O IGARAPÉ DO INFERNO – 05 DE 18

Depois da visão das meninas numas Ribamar não conseguiu adormecer e nada disse para o tio e para o irmão. Não. Mas voltou, no dia seguinte, apaixonado. Olha, rapaz , aquelas pequenas – paradas molhadas olhadas nem alegres nem tristes sem medo sem roupas sem nada, olhavam e eram lindas! Ribamar amou aquilo mergulhou naquilo mas não viu o formigueiro em que se metera e enlouquecido de dor e de formigas de fogo mergulhou no igarapé.

 Mas já estava alegre, e criança, e acena para as índias que, imóveis, se diziam, estátuas e Vênus, as duas.

 Ribamar ofereceu um sorriso aberto, sacana, mas elas nada não reagiam. Ele jogou água nelas e cego de paixão lançou-se para atravessar o rio, foi sair bem mais abaixo, metros abaixo, levado pela correnteza, vindo pela contra-correnteza da margem vindo, aproximando-se, as duas nada não diziam, o sexo da menina maior luminoso perturbava a escuridão dos olhos da emoção do dia, a vista, ele também estava nu, e tudo aquilo era bonito aquilo, a índia estava ali, ele vindo meio bêbado, não, não sei, basta um segundo, ele era excessivo, basta a mão tocar a mão… a menina mais nova lhe dá uma dentada!

 ‘Ah! ‘, dentou, ah, bem fundo, o sangue espirra alto e vermelho da mão que o dente morde, afiado, gritado. Mas a menina maior, cunhamuçu, mesmo assim se deixa navegar beliscar gargalhando ih ih ih à moda que escarnecia num namoro selvagem, querendo apalpá-la que ela zombava e brincava ih ih ih e muito se divertia.

 No terceiro dia as índias não estavam ali.

 Não e não, e em nenhum lugar. Ela se transformaram naquela flecha especada, intimidando, um aviso de morte com pena vermelha, que acenava e Ribamar, assustado, voltou ao tapiri e masturbou-se.

 No meio da noite um trovão de fogo o acordou.

 Acordado, o alarido bem forte bastante, era o quê? O quê? O tiro no seu ouvido numa centelha de vivacidade e perigo iminente que luz não mas sim o inferno vivo ali presente, era fogo, fogo os Numas a calamidade em tudo, e irmão já morto uma chuva de flechas invisíveis o tio Genaro atirando a esmo!

 Não se viam os Numas. Nada se via. A casa no incêndio os índios invisíveis e correndo pra fora dali Ribamar fugiu mergulhou naquelas águas e desapareceu na noite profunda e escura do Igarapé do Inferno se arrebatando se arrastando para longe da desgraça no desastre do tapiri em chamas.

 Os Numas não o quiseram ferir, o Ribamar.

 Os índios o respeitaram e o Igarapé do Inferno o engoliu.

 Não o quiseram matar.

 E ele mergulhou levado levado quando de súbito os tiros pararam a fogueira desaparecendo, a luz sobre as árvores se apagou, os gritos sumiram, o silêncio engoliu por inteiro o Igarapé do Inferno, levando levando no muito escuro, no rumo da correnteza, batendo em paus e margens, prosseguindo ainda em sonho o pesadelo da noite breu, sem estrelas e lua tudo muito noite, nem sentia a tragédia hipnotizado torporizado numa surdez e êxtase da vida e dos limites da morte.

 Quando amanheceu estava no porto do Palácio Manixi.

 Sombras, segredo, lágrimas e harmonia.

 Os poetas tinham os poemas, e os homens? como é, porra? quê? que? sei lá! Tudo aquilo aconteceu sim, no Seringal Manixi.

 Ribamar foi trabalhar ali, no Palácio, onde tudo era possível. Ficou uns tempos no Caraocara. Mas tem mais, tem. Tem Ribamar nessa minha estória de nunca acabar, que ainda nem começou, espere espere. As coisas se tem devagar.

CONTINUA…

Por Rogel Samuel

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