GATO E RATO EM COMPANHIA


Um gato tinha feito amizade com um rato, e o gato tinha falado muito ao rato sobre o carinho e a amizade que este tinha por ele, que por fim o rato concordou que eles deveriam viver e manter a casa juntos.

Mas precisamos guardar alimentos para o inverno, ou então morreremos de fome, disse o gato, e você, ratinho, não pode ficar se arriscando por aí, ou você será pego em alguma armadilha algum dia.

O bom conselho foi seguido, e um pote de banha foi comprado, porém, eles não sabiam onde colocá-lo. Finalmente, depois de muito pensar, o gato disse:

Não conheço melhor lugar para armazená-lo do que na igreja, pois ninguém se atreve a levar nada embora dali. Nós o colocaremos debaixo do altar, e não o tocaremos até que realmente estejamos precisando dele.

Então o pote foi colocado em segurança, mas não se passou muito tempo e o gato achou que precisava dele, e disse para o rato:

Quero dizer-lhe uma coisa, ratinho, meu primo trouxe um filhinho para o mundo, e ele me pediu para que eu fosse o padrinho, ele é branco com manchas escuras, e eu devo segurá-lo durante o batismo. Deixe-me ir hoje e você ficará cuidando da casa sozinho.

Sim, sim, respondeu o rato — pode ir, e se você conseguir alguma coisa muito boa, pense em mim, eu gostaria de tomar um gole de vinho doce e tinto de batismo também.

Tudo isto, no entanto, era mentira, o gato não tinha primo, e nunca havia sido convidado para ser padrinho. Ele foi direto para a igreja, roubou o pote de banha, começou a lambê-lo, e comeu toda a manteiga que ficava na parte de cima do pote. Então ele decidiu fazer um passeio pelos telhados da cidade, buscar novas oportunidades, e depois ficou esticado no sol, e lambia os bigodes sempre que pensava no pote de banha, e somente quando anoiteceu é que ele voltou para casa.

Bem, você está aqui de volta, disse o rato, — sem dúvida você teve um dia alegre.

Tudo foi bem, respondeu o gato.

Que nome foi dado para a criança?

Em cima já era! disse o gato bem tranquilamente.

Em cima já era? gritou o rato, — esse é um nome muito original e incomum, ele é comum na sua família?

O que significa isso? disse o gato, — não é pior do que Ladrão de migalhas, como chamam os seus afilhados.

Não passou muito tempo e o gato foi tomado por um outro acesso de saudade. Ele disse para o rato:

Você precisa me fazer um favor, e mais uma vez administrar a casa sozinho por um dia. Fui novamente convidado para ser padrinho, e, como a criança tem um anel branco ao redor do pescoço, não posso recusar. O bom rato concordou, mas o gato subiu por trás das paredes da cidade e foi até a igreja, e devorou metade do pote de banha.

Não há nada melhor do que algo que se guarda para si mesmo, disse ele, e estava muito satisfeito pelo seu dia de trabalho. Quando ele chegou em casa o rato perguntou:

E com que nome a criança foi batizada?

Metade já foi, responde o gato.

Metade já foi? O que você está dizendo? Nunca ouvi esse nome em minha vida, aposto qualquer coisa que ele não está no calendário!

A boca do gato logo começou a verter água por mais algumas lambidas.

Todas as coisas boas acontecem três vezes, disse ele, — fui convidado para ser novamente padrinho. A criança é bem negra, tem apenas as patas branquinhas, mas só essa diferença, ela não tem um único pelo branco em todo o corpo, e isso acontece apenas uma vez todos os anos, você vai me deixar ir, não vai?

Em cima já era!, Metade já foi! Respondeu o rato, — esses são nomes estranhos, e me fazem ficar preocupado.

Você fica em casa, disse o gato, — com seu fraque de pele cinza escuro e de cauda longa, e fica imaginando coisas, é por isso que você não sai durante o dia. Durante a ausência do gato o rato limpou a casa, e colocou tudo em ordem, mas o gato guloso esvaziou totalmente o pote de banha.

Quando tudo tiver acabado eu vou conseguir sossegar um pouco, disse para si mesmo, e bem alimentado e gordo ele não voltou para casa até o anoitecer. O rato de imediato perguntou qual era o nome que haviam dado para a terceira criança.

Ele não vai lhe agradar mais do que os outros, disse o gato.

Ele se chama Acabou tudo.

Acabou tudo? gritou o rato, — esse é o nome mais bizarro que eu já vi! Nunca vi esse nome nem impresso. Acabou tudo, o que isso pode significar? E ele balançou a cabeça, se enrolou todo, e deitou para dormir.

esse dia em diante ninguém convidou o gato para ser padrinho, mas quando o inverno chegou e não havia mais comida fora para comer, o rato se lembrou do que tinham guardado, e disse:

Venha aqui, gatinho, iremos até o nosso pote de banha que nós guardamos em caso de emergência — e vamos nos deliciar com ele.

Sim, respondeu o gato, — você irá se deliciar assim como você se delicia colocando a sua língua delicada para fora da janela. Saíram em seguida, mas quando chegaram, o pote de banha certamente ainda estava no lugar, mas estava vazio.

Meu Deus, disse o rato, — agora estou vendo o que aconteceu, agora tudo ficou bem claro! Você sim é um verdadeiro amigo! Você devorou todo ele quando você foi convidado para ser padrinho. Em cima já era, depois Metade já foi e depois…

Quer segurar a sua língua, gritou o gato, — nem mais uma palavra, ou eu comerei você também.

Acabou tudo e já estava com o pobre rato nos lábios, mal ele tinha falado isso quando o gato pulou em cima do pobre rato, cercou-o e o engoliu todinho.

