A SÍNDROME DA FOTO PELO CELULAR


Dia destes estava no aeroporto, falando ao telefone. Uma senhora aproximou-se, fez sinal.
– Posso tirar uma foto? – Espera só um pouquinho? Dois segundos depois, repetiu a pergunta. Fiz sinal pedindo tempo. Ela se afastou irritada, me xingando de “metido a besta”. Eu, particularmente, fico lisonjeado quando me pedem para tirar fotos. É um reconhecimento por meu trabalho como autor. Bem, talvez. Já me aconteceu de posar com um sorriso magnífico ao lado de alguma desconhecida, para depois ouvir, quando ela se afastava: “Quem é ele?”. A amiga respondeu: “Acho que é aquele escritor, parece que é famoso”.

Bela fama, se nem sabem quem sou… Já aconteceu com muita gente que conheço. Alguém pede uma foto. Imediatamente, um enxame de celulares voa em sua direção. Todos querem fotos, sem saber de quem se trata. Tenho um amigo boa-pinta. Fez dezenas de fotos num evento. Ouviu uma “fã” perguntar a outra:

– Quem é?
– Acho que trabalha numa novela.

Qualquer um com um mínimo de exposição à mídia sabe do que estou falando. Já vi um escritor reclamar das intermináveis filas que se formam em noites de autógrafos. Nem todos compram o livro. Querem a foto.
Outro dia, eu estava num evento literário no Rio Grande do Sul. Tentei ir ao banheiro. Duas garotas vieram pedir fotos. Tentei fugir. Outras se aproximavam, de celular em punho. Tive de implorar.

– Tenho de ir ou vou fazer xixi na calça.

Por Walcir Carrasco

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UM BELO PRESENTE DE ANO NOVO


Ontem recebi um belo presente de Ano Novo antecipado. Em rápidas pinceladas, vou explicar o porque de considerar o ocorrido como um autêntico presente de Ano Novo, uma vez que mais ou menos nesta mesma época no ano passado, encontrei casualmente um velho conhecido, que houvera perdido a esposa poucos meses atrás, vítima de câncer.
Ele estava “pra baixo”, na verdadeira acepção da palavra. Desolado, arrastava-se pela rua, ao invés de caminhar. Sentindo seu desânimo, procurei iniciar um bate papo. Ele queixava-se da vida, de Deus, de tudo. Dizia que não conseguia tirar da cabeça o sofrimento que a doença causara em sua amada esposa. Estava realmente arrasado. Permiti-me dar uma sugestão. Como ele aceitou, principiei dizendo que achava que, ao invés de ficar relembrando os meses de sofrimento, que procurasse mudar o pensamento. Sempre que essa nuvens negras viessem toldar-lhe as idéias, que ele procurasse desviar o pensamento, procurando sempre se lembrar, isto sim, dos momentos felizes que tiveram juntos, e foram tantos, que poderiam perfeitamente mudar o rumo de suas idéias. Que procurasse fazer, embora sozinho, as coisas que gostavam de fazer juntos. Sem dúvida as boas lembranças iriam fazê-lo sentir a presença querida ao lado. Enfim, que procurasse sempre se lembrar das coisas boas passadas juntos, procurando as alegrias e nunca as tristezas.
Ele me olhou fixamente, e disse que, com certeza iria tentar, pois eu fora a primeira pessoa que não dissera a ele para que se esquecesse da esposa, como se isso fosse possível, como se fosse possível varrer das lembranças quem muito amamos. É realmente impossível.
Como disse no começo, só ontem é que voltei a encontrá-lo, e tive o grande prazer de ver em seus olhos o brilho de antigamente. E foi aí que ganhei meu presente de Ano Novo.
Disse-me que havia “encaixado” minha sugestão e começara a mudar o rumo dos pensamentos.
Já no almoço de Natal, quando os filhos e netos chegaram à sua casa, esperando encontrá-lo arrasado, ele os surpreendeu, com a casa toda decorada, como ele e a esposa sempre houveram feito. Recebeu os filhos com muita serenidade, e disse que iriam ter um Natal “como os de antigamente”, cheio de recordações alegres de momentos felizes. Disse, inclusive, que no consenso geral, foi “o melhor Natal de todos”, e ele enfim, recomeçou a viver.
Então amigos, foi ou não um ENORME presente de Ano Novo antecipado que recebi?
Saber que colaborei para o reviver de um amigo, deixou meu coração enorme.
Só posso agradecer ao Amigão o fato de ter colocado as palavras certas no momento certo e, principalmente, o fato desse meu amigo ter entendido o sentido dessas palavras.
Realmente, ganhei um baita presente de Ano Novo.
Para isso servem as boas recordações dos momentos bem vividos, para nos mostrar que a vida tem muitas alegrias, e é nelas que nos devemos apoiar quando
alguma tristeza começar a toldar nossa mente, e assim, sempre termos UM LINDO DIA…

