C.H.I.L.D. – ESTRANHOS FENÔMENOS – PRÓLOGO


– Finalmente assaltaremos esse banco Clark. Já não aguentava mais – disse o homem dentro do cofre do banco.

– Foi muito fácil entrar aqui Bruce, mas é melhor ensacarmos toda a grana e jóias e darmos o fora o mais rápido possível. Onde está Diana?

– Está vendo se está tudo em ordem.

O TD BANK é um dos bancos mais amigáveis de Washington DC e por consequência onde a maioria das pessoas depositam suas economias o que faz que os assaltantes prefiram assaltar os mesmos, mas devido ao grande histórico de assaltos no passado, o banco tem suas defesas.

Assim que acabou de falar Diana chega correndo.

– Pessoal precisamos fugir. O grupo de defesa do banco chegou.

Clark olhou meio que assustado para ela e disse:

– Não podemos sair daqui sem nada.

A moça preocupada disse:

– Não seja idiota, não adianta nada pegarmos esse dinheiro se formos para trás das grades.

Bruce que ouvia a conversa sorriu e bradou:

– Parem de discutir já peguei bastante aqui na sacola. Vamos embora.

Os três gatunos saíram correndo na direção em que entraram mas quatro homens chegaram com armas pesadas e os bloquearam.

– Parados. Ninguém assalta mais esse banco desde que nossa força existe e vocês não acham que vão escapar né?

Os três gatunos ficaram que como paralisados.

CONTINUA…

Por Alci Santos

OBS: PARA AJUSTE DA TRAMA, ALGUNS NOMES DE PERSONAGENS FORAM MODIFICADOS.

VÁ DORMIR BRUCE – PARTE 3 DE 3 – FINAL


– Bruce, acorde. Você tem visita.
Foi a voz que o trouxe de volta. Mas a luz no local ofuscou seus olhos e ele levou a mão
ao rosto para amenizar. Só então notou que a beliche e a cela tinham sumido, ele estava numa sala totalmente branca, vestido de branco, deitado em uma cama branca.
Uma moça de rosto amigável o chamava.
– Onde está? Onde está o Ary?
– Bruce, você foi transferido para cá. Não se lembra?
– Eu… – ele apertou os olhos – Por que? – Você matou o Ary, Bruce. Já faz 6 dias.
Ele sentiu um choque transpassar seu corpo inteiro.
– Por isso te transferiram para essa clínica. Você precisa de tratamentos. Você precisa de ajuda.
– Eu nunca… Ele era meu amigo.
– Eu sei. Não foi culpa sua. Você fez o que precisava fazer. Agora venha, você tem visita.
Bruce levantou e a moça lhe deu alguns bolinhos de chuva enquanto avançavam para uma sala mais ampla onde vários loucos se espalhavam ao redor como vespas. No meio de todo alvoroço, ele enxergou Ray. Sim, era seu grande amigo. Com o casaco de couro, a calça jeans e a camisa azul.
Bruce correu ao seu encontro e o abraçou. Ray retribuiu o abraço.
– Como você está?
– É bom vê-lo – Bruce sorriu, trêmulo.
– Eu soube de tudo. É terrível que a situação tenha se tornado pior.
Bruce abaixou os olhos.
– A Denise virá vê-lo amanhã – comentou Ray.
O rapaz ficou surpreso.
– Então… Ela…
– Ela não está com raiva. Você fez o que precisava fazer.
Ela não estava morta? Bruce abriu um leve sorriso. Então era verdade. Ele não era um assassino.
– Todos sabemos que você pensou que o sequestrador estivesse morto, mas descobrir que Ary era o sequestrador. Cara, até eu teria pirado!
Bruce recuou, surpreso.
– Ary… Ele…
– Sim, cara. Não se lembra? O velho Bill contou toda a verdade e até lhe entregou a arma para fazer vingança.
– Eu… – ele apertou os olhos – Não lembro.
Ray tocou seu ombro. Não estava dolorido.
– Não se culpe. Você é um herói – Ray retirou o casaco – Isso é um presente para você.
Bruce tomou o casaco nas mãos e sentiu o couro entre os dedos.
– Mas é o seu favorito?
– Não importa. Você é um herói e heróis ganham presentes. Até mais.
O horário de visitas havia acabado, mas Bruce estava feliz porque logo Denise viria vê-lo.