É, meus amigos, esses são os caminhos do mundo.

Por Irmãos Grimm

O LIMPADOR DE PLACAS


Conheci um homem que era limpador de placas de rua.
Todas as manhãs, às sete horas, ele ia para o trabalho.
Para chegar à Central de Limpeza de Placas de Rua, na Praça do Incenso, ele levava mais ou menos meia hora. Cumprimentava o porteiro, fazia algum comentário sobre o tempo e ia para o vestiário.
Lá vestia um macacão azul, botas azuis de borracha, e depois, sem muita pressa, ia para o almoxarifado, onde lhe entregavam uma escada azul, um balde azul, uma escova azul e uma flanela também azul.
Enquanto ia arrumando as coisas, ele conversava com os colegas, que também preparavam seus instrumentos de trabalho. Depois iam todos até ao depósito pegar as bicicletas azuis e saíam pelo portão.
A saída dos limpadores de placas de rua nas suas bicicletas era um espetáculo magnífico. Eles pareciam imensos pássaros azuis saindo do ninho ao mesmo tempo.

Havia anos que o limpador de placas desta história percorria o mesmo trajeto, pelo bairro das ruas com nomes de poetas, escritores e compositores: Praça Carlos Gomes, Rua Bach, Alameda Beethoven, Rua Villa-Lobos, Travessa Mozart, Rua Tom Jobim, Avenida Wagner, Beco do Pixinguinha, Estrada Handel, Praça Noel Rosa, Rua Goethe, Rua Guimarães Rosa, Travessa Vinícius de Morais, Avenida Thomas Mann, Rua Monteiro Lobato, Travessa Drummond, Rua Graciliano Ramos e Alameda Machado de Assis. Finalmente, na Praça José de Alencar, ele terminava seu serviço.
Limpar placas de rua é uma coisa complicada. Mal se acaba a limpeza e elas já ficam sujas de novo. Acontece que, quando os limpadores de placas são bons, eles não desanimam por causa disso e nunca desistem de combater a sujeira. O limpador de placas da nossa história era um excelente limpador. Nas ruas de que ele cuidava, as placas não ficavam somente limpas: elas pareciam novas.
Seus colegas reconheciam, sem ficar com inveja, que ele era o melhor limpador de placas da cidade. Por isso, o encarregado e o gerente da Central de Limpeza gostavam de dar tapinhas nas costas dele, dizendo: — Parabéns, continue assim!
O limpador de placas de rua era um homem feliz. Gostava do que fazia, gostava de suas ruas e gostava de suas placas. E quando alguém perguntava o que gostaria de mudar em sua vida, respondia sem vacilar: — Nada, absolutamente nada!
Decerto tudo teria continuado assim se um belo dia uma mãe e seu filho não tivessem parado ao pé da escada azul.
— Olhe, mamãe, Rua Guimarães Rosa! Já passamos pela Rua Villa-Lobos e pela Praça Noel Rosa. Você sempre diz que aqui é o bairro dos poetas, dos escritores e dos compositores. Mas está parecendo que é o bairro das flores e dos bichos!
— O quê? — a mãe olhou admirada para a placa. — Não! — disse rindo. — Guimarães Rosa foi um escritor que inventou muitas histórias e…
Nesse momento, um ônibus e dois caminhões barulhentos passaram por ali e não deu mais para ouvir o que a mãe estava dizendo. Quando o barulho diminuiu, a mãe e o filho já tinham ido embora.

O limpador de placas de rua ficou olhando espantado para a placa com o nome “Guimarães Rosa”. De repente, percebeu que, como aquele menininho, também não sabia coisa nenhuma sobre Guimarães Rosa ou sobre aqueles nomes que ele limpava todo santo dia.
“Isso não pode ficar assim!”, pensou.
Desceu da escada. Enfiou a mão no bolso do macacão, tirou uma moeda e jogou-a para cima. Se desse coroa, começaria a estudar os compositores; se desse cara, os poetas e os escritores. A moeda caiu na calçada e tilintou; depois rodopiou e finalmente parou.
Coroa!
O limpador de placas se abaixou para pegar a moeda e, enquanto brincava com ela, ficou pensando no que ia fazer. Era a primeira vez que ficava impaciente para terminar seu serviço.
Às cinco horas em ponto ele pegou sua bicicleta e pedalou depressa para a Central de Limpeza. Trocou de roupa voando e foi para casa bem ligeiro.

Assim que fechou a porta de casa, foi procurar papel e lápis para fazer uma lista. Carlos Gomes, Bach, Beethoven, Villa-Lobos, Mozart, Tom Jobim, Wagner, Pixinguinha, Handel, Noel Rosa.
Depois de ler e reler a sua lista, pregou-a na parede.
Em seguida, examinou o jornal com todo o cuidado para não perder nenhum anúncio de ópera, concerto ou show; anotou alguns programas num pedaço de papel e guardou-o na carteira. No dia seguinte foi comprar ingressos e tirou seu melhor terno do guarda-roupa.
“Agora eu sei o que estava faltando na minha vida!”, pensava, atento para o silêncio ansioso da sala de concerto.
Finalmente os primeiros sons ecoaram, foram crescendo um pouco tímidos, criaram força, explodiram em novos sons, juntaram-se outra vez, diluíram-se, tremeram, encolheram-se e, por fim, estrepitaram e morreram.
Com um arrepio de emoção, o limpador de placas acordou de uma espécie de sonho.
Ouviu um barulho de papéis e de pés que se arrastavam, e viu que as portas se abriram. O público, conversando, foi saindo do teatro.
O limpador de placas olhava em volta e sorria.

