UM CONTO DE FIM DE ANO


Era a noite logo antes da noite de Natal. Em Brookline, Massachusetts, reinava uma paz quase perfeita. Fazia frio, 10 abaixo de zero, mas o céu estava limpo e luminoso a ponto de apagar o brilho das estrelas. Até os jovens pareciam preferir os prazeres do lar e passar em casa a primeira noite das férias. Pelas ruas desertas, difundia-se uma sensação de harmonia.
Paz na terra aos homens de boa vontade. As casas ronronavam satisfeitas empurrando ao máximo suas caldeiras. As lareiras acesas soltavam fios delicados de fumaça. Esses arabescos, o murmúrio das calefações e o código morse das luzes natalinas piscando compunham uma linguagem que subia ao céu como uma prece de gratidão.
As decorações luminosas das casas vistas de cima deviam configurar um sinal à intenção do Salvador, para que caso decidisse voltar entre nós, Ele reconhecesse seu aeroporto. Sem dúvida, alguma divindade deveria ser sensível ao cântico dessa e de outras prósperas cidades. Pois as notícias, no fim daquele dia, eram a prova de uma bênção divina respondendo à boa vontade dos homens: ambos os índices -o Dow Jones e o Nasdaq- fecharam com novos recordes.
Nas casas, o calor fomentava o amor e os bons sentimentos. Nos fundos de investimento, o dinheiro poupado se multiplicava como bacilos numa estufa. Envelheceremos tranquilos ao abrigo da necessidade, pois o deus de Wall Street reconheceu os seus. As festas de fim de ano são uma época prona às visitações. As pessoas se visitam. No mínimo, trocam presentes, cartões ou e-mails. Os pequenos contam com a mágica manifestação de Papai Noel. Os adultos esperam ser visitados por algum tipo de graça: por isso é época de reavaliação do passado e de propósitos para o futuro.
Mesmo assim, quando por volta das 21h tocou a campainha, foi uma surpresa. Era uma jovem de uns 20 anos, magra, cabelos curtos, os lábios e o rosto brancos pelo frio; assim como as mãos que seguravam uma prancheta. Ela estava absurdamente pouco agasalhada: calças de brim e uma daquelas malhas espessas de lã crua. Parado no limiar, eu sentia nas costas o calor da casa e na frente o vento gélido no meio do qual ela se erguia e de onde ela me olhava. Solicitava uma assinatura para alguma petição. Não consegui escutar direito: talvez fosse contra as emissões de gás carbônico e o aquecimento do planeta (que aliás naquela noite teria sido bem-vindo). Ou então contra a fome na Somália.
Ou a favor dos gorilas. Não conseguia escutar porque, fascinado, eu contemplava no olhar dela, lá naquele frio danado, meu próprio olhar aos 20 anos. Na verdade, enquanto ela falava, eu não a via, mas me olhava pelos olhos dela. Sei que o ano 2000 não é o começo do novo século nem do novo milênio, ambos acontecerão em 2001. Também é uma medida de tempo que vale apenas em nossa cultura. Mas acontece que, 20 ou 30 anos atrás, o 2000 já funcionava como uma marca. O ano se tornou significativo por força de antecipação. Como seremos no 2000? Chegaremos lá? Minha antecipação quanto a mim mesmo era negativa. Na verdade, eu não queria viver até hoje, desconfiava que a esta altura estaria decrépito.
Pouco a ver com o envelhecimento do corpo: previa que o Contardo do ano 2000 seria uma decepção. Pior, ele me trairia. Agora estava descobrindo e julgando este eu do ano 2000 por meio dos olhos de minha visita inesperada. O ano quase acabou, os números estão virando, você está ainda vivo e gosta do que está vendo? Não sei. A moça falava e eu pensava nas esperanças mortas, nas repetidas vitórias do que é razoável sobre o que é certo. Pensava que viver é uma permanente invenção de terceiras vias. Também que a adolescência é o momento moral da vida, quando os ideais são assumidos na ruptura, contra pais e mestres, e portanto durante um tempo valem sem reservas. Por isso desconfiamos dos jovens: neles, receamos nosso próprio olhar adolescente (e impiedoso) sobre nós mesmos. Deles também podemos temer um absolutismo moral absurdo, sem compromissos. Em outras épocas e longitudes, por exemplo, minha visita poderia ser um grupo de adolescentes cambojanos me anunciando que era tempo de deixar luxo e conforto para me reeducar no campo.
Perguntei-me dos dois extremos qual seria o pior: adolescentes fanáticos no poder ou então jovens que perdem a ocasião de ser a consciência moral de seus tempos e, tornando-se coroinhas dos piores deuses dos adultos, envelhecem antes da hora e apodrecem? Minha visita terminara de falar. Assinei não sei o quê. Mastiguei um “feliz Ano Novo”, fechei a porta e voltei para a lareira, às conversas e aos risos. A cena cabia no cartão-postal privilegiado e um pouco hipócrita do espírito natalino da cidade. Por que não participaria? O mundo não ia ser muito pior por causa disso. Mas certamente o mundo era um pouco melhor pela generosidade da jovem que, sem sorrir, fora embora no frio e no escuro, para bater a outra porta.

FIM

Por Contardo Calligaris

UM FELIZ ANO NOVO A TODOS OS LEITORES DE CONTOS.BR

QUEM TEVE A IDÉIA DE CORTAR O TEMPO


Cortar o tempo

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.

Por Carlos Drummond de Andrade

UM FELIZ 2014 PARA TODOS


Aos meus leitores:

Começamos mais um ano com uma boa perspectiva de um crescimento maior tanto intelectual como de um interesse maior nas histórias dos escritores brasileiros, profissionais ou não.

E é isso que nosso site pretende publicar em 2014. Não somente séries mas também dividir o espaço com contos seriados e poesias além da publicação de material de terceiros.

Teremos também uma grande novidade. Aguardem.

Um feliz 2014 para todos!

INOVAÇÃO OU MESMÍCIE?


Este ano nossa família passou o ano novo separada. Enquanto uns foram para a casa de praia, outros, passaram viajando e outros permaneceram em suas residências em outro estado. Muitos querem apenas estar juntos com a família no fim de ano e continuar passando da mesma forma todos os anos, mas outros querem inovar e passar o fim de ano de forma diferente. Muitos evitam sair porque tem medo do novo, outros porque acham caro.

Em minha opinião, acho que se as pessoas tem essa oportunidade, então deveriam mudar. Acho que cada fim de ano poderá ser diferente para quem quiser, basta ter vontade para isso e não falo apenas de minha família e sim no geral para todas as pessoas.

Acho que permanecendo na mesmície, o espírito de fim de ano cai bastante fazendo com que muitas pessoas fiquem tristes. Este ano estive na parte da família que viajou e foi uma coisa bastante nova e bonita, imagine se os outros familiares estivessem junto com a gente.Acho que ano que vem quero já mudar, para outro diferente.

E você? Vai permanecer na mesmície?

Por Alci Santos

ANO NOVO


As últimas horas que restam são de incrível exorcismo.

Os meninos curtem, sonolentos, brinquedos de Papai Noel,

mas as luas que me restam são roteiros irrecuperáveis.

Nem todos os sinos repicam ao mesmo tempo

e nem todos os seios amamentam com o mesmo leite.

Os pândegos comemoram à sua maneira,

e há sintomas de medo e espanto.

Jogo na cesta papéis sem memória

que os rios levam nas suas mesmas águas.

Meia-noite…  Subo ao céu para beijar a estrela

porque já sou Ano-novo.

E ela nunca mais será a mesma rosa.

Por Wilson Frade