Bruce acordou. Nem se lembrava de ter dormido. Mas se espantou quando enxergou a beliche acima de si. Saltou para fora da cama, enxergando Ary dormindo do mesmo modo de sempre. Ele estava na cela.
– Não pode ser… Não pode ser! – o rapaz agarrou as grades tentando arrancá-las.
– Que diabos está fazendo, Bruce? – era a voz de Ary.
O rapaz abaixou a cabeça, frustrado.
– Eu pensei que…
– Pegue um chiclete, cara.
Bruce pegou o chiclete e sentou na beirada da cama.
– Então era só um sonho – ele suspirou.
– O que é um sonho?
– Ary, eu matei minha mulher, não foi?
– Claro que não. Ela veio visitá-lo hoje, não se lembra?
– Eu…
– Vá dormir, Bruce. Você está paranóico hoje.
Bruce se deitou e continuou mascando seu chiclete, apertou o casaco de couro contra seu corpo até adormecer novamente.

FIM

Por Ômega Produções

VÁ DORMIR BRUCE – PARTE 2 DE 3


Bruce não tinha conseguido fechar os olhos desde que voltara para a cela. Deitado, rolava de um lado para o outro sem encontrar o sono. Denise e suas palavras bombardeavam sua mente e o rapaz continuava inquieto quanto aos questionamentos de sua cabeça.

– Que diabos está havendo, Bruce? – era a voz de Ary na cama de cima.

– Eu não sei. Vamos me dê um chiclete ou eu vou ficar louco.

A mão de seu companheiro apareceu e Bruce pegou o chiclete.

– O que te atormenta, meu jovem aprendiz?

– Recebi uma visita de Denise – comentou ele – Ela me disse que eu não a matei. Que eu tenho uma filha – lágrimas surgiram em seus olhos, não sabia se era emoção ou angústia – Cara, isso é loucura.

– Loucura mesmo. Você não recebeu visitas hoje. Com certeza foi um sonho.

– O que? – questionou Bruce, ainda trêmulo de suas emoções.

– Isso mesmo que você ouviu. Ninguém veio te visitar hoje. Bruce, você está aqui há 9

anos e ninguém nunca veio te visitar.

O rapaz sentou-se na beirada da cama e enterrou a cabeça entre as mãos.

– Não foi um sonho – ele levantou num pulo, Ary estava deitado de costas como sempre, virado com aquele maldito e enorme traseiro para seu rosto – Eu a vi. Eu senti o cheiro e as sensações. Meu braço até doeu. Cara, a gente não sente esse tipo de coisa em um sonho.
– Então aqui é o sonho, Bruce? – questionou a voz sonolenta de Ary.

– Eu não sei. Mas foi real. Eu a vi. E ela me disse que eu salvei nossa filha. Salvei nossa filha. Eu sou um herói, acredita?

– Bruce, vá dormir. Você está ficando paranóico.

De fato, o rapaz deitou, mas levou algum tempo até que pegasse no sono enquanto resmungava para si mesmo que era um herói.