No dia de Natal, ele se deu uma vitrola de presente. Depois de desembrulhar o pacote, pôs a vitrola perto da árvore e solenemente ouviu seu primeiro disco.
A partir desse dia, o limpador de placas passou muitas noites na sala de sua casa ouvindo música. Pouco a pouco, foi tendo a sensação de que aqueles compositores, mortos havia tanto tempo, permaneciam vivos e de que, além disso, estavam se tornando seus melhores amigos: ouvindo as músicas que eles haviam composto e sentindo as emoções que eles um dia haviam sentido, era um pouco como se estivesse conversando com eles.
No trabalho, assobiava baixinho as melodias que havia decorado: a “Pequena Serenata Noturna”, de Mozart, a “Sonata ao Luar”, de Beethoven, e até mesmo algumas óperas, o que não era tarefa fácil, pois só era possível assobiar uma voz de cada vez, tratando, ao mesmo tempo, de imaginar as outras.
Quando os compositores se tornaram em velhos amigos, ele tirou a lista da parede, virou a folha e escreveu outra lista: Goethe, Guimarães Rosa, Vinícius de Morais, Thomas Mann, Monteiro Lobato, Drummond, Graciliano Ramos, Machado de Assis e José de Alencar.
Pregou a lista no mesmo lugar. Em seguida, foi à Biblioteca Municipal e retirou os livros de todos esses escritores e poetas.
Algumas semanas depois, os funcionários da biblioteca já o conheciam. Nem bem ele entrava, todos o cumprimentavam com grande familiaridade. É que o limpador de placas passara a ser um dos frequentadores mais assíduos da biblioteca.
Nos livros, ele encontrou palavras que nunca ouvira antes. Algumas delas davam para entender, outras não. Mas quando aparecia um trecho difícil ele o lia muitas vezes, até compreender bem o seu significado.
Todas as noites ele mergulhava nos livros. E descobriu que os segredos guardados nas histórias eram muito parecidos com os segredos que encontrara nas músicas.
“Palavras são músicas escritas”, pensou. “Ou será que a música é o som das palavras não faladas?”
— Que pena! — costumava dizer aos colegas. — Que pena não ter começado minhas leituras mais cedo! Quanta coisa boa eu perdi!
Às vezes as palavras o acalmavam, às vezes o deixavam agitado. Em alguns momentos ficava pensativo; em outros, animado. Alegre e triste. Os poetas brincam com as palavras, assim como os compositores brincavam com os sons, os malabaristas com as bolas e com os aros, ou os mágicos com seus lenços e baralhos.
Por fim, aconteceu com os poetas e escritores exatamente o que havia acontecido com os compositores: eles se tornaram amigos íntimos do limpador de placas.
O limpador, depois que ficou conhecendo toda a obra daqueles poetas e escritores, começou a recitar os trechos de que mais gostava enquanto trabalhava. Às vezes era um trecho de Fausto, de Goethe, como este, por exemplo: “Pobre simplório, aqui estou, e sábio como dantes, sou!”. Ou então um pedacinho do Recado do Morro, de Guimarães Rosa: “Para baixo de mim, não olho; para cima, não posso ver…”. Outras vezes, ainda, ele ficava lembrando um pedaço de Vidas Secas de Graciliano Ramos, ou de O Fígado Indiscreto, de Monteiro Lobato.

E assim, lá ia ele: limpando placas e assobiando as mais variadas músicas, lustrando e declamando poesias, polindo e cantando, esfregando e recitando contos.
As pessoas que passavam ouviam o limpador e paravam, admiradas, de olhos fixos na escada azul. É que elas nunca haviam visto um limpador de placas como aquele. Quase todos os adultos acham que algumas pessoas servem só para limpar placas, outras só para escrever poemas, ou melodias. As primeiras, denominam trabalhadores; as outras, pessoas cultas e eruditas. O fato de alguém fazer as duas coisas ao mesmo tempo deixava essa gente tão atrapalhada que todo o seu modo de pensar desmoronava, desmanchava-se como um papelzinho no meio do fogo.
No alto de sua escada, o limpador de placas nem percebia que estava chamando tanta atenção. Ficava lá esfregando, lustrando, soprando, polindo, e só sossegava quando as placas de suas ruas começavam a resplandecer, cintilando ao sol.
Com o tempo, começou a retirar da Biblioteca Municipal os livros que estudavam os compositores, os escritores e os poetas. Aqueles eram livros muito difíceis. Às vezes, o limpador de placas achava que nunca ia conseguir entender o que eles diziam.
E o tempo foi passando. Depois de estudar quase todos os livros importantes, o limpador de placas, já mais velho, continuava cuidando das placas, limpando-as como sempre. Ele as tratava com o mesmo carinho de antes, e, com as pontas dos dedos, gostava de acariciar aqueles nomes que haviam passado a ser a sua melhor companhia, enquanto fazia palestras para si mesmo sobre Música e Literatura.
Um belo dia, uma família parou ao pé da escada azul e ficou ouvindo a palestra do limpador de placas com muita atenção. Duas meninas pararam de conversar e ficaram olhando para ele. Um rapaz pôs sua mochila no chão e ficou ali, ouvindo, que foi exatamente o que fez uma turma inteira de estudantes, juntamente com seu professor. Outras pessoas que estavam passando, ao ver aquele amontoado de gente, também pararam. O limpador de placas nem percebeu. Quando deu por encerrada a limpeza da pisca e desceu pela escada azul, encerrando também sua palestra, as pessoas bateram palmas. O limpador ficou vermelho de vergonha e, recolhendo rapidamente suas coisas, empurrou a bicicleta até à placa seguinte.
Todas as pessoas foram atrás. O limpador de placas achou aquilo muito embaraçoso. Mas o que fazer? Não podia proibir ninguém de andar pela calçada! Pensando assim, ele continuou seu serviço sem parar de fazer palestras, mas tentando não olhar para baixo.
As horas passavam devagar. Quando, afinal, o relógio da igreja da Praça José de Alencar deu cinco horas, o limpador de placas subiu na bicicleta e foi embora aliviado. As pessoas que o ouviam ficaram para trás, acenando para ele.
Na manhã seguinte, quando chegou à Praça Carlos Gomes, já havia muita gente esperando por ele. O limpador de placas era muito tímido e, ao ver aquelas pessoas, ficou com soluços. Perdeu a respiração, contou devagar até dez, encostou a escada azul na primeira placa e começou a limpeza com uma palestra diferente da do dia anterior. Quando ele ia para a placa seguinte, as pessoas iam atrás. Depois que ele limpou a última placa e pronunciou o encerramento da palestra, ouviu-se um murmúrio de aprovação.
Sentindo-se acanhado, o limpador de placas foi embora e a plateia se dispersou. Foi nesse momento que ele entendeu que daquele dia em diante ia ter sempre um público esperando por ele; por isso, começou a preparar-se melhor para seus discursos. Não queria passar vergonha.
O número de pessoas que assistiam às palestras do limpador de placas foi ficando cada vez maior, até que virou uma multidão que se reunia diariamente ao redor da escada azul. Aos poucos, o limpador de placas foi se acostumando: de placa em placa, subia e descia de sua escada sem se deixar perturbar pelo tumulto.
Um dia, a equipe do programa de televisão “Pessoas como eu e você” reuniu-se à multidão. O limpador de placas foi filmado fazendo o seu serviço, depois foi entrevistado, e da noite para o dia ele ficou muito famoso.

