O IGARAPÉ DO INFERNO – 03 DE 18

Eu passei a vida toda de palavras. Eu passei a vida toda de palavras de nada. É a mesma estória! Esta é a mesma velha merda! Estou só. Estou perdido! Mas sei. Lembro-me de que eu era assim, homem do qual de mal se podia dizer perdido. Do pior. Talvez até fosse um vivente das Amazonas, da exótica Amazônia minha terra, terra santa e mata. Palavra? Nada, nada, as palavras nada valem, eu passei a vida toda de palavras de nada, mais nada, nada mais.

Eu passava os dias e as tardes. A mim. Foi, digo. Trabalhar é executar aquelas danças de índio, sabe? Você vê? Sabe? Também não, não? Você está fazendo o quê aqui, hem? Quando? Você tem medo? Sei. Eu? Ah ah ah, você me faz rir, há o cheiro ácido da morte em cada ponto e canto.

Eu passei a vida toda de palavras de nada! Canto. Te paguei pra ouvir, te peguei para ler, esse serviço feito. Mas fica de olho, que eu te engano, vê se não acabou. Sim. Ah, estou mais muito mais morto que vivo, sabe, vou até te contar a estória secreta do meu fim, do que vivo desta morte. É, já fiz muita coisa, já.

Pois eu era assim, tão certo que era. E não parava em canto em ponto algum, incomodado por bicho, viajando, pelos rios, em Manaus, Paris. Às vezes sumia, era assim. Homem dúbio, substituí o sim e o não. Vivia às vezes no Seringal, com índios, nordestinos, homens da balata, e aqueles todos bêbados, na palha da desgraça, tapiris cheios de escorpiões e aranhas caranguejeiras. Beira-d’água tem mosquito, lama. Cheiro podre de peixe, lixo, merda, ácida.

Solteiro. Raramente com alguma cunha, alguma puta, caboclinha nova, de passagem. Dizem que fodi com a Conchita del Carmen, não sei não. Zequinha entre homens, comia com os homens, eles. Dizem que era bicha. Não garanto. Era assim, no quente. Comia peixe molho grande, caldeirada de tambaqui, tucunaré cozido, pacu frito com cará, sardinhas, leite de castanha, pirarucu de casaca, farinha do Arini com banana assada, o no escabeche, no assado na folha da bananeira, tucunaré, pato, no tucupi, tigelas de açaí, beiju, tapioca branca brava, coco ralado, cuscus de milho verde, ralado, cozidos no vapor — tudo com garopa, sono profundo na rede, colo de rede de prazeres, prazeres do quê? Você ainda acredita? Ah ah ah – eu sou ele, porra: o Zequinha Bataillon. Ainda bem. Ah ah ah ah… Sacana. Canto: Zequinha era capaz de embriagar e hipnotizar aqueles homens todos, que o amavam, que o idolatravam, todos, calados, sorumbáticos, mergulhavam num silêncio verde, o silêncio verde, a cola, a sela as almas, vivi aquilo.

Zequinha ficava no Palacete Manixi. Paxiúba dormia debaixo da cama, como um cão. A Caxinauá contava estórias tristes, de Índio, fodia. O Amazonas é um lugar bonito, amaldiçoado… Maldição de Ajuricaba, o herói do Rio Iiaá. Ajuricaba caiu na emboscada dos soldados, amarrado a ferros, posto no fundo. No meio da viagem para Belém se libertou e saiu matando os soldados que estavam no convés com a corrente e gritos lançando-se nas águas escuras do Rio Negro, onde desapareceu. A morte é a escravidão! Queriam-no vivo para o humilhar, os fidalgos portugueses. Não! Antes morrer, amaldiçoou ele no rio. Não há peixe ali. Isso aconteceu em 1729. Depois, Belchior Mendes de Moraes, um capitão, fez a grande chacina, matou mais de 30.000 índios, cerca de 300 malocas, e o rio passou a se chamar Rio Urubu. Mais tarde, 40 mil índios foram mortos por uma epidemia de varíola, espalhada de propósito em presentes, roupas. Varíola infecciosa, contagio por vírus, o corpo cheio de pus, erupções purulentas, muito horror aquela morte, raquialgia, máculas, pápulas, vesículas, pústulas, cegueira, crises nervosas, respiratórias, a morte lenta, no meio da selva, hemorragias cutâneas, o corpo podre comido de formigas carnívoras. Morte.

Me dá a tua mão! Estou morrendo! Estou dizendo. Tenho pouco pouco tempo de vida. Eu digo. Naquele dia Zequinha deu sumiço de si, no meio da floresta, a mata cheia de cobras, insetos, sanguessugas, moscas de ferrão, o pium, o carapanã, as mutucas, as cabo-verdes, os potós, os catuquis, os morimbondos, as cabas, as muriçocas, as suvelas, os besouros, as formigas. Ah, as formigas. A saúva antropófaga devora um vivente em minutos. Abandonados, os cadáveres da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré quando se ia buscar só ossos brancos. Tem a formiga de fogo, a saca-saia, a lavapés, a manhura, a cabeçuda, a taioca, a carregadeira, a táxi, a tracuá. Principalmente a tocandira, grande, peluda, dói tanto que dá febre. E a formiga roceira, a cortadeira, a guerreira, a correição… Martius disse populações inteiras fugindo das formigas. As açucareiras são capazes de por pra correr um exército. São milhares milhões bilhões de bilhões de formigas. Atravessam matas, rios, em balsas de si mesmas.

Zequinha voltava do Rio Jordão.

Tinha ido ao Barracão do Manuel de Faria, chamado “Trapiche do Commercio”, onde ele comprava os vinhos franceses, os Collares, do Porto, Whisky Black, Alyrrod, Eduardo VII, Whitelys, Black Botle, o licor Benedictine — : Chartreuse, Pipermint, Anesone, Anizete, Curaçao d’Opio, Marraschino, Kümel, Cognac Macieira, Bisquit, Vermouthes. A Champagne Duc de Reims. E fiambre, o presunto português, sardinhas em lata, queijo da Serra da Estrella, queijo Eyssen holandês, a lagosta o salmão, o chá Lontra. E tinha ali Gramofones de Victor, discos de Caruso, máquinas de costura New Home, selas inglesas…

Eu tinha ido ao Rio Juruá, de 3.200 km de extensão — águas velhas, nervosas, barrentas — no copo dágua apresentam em minutos três dedos de argila no fundo. No Juruá viviam 49 tipos de índios — rio cheio de perigos, torrões, salões, pedrais, muiunas, rebojos, ituranas, panelas, eu passei a vida toda de palavras de nada.

CONTINUA…

Por Rogel Samuel

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