Conclui a seguir…

Por Ômega Produções

VÁ DORMIR BRUCE – PARTE 1 DE 3


Bruce acordou com o som do policial chamando seu nome. Ele nem tinha percebido quando pegara no sono, mas seu corpo estava dolorido – o colchão era da pior qualidade, ele constatara – e seu braço rangeu feito uma porta velha quando ele se apoiou para levantar – era aquele velho ferimento do seu trabalho como carpinteiro.
– Bruce, você tem visita – alegou o velho Bill, um policial na casa dos quarenta.
O rapaz cutucou Ary, um homem negro deitado na parte de cima da beliche. Bruce ainda não entendia como um metro e noventa de altura se encaixavam dentro daquele cubículo que chamavam de cela. E muito menos, como Ary conseguia fazer suas necessidades fisiológicas no vaso ao fundo da cela. Ele deixou este pensamento de lado e puxou um chiclete embaixo do travesseiro do companheiro de cela enquanto o guarda abria a cela.
Bruce foi algemado e levado ao salão de visitas. Ele ainda não sabia quem era. O advogado querendo ganhar mais dinheiro com uma causa encerrada, pensou. Mas o rapaz estava disposto a pagar sua pena. Cada dia. Cada hora. Cada minuto. Independente das intenções do advogado pilantra, Bruce considerava justa a sua pena e não se arrependia de estar ali. Fiz o que qualquer homem em meu lugar faria, resmungou um pouco alto demais pois o guarda o encarou por um instante.
As longas e enormes portas de ferro do salão de visitas abriram-se rugindo e as mesas espalhadas no enorme salão apareceram. Aquele lugar tinha um cheiro de mofo e as paredes mal lavadas causavam uma sensação de tédio em Bruce. Mas foi então que o rapaz a viu. E quando isso aconteceu, ele travou. Parou de mascar o chiclete imediatamente. Apertou seu casaco de couro contra o peito. Um tremor súbito escalou suas pernas e seus braços até arrepiar todo seu corpo. Ele olhou, incrédulo. Era Denise? Não podia ser verdade. Não podia ser real. Mas era. Lá estava ela com o velho vestido azul marinho que ele tinha presenteado no terceiro aniversário de casamento.
Bill o cutucou forçando a andar rumo à mesa onde a mulher esperava. Bruce identificou a mancha de nascimento na bochecha de Denise. Era mesmo real?
– Você veio – ela sorriu ao vê-lo.
Ele sentou lentamente com os olhos arregalados e as mãos trêmulas.
– O que houve? Você está bem? – as mãos dela se aproximaram, mas ele afastou.
– Você… Como isso é possível?
– O quê? Eu vir te visitar?
Ele engoliu seco.
– Por que eu não viria? Você é meu esposo e eu te amo – ela sorriu, o mesmo sorriso
belo que Bruce amava.
– Você… Eu – seus olhos abaixaram rodopiando em volta de si mesmo.
– Você fez o que precisava fazer, Bruce. Aquele homem ia matar nossa filha. Você não
teve escolha.
– Filha? – ele não lembrava de filhos ou filhas.
– Jessica – Denise respondeu ajeitando o cabelo – Pequenina, branquinha, que tem os
mesmos olhos do pai.
Ele a encarou, confuso.
– Eu não… Eu não tenho filha.
– Como não? Você adorava levá-la nos ombros e depois ficava com o braço dolorido.
Bruce mascou o chiclete, quase se esquecera que ainda estava em sua boca.
– Bruce, você não se lembra da Jessica?
Ele balançou a cabeça negativamente.
– E você… – apontou para Denise – Eu… Eu matei você.
– O quê? Que diabo está dizendo?
Bruce colocou suas mãos na cabeça e apertou. O que estava acontecendo?
– Eu matei você! Você estava me traindo com o Ray, não se lembra, vadia? Então eu te matei! – as mãos se fecharam num punho e ele socou a mesa. Uma. Duas. Três vezes.
Denise pulou para o lado, enquanto dois guardas apareciam para agarrar o desnorteado rapaz.
– Bruce, você enlouqueceu? Eu nunca trai você! – os guardas o ergueram, agora dominado – E o Ray é seu melhor amigo! Ele nunca faria isso contigo.
Bruce olhou incrédulo. Como era possível? Ela estava ali, falando, se movimentando, sorrindo como sempre fizera. Mas ele lembrava muito bem do facão e do sangue. Recordava dos miolos e do rosto desfigurado de Denise. Como era possível?
– Você está aqui porque matou o sequestrador de nosso filha. Você não é um assassino.
– Você é um herói, Bruce.
Não houve tempo para mais nada. Os policiais o levaram de volta à cela e a única coisa que ficou para trás foi o som da voz de Denise gritando: “Um herói. Um herói, Bruce.”