Depois que o programa foi para o ar, começou a maior confusão. Apareceram pessoas pedindo autógrafos. O carteiro trazia sacolas cheias de cartas. O encarregado dos limpadores e o gerente da Central de Limpeza de Placas de rua fizeram uma homenagem a ele, discursando com palavras de agradecimento; graças ao serviço daquele funcionário, a Central também havia ficado famosa. Quatro universidades convidaram-no para dar aulas. Se quisesse, ele poderia ter feito uma fabulosa carreira acadêmica.
Mas o limpador de placas de rua não queria nada daquilo. “Sou um homem simples”, escreveu, respondendo a uma carta, “e o que mais gosto de fazer é passar o dia inteiro limpando placas de rua! Só faço as palestras para me distrair. Não pretendo ser professor. Sentiria muita falta do meu serviço.”
E foi assim que ele continuou sendo o que era: um limpador de placas de rua.

Por Monika Feth

A CURVA DO SONHO


— Tome, estrangeiro.

Foi assim que aquela balconista de olhos envergados, vermelhos e abertos a ponto de não lhe sobrar mais nada de pálpebras, deixou em minhas mãos uma pequenina caixa de oito faces, cada qual de uma cor única, que no todo fazem dela algo semelhante a uma espécie de jogo. Antes que eu saísse ela ainda me entregou um objeto aparentemente familiar: era pontudo em uma das extremidades e abaulado na outra, disse-me que era uma bomba de inflar e que seria útil para o que aquela caixa continha. Achei isso muito estranho, pois não consegui, por mais que tentasse, fazer sair daquele bastão um único sopro.

A rua me parece deserta, nunca a tinha visto tão lúgubre e, caminhar, algo que sempre me foi agradável, agora parece penoso a cada passo que eu lanço sobre o asfalto. Logo adiante tudo se modificou, vejo umas centenas de pessoas a andar por todos os lados esbarrando-se uma contra as outras, sem que se ouça uma única fala ou se reconheça um único rosto. Sou surpreendido por minha própria fúria. Resolvo então fugir. Corro como nunca havia feito antes, procuro um lugar não totalmente escuro, mas de luz escassa e ao encontrá-lo, tendo sido guiado pela sombra de um esquife que se sobrepunha à marquise da única casa que eu havia avistado, me lanço ao chão. A caixinha precipita-se no ar, não a perco de vista nem por um instante, vejo-a se abrir e no exato momento da descoberta sou pinçado do sono. Nada incomum, aliás, é sempre assim: esse despertar ofegante do sonho. Deve ser defesa da alma esta cegueira necessária. Acordo em definitivo e fico imaginando o que haveria naquela pequena caixa, mas compreendo que saber não é importante. As lembranças do pesadelo, por instantes, afastam meu pensamento do horror que a vida havia me presenteado há alguns dias, porém, alguns poucos ruídos vindos da rua denunciam meu estado de vigília e avisam que já não me era mais permitido sonhar. Parece que foi ontem que o enterramos; e já estava lá, insistente, recostado sobre o batente da porta, como se nada tivesse acontecido.

Lembro que me vi pálido a primeira vez que o encontrei; era uma manhã de domingo. Ele estava sentado no sofá. Avistei-o como um relâmpago enquanto eu ia do quarto em direção à sala,. Pensei ser uma ilusão, porém, esta mesma cena repetiu-se seguidamente até que certo dia ele permaneceu por mais tempo, o suficiente para que eu me aproximasse. Atônito, ouvi queixar-se de uma terrível dor de cabeça. Os dias se passaram, suas visitas se tornaram constantes e tudo passou a ser natural.

Conversamos durante horas sobre assuntos dos mais diversos: lembranças e coisas das quais nunca tínhamos falado enquanto estivera vivo.

