas todos olharam para baixo depois, e ninguém ousou fazer qualquer comentário. Pareciam nem mais se lembrar do que acabara de acontecer! Seu Zé, o porteiro do dia, mais uma vez ficou me encarando com a mesma estranheza da primeira vez, quando entrei no prédio.

Todo mundo na rua caminhava para trás. Até os carros andavam para trás! Isto eu já tinha visto antes em pouco menos de meia dúzia de veículos ao chegar até aqui, mas parecia agora claro que todos faziam isso!

Uma figura me aparece correndo para trás. Ao se aproximar de mim, a moça me encarou com olhos cobertos de lágrimas. Me disse algo que, ainda não acostumado com o idioma reverso, havia entendido muito pouco. Me pareceu (posso ter entendido mal alguns trechos) que o diálogo foi mais ou menos esse:

– Não precisava ser assim, César! Não precisa brincar comigo!

As lágrimas parecem subir em direção a seus olhos. Não! Definitivamente não pareciam: elas estavam subindo mesmo! Aquele rosto bonito aos poucos secava, e esboçava um lindo sorriso.

– Quem é você? – perguntei… Tentei inspirar com clareza os fonemas daquele idioma invertido.

– Por que você está fazendo isso? Me ignorando assim? – já havia aprendido a reconhecer perguntas reversas, mas fiquei em dúvida se ela havia dito mesmo “ignorando”… Parecia a única combinação reversa que expressava alguma palavra reconhecível…

– Olá!! Te conheço? Não estou ignorando você! Não te conheço MESMO!

– Nossa, você está diferente, César! Bem estranho…

– Me desculpe! Estou meio confuso! não me lembro de você. Estou estranho como ?

– Se nos conhecemos? Você tem coragem de perguntar isso? Francamente! Você não se lembra de ontem? Laura! Conversamos horas sobre aquela sua idéia doida de mundos cujo tempo corre de trás para a frente! Não lembra disso?

– Quem é você? Nos conhecemos?

– Quê? O que você quer dizer com isso?

– Como assim “o que eu quero dizer”?

– Oi César! Você anda sumido!

E Laura me deixa, caminhando para trás como se nem tivesse me reconhecido… Fiquei matutando horas sobre o encontro, e foi crucial para eu acabar entendendo o que acontecia. Na hora não entendi, mas se Laura falou que nos encontramos ontem, estava claro que eu iria encontrá-la de novo amanhã. Com o dia a dia isto se tornou natural, mas naquele momento específico eu estava bem confuso…

Foquei então no meu objetivo principal: fazer compras! Logo descobri que neste mundo maluco este conceito muda bastante! Primeiro, não tinha um tostão no bolso! Achei que talvez me restasse algo naquele cartão, e assim entrei no supermercado com o carrinho vazio. Notei a multidão me observando como se eu fosse um alienígena, e perguntei:

– Que foi?

Esqueci de usar a língua reversa, de forma que provavelmente nenhum ouvido foi capaz de captar meus fonemas expirados. Mas ainda que pudessem captá-lo, sei agora que captariam um incompreensível “iôfik!…”

O interesse desapareceu assim que entrei com o carrinho vazio. Pareceram ter perdido totalmente a curiosidade. Continuei devagar, tentando não chamar mais a atenção de ninguém.

Peguei alguns pacotes no setor de sopas instantâneas, alguns refrigerantes, doces. No setor dos salgadinhos, decodifiquei com clareza um diálogo entre mãe e o filho pequeno.

– Filhinho, não se intrometa na vida dos outros!

– Por que aquele homem está devolvendo os salgadinhos?

– Que foi, filho?

– Mãe, olha lá!! – e aponta para mim. Mas o interesse desaparece logo em seguida, e eles continuam empurrando o carrinho para trás e devolvendo os produtos nas prateleiras…

“Vou enlouquecer aqui!!! Que se passa com essa gente? Será que todo mundo pirou de uma hora para outra?”. Sim, eu já tinha quase entendido o que estava acontecendo. Mas meu racional ainda me impedia de admiti-lo…

Cheguei com o carrinho cheio no caixa.

