O IGARAPÉ DO INFERNO – 08 DE 18

Tudo aquilo está hoje em ruína descontínua, tudo aquilo acabou, a minha descrição corresponde ao que ele era, o Palácio, há muitos anos, na minha mocidade, na perdição da minha memória. Mas as árvores no meio da floresta estão lá, para confirmar a existência e elaboração.

 Ainda vejo bem o corpo retorcido daquele edifício oitocentista no alto da terra-firme, plantado como marco por conta de rios de sangue e de milhares de libras esterlinas, o reluzente ouro da borracha.
Era longe, muito longe, afastado de tudo, afastado de si, distante.

Eu não sou. Sou de outra época. Sou do tempo de um capitalismo primitivo, arcaico, luxuoso, tricotado em filigranas de ouro e pedras preciosas, de um outro modo, de um outro tempo, quando o Palácio buscava sua imagem na natureza perdida.
Ali havia uma sala de música, onde se via um pequeno piano Pleyel, e a vitrine, onde Pierre Bataillon ostentava sua coleção de violinos (o Guarnerius, o Bergonzi, o Klotz, o Vuillaume), as gravuras, representando Viotti, Baillot, David, Kreuzer, Vieuxtemps, Joachim. Havia a máscara mortuária de Beethoven, laureada em bronze, de Stiasny.
Mais além a Biblioteca, em que Madame Sabóia lia em voz alta versos de Lamartine.
Depois vinham salas e salas se interrogando para quê, salões e galerias vazias e inúteis, cômodos se intercomunicando por portas sucessivas que se abriam em galerias e corredores restritos, e que se fechavam em si mesmos, ao som do piano de Pierre Bataillon em diálogo com o violino de Frei Lothar naquela sonata de Mozart.
Como alguém que se concentra em si, num poder surdo, ágil, terrível, que se expressava nas paredes de estuque, pintadas com irisações de ouro esverdeado e escuro, numa entrançadura de ritmos e galhadas e folhagens de vegetação alucinada e japonesa que subia por aquelas formas até ao teto refletidas nos espelhos de cristal, nas flores dos lustres, de modo a evocar a lembrança de algum exótico prazer.
Sim, sou eu um velho escroto de um outro século. Por isso me demoro em descrever, tudo em minúcias, aquele Palácio onde vivi, onde observei, onde apreendi, durante tantos anos. Eu passei a vida toda de palavras de nada.
E aquela povoação de objetos e móveis antigos, descrevendo monstros e mitos: a cômoda veneziana, a visão da atividade sexual da imagem; o armário de Boulle, as cenas de caça com javalis do consumo e cães mastigando sangrentas aves abatidas a tiros pelo Duc de Chartres e outros cavaleiros fidalgos, na idiotia de vistosas calças vermelhas e botas pretas, e o silêncio rigoroso do gabinete inglês; a dinâmica, a morfologia prostituída do divã de Delanois; a unidade e variante elíptica do canapê – os cipós, íris, cardos, insetos estilizados, filiformes, incorporando-se aos móveis e às linhas dos painéis franceses, num delírio neo-rococó.
Dá para descrever as estátuas sobre lambrequins? E as rocalhas e rosáceas ecléticas, urnas nas cimalhas dos balcões, as cariátides, os capitéis?
Pierre Bataillon compôs e consumiu e fez em detritos toda a sua imensa fortuna na consumação daquelas mobílias suntuosas, amontoadas e sem uso, no processo da esquizofrenia desejante na reprodutora boca desumanizada para pôr fim ao exagerado dos seus lucros, no autofágico prazer do espetáculo de seu capital luxuriante, arte vã, fútil e suicida, em doença, em loucura, em mortes e crimes impunes vários povos desapareceram ali, nos critérios de uma singular estética do capital, nos vazios de um paganismo coquete, amoral e moderno.
CONTINUA…

Por Rogel Samuel

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