Uma das recordações que insistentemente retornava em nossas conversas era uma história de infância que foi protagonizada por nós, mas pra falar a verdade ele já não era tão pequeno assim, pois já tinha vivido pelo menos quinze anos. No final da nossa rua, quando ela ainda era uma rua (hoje já não sei em que se transformou) vivia uma senhora em casa distante pelos menos dois quarteirões de qualquer outra habitação, mudou-se para lá já sozinha no mundo, e possuidora ainda de um temperamento introvertido, fez com que se tornasse rapidamente comentário geral nas redondezas. Na minha terra, esses tipos de pessoas velhas e solitárias eram geralmente traduzidas por bruxas e tornavam-se vítimas das fofocas das senhoras tagarelas de portão e das traquinagens dos garotos. Uma noite de calor de janeiro meu irmão desafiou-me a enfrentar esta então bruxa que atendia pelo nome de Margarida, da nossa inquieta rua. Seu plano era no mínimo perverso e, mesmo assim, aceitei sem relutar. Atrás da casa da vítima, bem próximo ao muro existiam pequenos morros, ideais para o nosso escudo, e vigia. Assim que se apagaram todas as luzes da casa ele sorrateiramente enveredou-se através do muro e pulou como um relâmpago para dentro do quintal. Fui logo atrás e já me encontrando junto a ele passamos à segunda parte do plano. Acendeu rapidamente a pólvora do rojão, coisa que já era bem treinado e jogou pela soleira da porta, e partiu como um foguete como se fora ele o próprio rojão; embora mais lento, não me demorei a alcança-lo. E como se nada estivesse por acontecer nos recostamos no muro de uma casa bem próxima a nossa vítima para ouvir o estouro que se seguiu. Esperamos, mas para nossa surpresa nada aconteceu nenhuma luz se acendeu naquela casa, nenhum movimento nos quinze minutos que permanecemos ali com a sensação de fracasso. No dia seguinte próximo do meio dia, uma multidão se agitava em frente da nossa casa, e gente correndo e gritando:

— A bruxa morreu! A bruxa morreu!

 Chego a pensar que eu esteja enlouquecendo, quando me vejo junto a ele fico preocupado em ser flagrado por alguém que imagino me veria tagarelando sozinho, e acho que por isso nossas conversas nunca foram muito tranqüilas. Mantive nossos encontros em segredos até que, em uma conversa com minha irmã Clarice, resolvi com muita prudência confessar-me, mas nem imaginava a surpresa que eu teria pela frente. Bastante espantada disse-me estar sofrendo da mesma experiência e que também recebia suas visitas freqüentemente no inicio da manhã, foi então que notei sua expressão de cansaço e a presença de protuberantes olheiras em sua face, que alias sempre fora tão bem cuidada, percebi também que estava sem nenhuma maquiagem, e não me recordo de nenhuma outra situação que eu a vi assim. Confessou-me não conseguir dormir mais que três horas por noite, pois sempre era dominada pela angustiada na expectativa de sua visita. O mais estranho de tudo foi a coincidência de nossos encontros, os dias, as horas. Como ele poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo? Nos vimos ali, pasmados diante de uma realidade que jamais havíamos imaginado.

Entre os inúmeros relatos descobrimos que nenhum de nós teve a coragem de referir-se à sua morte, e pelo contrário, este assunto sempre foi evitado. Concluímos então que ele o desconhecia, ou então que não quisera aceitar tal realidade e que este seria o motivo pelo qual ele não teria ido para onde imagina-se que devam ir os mortos. Decidimos que deveríamos informá-lo, ou confrontá-lo com a realidade e convencê-lo a ir e, se nada disso adiantasse teríamos de ser mais enfáticos e dizer que sua presença não era bem vista entre nós, mesmo sabendo que com isso perderíamos sua presença, mas que motivo teríamos para prende-lo a este mundo? Já não haviam motivos para sua permanência, nada daquilo que a vida nos contempla pareceria servir a ele, pois tinha se tornado um fantasma, e do que adianta simplesmente vagar sobre os lugares e as histórias de sua memória?

Acreditávamos que o informando de sua morte e de nossa decisão, ele assim poderia decidir o que fazer. Foi incumbido de tal tarefa. Decidi fazer o mais rápido possível. Não pude dormir naquela noite, torci para que ele viesse na primeira hora da manhã para que tudo passasse o mais rapidamente possível. Cheguei a pensar que eu o estaria matando novamente.

Mal amanheceu e lá estava ele no sofá, como sempre, olhando fixamente para o chão. Aproximei-me pelo seu lado esquerdo e o segurando no ombro disse-lhe que tinha algo de importante para falar. Olhou na minha direção e por um segundo relutei, mas mesmo com a voz acanhada falei:

— É sobre sua morte.

— Eu sei.

Nos olhamos por breves instantes e inesperadamente começamos a gargalhar histericamente por longos minutos. Depois disso, dirigiu-se em direção a porta e antes mesmo de chegar até ela, sumiu. Jamais o vimos novamente.

