O SENHOR DIABO


Conhecem o Diabo?

Não serei eu quem lhes conte a vida dele. E, todavia, sei de cor a sua legenda trágica, luminosa, celeste, grotesca e suave!

O Diabo é a figura mais dramática da História da Alma. A sua vida é a grande aventura do Mal. Foi ele que inventou os enfeites que enlanguescem a alma, e as armas que ensangüentam o corpo. E, todavia, em certos momentos da história, o Diabo é o representante imenso do direito humano. Quer a liberdade, a fecundidade, a força, a lei. É então uma espécie de Pã sinistro, onde rugem as fundas rebeliões da Natureza. Combate o sacerdócio e a virgindade; aconselha a Cristo que viva, e aos místicos que entrem na humanidade.

É incompreensível: tortura os santos e defende a Igreja. No século 16 é o maior zelador da colheita dos dízimos.

É envenenador e estrangulador. É impostor, tirano, vaidoso e traidor. Todavia, conspira contra os imperadores da Alemanha; consulta Aristóteles e Santo Agostinho, e suplicia Judas que vendeu Cristo e Bruto que apunhalou César.

O Diabo ao mesmo tempo tem uma tristeza imensa e doce. Tem talvez nostalgia do Céu!

Ainda novo, quando os astros lhe chamavam Lúcifer, o que leva a luz, revolta-se contra Jeová e comanda uma grande batalha entre as nuvens. Depois tenta Eva, engana o profeta Daniel, apupa Jó, tortura Sara e em Babilônia é jogador, palhaço, difamador, libertino e carrasco. Quando os deuses foram exilados, ele acampa com eles nas florestas úmidas da Gália e embarca expedições olímpicas nos navios do imperador Constâncio. Cheio de medo diante dos olhos tristes de Jesus, vem torturar os monges do Ocidente.

Escarnecia S. Macário, cantava salmos na igreja de Alexandria, oferecia ramos de cravos a Santa Pelágia, roubava as galinhas do abade de Cluny, espicaçava os olhos de S. Sulpício e à noite vinha, cansado e empoeirado, bater à portaria do convento dos dominicanos em Florença e ia dormir na cela de Savonarola.

Estudava o hebreu, discutia com Lutero, anotava glosas para Calvino, lia atentamente a Bíblia e vinha ao anoitecer para as encruzilhadas da Alemanha jogar, com os frades mendicantes, sentados na relva, sobre a sela do seu cavalo. Intentava processos contra a Virgem; e era o pontífice da missa negra, depois de ter inspirado os juízes de Sócrates.

Nos seus velhos dias, ele que tinha discutido com Átila planos de batalha, deu-se ao pecado da gula. E Rabelais, quando o viu assim, fatigado, engelhado, calvo, gordo e sonolento, apupou-o. Então o demonógrafo Wier escreve contra ele panfletos sanguinolentos e Voltaire criva-o de epigramas.

O Diabo sorri, olha em roda de si para os calvários desertos, escreve suas memórias e num dia enevoado, depois de ter dito adeus aos seus velhos camaradas, os astros, morre enfastiado e silencioso. Então Ceranger escreve-lhe o epitáfio.

O Diabo foi celebrado, na sua morte, pelos sábios e pelos poetas. Proclus ensinou a sua substância, Presul as suas aventuras da noite, S. Tomás revelou seu destino. Torquemada disse a sua maldade, e Pedro de Lancre a sua inconstância jovial. João Dique escreveu sobre sua eloqüência e Jacques I de Inglaterra fez a corografia de seus estados. Milton disse a sua beleza e Dante a sua tragédia. Os monges ergueram-lhe estátuas. O seu sepulcro é a Natureza.

O Diabo amou muito. Foi namorado gentil, marido, pai de gerações sinistras. Foi querido, na Antigüidade, da mãe de César e na Meia Idade foi amado da bela Olímpia. Casou no Brabante com a filha de um mercador. Tinha entrevistas lânguidas com Fredegonda, que assassinou duas gerações. Era o namorado das frescas serenatas das mulheres dos mercadores de Veneza.

