VÁ DORMIR BRUCE – PARTE 1 DE 3

Bruce acordou com o som do policial chamando seu nome. Ele nem tinha percebido quando pegara no sono, mas seu corpo estava dolorido – o colchão era da pior qualidade, ele constatara – e seu braço rangeu feito uma porta velha quando ele se apoiou para levantar – era aquele velho ferimento do seu trabalho como carpinteiro.
– Bruce, você tem visita – alegou o velho Bill, um policial na casa dos quarenta.
O rapaz cutucou Ary, um homem negro deitado na parte de cima da beliche. Bruce ainda não entendia como um metro e noventa de altura se encaixavam dentro daquele cubículo que chamavam de cela. E muito menos, como Ary conseguia fazer suas necessidades fisiológicas no vaso ao fundo da cela. Ele deixou este pensamento de lado e puxou um chiclete embaixo do travesseiro do companheiro de cela enquanto o guarda abria a cela.
Bruce foi algemado e levado ao salão de visitas. Ele ainda não sabia quem era. O advogado querendo ganhar mais dinheiro com uma causa encerrada, pensou. Mas o rapaz estava disposto a pagar sua pena. Cada dia. Cada hora. Cada minuto. Independente das intenções do advogado pilantra, Bruce considerava justa a sua pena e não se arrependia de estar ali. Fiz o que qualquer homem em meu lugar faria, resmungou um pouco alto demais pois o guarda o encarou por um instante.
As longas e enormes portas de ferro do salão de visitas abriram-se rugindo e as mesas espalhadas no enorme salão apareceram. Aquele lugar tinha um cheiro de mofo e as paredes mal lavadas causavam uma sensação de tédio em Bruce. Mas foi então que o rapaz a viu. E quando isso aconteceu, ele travou. Parou de mascar o chiclete imediatamente. Apertou seu casaco de couro contra o peito. Um tremor súbito escalou suas pernas e seus braços até arrepiar todo seu corpo. Ele olhou, incrédulo. Era Denise? Não podia ser verdade. Não podia ser real. Mas era. Lá estava ela com o velho vestido azul marinho que ele tinha presenteado no terceiro aniversário de casamento.
Bill o cutucou forçando a andar rumo à mesa onde a mulher esperava. Bruce identificou a mancha de nascimento na bochecha de Denise. Era mesmo real?
– Você veio – ela sorriu ao vê-lo.
Ele sentou lentamente com os olhos arregalados e as mãos trêmulas.
– O que houve? Você está bem? – as mãos dela se aproximaram, mas ele afastou.
– Você… Como isso é possível?
– O quê? Eu vir te visitar?
Ele engoliu seco.
– Por que eu não viria? Você é meu esposo e eu te amo – ela sorriu, o mesmo sorriso
belo que Bruce amava.
– Você… Eu – seus olhos abaixaram rodopiando em volta de si mesmo.
– Você fez o que precisava fazer, Bruce. Aquele homem ia matar nossa filha. Você não
teve escolha.
– Filha? – ele não lembrava de filhos ou filhas.
– Jessica – Denise respondeu ajeitando o cabelo – Pequenina, branquinha, que tem os
mesmos olhos do pai.
Ele a encarou, confuso.
– Eu não… Eu não tenho filha.
– Como não? Você adorava levá-la nos ombros e depois ficava com o braço dolorido.
Bruce mascou o chiclete, quase se esquecera que ainda estava em sua boca.
– Bruce, você não se lembra da Jessica?
Ele balançou a cabeça negativamente.
– E você… – apontou para Denise – Eu… Eu matei você.
– O quê? Que diabo está dizendo?
Bruce colocou suas mãos na cabeça e apertou. O que estava acontecendo?
– Eu matei você! Você estava me traindo com o Ray, não se lembra, vadia? Então eu te matei! – as mãos se fecharam num punho e ele socou a mesa. Uma. Duas. Três vezes.
Denise pulou para o lado, enquanto dois guardas apareciam para agarrar o desnorteado rapaz.
– Bruce, você enlouqueceu? Eu nunca trai você! – os guardas o ergueram, agora dominado – E o Ray é seu melhor amigo! Ele nunca faria isso contigo.
Bruce olhou incrédulo. Como era possível? Ela estava ali, falando, se movimentando, sorrindo como sempre fizera. Mas ele lembrava muito bem do facão e do sangue. Recordava dos miolos e do rosto desfigurado de Denise. Como era possível?
– Você está aqui porque matou o sequestrador de nosso filha. Você não é um assassino.
– Você é um herói, Bruce.
Não houve tempo para mais nada. Os policiais o levaram de volta à cela e a única coisa que ficou para trás foi o som da voz de Denise gritando: “Um herói. Um herói, Bruce.”

Continua…

Por Ômega Produções

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