A CURVA DO SONHO

— Tome, estrangeiro.

Foi assim que aquela balconista de olhos envergados, vermelhos e abertos a ponto de não lhe sobrar mais nada de pálpebras, deixou em minhas mãos uma pequenina caixa de oito faces, cada qual de uma cor única, que no todo fazem dela algo semelhante a uma espécie de jogo. Antes que eu saísse ela ainda me entregou um objeto aparentemente familiar: era pontudo em uma das extremidades e abaulado na outra, disse-me que era uma bomba de inflar e que seria útil para o que aquela caixa continha. Achei isso muito estranho, pois não consegui, por mais que tentasse, fazer sair daquele bastão um único sopro.

A rua me parece deserta, nunca a tinha visto tão lúgubre e, caminhar, algo que sempre me foi agradável, agora parece penoso a cada passo que eu lanço sobre o asfalto. Logo adiante tudo se modificou, vejo umas centenas de pessoas a andar por todos os lados esbarrando-se uma contra as outras, sem que se ouça uma única fala ou se reconheça um único rosto. Sou surpreendido por minha própria fúria. Resolvo então fugir. Corro como nunca havia feito antes, procuro um lugar não totalmente escuro, mas de luz escassa e ao encontrá-lo, tendo sido guiado pela sombra de um esquife que se sobrepunha à marquise da única casa que eu havia avistado, me lanço ao chão. A caixinha precipita-se no ar, não a perco de vista nem por um instante, vejo-a se abrir e no exato momento da descoberta sou pinçado do sono. Nada incomum, aliás, é sempre assim: esse despertar ofegante do sonho. Deve ser defesa da alma esta cegueira necessária. Acordo em definitivo e fico imaginando o que haveria naquela pequena caixa, mas compreendo que saber não é importante. As lembranças do pesadelo, por instantes, afastam meu pensamento do horror que a vida havia me presenteado há alguns dias, porém, alguns poucos ruídos vindos da rua denunciam meu estado de vigília e avisam que já não me era mais permitido sonhar. Parece que foi ontem que o enterramos; e já estava lá, insistente, recostado sobre o batente da porta, como se nada tivesse acontecido.

Lembro que me vi pálido a primeira vez que o encontrei; era uma manhã de domingo. Ele estava sentado no sofá. Avistei-o como um relâmpago enquanto eu ia do quarto em direção à sala,. Pensei ser uma ilusão, porém, esta mesma cena repetiu-se seguidamente até que certo dia ele permaneceu por mais tempo, o suficiente para que eu me aproximasse. Atônito, ouvi queixar-se de uma terrível dor de cabeça. Os dias se passaram, suas visitas se tornaram constantes e tudo passou a ser natural.

Conversamos durante horas sobre assuntos dos mais diversos: lembranças e coisas das quais nunca tínhamos falado enquanto estivera vivo.

Uma das recordações que insistentemente retornava em nossas conversas era uma história de infância que foi protagonizada por nós, mas pra falar a verdade ele já não era tão pequeno assim, pois já tinha vivido pelo menos quinze anos. No final da nossa rua, quando ela ainda era uma rua (hoje já não sei em que se transformou) vivia uma senhora em casa distante pelos menos dois quarteirões de qualquer outra habitação, mudou-se para lá já sozinha no mundo, e possuidora ainda de um temperamento introvertido, fez com que se tornasse rapidamente comentário geral nas redondezas. Na minha terra, esses tipos de pessoas velhas e solitárias eram geralmente traduzidas por bruxas e tornavam-se vítimas das fofocas das senhoras tagarelas de portão e das traquinagens dos garotos. Uma noite de calor de janeiro meu irmão desafiou-me a enfrentar esta então bruxa que atendia pelo nome de Margarida, da nossa inquieta rua. Seu plano era no mínimo perverso e, mesmo assim, aceitei sem relutar. Atrás da casa da vítima, bem próximo ao muro existiam pequenos morros, ideais para o nosso escudo, e vigia. Assim que se apagaram todas as luzes da casa ele sorrateiramente enveredou-se através do muro e pulou como um relâmpago para dentro do quintal. Fui logo atrás e já me encontrando junto a ele passamos à segunda parte do plano. Acendeu rapidamente a pólvora do rojão, coisa que já era bem treinado e jogou pela soleira da porta, e partiu como um foguete como se fora ele o próprio rojão; embora mais lento, não me demorei a alcança-lo. E como se nada estivesse por acontecer nos recostamos no muro de uma casa bem próxima a nossa vítima para ouvir o estouro que se seguiu. Esperamos, mas para nossa surpresa nada aconteceu nenhuma luz se acendeu naquela casa, nenhum movimento nos quinze minutos que permanecemos ali com a sensação de fracasso. No dia seguinte próximo do meio dia, uma multidão se agitava em frente da nossa casa, e gente correndo e gritando:

— A bruxa morreu! A bruxa morreu!

 Chego a pensar que eu esteja enlouquecendo, quando me vejo junto a ele fico preocupado em ser flagrado por alguém que imagino me veria tagarelando sozinho, e acho que por isso nossas conversas nunca foram muito tranqüilas. Mantive nossos encontros em segredos até que, em uma conversa com minha irmã Clarice, resolvi com muita prudência confessar-me, mas nem imaginava a surpresa que eu teria pela frente. Bastante espantada disse-me estar sofrendo da mesma experiência e que também recebia suas visitas freqüentemente no inicio da manhã, foi então que notei sua expressão de cansaço e a presença de protuberantes olheiras em sua face, que alias sempre fora tão bem cuidada, percebi também que estava sem nenhuma maquiagem, e não me recordo de nenhuma outra situação que eu a vi assim. Confessou-me não conseguir dormir mais que três horas por noite, pois sempre era dominada pela angustiada na expectativa de sua visita. O mais estranho de tudo foi a coincidência de nossos encontros, os dias, as horas. Como ele poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo? Nos vimos ali, pasmados diante de uma realidade que jamais havíamos imaginado.

Entre os inúmeros relatos descobrimos que nenhum de nós teve a coragem de referir-se à sua morte, e pelo contrário, este assunto sempre foi evitado. Concluímos então que ele o desconhecia, ou então que não quisera aceitar tal realidade e que este seria o motivo pelo qual ele não teria ido para onde imagina-se que devam ir os mortos. Decidimos que deveríamos informá-lo, ou confrontá-lo com a realidade e convencê-lo a ir e, se nada disso adiantasse teríamos de ser mais enfáticos e dizer que sua presença não era bem vista entre nós, mesmo sabendo que com isso perderíamos sua presença, mas que motivo teríamos para prende-lo a este mundo? Já não haviam motivos para sua permanência, nada daquilo que a vida nos contempla pareceria servir a ele, pois tinha se tornado um fantasma, e do que adianta simplesmente vagar sobre os lugares e as histórias de sua memória?

Acreditávamos que o informando de sua morte e de nossa decisão, ele assim poderia decidir o que fazer. Foi incumbido de tal tarefa. Decidi fazer o mais rápido possível. Não pude dormir naquela noite, torci para que ele viesse na primeira hora da manhã para que tudo passasse o mais rapidamente possível. Cheguei a pensar que eu o estaria matando novamente.

Mal amanheceu e lá estava ele no sofá, como sempre, olhando fixamente para o chão. Aproximei-me pelo seu lado esquerdo e o segurando no ombro disse-lhe que tinha algo de importante para falar. Olhou na minha direção e por um segundo relutei, mas mesmo com a voz acanhada falei:

— É sobre sua morte.

— Eu sei.

Nos olhamos por breves instantes e inesperadamente começamos a gargalhar histericamente por longos minutos. Depois disso, dirigiu-se em direção a porta e antes mesmo de chegar até ela, sumiu. Jamais o vimos novamente.

Por Flávio Marinho

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