Escrevia melancolicamente às monjas dos conventos da Alemanha. Feminae in illius amore delectantur, diz tragicamente o abade César de Helenbach. No século 12, tentava com olhares cheios de sol as mães melodramáticas dos Burgraves. Na Escócia havia grande miséria sobre os montes: o Diabo comprava por 15 shillings o amor das mulheres dos highlanders e pagava com o dinheiro falso que fabricava em companhia de Filipe I, de Luís VI, de Luís VII, de Filipe, o Belo, do rei João, de Luís XI, de Henrique II; com o mesmo cobre de que se faziam as caldeiras onde eram cozidos vivos os moedeiros falsos.

Mas eu quero só contar a história de um amor infeliz do Diabo, nas terras do Norte.

Ó mulheres! Vós todas que tendes dentro do peito o mal que nada cura, nem os simples, nem os bálsamos, nem os orvalhos, nem as rezas, nem o pranto, nem o sol, nem a morte, vinde ouvir essa história florida!

Era na Alemanha, onde nasce a flor do absinto. A casa era de pau, bordada, rendilhada, cinzelada, como a sobrepeliz do senhor arcebispo de Ulm. Maria, clara e loura, fiava na varanda, cheia de vasos, de trepadeiras, de ramagens, de pombas e de sol. No fundo da varanda havia um Cristo de marfim. As plantas limpavam piedosamente com as suas mãos de folhas, o sangue das chagas, as pombas, com o calor do seu colo, aqueciam os pés doloridos. No fundo da casa, o pai dela, o velho, bebia a cerveja de Heidelberg, os vinhos da Itália, e as cidras da Dinamarca. Era vaidoso, gordo, sonolento e mau.

E sempre a rapariga fiava. Preso à roca por um fio branco, sempre o fuso saltava; preso ao seu coração por uma tristeza, sempre pulava um desejo.

E todo o dia fiava.

Ora debaixo da varanda passava um lindo moço, delicado, melodioso e tímido. Vinha e encostava-se ao pilar fronteiro. Ela, sentada junto ao crucifixo, cobria os pés de Jesus com os seus grandes cabelos louros. As plantas, as folhagens, em cima, cobriam de frescura e de sombra a cabeça da imagem. Parecia que toda a alma de Cristo estava ali – consolando, em cima, sob a forma de planta, amando, em baixo, sob a forma de mulher.

Ele, o branco moço, era o peregrino daquela santa. E o seu olhar procurava sempre o coração da doce rapariga e o olhar dela, séria e branca, ia procurar a alma do caro bem-amado. Os olhos investigavam as almas. E vinham radiosos, como mensageiros de luz, contar o que tinham visto: era um encanto!

– Se tu soubesses! – dizia um olhar. – A alma dela é imaculada.

– Se tu visses! – dizia o outro. – O coração dele é sereno, forte e vermelho.

– É consolador, aquele peito onde há estrelas!

– É purificador, aquele seio onde há bênçãos!

E olhavam ambos, silenciosos, extáticos, perfeitos. E a cidade vivia, as árvores rosnavam sob o balcão dos eleitores, a trompa de caça soava nas torres, os cantos dos peregrinos nas estradas, os santos liam nos seus nichos, os diabos escarneciam na grimpa das igrejas, as amendoeiras tinham flor e o Reno cantigas de ceifeiras. E eles olhavam-se, as folhagens aninhavam os sonhos, e Cristo aninhava as almas.

Ora, uma tarde, as ogivas estavam radiosas como mitras de arcebispos, o ar estava meigo, o sol descido, os santos de pedra estavam corados, ou dos reflexos da luz, ou dos desejos da vida. Maria na varanda fiava a sua estriga. Jusel, encostado ao pilar, fiava os seus desejos.

