AMIZADE

Chovia, mas não tão intensamente quanto o dia anterior.

     Quando a ambulância adentrou o pátio, ele ainda estava desacordado. Ao ser retirado do veículo, foi possível observar sua cabeça ainda enfaixada. Na lateral da ambulância havia o logotipo do hospital de pronto socorro da cidade. Bem, mas o qual seria o motivo de um paciente proveniente de um pronto socorro estaria fazendo em um sanatório? Existem múltiplas respostas, porém esse caso requer um relato mais específico justamente por sua específica, se não absurda, situação.

     Ao acordar, o que nos pareceu foi que o rapaz não aparentava um estado para estar no local onde se encontrava, ou seja, aparentava sanidade, mas por pouco tempo. O que se viu nos poucos dias seguintes de sua estadia, foram ataques de desespero em cadeia em que o indivíduo gritava que queria sair dali a todo custo pois existia alguém que o estava perseguindo pra matá-lo. Quem seria?

     O rapaz foi diagnosticado com um caso crônico de dupla personalidade, e justamente a sua segunda personalidade o procurava para assassiná-lo. Antes de dizer que isso é loucura, lembre-se de qual local estamos falando! O problema era que ele imaginava que sua segunda personalidade era uma pessoa fora do seu corpo, com existência material independente, era o seu melhor amigo. O motivo da perseguição, segundo o rapaz, era que o mesmo teria tomado a namorada da sua outra faceta o que acarretou a ira assassina. Os vizinhos do apartamento onde residia o rapaz começaram a perceber barulhos estranhos e conversas entre duas pessoas do sexo masculino.

     A namorada não mais era vista, por motivos óbvios, já que as constantes mudanças do rapaz a fizeram recuar no relacionamento, razão pela qual a mesma também foi jurada de morte, não pelo rapaz e sim pelo seu “amigo”. Discussões e mais discussões eram ouvidas. Até que em certo dia, gritos e ruídos de objetos sendo quebrados foram ouvidos seguidos de um silêncio. Os moradores acharam por bem, depois de várias tentativas infrutíferas de chamar pelo nome do morador, arrombar a porta. Ao fazê-lo encontraram o corpo do homem jogado ao chão envolto a uma poça de sangue que saía de sua cabeça. Junto ao seu corpo, foi encontrado um bastão de madeira quebrado que certamente foi utilizado para causar o ferimento.

     A polícia foi chamada, mas não obteve sucesso imediato na elucidação do caso, pois a única coisa estranha foi a janela aberta com marcas de digitais que, assim como as que foram encontradas no bastão, continham as da própria vítima, o que deu o caso como encerrado.

     Encerrado, mas reaberto. Reaberto por uma razão inimaginável ao nosso bom-senso. O que vamos relatar brevemente é algo que ultrapassa as barreiras do real como o conhecemos.

     A constância com que o paciente ficava agitado deixando transparecer pavor de seus olhos era imensa. Esperneava para que não o deixassem sozinho, que deviam procurar sua namorada etc. Tudo aos berros! Os dias transcorriam, até que em um fatídico dia, ainda cedo (não eram nem 21:00), gritos foram ouvidos oriundos do quarto do rapaz. Gritos indescritíveis que nos fazem tremer só de lembrar…

     Correram todos para o quarto, arrombaram a porta e o que encontraram não é digno de ser descrito em pormenores. O que podemos dizer é que o que conhecíamos como o rapaz, não passava de peças de um quebra-cabeça impossível de ser montado ou remontado. Na nossa concepção, nem um PhD. em Anatomia Humana teria vida fácil em identificar as partes corporais de nosso paciente. Certo, estranho não? Bizarro não? Mas ficou mais estranho quando deram por falta de uma simples parte, simples parte que conhecemos como coração. Todos ficaram abismados, pois ninguém entrou ou saiu do quarto, ou seja, seria impossível alguém ter entrado, ter assassinado o rapaz (assassinado?) e ainda levar o coração.

     Pois bem amigos, o certo foi que a polícia não quis meter-se muito nos meandros do caso (superstição talvez) e praticamente deixaram por isso mesmo. É, mas dois dias após tudo veio à tona novamente, todos não acreditaram na manchete do principal jornal da cidade que fazia alusão ao assassinato de uma moça. Assassinatos ocorrem a todo o momento, todos sabemos, porém este, meu caros, nos deixou pasmos e temerosos, pois a vítima foi encontrada em retalhos igual ao nosso “amigo” e igualmente sem coração. Estava sem o coração, porém o mesmo foi facilmente encontrado, estava pendurado no ventilador de teto do quarto da moça. Sim, estava pendurado. Pendurado e amarrado a outro coração…Temos a leve impressão de que não precisamos dizer a quem pertencia o outros coração, só sabemos que todos aqui começaram a dar mais apreço por suas amizades…

Por Marcone Mendes

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