A TELA BRANCA DO COMPUTADOR

Faz quinze dias. Suo poças de frases incoerentes, enquanto o cérebro transpira gotas de idéias. Fiz o que pude. Engoli pílulas de não dormir, fumei três maços de cigarros a cada vinte e quatro horas. Bebi. O resultado foi a mesma tela em branco. As sílabas digitadas iam sendo apagadas, quase simultaneamente. Não passavam de elos desordenados de uma corrente materializada apenas na mente. Mas me prendiam a um pelourinho de esterilidade. Apesar de tudo, me sinto grávido de palavras que se recusam a nascer. Jamais conseguirei. Dizem que não nasci para escrever. Que os verdadeiros escritores criam sem se dar conta disso: escrevem como se respirassem.

Não penso assim. Não acredito em inspiração, mas em talento. Este é dado a todos diretamente pela natureza. Ou por mim. Só depende de ti escolher: esperar, ou passar a contar comigo a partir de agora. Estás te perguntando: quem escreveu isto? Por que o faria? O que quer em troca? Serei sucinto: um amigo e admirador. Ou… Um padrinho, se quiseres. O que quero em troca? Por enquanto que correspondas à minha amizade com absoluta lealdade. Mais tarde, veremos… Se concordares, basta deixar uma frase iniciando o próximo parágrafo. No dia seguinte, avaliarás. Se concordares, continua até onde for possível, obedecendo ao ritmo e ao estilo da minha escrita. Se não concordares… Bem, nem sequer cogito sobre isso. Sei o quanto desejas ser escritor…

Parei de escrever o primeiro parágrafo, desliguei o computador e me deitei. Não espero que acreditem em mim. Pouco importa. Hoje pela manhã, encontrei este trecho, em itálico, digitado abaixo do meu. Um conflito entre pavor e ambição se apoderou de mim. Venceu a segunda. Então, escrevi: Acredito e confio em ti sejas quem for.

Pois bem, enquanto estiveres passando por estas abruptícias crises de aguda apedeuticidade, hei de te dar a minha himenolepsia targinativa e pantotutélica. Meu trabalho será continuar o manituísmo; a berlinacidade. O teu, a mesma abstração anódina. Terás uma espanturpresa. Mas tenho de te prevenir. Se te afastares um denário do combinado, deixarás de contar comigo. De amigo, passarei a inimigo. E os conseqüefeitos imanentes serão apenas um creme de galinha preta comparados com os metempsicóticos que sofrerás. Não queria te ameaçar, apenas te precavenir contra eventuacasualidades dubiatórias. Para mais tarde não dizeres: ignorasticava tal proposiciatura. Por favor, não descontranheças a minha semanticologia, tampouco minha sintaxicidade. Lá, de onde venho, isto não tem importância alguma, como um dia saberás. Inicia ou (escreve, se quiseres) o próximo parágrafo, procuratentando aproximar da minha, a tua conteudística.[1]

Faltam vinte minutos para a meia noite e estou sem sono. Não estou com insônia, estou sem sono. Se estivesse, com insônia seria incapaz de qualquer ação. A falta de sono noturno é um estado de vigília semelhante àquele em que permanecemos durante o dia. O raciocínio é límpido, claro, preciso, translúcido. Por outro lado, durante as horas de insônia nada disto acontece. Pelo contrário, as idéias fogem, os pensamentos, além de esquivos são ilógicos, incoerentes… As sensações e as percepções seguem um em ziguezigue. Ora sentimos frio, ora calor. Outras vezes nos sobressaltamos com pequenos ruídos. Como se estivéssemos prestes a deparar com algum perigo. Além disso, não posso negar: estou com medo. Espero explicações minuciosas quanto à frase: “Lá, de onde venho, isto não tem importância alguma, como um dia saberás”.