Então, no silêncio, ao longe, ouviram gemer a guitarra de Inspruck que os pastores de Helyberg enroscam de hera, e uma voz robusta cantar:

Os teus olhos, bem-amada, / São duas noites cerradas. E por aí vai…

E ao cimo da rua apareceu um homem forte, de uma bela palidez de mármore. Tinha os olhos negros como dois sóis legendários do país do Mal. Negros eram os cabelos, poderosos e resplandecentes. Tinha presa ao peito do corpete uma flor vermelha de cacto. Atrás vinha um pajem perfeito como uma das antigas estátuas que fizeram da Grécia a lenda da beleza. Andava convulsivamente como se ferisse os pés no lajedo. Tinha os olhos inertes e fixos dos Apolos de mármore. Dos seus vestidos saía um cheiro de ambrosia. A testa era triste e serena como as dos que têm a saudade imortal de uma pátria perdida. Trazia na mão uma ânfora esculpida em Mileto, onde se sentia a suavidade dos néctares olímpicos.

O homem da palidez de mármore veio até junto a varanda e, entre as súplicas gemidas da guitarra, disse sonoramente:

– A gentil moça, a linda Yseult da varanda, deixa que estes beiços de homem vão, como dois peregrinos corados de sol, em doce romaria de amor, das suas mãos ao seu colo?

E olhando para Jusel, que desfolhava uma margarida, cantou lentamente, com grandes risadas frias e metálicas:

Quem depena um rouxinol / E rasga uma triste flor,

Mostra que dentro do peito / Só tem farrapos de amor.

E ergueu para a varanda os seus olhos terríveis e desoladores, como blasfêmias de luz.

Maria tinha levantado a sua roca e só havia na varanda as aves, as flores e Jesus.

– A toutinegra voou – disse jovialmente. E indo para Jusel:

– É que talvez sentisse a vizinhança do abutre. Que diz o Bacharel?

Jusel, com os olhos serenos, desfolhava a margarida.

– No meu tempo, senhor Suspiro – disse o homem dos olhos negros, cruzando lentamente os braços – já havia aqui duas espadas, a fazer rebentar na sombra flores de faíscas. Mas os heróis vão-se, e os homens nascem cada vez mais da dor das mulheres. Vejam isso! É um coração com gibão e gorra. Mas coração branco, pardo, alvacento, de todas as cores, menos vermelho e sólido. Pois bem! Aquela rapariga tem uns cabelos louros que dizem bem com os meus cabelos pretos. As cintas delgadas querem braços fortes. Os lábios vermelhos de desejam gostam as armas vermelhas de sangue. É minha a dama, senhor Bacharel!

Justel tinha descido as suas grandes pálpebras elegíacas e via as pétalas arrancadas da margarida caírem como desejos assassinados, desprendidos do seu peito.

O homem dos olhos resplandecentes tomou-lhe rigidamente a mão.

– Bacharel Ternura – disse – há aqui perto um lugar onde os goivos nascem expressamente para os inocentes que morrem. Se tens alguns bens a deixar, recomendo-te este excelente Rabil.

 – Era o pajem. – É necessário proteger as aves da noite. Os abutres bocejam desde que findou a guerra. Vou-lhes dar ossos tenros. Se queres deixar o coração à bem-amada, à moda dos trovadores, eu me encarrego de lho trazer, bem embalsamado, em lama, na ponta da espada. Tu és formoso, amado, branco, delicado, perfeito. Vê-me isto, Rabil. É uma farsa bem feita ao Compadre lá de cima dos sóis, dilacerar-lhe esta beleza! Se namoravas alguma estrela, eu lhe mandarei por bom portador os teus últimos adeuses. Enquanto aos sacramentos, são inúteis; eu me encarrego de te purificar pelo fogo.  Rabil, toca na guitarra o rondó de defuntos: anuncia no Inferno, o Bacharel Suspiro! A caminho, meus filhos! Ah! Mas em duelo secreto, armas honradas!

E batendo heroicamente nos copos da espada:

– Eu tenho aqui esta debilidade, onde está a tua força?