Por Flávio Marinho

A VERDADE DÓI


A verdade o atacou durante a noite, na cama. Na escuridão de seu quarto, ela pulou sobre ele e rasgou sua pele. Era um animal selvagem, que atacava com violência, mas, ele sentia, parecia não haver raiva alguma.
Ele tentava se proteger, mas seus braços eram lacerados. A verdade era fria e impiedosa. Quando ele começou a orar por alguma ajuda divina, a verdade feriu sua língua e deu um soco violento em seu rosto. Aquilo fez com que ele acordasse. Ele precisava sair vivo. Mas, a verdade não parava de agredi-lo por todos os lados.
Sua boca se encharcava com sangue, seus olhos estavam ardendo com o esforço para se aguentar vivo. A verdade o ergueu sobre si mesma e o arremessou contra a parede. Ele bateu e caiu. Começava a achar que não escaparia de tamanho ataque.
A verdade olhou para ele no chão e soltou um rugido alto, como se fossem 100 leões famintos. A verdade não terminara ainda.
Quando ele tentou se levantar, a verdade o agarrou pelo pescoço e sacudiu como se fosse um boneco de pano, como se tentasse sacudir de dentro dele todos os seus mitos, superstições e outros entraves que o faziam se sentir pesado. A verdade não tinha porque ter pena.
– Tudo que sofreu até aqui foi por culpa de sua própria ignorância e falta de perspectiva. – ela disse em uma voz gutural.
A verdade o sufocava, seu pescoço parecia que ia quebrar. Ele tentava se livrar, mas suas mãos eram pequenas demais, fracas demais. Ele ia morrer. Morrer. Escuro. Sem ar. Morrer.
Ele acordou no chão do quarto. Estava nu e ferido. Mas, não morreu. Estava vivo. Na beirada da cama estava sentada um rapaz, um jovem. Parecia não saber nem falar direito. Olhava-o com curiosidade. De alguma forma, sabia que o jovem era a Verdade. Mas, perguntou assim mesmo:
– Quem é você?
– Meu nome é Conhecimento e suas cicatrizes desta noite serão eternas. – disse, e se foi.
Por Eudes Honorato

UM CONTO DE ANO NOVO


Na noite de 31 de Dezembro Tristão acorda em sobressalto. Sonhava com um carrossel de cores quando um estrondo lhe atravessou a cabeça fazendo-o erguer da cama grande.
Tudo naquele quarto lhe parece grande e estrangeiro, paredes, portas, armários, mas o que sente não é exatamente medo. Mais uma saudade das cores do sonho. Ali, agora, tudo escuro e enevoado, como nos sonhos falsos dos filmes. Ele vira-se, desce da cama. Um miúdo de três anos e meio com uma cara clara e grandes, espantosos, olhos pretos.
No corredor, quadros com imagens de caça. Tristão pensa como são feios os rostos sem sobrancelhas dos cavaleiros. Para não ver mais nenhum, olha para baixo enquanto anda. Os pés descalços na madeira fria. Quando encontra uma porta, empurra-a.

A meio da sala, dá conta de ir a chorar baixinho. Esperava encontrar alguém depois da porta, mas não há ninguém. Nem a mãe, nem o pai. E, à medida que vai avançando para a outra porta, adensa-se o medo estremunhado no coração do miúdo. Por um lado, o choro ecoando naquele espaço. Por outro, o terror das coisas, tão quietas e imprecisas. A cadeira fora do lugar, o cinzeiro sujo. Tristão sente que, agora acordado, está dentro de um lugar muito mais vago e nevoento do que antes, quando sonhava. Um lugar vago e escuro e nevoento que é tal e qual um pesadelo.

Outra porta: luz, música. Homens com laços debaixo do queixo, mulheres com pescoços nus. Mostram-se espantados e alegres ao verem-no, mas são maus atores. E a luz é violenta, e alguém dá uma gargalhada grossa, e há o estrondo de bombas lá fora. Tristão não chora mais. Está em pânico, olhos perdidos. Vai atirar-se para o chão e enrolar-se sobre si próprio, fechado a qualquer palavra ou gesto, repetindo para dentro “não, não”.

Mas o mordomo da empresa de organização de eventos vale o seu peso em ouro. Pousa a garrafa de champanhe, pega no miúdo. Sorri aos convidados e sai com ele para a janela, para ver o fogo-de-artifício. “Estás a ver? É isto o barulho”, diz-lhe.

E Tristão serena porque pensa que aquelas cores explodindo na noite são tão parecidas com as do sonho, tão parecidas, que afinal talvez seja aquilo a “realidade”.

Por Jacinto Lucas Pires

Como neste ano que entra, publicarei contos estrangeiros, apresento a transição que é este conto de autor português em português.