Por Marcial Salaverry

UM DIA ESPECIAL…


Na correria diária onde muitas coisas passam desapercebidas, um ato diferencial além de ser notado, fica marcado. Nesse dia 24/12 onde pude compartilhar o aperto de um coletivo onde algumas pessoas se apressavam para encontrar com algum parente, ou até mesmo voltava deste encontro que era o meu caso. Um fluxo de pessoas passavam aquela catraca, e só passavam.. De repente um jovem, com os olhos puxados e uma língua pesada (portador de SD) antes de passar, abriu um lindo sorriso e desejou ao trocador “Feliz Natal!” Além da correspondência do sorriso do trocador, o meu se abriu de uma forma que eu pude meditar. (Não pelo feriado, porque eu o considero longe do querer honrar a Cristo) Comparei o coletivo a Deus, O trocador Jesus, e os passageiros a toda humanidade. Deus sempre nos levando e nos trazendo, Jesus nos dando acesso, mais somente alguns passageiros reconhecem e agradecem ao trocador, pelo fato dele não somente esta fazendo sua obrigação.

Por Cassia Oliver

RESTO DO QUE FUI UM DIA


Quem sou eu?
Fui me dar contar disso esta tarde. Eu não sei mais quem sou.
Mas não se trata de perda de memória. Muito pelo contrário, minha memória está tão boa que me lembra a toda hora daquilo que já não sou mais.
Parece que na nossa língua falta uma palavra, aquela que poderia dizer quem sou eu.
Foi assim, havia uma criança caminhando displicentemente pela rua, roupa por lavar, cabelo por pentear, talvez até banho tivesse em atraso. No momento em que olhei para ela me lembrei, era um dos órfãos da dona Carmosina, coitado.
Dona Carmosina era uma viúva, jovem ainda, foi deixada pelo marido vítima de um infarto fulminante. Ficou com três filhos pequenos para criar e dívida no armazém para pagar. Seu marido lhe deixou além desses três filhos, uma conta para ela pagar em cada boteco e muita roupa suja para lavar.
A roupa suja era aquela que precisava lavar para sustentar os filhos e pagar as cachaças que o marido bebeu depois que acabou com o dinheiro da venda do seu barraco onde moravam. Mas essa ela lavou numa boa. A roupa suja que ela não suportou lavar foi com aquelas cobranças das mulheres de suas aventuras noturnas. Que ele fizesse suas farras com as prostitutas, mas não deixasse a conta para ela pagar, que ela não era santa.
Assim ela não suportou e se foi, tomou a cachaça que sobrara no litro até não poder mais, e depois foi pro quintal e tomou o veneno de rato que ela mesma havia posto dias antes. E agora os filhos ficaram órfãos de pai e mãe.
Por mais desgraçado que seja, por mais triste que seja a história, tem sempre uma palavra, um adjetivo ou um nome que define a situação. Quem perde o marido é viúva, que perde a mulher é viúvo, quem perde os pais é órfão. Mas e eu? Quem eu sou?
Quando perdi meus pais virei órfão, casei virei marido, eu tive filhos e virei pai, perdi a mulher e fiquei viúvo. Mas agora que perdi meus filhos, não sei mais quem sou eu.
Eu sou só no mundo, mas não é essa a minha dor. A minha dor é tão forte que não há um nome que possa designá-lo. Eu sou um pai que não tem filhos, pode? Claro que não! Quem não tem filho não é pai e nem mãe.
Um dia já fui filho, já fui neto, já fui marido e pai. Hoje não, hoje não sou mais um pai, sou apenas o resto do que fui um dia…

Por Hiromi Isozaki