– Ali! – respondeu Jusel, mostrando Cristo na varanda, entre a folhagem, agonizante entre as palpitações das asas.

– Ah! – disse cavamente o homem da flor de cacto. A mim, Rabil! Lembras-te de Actéon, de Apolo, de Derceto, de Íaco e de Marte?

– Eram os meus irmãos – disse lentamente o pajem, hirto como uma figura de pedra.

– Pois bem, Rabil, para a frente, através da noite. Cheira-me aqui às terras de Jerusalém.

Na noite seguinte havia pela Alemanha um grande luar purificador. Maria estava debruçada na varanda. Era a hora celeste em que os jasmins concebem. Em baixo, o olhar de Jusel, que estava encostado ao pilar, suspirava para aquele corpo feminino e branco, como nos jardins a água que sobe em repuxo suspira para o azul.

Maria disse suspiradamente:

– Vem.

Jusel subiu à varanda, radioso. Sentaram-se ao pé da imagem. O ar estava tão sereno como na pátria das armas. Os dois corpos dobraram-se, um para o outro, como se estivessem aproximando os braços de um Deus. As folhagens escuras que envolviam Cristo estendiam-se sobre as duas cabeças louras com gestos de bênção. Havia na moleza das sombras um mistério nupcial. Jusel tinha as mãos dela presas como pássaros cativos e dizia:

– Queria bem ver-te, assim, ao pé de mim. Se soubesses! Tenho receios infinitos. És tão loura, tão branca! Tive um sonho que me assustou. Era num campo. Tu estavas de pé, imóvel. Ouviu-se um coro que cantava dentro do teu coração! Em redor andava uma dança nebulosa de espíritos. E diziam uns: “Aquele coro é dos mortos: são os amantes infelizes que choram no coração daquela mulheres.” Outros diziam: “Sim, aquele coro é de mortos: são os nossos deuses queridos que choram ali no exílio.” E então adiantei-me e disse: “Sim, aquele coro é dos mortos, são os desejos que ela teve por mim, que se lembram e que gemem.” Que sonho tão mau, tão mau!

– Por que estás tu – dizia ela – todos os dias encostado ao pilar, com as mãos quase postas?

– Estou a ler as cartas de luz que os teus olhos me escrevem.

Calaram-se. Eles eram naquele momento alma florida da noite.

– Quais são os meus olhos? Quais são os teus olhos? Dizia Jusel. – Nem eu sei!

E ficaram calados. Ela sentia os desejos que se desprendiam dos olhos dele, virem, como pássaros feridos, que gemem, cair no fundo da sua alma, sonoramente.

E inclinando o corpo:

– Conheces meu pai? – disse ela.

– Não. Que importa?

– Ai, se tu soubesses!

– Que importa? Estou aqui. Se ele te quer bem, há de gostar deste meu amor, sempre aos teus pés, como um cão. És uma santa. Os cabelos de Jesus nascem do teu coração. O que quero eu? Ter a tua alma presa, bem presa, como um pássaro esquivo. Esta paixão toda, deixa-te tão imaculada, que se morresses podias ser enterrada na transparência do azul. Os desejos são uma hera: queres que os arranque? Tu és o pretexto da minha alma. Se me não quisesses deixavas me andar esfarrapado. Tens lá a fé de Jesus e a saudade de tua mãe; deixa estar: damo-nos todos bem, lá dentro, contemplando o interior do teu olhar, como um céu estrelado. Que quero de ti? As tuas penas. Quando chorares, vem a mim. Farei a alma em farrapos para tu limpares os olhos. Queres tu? Casemo-nos no coração de Jesus. Dá-me essa agulheta, que te prende o cabelo. Será a nossa estola.

E com a ponta da agulheta, gravou sobre o peito de Cristo as letras dos dois nomes enlaçadas – J. e M.