Continua…

Por Ômega Produções

LIÇÃO SANGRENTA – 02 DE 02 – FINAL


Eram guiados por aquela mulher alta que mordia e puxava as tranças para não gritar de dor. Tinha a pele branca e o coração generoso. Mas era um homem ou uma mulher?

O curandeiro, que se esforçava por extrair a bala, tinha 50 anos e há quarenta que tratava dos combatentes. Fabricava medicamentos e sabia curar as feridas. Toda a espécie de feridas.

Seria ele ou esse desejo ardente de viver que curava as feridas? Seria a mão do curandeiro ou o desejo de vingança e a sede de liberdade que restabelecia os homens?

Ele pensava as feridas, rasgava camisas velhas e com elas fazia ligaduras para estancar as hemorragias. Sabia extrair as balas embebidas na carne por meio de uma pinça aquecida ao rubro. Contudo, nunca pegara numa espingarda e isso pela boa razão de que era o curandeiro. Toda a gente o conhecia como tal.

Tinha cinquenta anos e nenhum estrangeiro lhe chamara ainda “bace” (nome que se dá aos que têm um mérito especial, unanimemente reconhecido), enquanto que todos os combatentes do destacamento chamavam por esse nome a doente que mordia as tranças, que era ainda jovem e que além disso era uma mulher. Estas ideias atravessavam

o espírito do curandeiro enquanto suava suor e sangue.

A mulher tinha a carne rija e aquela carne disputava a bala à pinça do curandeiro. Dir-se-ia que era gulosa por chumbo e pólvora, como se ela própria se tivesse tornado chumbo e pólvora.

Enquanto Sadri pensava nos sofrimentos daquela mulher, o curandeiro continuava torturado pela dúvida.

“Não é uma mulher”, dizia para si próprio. “Tem tranças compridas como usavam antigamente os nossos avós. Não pode ser uma mulher.”

Tinha iniciado o seu ofício de curandeiro com a idade de dez anos mas nunca vira uma mulher assim. Nenhuma poderia suportar tais dores. Como poderia aquela ser uma mulher? Lembrou-se então da história que o pai lhe havia contado a respeito de um combatente que tinha sete ferimentos. Não gemia, não se debatia na cama, apertava os punhos ao ponto de fazer esta- Jar os ossos enquanto as lágrimas lhe corriam silenciosamente pela cara.

– Era um verdadeiro homem, dissera-lhe o pai. Era inútil amarrá-lo, estava ali, quieto e não gritava. Pensa neste exemplo, meu filho, dele poderás tirar ensinamentos. O pai era médico e fixara-se ainda jovem naquela região. Quanto a ele, não pudera estudar porque não havia escolas para isso. Tornou-se portanto curandeiro. Até aquele momento nunca ouvira falar de ninguém mais forte a suportar a dor do que o homem evocado pelo pai, mas agora era obrigado a admitir que aquela mulher suportava muito mais que ele.

A mulher abriu os olhos e viu o rosto do curandeiro debruçado sobre a ferida.

– Deves tirar a bala, disse ela outra vez. É difícil combater a arrastar a perna. As crianças esperam-me e, além disso, a guerra não espera.

Mas ele não conseguia extraí-la. Esforçava-se o mais que podia mas nada conseguia. A bala parecia enterrar-se na carne ainda mais profundamente.

