OS DOIS PRÍNCIPES E O CAMPONÊS – 10 de 10 – FINAL


Os príncipes certamente não ficaram nem um pouco satisfeitos com a tarefa do rei. Mas existia uma criatura que ficou ainda mais insatisfeita:

A bruxa.

Ora, mas que audácia, principalmente vinda de um governante tão decadente! Desafiar a poderosa bruxa das lendas para não abrir mão de sua filha nojenta!

Dizemos “das lendas”, mas a bruxa era bem real. E um real da forma como a peregrina definiria.

E a bruxa ficara sabendo daquilo(A bruxa sempre ficava sabendo de tudo), e ficara extremamente irritada.

Naquele momento já pusera-se a maquinar crueldades. Preparou pequenos feitiços. Apenas os mais fracos, pois os mais poderosos exigiam sacrifícios que ela não tinha como conseguir sozinha. Mas os mais fracos eram sempre suficientemente poderosos para lidar com os corações injustos.

E claro, seu primeiro alvo seria a ameaça iminente: Os dois príncipes arrogantes que aceitaram o desafio insano que lhes foi proposto. A bruxa conhecia bem as intenções dos dois príncipes, pois era fácil para ela ler intenções egoístas, e sabia que poderia utilizá-los como peças primárias.

E digo primeiro alvo porque as maquinações da bruxa jamais se limitavam a um alvo só. Como havia dito antes, a bruxa sempre tinha que atacar uma pessoa merecedora. Era um vício de sua mente, uma mania insana que se desenvolveu ao longo de suas eras de existência maligna.

Os príncipes não eram merecedores. Suas maquinações não encontrariam o devido prazer em fazer-lhes cair em perdição. Os príncipes seriam apenas peões, as peças necessárias para levar à ruína a única pessoa merecedora que tinha envolvimento na história toda.

Quem pagaria não seriam os príncipes, que aceitaram a tarefa de desafiá-la. Não seria o rei, que impusera essa missão em seu desafio. Não seria a maldita madrasta estéril, que não gerou novos descendentes de seu senhor, e fez com que ele atingisse tal estado de insanidade.

Não. Nenhum desses eram merecedores. Nenhum desses iria pagar.

O alvo final da bruxa era outro. O prêmio daquela missão: a princesa.

Por Ramon Nogueira da Silva

OS DOIS PRÍNCIPES E O CAMPONÊS – 9 de 10


Os pensamentos do camponês e da peregrina me fazem querer abrir mais um pequeno espaço, e iniciar uma pequena discussão filosófica.

Entretanto, não sou filósofo, e nem pretendo passar-me por um(ao contrário da grande maioria dos indivíduos que nos cercam hoje). Irei, portanto, limitar-me a narrar os pensamentos de terceiros, da forma como eram.

A jovem peregrina que visitava o camponês de forma recorrente tinha um conceito bem definido do que era “real”. “Real” para ela era algo tangível. As coisas que podíamos ver e tocar. As coisas que existiam de forma concreta. O resultado de subsequentes demonstrações e argumentações, embasadas em definições menores e mais primitivas, isso era “real”. “Real” era a verdade. Em um mundo regido por conceitos de verdade e mentira, o “real” tendia para a verdade. Verdade absoluta e incontestável. Se a existência de algo era contestável, então não era “real”. “Real” era uma visão clara e objetiva das coisas. Subjetividade era um atributo da fantasia. A realidade era sempre bem objetiva.

E a moça era cética em relação a sonhos. Imaginação era coisa da imaginação. Era uma necessidade humana, uma válvula de escape da realidade, um conceito diferente e disjunto do que era “real”.

Mas nosso notável camponês acreditava nos sonhos e na imaginação. Nosso camponês não estava preocupado em ser objetivo ou irrefutável, ele se preocupava mais em formar o seu “real”, a partir de seus próprios conceitos, ideias e imaginação.

Óbvio, o camponês não era tolo de achar que sonhos lhe poderiam servir de realidade. Mas os sonhos eram o planejamento. O molde do que a realidade viria a ser. Uma vez que imaginasse, podia-se fazer o que quiser, desde que se pusesse em prática.

Para o camponês, “real” era um sonho que se concretizou.

CONCLUI A SEGUIR…

Por Ramon Nogueira da Silva

OS DOIS PRÍNCIPES E O CAMPONÊS – 8 de 10


Passou-se algum tempo(e já não se sabe mais sua quantidade exata) antes que a jovem peregrina pusesse novamente seus pés na vila do nosso camponês. Surgiu novamente e dirigiu-se direto à casa do homem, que lhe recebeu com o habitual cumprimento:

— Bom dia!