– É o nosso noivado – disse ele. O céu atira-nos os astros, confeitos de luz. Cristo não se esquecerá deste amor que chora aos seus pés. As exalações divinas que saírem do seu peito aparecerão, lá em cima, com a forma das nossas letras. Deus saberá este segredo. Que importa? Eu já lho tinha dito, a ele, às estrelas, às plantas, aos pássaros, porque, vês tu? As flores, as constelações, a graça, as pombas, tudo isso, toda esta efusão de bondade, de inocência, de graça, era simplesmente, ó adorada, um eterno bilhete de amor que eu te escrevia.

E ajoelhados, extáticos, calados, sentiam misturar-se ao seu coração, às suas confidências, aos seus desejos, toda a vaga e imensa bondade da religião da graça. E as suas almas falavam cheias de mistério.

– Vês tu? – dizia a alma dela – Quando te vejo, parece que Deus diminui, e se contrai, e se vem aninhar todo no teu coração; quando penso em ti, parece-me que o teu coração se alarga, se estende, abrange o céu, e os universos, e encerra por toda a parte Deus!

– O meu coração – suspirava a alma dele – é uma concha. O teu amor é o mar. Muito tempo esta concha viverá afogada e perdida neste mar. Mas se tu expulsares de ti, como numa concha abandonada se ouve ainda o rumor do mar, no meu coração abandonado se escutará sempre o sussurro do meu amor!

– Olha – dizia a alma dela – eu sou como um campo. Tenho árvores e relvas. O que há em mim de maternidade é árvore para te cobrir, o que há em mim de paixão é relva para tu pisares!

– Sabes tu? – dizia a alma dele – No céu há uma floresta invisível de que apenas se vêem as pontas das raízes que são as estrelas. Tu eras a toutinegra daqueles arvoredos. Os meus desejos feriram-te. Eu, há muito que te vejo vir caindo pelo ar, gemendo, resplandecente, se o sol te alumia, triste, se a chuva te molha. Há muito que te vejo descendo – quando cairás tu nos meus braços?

E a alma dela dizia: “Cala-te”. Não falavam. E as duas almas, desprendidas dos corpos bem-amados, subiam, tinham o céu por elemento, os seus risos eram os astros, a sua tristeza a noite, a sua esperança a madrugada, o seu amor a vida, e sempre mais ternas e mais vastas envolviam tudo o que do mundo sobre de justo, perfeito, casto, as orações, os prantos, os ideais, e estendiam-se por todo o céu, unidas e imensas – para Deus passar por cima!

E então à porta da varanda houve uma risada metálica, imensa e sonora. Eles ergueram-se resplandecentes, puros, vestidos de graça. À porta estava o pai de Maria, hirto, gordo, sinistro. Atrás, o homem de palidez de mármore balançava vaidosamente a pluma escarlate da gorra. O pajem ria, fazendo uma claridade na sombra.

O pai lentamente foi para Jusel e disse, com escárnio:

– Onde queres ser enforcado, vilão?

– Pai, pai! – E Maria, aflita, com uma convulsão de lágrimas, enlaçava o corpo do velho. – Não. É meu marido, casamos as almas. Olhe, ali está. Veja! Ali, na imagem!

– O quê?

– Ali, no peito, veja. Os nossos nomes enlaçados. É meu marido. Só me quer bem. Mas seja, sobre o peito de Jesus, no lugar do coração. Mesmo sobre o coração. E ele, o doce Jesus, deixou que lhe fizessem mais esta ferida!

O velho olhava as letras como uns esponsais divinos que se tinham refugiado no seio de Cristo.

– Raspa, meu velho, que isso é marfim! – gritou o homem dos olhos negros.

O velho foi para a imagem com a faca no cinturão. Tremia. Ia arrancar as raízes daquele amor, até ao peito imaculado de Jesus!

E então a imagem, sob o justo e incorruptível olhar da luz, despregou uma das suas mãos feridas, e cobriu sobre o peito as letras desposadas.

– É ele, Rabil! – gritou o homem da flor de cacto.

O velho soluçava.