“Uma mulher”, disse o curandeiro para consigo, “ouvi dizer que uma mulher em qualquer sítio da França se pôs à frente do seu povo e combateu como um homem, mas os feudais mandaram-na queimar. Diziam que era uma feiticeira e morreu como o meu pai me contou”.

A ferida agitou-se um pouco e abafou com dificuldade um gemido.

Sadri tocou no ombro do curandeiro com a espingarda.

– Não temos tempo a perder, disse. Os estrangeiros vêm cá amanhã. Temos de partir ao amanhecer.

– Faz o teu trabalho, curandeiro, gritou Neki. Faz o teu trabalho e tira a bala. Já a torturaste bastante.

O curandeiro de novo se debruçou sobre a chaga, com a pinça na mão.

“Pelo menos não vai morrer?” perguntava o curandeiro a si próprio.

“Vai morrer”, pensou ele. “A bala não quer sair porque é uma mulher que se atreveu a tornar-se homem. O tempo está contra ela.”

O curandeiro atirou com a pinça e pousou no punho o queixo inundado de suor. Olhou para o berço que baloiçava ainda, rolando os olhos como um pássaro assustado, branco como um lençol.

“No fundo, pensava ele com compaixão e com medo, bastava-lhe ter ficado em casa a embalar o berço.”

– Não consigo tirá-la, disse em voz alta.

Os homens olharam-no enraivecidos. A ferida voltou a sentar-se e tirou o revólver de calibre grosso de baixo da almofada. A arma parecia pesar-lhe na mão.

Os homens calaram-se, preocupados.

“Ela tem razão”, pensou Sadri, “ele torturou-a durante horas para nada conseguir”.

Os olhos de Neki brilhavam de ódio.

– Este maldito homem não tem piedade, parecia dizer o seu rosto magro. Carrega no gatilho e acaba com este canalha!

O curandeiro, com a cara banhada em suor, não pensava no seu fim. Durante quarenta anos tratara das pessoas com as mesmas pomadas e unguentos por ele fabricados e curara-as todas. Por que razão o haviam de matar agora? Tratava de toda a gente, albaneses ou não, e encontrava-se entre as duas partes, vivendo ora das chagas de uns, ora das chagas dos outros.

Era um emigrado, foi talvez a primeira vez que se arrependeu disso e que maldisse os pais por se terem ido fixar naquela terra.

A mulher segurava a arma na mão e o curandeiro sabia que ela nunca falhava o alvo.

– Tens cinquenta anos, se não me engano, disse a doente ao curandeiro.

– Cinquenta anos, “bace”, disse o curandeiro estremecendo e pronunciando a palavra “bace” contra sua vontade.

– Cinquenta anos é muito e é pouco, disse a mulher, para ti é muito pouco.

– É pouco, disse ele a medo. Quero viver.

– E não aprendeste nada, acrescentou a mulher.

Os homens calavam-se, apenas a mulher falava com voz calma e tranquila e aquela calma parecia abafar o curandeiro.

– Quanto a nós, muito cedo aprendemos uma coisa, continuou a ferida. Aprendemo-la quando ainda estávamos no berço: a bala chama a bala, curandeiro.

“Que me vai ela fazer?” perguntava ele a si próprio. “Matar-me-á como a um simples coelho? Serei morto por uma mulher?”

Todos estavam mudos. A mulher fez um gesto como se quisesse coçar a perna com o revólver.

– Olha, disse ela dirigindo-se ao curandeiro.

Este virou a cabeça, a medo, e viu com espanto que ela tinha colocado o cano da arma sobre a ferida.

– Olha, disse ela mais uma vez. A bala chama a bala!

Carregou no gatilho, ouviu-se uma detonação abafada e o curandeiro julgou que estava morto.

As balas deslizaram sobre a barriga da perna. Dir-se-ia que se tinham reconhecido e caíram ambas no mesmo buraco do assoalho.

O curandeiro piscou os olhos, os dois homens armados pareciam pregados ao chão.