— Não consigo. — Precipitou-se a moça, emburrada, sem nem lhe responder a saudação.

O camponês soltou uma sonora gargalhada. E é uma pena que a data de tal evento tenha sido perdida, pois foi a primeira vez que os habitantes daquele lugar o viram rir com tamanha espontaneidade.

A peregrina, contudo, trovejou impaciente(e a impaciência era característica marcante daquela menina, assim como de todos aqueles que são bons na arte de proferir críticas):

— O que tens de tão engraçado? Nunca me dei ao luxo de cuidar de vegetais, e não sou capacitada para tal. Achas correto debochares de mim?

— Não estou a debochar de ti, mas sem dúvida foi algo divertido de ver-te proferir. Todavia, fico feliz em ver que agora passais a considerar meus simplórios passatempos como luxo.

A moça continuou irritada. Sabia ser inútil argumentar contra aquilo. Via no camponês um homem simplório e ignorante(o que não era uma ofensa: todos eram simplórios e ignorantes naquele tempo), que jamais seria capaz de entender a situação “real” de sua vida. Mas vamos discutir sobre esse “real” mais à frente.

O camponês então ofereceu-lhe:

— Acaso vieste aprender como tratar de teu pequeno jardim?

— Chamas de “jardim” um único vaso que me concedeste?

— Naturalmente. Um único vaso já é um jardim, se você lhe dedica tempo e amor para o cultivo de tuas plantas.

— Teus conceitos são estranhos, camponês.

— Então vejas. Vou lhe mostrar como se faz e começarás a entender tais conceitos.

O camponês então começou a ensinar à moça as minuciosas técnicas que empregava em seu curioso jardim.E divertiu-se incrivelmente com o desajeito da outra, sua falta de paciência e sua atitude indelicada e prepotente.

Ao fim do dia, a jovem partiu. Mas disse-lhe antes:

— Não voltarei mais, camponês. Tentarei descobrir o que lhe tanto agrada em uma arte tão simplória.

— Descobrirás. — Respondeu-lhe o outro, sorrindo.

E logo depois a peregrina foi embora.

E falou para si mesma que jamais retornaria ali.

CONTINUA…

Por Ramon Nogueira da Silva

OS DOIS PRÍNCIPES E O CAMPONÊS – 7 de 10


Existe ainda um personagem que não fora trabalhado.

Gostaria de ter adiado esse momento (senão cortá-lo), mas não posso prejudicar a narrativa. Afinal, um narrador se compromete não só a passar as cenas agradáveis, mas também aquelas que tornam o sono do leitor inquietante.

Falarei agora de um personagem vil. Talvez não vil por natureza, mas as motivações que o tornaram ruim não fazem de seus atos perdoáveis. E, como aqui foi dito, nem por um momento citaremos as motivações da bruxa das lendas, mas gosto de imaginar que fossem mais comoventes que as da criatura que agora citarei aqui.

Como sugerido no início, não declararei seu nome, sendo que referir-me-ei a essa personagem como “a madrasta”.

Narrarei desde quando começou sua participação nessa história, não me preocupando em descrever seu passado. Afinal, os fatos anteriores de forma alguma foram responsáveis por fazer dela o que era no final. Acho que vale apenas citar que viera de origens nobres, e que já era ambiciosa desde a infância.

Na época em que o rei de nossa história buscava uma segunda esposa, o reino onde a futura madrasta reinava estava em decadência. O governante do lugar havia falecido sem deixar descendentes, uma vez que sua mulher era estéril. Por conta disso, sua esposa assumira o cargo de rainha e governara.

Ora, já comentamos sobre a fragilidade dos conceitos dos cidadãos daquele tempo. Mas os preconceitos, esses estavam bem firmes. E eis que tínhamos uma rainha governando uma sociedade em que os homens estavam no topo e as mulheres eram subjugadas.

Pouco a pouco, o reino foi perdendo respeito. Os ministros tentaram golpes para derrubar a rainha, mas não vou me ater a detalhes. O importante é descrever o que se passava na mente daquela mulher.

Medo.

Não medo por seu país, não medo de ser morta pelos ministros. A rainha temia ficar pobre. Viera da nobreza, acostumara-se com a nobreza, e agora seu reino estava decadente e seu posto ameaçado. Poderia ela suportar viver entre meros plebeus?

