HISTÓRIA DI PESCADÔ


Presti atenção neste causo
qui eu vou lhes acontá
prumeto qui é um arrazo
eu inté qui posso jurá
pois nu meu coração trago
as marca du particulá

Olhem bem meus amigo
U qui faiz uma pescaria
podi ter os seus perigo
os qual eu num conhecia
intão ocorreu comigo
u qui eu num esperaria

Fui prum tar di cungresso
lá pelo sul deste país
mai num sabia…cunfesso
perante  vancê e us juiz
qui u meu maió sucesso
ia sê u di eu sê feliz

Num fui  pra pescaria
mais nun pude arresisti
quando vi uma guria
qui andava pur alí
foi apenas alegria
u que ness’ora senti

A prenda muito formosa
di um sorriso encantadô
andava faceira e airosa
nu meio dus corredô
arrisquei intão uma prosa
e a gente si apaixonô

Tevi hora di si afastá
i hora di ficá juntinho
( coisa du cabra  istranhá)
mai fumo indo devagarinho
i acabemo por si amá
muitu bem agarradinho

tem hora qui nessa vida
nois inté se aperreia
fica lambenu as ferida
nas noite de lua cheia
mas minha prenda é linda
prá mim a mais bela sereia

E foi assim qui aconteceu
u meu caso já tá contado
só quem o fato viveu
podi falá bem falado
i comigo assucedeu
ir pescá e ser pescado

Por Jorge Linhaça
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ANO NOVO


As últimas horas que restam são de incrível exorcismo.

Os meninos curtem, sonolentos, brinquedos de Papai Noel,

mas as luas que me restam são roteiros irrecuperáveis.

Nem todos os sinos repicam ao mesmo tempo

e nem todos os seios amamentam com o mesmo leite.

Os pândegos comemoram à sua maneira,

e há sintomas de medo e espanto.

Jogo na cesta papéis sem memória

que os rios levam nas suas mesmas águas.

Meia-noite…  Subo ao céu para beijar a estrela

porque já sou Ano-novo.

E ela nunca mais será a mesma rosa.

Por Wilson Frade

ENCHENTE


Águas turvas
Águas mudas
Que não pedem licença para entrar.

Água que varre casas
Destrói raízes
Rouba vidas.

Águas de uma tristeza sem fim
Que fazem sair dos olhos, mais águas
Lágrimas que se juntam a outras centenas
Gotas que caem com sentimentos de dor profunda.

Tristeza, decepção, ESPERANÇA.

Esperança que amanhã seja outro dia
Que atrás das montanhas nasça o sol
E que tudo será conquistado novamente.

Águas que correm por um rio
E abrirão o caminho da fé, da confiança em Deus e na natureza.

Água que é essencial à vida
Águas que cairão do céu para tornar o mundo mais belo.

Por Flávia Costa

MEUS FRUTOS


Já não m’importa o ser imortal
Que minha obra a minha sobreviva
Ou que se perca de forma furtiva
Entr’alfarrábios n’algum vendaval

O que m’ímporta é a hora atual
Pois que meu estro é qual a estiva:
De levar pesos jamais se esquiva
Por mais que achem ser este o seu mal

Entre o satírico e o lirismo
Vão minhas letras buscando espaço
Galgo as montanhas e desço ao abismo

Mas se apenas restar uma linha
Único verso riscado a compasso…
Será meu fruto de toda uma vinha.

Por Jorge Linhaça

PÁGINA 102


Mágoa horrenda, ânsia horrenda, ciúme horrendo
Esta mísera página continha,
E Ela, por lê-la, dos seus olhos vinha,
Vinha um fio de lágrimas descendo…

Esta os seus olhos que choravam lendo,
Mais do que as outras páginas detinha,
E àquele pranto pela angústia minha
Iam-me os versos desaparecendo…

A sua última lágrima desfê-los…
Hoje estes mesmos pobres versos choram
O lugar dos antigos ocupando,

E estes, como os primeiros, que os seus belos,
Seus tristes olhos apagando foram,
Vão-se-me agora aos poucos apagando.

Por Pedro Rabelo

A JÚLIA


No teu olhar, cheio da luz chorosa
Que envolve o Espaço quando a tarde expira,
Bóia uma doce mágoa lacrimosa,
Uma saudade indefinida gira.
E quando afirmes que não tem começo
A dor sem fim que no teu seio existe
Queres assim, eu muito bem conheço,
Fazer-me crer que já nasceste triste.
E falas a sorrir: “Essa dolente
Tristeza amarga que me empana o olhar
É a vaga chorando eternamente
Por não poder se separar do mar…

E se te fito a umedecida boca
E vejo rubro o lábio que sorri,
Logo pergunto, num cismar de louca,
À mente e ao coração, se és tu quem ri.
Pois é tão mansa a chama destes olhos
Envoltos na carícia do sorriso,
Que eu penso que teus cílios são abrolhos,
Abrolhos rodeando um paraíso…

Por Auta de Souza