CERCADO!

– I
Bang! Bang! – Tiros!
Ele acordou num sobressalto da cama da prostituta, uma de suas empregadas. A garrafa vazia que dormiu com os dois, como uma boneca de criança, caiu e quebrou. A luz era pouca – era luz de começo de manhã.
Não foram no quarto. Foi até a porta, cambaleando. Fez uma bagunça, tropeçou, derrubou coisas – ainda estava bêbado. Ouviu, procurou ouvir: nada. Nem no seu Saloon, lá embaixo. Então, até a janela, na ponta dos pés. Olhou sorrateiramente pela fenda, com medo de mexer na cortina, escondendo-se. Lá estavam, lá fora. Vindo pela rua. Muitos, talvez todos eles. A cidade inteira?
– Estrume!!! – praguejou. – Estrume!!! Estrume!!! Estrume!!!
Pegou só o cinto com as armas e as balas. Abandonou o quarto, sua funcionária dorminhoca e suas roupas. Desceu, saiu por uma janela, fugiu para os fundos.
Muitos sofriam e muitos morreram. Por causa dele. Não devia ter comprado wisky daquele traficante, não dele. E não devia tê-lo batizado. Não com pólvora, nem com alcatrão, nem com…
Os gritos chegavam de longe, junto com tiros para o alto. Estavam cheios de palavrões e maldições. No meio destes, algumas promessas:
– Nós vamos te dar pros peles-vermelhas!!! Eles também estão doentes!!! Vão usar seu couro safado para fazer tambores!!!
– Não!!! – E pôs a mão em seu escalpo, ainda no lugar.
Pegou o cavalo de outro, que não queria ser pego. Ele resistiu – não era o seu dono. No desespero, o fugitivo seminu sacou e encostou uma arma na cabeça do animal, e o ameaçou, cuspindo em sua cara. Situação ridícula, mas o cavalo pareceu entender e aquietou-se. Montou. A cela, sentida nua e crua, incomodava sua pele.
Para onde?
Olhou para o deserto. Aquele abismo encarou-o de volta. Era sua única saída. Ninguém pensaria que fugiu por ali… Que seria tolo ou louco o suficiente. Entrar no deserto sem água, sem comida… Sem roupas e sem chapéu também. Sem esperança. Nenhuma.
Foi.
– II
Olhou várias vezes para trás. Procurava-os lá no horizonte distante sem querer encontrá-los.
Ninguém.
Era culpado e todos o odiavam, até a natureza. O sol chicoteou sua pele durante horas. O vento resolvera cuspir areia em seus olhos, pequenos punhais. E investiu contra ele, como que querendo segurá-lo, impedi-lo de continuar, queria que fosse pego. E o animal parecia sacolejar mais do que deveria, só para torturar suas nádegas. Maldito!
O Sol passeou lentamente por sobre ele. Quando estava indo embora, a meio caminho do chão, suas forças se foram de uma vez. Escorreram com o suor. Não tinha nem o suficiente para ficar ereto na sela. Despencou sobre o animal, que finalmente pode diminuir o ritmo da fuga para o de um cortejo fúnebre. Pensara, antes do desmaio, na sorte dele: sua suadeira o banhava e refrescava. Maldito!
De repente… Trovões! Rugidos! Tiros! Eles!
Acordou. Gritou e virou sobre a cela, num movimento brusco. Caiu do cavalo. Este se ergueu e relinchou, quase sádico e provocante, e o abandonou em disparada. Adeus…
– Não, desgraçado!!! Volte aqui!!! Volte aqui!!!
Atirou no traidor para segurá-lo. As duas armas, várias balas. Conseguiu – matou-o.
Mais tiros vindo caçá-lo lá de trás, um enxame de disparos. Correu. Saltou para trás de uma pequena duna.
Estava…
– Nãããooo!!!
Sim. Estava cercado.
– Aaaaahhhhh!!!
Vomitou todo o seu desespero nesse brado. Não tinha balas ou sorte para lidar com todos. Tinha o ódio de muitos.
O que lhe restava?
Colocou os canos sob o queixo. Sentiu-os por um momento. Fechou os olhos, tremeu, chorou, quase rezou.
Bang! – dois sons, ouvidos como um só. Duas mortes, para garantir sua fuga. Sua vida espirrou para cima e choveu sobre as areias como um pequeno chafariz. Seu cadáver ajoelhou e caiu para frente, prestando reverência à morte, que ele invocara.
Pouco depois, o vento começou a intensificar-se e a assobiar, como que pedindo silêncio. A areia foi revolvida; O sangue foi misturado ao solo; Os rastros sumiram. Mas nenhuma pegada nem marca de bala, além das do fugitivo, foram apagadas. Ninguém mais ouviu o seu grito ou o disparo final. Foi assombrado por fantasmas… delírios e miragens. Bebida, Sol e desespero – eis tudo.
Ao ser encontrado, seu esqueleto falaria aos vivos de uma história só testemunhada pelos carniceiros. Um conto dos abutres.
Postado por Postado por José Eduardo Bertoncello no blog A Mosca no radar
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s