Não. Por isso houve certas doses de veneno nos pratos certos da realeza (o que garantiu sua permanência em seu cargo) e planos de contato com outros reinos a fim de conseguir um novo marido.

E uma vez que soube de certo rei que buscava uma nova esposa, ofereceu-se imediatamente. Assim, manteria seu prestígio.

CONTINUA…

Por Ramon Nogueira da Silva

OS DOIS PRÍNCIPES E O CAMPONÊS – 6 de 10


Mas voltemos ao nosso camponês. No dia seguinte ao incidente da viajante nosso protagonista pôs-se novamente a regar suas flores.

— Bom dia!

O cumprimento do camponês dirigiu-se à peregrina do dia anterior, que novamente apareceu por ali.

— Por acaso vieres me ajudar a regar flores?

A moça sentou-se no chão próximo ao camponês, de um modo um tanto infantil.

— Só gostaria de saber que graça vês no simples ato de regar flores.

— Não acharás graça se ficares só a me olhar.

A moça, contudo, não se mexeu.

E por alguns minutos o camponês ficou a regar e tratar de suas flores. Trocou a terra de dois vasos e ajustou-os à posição do Sol. Então, satisfeito com seu trabalho, foi tratar de seus negócios, ou seja, a carpintaria.

Antes, porém, falara à sua companhia:

— E então? Gostaste?

— Por acaso encontras sentido para viver com isso?

— Naturalmente.

— Deves ser a única pessoa no mundo que te contentas com tão pouco.

— Já disse essas mesmas palavras a uma pessoa, em uma época em que não me contentava com nada. Todavia, de agora em diante contentar-me-ei apenas com isso. Não é menos do que mereço nem mais do que necessito.

— Vives em mundo de utopia camponês! Não só de coisas tão simples pode-se viver um homem! Por acaso tens certeza de que és feliz?

O camponês sorrira, de um jeito de desconcertara a moça.

— Levai.

E entregara-lhe um vaso com um broto de rosa.

— Tratai-lhe bem e experimentais por ti mesma. Se lhe parecer demasiado trabalhoso estás novamente convidada a vir aqui, para que eu possa ensinar-lhe bem.

A jovem aceitara receosa (alguns extremistas diriam a contragosto). E depois se despedira do camponês e partira.

E se disse, em particular, que jamais retornaria ali.

CONTINUA…

Por Ramon Nogueira da Silva

OS DOIS PRÍNCIPES E O CAMPONÊS – 5 de 10


Vamos abrir mais um breve interlúdio. Pode ser que estas histórias paralelas não sejam de total agrado ao leitor, porém lembremo-nos que muito embora tenhamos tomado o camponês como astro de nossa narrativa, o título da mesma também citava os dois príncipes.

Como já disse antes não gosto de títulos. Contudo não é por mero acaso que os dois príncipes foram citados ao apresentar a história. E dada sua importância, seria interessante ressaltar aqui as características de cada um.

O príncipe loiro possuía grande beleza. Não que houvera nascido belo, mas fizera-se belo por conta de sua vaidade. Nada era mais valorizado para esse homem que a beleza, de modo que se apaixonara pela princesa desde o primeiro momento que pusera seus olhos nela, já que a moça era a mais linda jovem que o príncipe já vira.

O príncipe moreno era possuidor de vastas riquezas. Não que houvera nascido rico, mas fizera-se rico por conta de sua ganância. Nada era mais valorizado para esse homem do que seus bens, de modo que se apaixonara pela princesa desde o primeiro momento que pusera seus olhos nela, já que a moça era a mais rica jovem que o príncipe já vira.

E assim, cada um por seus motivos, cada um por sua paixão (embora a princesa em si não fosse paixão de nenhum), os príncipes embarcaram naquela missão impossível. Ambos no anseio de serem os merecedores.

Sem merecerem.

CONTINUA…

Por Ramon Nogueira da Silva

OS DOIS PRÍNCIPES E O CAMPONÊS – 4 de 10


Uma vez passou pela vila uma jovem peregrina, ou assim diziam as línguas (ou talvez assim dissesse ela mesma, mas os detalhes estão perdidos). Tratava-se de uma jovem curiosa e bela. Andava com uma roupa que parecia ser nobre, entretanto estava em trapos, e usava um véu descorado, mas que também parecia ter sido tecido pela mais fina seda.