E então o homem pálido, que tocava guitarra, veio tristemente junto da imagem, enlaçou os braços dos namorados, como se vê nas velhas estampas alemãs, e disse ao pai:

– Abençoa-os, velho!

E saiu batendo rijamente nos copos da espada.

– Mas quem é? – disse o velho apavorado.

– Mais baixo! – disse o pajem da ânfora de Mileto – É o senhor Diabo… Mil desejos, meus noivos.

Pelas horas da madrugada, na estrada, o homem dos cabelos negros dizia ao pajem:

– Estou velho. Vai-se-me a vida. Sou o último dos que combateram nas estrelas. Os abutres já me apupam. É estranho: sinto nascer cá dentro, no peito, um rumor de perdão. Gostava daquela rapariga. Lindos cabelos louros, quem vos dera no tempo do céu. Já não estou para aventuras de amor. A bela Impéria diz que me vendi a Deus.

– A bela Impéria! – disse o pajem. – As mulheres! Vaidades, vaidades! As mulheres belas foram-se com os deuses belos. Hoje os homens são místicos, frades, santos, namorados, trovadores. As mulheres são feias, avaras, magras, burguesas, finadas de cilícios, com uma pouca de alma incômoda, e uma carne tão diáfana que se vê através do lodo primitivo.

– Vou achando risível a obra dos Seis Dias. As estrelas tremem de medo e de dor. A Lua é um sol fulminado. Começa a escassear o sangue pelo mundo. Eu tenho gasto o mal. Fui pródigo. Se eu no fim da vinha tinha de me entreter perdoando e consolando – para não  morrer de tédio. Fica-te em paz, mundo! Sê infame, lamacento, podre, vil e imundo, e sê, todavia, um astro no céu, impostor! E todavia o homem não mudou. É o mesmo. Não viste? Aquele, para amar, feriu com uma agulheta o peito da imagem. Como nos tempos antigos, o homem não começa a gozar um bem, sem primeiro rasgar a carne a um Deus! É esta minha última aventura. Vou para o meio da Natureza, para junto do livre mar, pôr-me sossegadamente a morrer.

– Também os diabos se vão. Adeus, Satã!

– Adeus, Ganímedes!

E o homem e o pajem separaram-se na noite.

A poucos passos, o homem encontrou um cruzeiro de pedra.

– Estás também deserto – disse, olhando para a cruz. Os infames pregaram-te e voltaram-te as costas! Foste maior que eu. Sofreste calado.

E sentando-se nos degraus do cruzeiro, enquanto vinha a madrugada, afinou a guitarra e cantou no silêncio:

Quem vos desfolhou estrelas, / Dos arvoredos da luz?

E com uma risada melancólica: / Chegará o Outono ao Diabo? / Virá o Inverno a Jesus?

Por Eça de Queirós

Anúncios

O BEBÊ – PARTE 5 DE 5


Na alegria de ver o rosto de Lídia na porta, Maurício tinha esquecido tudo sobre a sua missão em nome do Papa. A lembrança repentina umedecido seu bom humor.

– Eu vim aqui para te dar isso, ele estendeu a pasta. Ele contém informações úteis e cupons em coisas como fraldas, fórmula, e …. Maurício não podia continuar. Ele não queria continuar a farsa tola, não com a mulher que ele amava.

– Eu vim para ver o bebê.

Ele não ofereceu qualquer explicação adicional, e Lídia não fez nenhuma pergunta.

– Eu vou pegar ele , ela disse simplesmente.

Enquanto a mãe estava fora da sala, o Padre, pensou o seu dever. Por que ele estava viajando por todo o mundo, olhando dezenas de crianças normais, na esperança de encontrar o anticristo? Por que o Papa acreditara na palavra do padre Matolli, um homem já bem avançado em sua idade, que pode até não estar em seu juízo perfeito? O Anticristo, de fato! Viver na Rua Aprazível, em Marblehead?
– Aqui está ele,  Lídia anunciou com orgulho maternal e carinho. Meu pequeno homem.