– Ei cara!!! Por que você está passando por aqui?

– Estou comprando esses produtos!! – tentei caprichar na minha pronúncia invertida.

Imediatamente o caixa perde todo o interesse, e eu passo por ele. Só quando ele me vê ensacando as compras, me pergunta:

– De onde você trouxe isso? Por que está tirando dos sacos plásticos?

– Ué, estou comprando! Quanto ficou?

– O que você está fazendo?

Que situação surreal!!!

– Simplesmente vim fazer umas compras! Basta me cobrar o preço justo, pombas!!!

Quando saio com os produtos ensacados, o caixa simplesmente parece  ignorar minha existência… Nem me cobrou por eles? Bom, pra que lembrá-lo disso então, né? Saí como se nada tivesse acontecido. Aparentemente, ao olhar de todos, parecia mesmo que nada havia acontecido…

—————————————————–

Cheguei ao prédio com as compras e disse ao porteiro, em português invertido:

– Bom dia, Zé!

– Boa tarde, César! – vendo seu olhar estranho, logo me lembro do conselho do Dr. Karnot, talvez tarde demais: andar para trás!! Algo simples (só precisava ter o cuidado de não bater a cabeça em nada) mas que pareceu me resolver grande parte do problema com as pessoas. Naquele momento o porteiro Zé parou de estranhar minha entrada. Simplesmente fez um comentário, que sabiamente ignorei:

– Colocando o lixo para fora César?

Ainda precisaria de um tempo digerindo os fatos até compreender o significado disso tudo. Na hora, só queria me encontrar logo com minha solidão, voltar ao meu isolamento seguro.

Fiquei um tempão encucado com aquela conversa doida com Laura. Eu a conhecia? Lembrando aquele rosto bonito, realmente queria agora que sim! Mas a conversa com ela não me pareceu nem um pouco coerente. Onde havia errado? “Preciso treinar mais essa língua esquisita”, e ligo a TV num programa de entrevista, para tentar entender um pouco mais sua estrutura. Mas que azar! Parecia já estar no fim! Continuei assim mesmo…

– Hehe, concordo! Essa sim é língua de índio!

Entrevista doida!! Do que ele estava falando ?

– Fora que é muito mais fácil fazer rimas. O idioma é praticamente monossilábico!

– De fato… – e o entrevistador começa a cantarolar: – “Do you like samba? I like too, and if you love the samba, I love you…” Concordo! É bem esquisito mesmo!

– Faz parte do estilo. As pessoas ESPERAM ouvir Heavy Metal em inglês. É sua língua oficial! Pense comigo agora ao contrário: não seria muito esquisito ouvir um samba cantado em inglês? Conosco acontece algo bem parecido.

O entrevistado parece parar para pensar…

– Lógico! Mas poucas. A maior parte é em inglês…

– Isto é mentira! Temos algumas composições em português sim!

– Mas por que vocês só compõe em inglês ?

Aquela entrevista ficava cada vez mais estranha! Que conversa de doidos era aquela? Percebi que simplesmente entender frases de trás para a frente não bastava. Ainda faltava alguma coisa….

– Primeiramente no Jethro Tull, sem sombra de dúvida! No começo ninguém acreditou ser possível fazer Heavy Metal sem instrumentos elétricos, usando apenas instrumentos de sopro e bateria. Provamos que estavam errados! Tire agora o vocal cheio de maneirismo do Ian Anderson e coloque o gutural rasgado do Lemmy, Motörhead… Isto dá uma idéia do som que produzimos.

– Bom, vamos continuar… Quais são suas influências ? Em quem se inspiraram ?

Sim, eu reconhecia aquela banda! Cova Rasa? Vala Comum? Acho que era alguma coisa neste estilo. Não entendo por que de repente banda e entrevistador começam a gargalhar do nada, mas continuo vendo a entrevista.

– Ué… Somos músicos, somos populares, e somos brasileiros! Portanto o que a gente faz é MPB.