Alci Santos – editor

DE CIMA PARA BAIXO


Naquele dia o ministro chegou de mau humor ao seu gabinete e imediatamente mandou chamar o diretor geral da Secretaria.
Este, como se movido fosse por uma pilha elétrica, estava, poucos instantes depois, em presença de Sua Excelência, que o recebeu com duas pedras na mão.
– Estou furioso! – exclamou o conselheiro. – Por sua causa passei por uma vergonha diante de Sua Majestade o Imperador!
– Por minha causa? – perguntou o diretor-geral, abrindo muito os olhos e batendo nos peitos.
– O senhor mandou-me na pasta um decreto de nomeação sem o nome do funcionário nomeado!
– Que me está dizendo, Excelentíssimo?…
E o diretor-geral, que era tão passivo e humilde com os superiores, quão arrogante e autoritário com os subalternos, apanhou rapidamente no ar o decreto que o ministro lhe atirou, em risco de lhe bater na cara, e, depois de escanchar a luneta no nariz, confessou em voz sumida:
– É verdade! Passou-me! Não sei como isto foi…
– É imperdoável esta falta de cuidado! Deveriam merecer-lhe um pouco mais de atenção os atos que têm de ser submetidos à assinatura de Sua Majestade, principalmente agora que, como sabe, está doente o seu oficial-de-gabinete!
E, dando um murro sobre a mesa, o ministro prosseguiu:
– Por sua causa esteve iminente uma crise ministerial: ouvi palavras tão desagradáveis proferidas pelos augustos lábios de Sua Majestade que dei a minha demissão!…
– Oh!…
– Sua Majestade não o aceitou…
– Naturalmente; fez Sua Majestade muito bem.
– Não a aceitou porque me considera muito e sabe que a um ministro ocupado como eu é fácil escapar um decreto mal copiado.
– Peço mil perdões a Vossa Excelência – protestou o diretor- geral, terrivelmente impressionado pela palavra demissão. – O acúmulo de serviço fez com que me escapasse tão grave lacuna; mas afirmo a Vossa Excelência que de agora em diante hei de ter o maior cuidado em que se não reproduzam fatos desta natureza.
O ministro deu-lhe as costas e encolheu os ombros, dizendo:
– Bom! Mande reformar essa porcaria!
O diretor-geral saiu, fazendo muitas mesuras, e chegando no seu gabinete, mandou chamar o chefe da 3ª seção, que o encontrou fulo de cólera.
– Estou furioso! Por sua causa passei por uma vergonha diante do Sr. Ministro!
– Por minha causa?
– O senhor mandou-me na pasta um decreto sem o nome do funcionário nomeado!
E atirou-lhe o papel, que caiu no chão.
O chefe da 3ª seção apanhou-o, atônito, e, depois de se certificar do erro, balbuciou:
– Queira Vossa Senhoria desculpar-me, Sr. Diretor… são coisas que acontecem… havia tanto serviço… e todo tão urgente!…
– O Sr. Ministro ficou, e com razão, exasperado! Tratou-me com toda a consideração, com toda a afabilidade, mas notei que estava fora de si!
– Não era caso para tanto.
– Não era caso para tanto? Pois olhe, Sua Excelência disse-me que eu devia suspender o chefe de seção que me mandou isto na pasta!
– Eu… Vossa Senhoria…
– Não o suspendo; limito- me a fazer-lhe uma simples advertência, de acordo com o regulamento.
– Eu… Vossa Senhoria.
– Não me responda! Não faça a menor observação! Retire-se e mande reformar essa porcaria!
O chefe da 3ª seção retirou-se confundido e foi ter à mesa do amanuense que tão mal copiara o decreto:
– Estou furioso, Sr. Godinho! Por sua causa passei por uma vergonha diante do Sr. Diretor-geral!
– Por minha causa?
– O senhor é um empregado inepto, desidioso, desmazelado, incorrigível! Este decreto não tem o nome do funcionário nomeado!
E atirou o papel, que bateu no peito do amanuense.
– Eu devia propor a sua suspensão por 15 dias ou um mês: limito-me a repreendê-lo, na forma do regulamento! O que eu teria ouvido, se o Sr. Diretor-geral me não tratasse com tanto respeito e consideração!
– O expediente foi tanto que não tive tempo de reler o que escrevi…
– Ainda o confessa!
– Fiei-me em que o sr. chefe passasse os olhos…
– Cale-se!… Quem sabe se o senhor pretende ensinar-me quais sejam as minhas atribuições?!…
– Não, senhor, e peço-lhe que me perdoe esta falta…
– Cale-se, já lhe disse, e trate de reformar essa porcaria!…
O amanuense obedeceu.
Acabado o serviço, tocou a campainha. Apareceu um contínuo.
– Por sua causa passei por uma vergonha diante do chefe da seção!
Por minha causa?
– Sim, por sua causa! Se você ontem não tivesse levado tanto tempo a trazer-me o caderno de papel imperial que lhe pedi, não teria eu passado a limpo este decreto com tanta pressa que comi o nome do nomeado!
– Foi porque…
– Não se desculpe: você é um contínuo muito relaxado! Se o chefe não me considerasse tanto, eu estava suspenso, e a culpa seria sua! Retire-se!
– Mas…
– Retire-se, já lhe disse! E deve dar-se por muito feliz: eu poderia queixar-me de você!…
O contínuo saiu dali e foi vingar-se num servente preto, que cochilava num corredor da Secretaria.
– Estou furioso! Por sua causa passei pela vergonha de ser repreendido por um bigorrilhas!
– Por minha causa?
– Sim. Quando te mandei ontem buscar na portaria aquele caderno de papel imperial, por que te demoraste tanto?
– Porque…
– Cala a boca! Isto aqui é andar muito direitinho, entendes? – Porque, no dia em que eu me queixar de ti ao porteiro estás no olho da rua. Serventes não faltam!…
O preto não redargüiu.
O pobre-diabo não tinha ninguém abaixo de si em quem pudesse desforrar-se da agressão do contínuo; entretanto, quando depois do jantar, sem vontade, no frege-moscas, entrou no pardieiro em que morava, deu um tremendo pontapé no seu cão.
O mísero animal, que vinha, alegre, dar-lhe as boas vindas, grunhiu, grunhiu, grunhiu, e voltou a lamber-lhe humildemente os pés.
O cão pagou pelo servente, pelo contínuo, pelo amanuense, pelo chefe da seção, pelo diretor-geral e pelo ministro!…