Maurício voltou-se e sentiu como se o ar tivesse sido sugado para fora do peito com os olhos do bebê que parecia olhar para sua alma.

– Ele é um menino tão de bom, Lídia arrulhou, alegremente ignorante da verdadeira identidade de seu filho. Ele quase nunca chora.

– Sim”, o padre concordou. Ele é um menino extraordinário.

– Eu apenas gostaria que seu pai poderia ter vivido para vê-lo, disse a mãe, lutando contra as lágrimas.
Maurício sabia que ele deveria oferecer algumas palavras de conforto para a viúva, mas no momento ele estava lutando contra seus próprios demônios. Ele estava certo de que o bebê de Lídia era o que sua Igreja buscava: o Anticristo, a criança foi enviado para destruir.

– Gostaria de segurá-lo? a mãe pediu e colocou o bebê nos braços do padre, sem esperar por uma resposta.
Um choque físico reverberou através do corpo de Maurício. Ele estava segurando o filho de Satanás. Ele queria dar a criança de volta para Lídia, mas quando a viu olhando para seu filho com amor, seu coração quase estourou. E se ele tivesse tido a sorte de ganhar o seu amor, enquanto ele estava na faculdade? E se ela tivesse casado com ele em vez do namorado de Pernambuco? Teria ele olhado para a criança como seu próprio filho? Os olhos penetrantes minúsculo que nunca tinha olhado para longe do rosto do padre, de repente amaciado. O bebê boceja e parecia sorrir.

O Bispo Maurício Cooperfield olhou a criança com a mãe e sabia que ele nunca seria capaz de realizar sua tarefa atribuída.

– Eu não posso matar essa criança”, pensou desesperadamente. Se as coisas tivessem sido diferentes, ele poderia ter sido o MEU filho.

– Acho que ele está dormindo, disse Maurício e gentilmente deu a criança de volta à sua mãe.
– Vou colocá-lo em seu berço.

Quando voltou, Lídia Morrissey convidou seu velho amigo para ficar para jantar.

– Eu adoraria, respondeu ele, mas eu não posso. tenho que ir para Vermont e, em seguida, para o Maine.

– Talvez alguma outra hora então.

– Eu gostaria que isso. gostaria de manter contato com você… e fique de olho no seu menino.

Uma semana mais tarde o Bispo Cooperfield retornou a Roma. Quando ele foi mostrado no estudo do Papa, ele colocou um atestado de óbito na mesa em frente ao Padre Matolli. A criança em questão, Jacó Kinney de Seattle, Washington, tinha defeitos de nascimento múltiplo e não tinha sido previsto uma vida longa. Em antecipação da morte da criança, não só Maurício desviava a atenção da criança de Lídia, mas ele também tinha realizado um ato de misericórdia.

– Tem a certeza este é o único?  O padre Matolli perguntou.

– Estou otimista, Maurício mentiu de forma convincente. Tanto o papa e o padre idoso suspirou de alívio.

– Mais uma vez você tem servido a Igreja Matriz bem, disse o papa. Talvez haja algo que eu possa fazer para mostrar minha gratidão? O batimento cardíaco de Maurício acelerou. Queria pedir para ser transferido para a Arquidiocese de Boston, onde ele poderia estar perto de Lídia e seu filho, mas ele sabiamente vetou a idéia.

– Só peço a permanecer no seu serviço, Sua Santidade.

– Você deve, disse o Papa, e com um aceno de cabeça indicou que a audiência estava terminada.

Maurício Cooperfield continuou a servir o Papa com o melhor de sua capacidade, e dentro de um ano foi nomeado para o Colégio dos Cardeais. Quando ele viu a esquadria vermelho na cabeça, ele sentiu uma onda momentânea de orgulho por estar a um passo de se tornar o primeiro brasileiro Papa. Então  rapidamente lembrou a importância da sua nomeação, e seu orgulho deu lugar à humildade. Ele ainda se esforçou para se tornar o sumo pontífice, mas fê-lo não por ambição vã, mas como uma maneira de servir a seu novo dono: a criança nascida de Lídia Morrissey, o rapaz pensou em como seu próprio filho. Para que melhor maneira que ele poderia mostrar seu amor para a criança que entregar a Igreja Católica em suas mãos?