Já disse o que podia ser dito. Ainda é tempo. Se quiseres, podes parar por aqui. Deixo escrito o meu trecho. Se amanhã não começares (ou não escreveres) o teu, estaremos quites. Se preferires continuar já conheces as condições. Encontrava-me no cais do porto a beber uísque tentando curar uma ressaca, quando um marinheiro se acercou de mim e me pediu um gole. Lembro também vagamente que depois de darmos cabo de meia garrafa, me convidou para embarcar e eu aceitei. Não faço a menor idéia do porquê. Daí pra frente não lembro nada: quanto tempo faz, para onde fomos, se bebi mais ou parei, enfim, ignoro qualquer coisa que possa ter feito ou deixado de fazer. Poucas vezes me senti tão angustiado quanto estou agora. Sinto um desejo louco de ter sono. Daria anos de vida em troca de dormir meia hora. Ou, pelo menos, se alguém me trouxesse um copo de qualquer bebida para me embriagar outra vez.

Estava nu e me sentia, pegajoso, fétido, suado, imundo. Levantei-me ansiando uma guerra nuclear. Não me lembro absolutamente de nada O que terei praticado? Teria ferido ou matado alguém? Estarei preso ou hospitalizado? Só então enxerguei uma escotilha e me dei conta de que estava em alto mar. Ainda cheguei a cogitar de alucinação; um delirium tremens. Apalpei-me, mordi o lábio inferior até sangrar, levei as mãos à cabeça e sacudi-a com violência. Não. Não era delírio. Tudo real. Então fiz uma coisa que há muitos anos não fazia – ajoelhei-me e implorei a Deus para me matar ou fazer aparecer à minha frente uma garrafa de bebida.

Eu sabia. Te conheço muito bem. És vaidoso demais. Sabia que não recusarias a minha ajuda. Tremia muito. Tentei pôr um pouco de água na boca. Ao abrir uma torneira nem ar escapava. O chuveiro também não funcionava. Somente nesta ocasião me dei conta da sujeira abominável sobre o corpo. Deixei o toalete e deparei com as minhas roupas e sapatos no chão, recobertos por uma espessa camada de fezes, vômito e urina. Estava a ponto de enlouquecer. Retirei a colcha também imunda de sobre o beliche,me envolvi nela da cintura pra baixo e fui a uma porta. Não era a de saída, e sim a de um armário embutido e vazio. Caminhei em direção à outra. Ao girar a maçaneta estava trancada a chave e não havia nenhuma na fechadura. Sempre tremendo muito, procurei em todos os lugares possíveis. Não havia chave alguma. Tinham trancado por fora. Ou seja, estava preso. PS – Não escreve mais aquela palavra… Tenho certeza que sabes qual é…

Comecei a gritar pedindo socorro e recebia o silêncio como resposta. Passei a esmurrar a porta e as paredes da cabine. Quanto mais gritava, mais meu desespero aumentava. Vencido pelo cansaço, deitei-me novamente sobre aquela poça de imundícies. Sentia, além do desejo compulsivo do álcool, uma sede do tamanho do Inferno. Lembrei-me das lições de catecismo onde me contaram que um homem rico, condenado por ter-lhe sonegado uma esmola, suplicava a Lázaro uma gota de suas lágrimas para refrescar-lhe a língua. E alguém do Paraíso respondia: “Não, ele não pode!” Não havia relógio, mas pela luminosidade através da escotilha, percebi que amanhecia. Ainda esperei cerca de duas horas, quando escutei um ruído que interpretei como sendo o de uma chave girando na fechadura. “Deve ser mais uma alucinação”, pensei. Não era.

Rindo deste teu pedido de socorro. Rindo muito. Quando a porta do camarote se abriu entrou um marujo alto, forte, barbudo e chifrudo. Trazia tatuada toda a superfície corporal. Os pés eram fendidos como os de um bovino. Ao me encarar, cruzou os braços e perguntou: “Tu sabes onde te encontras?” “Não!” “Tu te lembras do que fizeste?” “Não!” “Ainda te resta alguma esperança de saíres são e salvo deste navio?” “Sim!” Agora me responde tu, não estarei aqui, mas escutarei a tua resposta: Ainda tens esperança de saíres são e salvo deste “navio?” Aqui se encerra a nossa história. Te vejo em breve…

[1] Todos os trechos do meu incógnito co-autor foram escritos obedecendo à semântica e à sintaxe deste parágrafo. Eu, por minha vez, me esforcei pra fazer o mesmo. Todavia, decidi “traduzir” em linguagem convencional, visando à clareza do texto. (Nota do Autor)


Por Raymundo Silveira

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