Vejo que o vocalista Davidson Nogueira esboçou um sorriso meio cínico. De quê ele ria ?

– MPB??? – o entrevistador estava espantado!

– Quando chegamos ao top da MPB, nosso empresário nos alertou que o nome original não tinha um apelo comercial muito forte.

– E por que mudaram de nome ?

– Com certeza! A gente quis fazer uma brincadeira com a banda Sepultura, que nos inspirou muito para criarmos nosso estilo musical. Pouca gente sabe, mas Cova Rasa não é o nome original da banda. Em nossos primeiros ensaios na garagem do Tico tínhamos decidido pelo nome Vala Comum…

– Bom, então devem estar acostumados. Não se importariam de responder mais uma vez…

– É… talvez um pouquinho mais.

– Vocês já devem ter respondido isto um milhão de vezes, né?

– Hehehe! Ganhei a aposta! Eu apostei aqui com nosso baterista que esta seria a primeira pergunta da entrevista.

– Muito boa tarde, nação metal!!! Como prometido, aqui estamos com uma entrevista exclusiva com a banda Cova Rasa! Como não podia deixar se ser, nossa primeira pergunta é: de onde vem esse nome da banda ?

Anotei frase por frase, e nada fazia sentido.  Nem faço idéia do que me levou a pegar no telefone, mas dele logo ouvi uma voz suave:

– Tchau!

Como assim? Que começa uma conversa com “tchau”? Estaria conversando com uma italiana ?

– Alô? É a Laura? – logo reconheci a voz.

– César!! Tudo bem? Você que me deu, oras bolas! Adorei aquela nossa conversa! Posso passar aí no seu prédio para a gente se ver de novo?

– De novo??? Como assim? Como você tem meu telefone ?

– Adoraria escrever algo usando aquela sua idéia sobre a qual conversamos anteontem. Me autoriza a usá-la? Óbvio que antes de publicar eu te levo uma cópia para revisar…

– Quê? Conversa? Do que você está falando?

– Genial sua idéia, César! Me inspirou pelo menos uma dúzia de contos diferentes, explorando estes aspectos de um tempo correndo ao contrário… De onde foi que você tirou isso? Ah, e não tente se fazer de bobo! Não tem mais graça!

– Mas sobre o que você está falando, Laura?

– Alô? César? Queria discutir contigo alguns pontos daquela sua idéia maluca! Pretendo escrever um conto de ficção científica sobre o assunto!

– Alô??

Devolvo o fone no gancho assim que percebo que ele fica mudo. Imediatamente a campainha toca, e atendo:

– Alô? Alô? – mudo, nenhuma resposta.

Resolvo voltar às minhas anotações da entrevista. Como colocar um sentido naquilo? Li, reli… De repente, o velho conselho me veio à cabeça: “leia ao contrário!!!” Como mágica, a entrevista começou a fazer todo o sentido! Sou de novo interrompido pela campainha do telefone.

– Alô? – sem resposta. Mas após um clique invertido, ouço uma voz.

– Irazés? Isto é uma gravação, não responda ainda! Pelo jeito esta sua idéia funcionou: discar de novo assim que terminasse a conversa, para que você fosse avisado sobre a necessidade de atender ao telefone! Acredito que você deve já estar bem familiarizado com português reverso! Eu ainda não. Por isso, logo no fim desta gravação, te espero falar alguma coisa no seu sentido natural: estarei gravando, de forma que poderei inverter o áudio sem problemas. Responda após o beep! Que acha de conversarmos aqui no meu consultório? É no 121 da Praça Ramos. Estou te esperando… – BEEEP!

– Dr. Karnot!! Não vejo a hora de te conhecer, apesar de estar certo agora que você me conhece a bastante tempo. O mundo à minha volta está bem doido mesmo! Estou em tratamento? Há algum problema comigo? Pode me esperar! Estarei aí amanhã com certeza!

Cai a ligação.

– Nesse mundo doido, este psiquiatra parece ser o que melhor entende minha situação… Óbvio que vou aparecer lá no consultório dele amanhã!

Por David Machado Santos Filho

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