– Acabou-se, disse ela. Pensa-me a ferida, temos um longo caminho a percorrer.

                                                                        * * *

 Nessa manhã, cinco pés caminhavam sobre o empedrado da ruela estreita da aldeia. Uma mulher apoiava-se sobre os ombros sólidos de dois homens de porte imponente e andava sem se queixar. Tinha passado os braços sobre os ombros de dois dos seus camaradas, dois irmãos de cabelos loiros como o trigo do campo que atravessavam.

Por Faik Ballanca

LIÇÃO SANGRENTA – 01 DE 02


O sol declinava num céu esbraseado. Marchavam a passo certo na rua estreita da aldeia. Apenas cinco pés assentavam no chão. A mulher que tinha posto a espingarda a tiracolo, com o cano virado para baixo, trazia calças de montanhês e apoiava-se sobre os ombros sólidos de dois homens de alta estatura.

– Por aqui, disse Sadri atravessando um campo.

– Mais um pouco de paciência, disse um deles com simpatia, estamos quase a chegar.

Retomaram a marcha sustendo a mulher que sofria sem se queixar.

A bala penetrara na barriga da perna e não tinham conseguido extraí-la. Levavam-na agora para um local seguro onde a poderiam tratar sossegadamente.

Na casa que se encontrava na extremidade da aldeia, estenderam suavemente a mulher em cima de um cobertor que a mãe de Sadri tinha trazido. Todos a observaram durante bastante tempo.

– Estás melhor? perguntou um deles.

A mulher baixou a cabeça dando a entender que o ferimento continuava a fazê-la sofrer, mas não disse uma palavra.

– Vou chamar o curandeiro Ahmet, disse Sadri. Havemos de conseguir extrair o projétil.

Enquanto saía, o outro homem, que se chamava Neki, pegou na espingarda e começou a montar a guarda.

– Dá-me de beber, disse a ferida em voz alta. Sentou-se e tirou o grande revólver que trazia no bolso. Era um revólver de calibre grosso, que parecia pesar nas mãos de uma mulher, uma relíquia de ferro, do marido que tinha sido morto.

Pegou no copo de água e entornou uma parte em cima da ferida, com o resto refrescou a cara e escondeu o revólver debaixo da almofada, Aquela arma recordava-lhe o marido, por isso a tinha sempre ao alcance da mão.

Quando o curandeiro entrou no quarto, quis -se levantar, mas Sadri impediu-a de o fazer.

– Não irrites a ferida, disse ele. Ainda temos uma boa porção de caminho a percorrer e não há cavalos. Os camponeses não podem ajudar-nos. Na aldeia não há homens

nem cavalos. O inimigo levou tudo.

A mulher deitou-se outra vez de costas e pôs-se a observar um berço pendurado no tecto por uma corda. Nunca embalara um berço e, contudo, tinha nove filhos. Eram nove órfãos cujos pais haviam sido mortos em combate. Era a eles que dava a sua ternura maternal.

Queria curar-se e voltar a combater. Não chorava de dor, não sabia chorar porque tinha o peito grande e tranquilo como o peito de uma mãe que dá vida.

A paciência desta mulher espantava o curandeiro.

Neki balançava nervosamente o berço. Sadri percorria o quarto em todos os sentidos, a velha tinha os olhos cheios de lágrimas.

– Xherah (1), disse a mulher, acaba depressa o teu trabalho.

Este curvou-se sobre ela e, com uma pinça de ferro aquecida ao rubro, tentou retirar o projéctil. O cheiro sufocante da carne queimada invadiu o quarto. A mulher pensava nos pequenos órfãos.

Neki continuava a balançar o berço. Era um berço vazio, como dezenas e centenas de outros berços de Kosovo. Porque as crianças já não ficavam nos berços e as mães já não tinham tempo de as criar.

O curandeiro esforçava-se o mais possível mas não conseguia esconder o seu espanto.

