O NOVELO – 2 DE 4

Ele pensa se tratar de um urubu, mas qual não é sua surpresa quando se depara com um corvo negro.

Joel diz a si mesmo que isto não pode ser verdade. O corvo então agita suas asas. Joel não quer admitir, mas está com medo. Muito medo. Apavorado, esquece-se de trancar a porta do carro. ‘Que se dane. Não há maneira de ninguém vivo entrar aqui. Não existem corvos no Brasil. Isso é o cansaço. Preciso de um bom banho.’

E assim Joel fez. Tomou seu banho. Antes deu o costumeiro beijo na testa em sua esposa, jantou, vestiu seu pijama amarelo e dormiu.

Joel teve um sono pesado naquela noite. Em momento nenhum se debatera, mas seu espírito se agitara dentro do corpo.

Ele viu um homem de baixa estatura que trajava roupas cinzas caminhando por um longo caminho subterrâneo. Este homem portava uma máscara de oxigênio, e uma bengala branca. Parecia usar-na como uma varinha, manejando-a entre os dedos. Ele tateava as paredes do corredor como se procurasse algo. Dado momento, percebeu o homem escavar a parede. Não sabia por que nem como ele estava lá. Apenas sabia que estava. E aquele lugar era de certa forma conhecido por Joel. Será que ele poderia realmente lembra-se disto? Será que Joel já vira este estranho? Quem era aquele exótico andarilho das trevas a caçar tesouros numa velha mina aparentemente abandonada? Que seriam tais tesouros?

Talvez nem mesmo Joel poderia saber.

O homem, juntamente com seu cenário, sumiu. Joel sentiu-se; seu corpo ou sua alma, não saberia dizer; afundar numa camada de gel, ou um véu. Essas sensações eram novas para ele. Porque Joel não sonhava. Não sabia qual o sabor de uma nuvem de chuva, que as estrelas são bolas de luz frias e explodem ao serem tocadas, que a lua torna-se cheia quando grávida do rei-sol.

Joel estava agora em um corredor da universidade em que lecionava. Lentamente ele subiu as rampas de acesso. Ouvia barulhos estranhos, como o de ventosas desgrudando de algum lugar. Súbito, ele se depara com um inseto gigante. Ele era azul. Como um carrapato bêbado de sangue.

Joel desce as rampas correndo. Chegando de volta ao primeiro andar, vê uma cena horripilante: o mesmo homem de máscara conduzindo sua bizarra companhia de insetos gigantes. Joel dá um grito de agonia. Como em outras tantas vezes em que era surpreendido no meio da noite quando criança. O homem muda de direção e passa a perseguir Joel.

Ele estica sinistramente sua bengala derrubando Joel, que cai ao chão, para levantar-se e cair novamente. Repetidas vezes isto aconteceu. Joel sobe as rampas então. Ele se depara com o inseto que defrontara anteriormente, pois havia se esquecido dele. O inseto o agarra. Joel, paralisado de pavor, apenas se entrega. Tão facilmente se entrega. Mas o divertimento de uma caçada é a caçada em si e não a captura da presa. O inseto prende Joel entre suas patas, as mandíbulas se abrem, uma gosma verde é ejetada de suas entranhas e acerta em cheio Joel. Assim como o cascudo que dera no pequeno menino na praia. A gosma queima seu rosto. Mas ele pode suportar. Seus bigodes e barba estão verdes. Joel dá um grito. E chama por sua mãe.

O papel simbólico da mãe permeia a existência humana desde o mais remoto tempo. Dizem até mesmo antes de o homem tornar-se o ‘homem que sabe’, como se o homem soubesse de alguma coisa. Afinal, homens que sabem não clamam pela mãe. Eles a honram e não exploram seu ventre, sua fertilidade. O matriarcado permeou os primeiros cultos da humanidade. E mesmo em mentes racionais ainda há um pouco do culto à mãe, da mãe que protege, alimenta, afugenta o menino brigão que implica com seu franzino filho.

CONTINUA…

Por Rodrigo Garcez Martins

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