Por Artur Azevedo

ASAS E ROSAS


Então ele acorda.
Tudo à sua volta é deserto, a sua volta pedras nuas de cores escuras, no ar um leve cheiro de cinzas impregnando tudo o que por ali passe, como se tudo houvesse queimado de forma lenta e contínua por infindáveis anos. Com movimentos vacilantes se põe de pé, as pedras pequenas e afiadas não ajudam. Nenhum sinal de vida ao redor, salvo sob parcas carcaças de árvores esquecidas no tempo.
O menino olha tudo com inocente curiosidade, ainda não aprendera o medo, é pequeno demais, mas já carrega algumas marcas, que só mais tarde poderá compreender seus significados. Caminha poucos passos, o sopro frio que arrasta as folhas e galhos secos passa por ele, e trazendo de lugares insondáveis o cheiro e a marca das cinzas. Caminha poucos passos pela velha trilha, guiado pela única luz que vê, apesar do céu negro, o caminho é iluminado, como se tudo emanasse luz própria.
Vultos correm por entre as pedras, sombras avançam ao redor do menino, que pouco ou nada percebe, olhando atentamente para o que está ao longe, como se em transe. As sombras avançam cada vez mais até quase o tocarem. O baque logo atrás de si o faz voltar a consciência de onde estava.
-O que pensas que fazes aqui? – A sombra alta entre as outras tantas que desapareciam por entre as pedras se aproxima da pequena figura, – Viestes aqui por que caminhos, criança? –
O menino não faz mais do que admirar o homem alto à sua frente, de vestes negras e de alvos e  longos cabelos como não mais se viam por ali. Observando tudo sempre com curiosa sinceridade, olha ao seu redor, e de volta à alta figura que o observava, que esperava uma resposta que ele não sabia dar.
-Provavelmente caiu aqui por algum acidente ou descuido… – Pensava o homem em voz alta – Tudo bem, acompanhe-me garoto. É muito cedo, mas já que veio vamos para outro lugar, por aqui andam sombras que não gostarias de ver de perto. – Disse estendendo a mão ao garoto, desvelando brancas luvas por debaixo da túnica tão negra como a Lótus que surge branca e imaculada do breu, e os olhos do garoto ali se perdiam, como se à entrar em outros sonhos, tão estranhos quanto aquele lugar.
O homem alto caminha para o outro lado, seguido pelo menino, que não cansa de olhar para os vultos de luz em suas costas, uma luz tão pura e cristalina que é quase palpável, ao perceber o olhar do menino a alta figura para de andar, e ele percebe que seus pés não tocam o chão. Perdendo-se entre as palavras pergunta:
-Com licença… Porque tens asas? – diz apontando o pequeno indicador para os vultos de luz.
-E porque você não as tem? – Respondeu o homem olhando de cima a baixo, como em uma sutil provocação.
O garoto olha por sobre os ombros e não vê nada, volta o olhar desapontado ao homem, que sorri com certa doçura, enquanto toca a aba de sua cartola com a ponta de um cetro que até então estava oculto sobre o manto negro.
-Eu… Eu poderia ter asas como as suas? – Disse por fim o garoto com uma ponta de esperança na voz.
-Não, você não pode. – Responde secamente de trás dos fios brancos que suavemente cobrem seu rosto.
Continua o caminhar, o menino seguindo seus passos, olhando para o chão, para a sombra do homem e seus pés, difusos pela luz que sai do manto em suas costas, como se projetadas por algo que não conseguia definir. Por um longo caminho o homem segue seus próprios passos, e o menino quase fica para trás, tropeçando em pedras soltas e levantando as pressas para alcançar seu estranho guia.
-Onde estás a me levar? – pergunta o garoto, um tanto cansado da longa caminhada.
-Para onde deves ir, nem além, nem aquém.
Continuam a caminhada por mais um tempo em silêncio, o menino a observar tudo à sua volta, as sombras, as formas que dançam por entre as pedras no caminho sinuoso que percorre, o céu igualmente negro, de um ar tão melancólico que o deixa desconcertado, partes da paisagem que passam por ele a passos trôpegos por entre as pequenas pedras afiadas. Caminham até um grande lago, tão vasto e negro como o céu do lugar refletindo a paisagem morta como um espelho frio e cruel.
O homem alto caminha até onde a superfície do grande lago beija o solo de pedra e com um leve aceno chama o garoto para perto de si. O pequeno caminha lentamente, está cansado do caminho, com arranhões nas mãozinhas que latejam. Com olhos cansados aproxima-se da água e vê seu reflexo nas águas.
-Woah! – diz ao recuar da beira, recolhendo os braços como se quisesse abraçar a si mesmo, e com um olhar tenta ver por sob o ombro, e novamente nada encontra. Vacilante volta ao reflexo que o lago desdobra por sobre sua superfície. – Co… Como pode? Porque não disseste que eu tinha tantas?
-Porque você não perguntou. – Disse-lhe simplesmente o espírito ao seu lado.
-Mas disseste que eu não poderia ter…
-Justamente. Você não tem uma, nem duas, nem poderias ter estas, apenas.
-Mas… Porque tens duas, e eu tenho tantas? – Confuso, o menino busca um sentido para tudo o que vê.
-Porque assim que deve ser, mas ainda é cedo para isso… Agora devo ir. – Diz olhando em volta, como se à medir o tempo com os olhos.
O menino observa a forma alongada e negra do manto do seu estranho guia.
-Eu… Eu posso te ver de novo? – disse por fim, com certo receio.
-Sim, mas não agora. Estarei aqui quando precisar, é só chamar pelo meu nome.
-És um anjo?
(risos)
-Não da forma como o defines. Sou apenas um Guardião.
-Qual seu nome?
-Meu nome não é importante no momento. Saberás me chamar quando for necessário, quando for a hora certa. Meu nome está onde deve estar. – Diz tocando o peito do menino com terna suavidade com a ponta de seu bastão.
-Até breve – Diz misturando-se à penumbra, até a luz de suas asas desaparecer por completo.
O menino levanta, perguntando-se como poderá encontrar aquela estranha e familiar figura novamente, e vê, onde ele estava momentos antes, uma rosa vermelha num caule com duas folhas, abaixa-se para pegar. Caminha mais adiante com a rosa entre as mãos, até o tronco de uma grande árvore aos pés do lago tão frio e tão calmo. Senta-se encostando-se à velha árvore, sendo dominado pelo cansaço e pelo sono, adormecendo por entre as sombras.
O sol bate à janela, o calor de um novo dia, sua mãe abre as cortinas do quarto para deixar a luz entrar. O menino levanta para ir à escola, não se lembra do que viveu momentos antes, nem se foi sonho ou realidade, apenas sente um doce perfume em seu quarto, que o acompanha até desaparecer e se guardar na lembrança até que o momento certo enfim se aproxime.

Por Taffarel Micaloski (A Valsa das Flores Mortas)