“Esta mulher, pensava ele, não pode ser uma mulher. É mais corajosa a suportar a dor do que um homem. Deve haver qualquer coisa escondida por trás daqueles compridos cabelos negros.”

Teria dado tudo para tirar aquilo a limpo. Aquele mau pensamento torturava-o tanto como a pinça torturava a mulher.

“Ela vestiu-se assim para não ser reconhecida”, pensava ele.

Todos conheciam aquela mulher. Todos sabiam que era ela o chefe daquele destacamento, mas muitos pensavam que o espírito do marido revivia nela. Era essa de resto a opinião do curandeiro.

Durante anos, guiara valentemente aqueles homens e ninguém sabia então que o marido tinha morrido. Os homens partiam ao assalto gritando o nome do marido e aquela mulher não disse uma só vez que estava cansada de combater.

O nome do marido semeava o pânico por entre o inimigo, mas era a mulher que lutava, que guiava os homens no combate e que criava os filhos dos que tombavam na luta.

– Puxa a trança, disse o curandeiro. Puxa com força para não sentires a dor. Tem paciência.

Ela, entretanto, recordava-se de como tinha sepultado o cadáver do marido dentro de um poço natural, enterrando-o profundamente para que o inimigo nunca pudesse encontrá-lo. Para que o inimigo vivesse sempre no temor do seu nome.

– Se tens força, dissera-lhe ele, combate.

E ela combatia ainda e talvez melhor do que o seu homem.

– Tira essa bala maldita, gemeu a ferida.

– Puxa a trança, disse o curandeiro banhado em suor, puxa com força.

E admirava-se ao ver que aqueles cabelos não ficavam nas mãos da mulher.

“Será realmente uma mulher?”, pensava ele. “Neste caso, todos os qualificativos já nada representariam visto que a mulher seria mais forte que o homem.”

Neki continuava a balançar o berço, com os olhos fixos na ferida. Ninguém sabia atirar com a precisão desta mulher. O marido, cuja pontaria era famosa em toda a região, nunca se media com ela.

“Livra-te de me desafiar, dizia ele à mulher, serias capaz de me ridicularizar. Mas ela media-se com todos e ganhava.

Neki vira-a uma vez acender com uma bala um cigarro que alguém tinha posto em cima de um rochedo.

Há anos que ela comandava um destacamento de homens aguerridos e corajosos.

Neki continuava a balançar o berço vazio pendurado do tecto.

Aqueles homens reuniam-se à noite e partiam ao ataque. Lutavam contra os estrangeiros pelos seus lares e pela sua honra e era aquela mulher que os guiava no combate.

E não se queixava..

Por Faik Ballanca

O IGARAPÉ DO INFERNO – 18 DE 18 – FINAL


Manuel Bastos, entretanto, piorou e entrou em coma. Um dos seus últimos momentos lúcidos foi perguntar por seu gravador. Ele queria dizer algo, como que fazer um depoimento. Mas logo nada conseguiu falar e desfaleceu, sendo levado para o hospital.

Depois de sua morte não mais se ouviu falar dos depoimentos chamados por ele de “O igarapé do inferno”.
Aquelas páginas datilografadas ficaram esquecidas na gaveta de uma cômoda até que ser comprada pelo autor dessas linhas em 1972.
Na realidade, abandonei o incômodo móvel numa casa alugada na rua Prof. Eurico Rabelo, perto do rio Maracanã, que não existe mais.
Os textos permanecem comigo, até hoje.
Com Manuel Bastos morreu o último remanescente daquela época.
O Palácio Manixi desapareceu na floresta completamente. Hoje é difícil localizá-lo. As ruínas daquela construção talvez ainda estejam lá.

O relato de Benito Botelho, que o viu pela última vez, diz:
“Súbito, na margem do rio, apareceu uma mulher vestida de verde que dançava na parte elevada do terreno e com o braço erguido sustentava um vaso de onde partia uma seringueira já crescida. O tronco da árvore passava por trás da estátua de mármore agora verde que D. Ifigênia Vellarde tinha trazido da Europa no fim do Século passado.