Em algumas horas de perambulação a viajante já atraíra inimizades. Além de curiosa mostrou-se crítica. E falava àquele povo sobre direitos, e também sobre um conceito já tão antigo, mas que só seria realmente criado em gerações futuras: a democracia. E também falava sobre verdades das quais o povo temia, como, por exemplo, a frivolidade de coisas que faziam.

Talvez possa vos parecer que somente isso não seria necessário para atrair tanto descon-tentamento do povo, todavia nossa pequena aventureira (o melhor conceito que lhe posso atribuir) não se limitava a dizer o que o certo para aqueles camponeses.

Também lhes apontava os erros.

Já tentaste remover conceitos de ignorantes? Na mente dos plebeus inibidos, críticas construtivas passavam como grosserias.

E a moça, como quem não se importasse, saiu a dizer a cada um que encontrava alguma tolice atribuída às ações da criatura. Sempre achava algo a criticar, e mostrava-se realmente indignada com a inocência daquele povo.

Inocência! Uma palavra para simplificar os tolos, os sonhadores, os visionários e os ignorantes, e reuni-los em um mesmo grupo.

E não só sua face tornara-se indignada, como também a face daqueles que cruzaram com ela. E assim a moça rumou, frustrada, para os campos externos da vila.

Mas estamos nos desviando do principal: um certo camponês que regava flores.

E assim que passou pela casa do camponês, este, que estava em seu jardim a regar suas flores, sorriu e disse:

— Bom dia!

A moça olhou-o desconcertada, dada a espontaneidade do cumprimento.

— O que fazes aí, camponês? — indagou a moça.

— Estou apenas a regar minhas flores, como de costume faço todos os dias.

— E com que intuito regas essas flores?

— Ora! Para fazê-las crescer e ficarem bonitas, naturalmente! Com que outro intuito estaria eu a regá-las?

— Se tendes tempo para regar, por que não fazes nada com relação as suas condições de vida, que pelo visto, não são das mais convenientes.

— Minha vida é suficientemente boa, da forma que o destino desejou que fosse. Não me cabe reclamar ou criar turbulência sobre isso. Ademais, as flores são mais importantes para mim.

Mais um inocente.

— Como podes dizer isso? Por um acaso pensais que a vida de vegetais são mais importantes do que sua própria?

— Óbvio que não. A suposição criada por ti é absurda! Mas a vida dessas flores é mais importante do que qualquer riqueza material que eu venha a possuir.

— Acaso já viveste no luxo para comparares com tua situação medíocre?

— Acaso já regaste uma flor para comparares com tua situação ambiciosa?

Houve um breve instante de silêncio. Então a moça retomou:

— Por que não entendeis que as coisas que lhe digo apenas te guiarão para teu próprio benefício?

— Antes de aqui chegar vivi de vários benefícios e malefícios. E somente agora acredito ter encontrado a paz necessária para viver. Posso parecer jovem, mas me parece que conheço melhor que qualquer outro os meus próprios benefícios.

Antes que a viajante tivesse tempo para retrucar um grupo de pessoas (formado pelos mesmos que atiraram pedras na velha que por ali passara) a abordara. Um dos homens, que parecia ser o líder (não que tivesse as qualidades necessárias, obviamente) começou a discursar em nome de todos:

— Aviso-te agora, peregrina desconhecida. A menos que seja convidada por alguém em nossa vila não toleraremos tua presença aqui novamente. E vai-te embora agora de uma vez, antes que danemos seu nome!

E então a voz do camponês foi ouvida. Suave, calma, contudo mais respeitosa do que a voz do homem que acabara de se pronunciar:

— E como lhe disse agora pouco, senhorita, estás convidada a voltares aqui quando bem entendeste. E na próxima oportunidade te ensinarei a regar, para que possas tirar tuas próprias conclusões.

O ameaçador se sentiu desmoralizado e então se virou para o camponês:

— Por que te intromete, camponês? Por acaso é de teu intuito fazer-me de tolo?

— Estou apenas convidando a moça para me ajudar com as flores de que cuido. Não te preocupes, pois se teu problema é com ela, aqui ela permanecerá caso venha me visitar. Nada tens a ver com ti.

Então todos ficaram em silêncio, e, por fim, foram embora. A moça continuou a encarar o camponês, que regava despreocupadamente.

“Obrigada”, disse a moça, ao que o camponês respondeu “Disponha”.

E ao dizer isso a viajante se foi.

E falou para si mesma que jamais retornaria ali.

CONTINUA…

Por Ramon Nogueira da Silva