ATRÁS daquela mulher congelada estava – magnífico, supremo, inominável, majestoso – o Palácio Manixi!
TINHAM chegado ao Manixi. O choque era alucinante e belo.
Das janelas abertas saíam grossos e longos galhos de árvores frondosas, nascidas por dentro, e assim parecia que o Palácio tinha criado asas e ia começar a voar.
O Palácio se cobrira de uma pátina de beleza extraordinária, de uma vitalidade monumental – estava ali, vivo, lavado, enlouquecido marco de seu tempo.

Era um santuário, dominava o ambiente, um templo antigo, perdido no meio da floresta, de uma outra era. Toda a luz ao redor irradiava dele, de uma civilização de um outro século, de um outro mundo desconhecido, limite vivo do luxo e do esplendor da borracha do fim do Império.

A floresta avançava contra ele, construindo um estranho cerco sobre a moldura e irisação de sua arquitetura antiga coberta de cipós e de galhos de uma folhagem abundante que vinham de dentro dos salões requintados e criavam a aura de um extasiante espetáculo.

 A lancha aportou e Benito desceu e se aproximou da escadaria de mármore. Uma cascavel se recolheu por baixo das pedras soltas da guarnição.
Ali estava todo o passado da Amazônia, sobre os degraus cobertos de folhas secas, sobre o fino e florido gradeado de ferro carcomido e enferrujado.

A porta estava aberta. Do pórtico, Benito viu, no meio do amplo salão, sobre o chão de tábuas corridas cobertas de plantas e a ruir, intacto, nobre, faústico, o reduzido piano de cauda Pleyel de Pierre Bataillon. Era a única peça do aposento, o único móvel que ficara e ali estava, abandonado, fechado, reprimido, sufocado, em silêncio, como após um concerto, quando se apagam as luzes e o teatro fica vazio e despovoado.

MAS todos os suntuosos fantasmas exsurgiam dali. Toda a História desfiava o seu curso. O tempo ali se congelava, inerme, no meio dos amplos salões, desaparecendo ao longo daqueles mesmos corredores, escorrendo ao longo das paredes pesadas de estuque, lúgubres, de uma decoração barroca. Eram seres invisíveis que despontavam, uma vez mais, arrastando longos e pesados vestidos de veludo verde, envergando reluzentes casacas, esquálidos, saídos daquele sepulcro do luxo daquele tempo, através daqueles amplos espaços povoados de símbolos, dentro daquela enorme construção de um outro mundo, do fim de um mundo de onde todos tinham fugido, povoado de demônios, culpados, expiando suas culpas mortas.

E à noite desfilavam, ao longo daqueles corredores, através da seriação de janelas e portas, refletindo suas sucessivas silhuetas nos espelhos apagados, misturando-se com figuras pintadas nas paredes, e famintos, gélidos, sem ousar sair ao jardim abandonado, aquém do porto as ornadas figuras de fino e feroz olhar que não permitiam a ninguém penetrar naquele santuário do desperdício da riqueza antiga e condenada, ninguém pudesse subir aquela escadaria e atravessar aquelas salas além daqueles mármores trazidos há incontáveis anos para ladear-se com o cinzento e o estilizado. Era como se dissessem: “Desaparecei!”. Ou como se ameaçassem: “Afastai-vos!”.

E à noite a figura do antigo e descamado dono poderia ser vista, através das janelas, como se o iluminasse uma catedral, mostrando-lhe a face horrível e desesperada, os olhos mergulhados no escuro, à procura de algo, à procura do tempo, à procura de si – e passando sem que ninguém o visse na sua infinita miséria. “E todo o esplendor daquele luxo antigo era uma torturação sinistramente mergulhada na destruição de um império ali por fim silenciado”.

Por Rogel Samuel