Por Alci Santos

O BEBÊ – PARTE 4 DE 5


– Ele obviamente não é o único, disse a si mesmo enquanto ele saía do hospital.

Depois de chegar à mesma conclusão sobre os outros dois bebês na Itália, o padre passou a fazer o seu caminho através da Europa Ocidental. Depois de ver a quadragésima sexta criança na Irlanda do Norte, ele embarcou em um avião e se dirigiu à América. Os dois meninos nascidos em Nova York e aquela que nasceu em Nova Jersey, trouxe um total de quarenta e nove crianças que ele havia visto. Nenhum deles atingiu-o como sendo algo diferente de uma criança humana normal.
Seria bom se eu soubesse o que estava procurando, ele pensou, verificado em um hotel Marriott tarde da noite.

Maurício estava ansioso para uma noite de sono antes de se dirigir para norte, até Nova Inglaterra, onde ele veria três crianças em sua lista: uma em Massachusetts, um em Vermont, e um em Maine. Antes de ele apagou a luz de cabeceira, ele olhou para os locais restantes na sua lista: havia mais onze estados e no Canadá, após o qual ele teria que atravessar o Pacífico. Na manhã seguinte ele pegou um vôo de Nova York para Boston, onde ele alugou um carro e dirigiu até Marblehead. O navegador de bordo levou a um modesto colonial de dois andares em Pleasant Street.

Maurício olhou para o nome dos pais da criança: Sra. Morrissey; falecido Pai. Ele desligou o carro e levaram uma pasta da pasta no banco de trás. Dentro havia dicas úteis para os novos Padres, informações relativas a cuidados médicos e alimentação e cupons para os itens do bebê.
Ele bateu na porta, preparado para apresentar-se como um Padre afiliado com a paróquia local, que estava fazendo uma chamada de rotina para uma nova mãe. Quando a dona da casa abriu a porta, no entanto, Maurício esqueceu seu discurso cuidadosamente ensaiado.

– Lídia! exclamou ele.

– Sinto muito, disse a Sra. Morrissey. Eu estou em desvantagem. Eu não sei o seu nome, mas há algo de familiar em seu rosto.

Foi mais vestimenta do Padre que o lapso de tempo que lhe confundiu.

– Sou eu: Maurício Cooperfield.

O reconhecimento iluminou seu rosto bonito.

– Sim. Eu me lembro de você! Eu estava trabalhando na lanchonete, e você estava freqüentando a faculdade.
Maurício não podia acreditar na sua boa sorte. Depois dos anos que passaram, aqui estava Lídia Cordeiro de volta em sua vida, olhando tão bonito como quando ela tinha dezessete anos.

– Você estava estudando para ser um advogado, se bem me lembro, Lídia continuou. Eu acho que você mudou de idéia.

O manto de seu sacerdócio parecia, pela primeira vez,  pesar sobre ele. Como Padre, ele havia tomado um voto de celibato. É verdade, era uma promessa que muitos de seus irmãos haviam abandonado, mas a Igreja nunca permitiria que um padre pudesse casar.

– Eu não suponho que você veio aqui para pedir uma Carmel Macchiato ou Cinnamon Dolce Frappuccino. Então, o que o traz a Marblehead?

Por Alci Santos

O BEBÊ – PARTE 3 DE 5


– Eu farei o meu melhor, Maurício respondeu, pensando que o homem idoso provavelmente não precisava de um padre como ele que era um bom homem de relações públicas.

– Uma criança nasceu na noite passada, o Papa começou.

– Ele é o Anticristo, Padre Matolli acrescentou.

– O Anticristo? Maurício estava estupefato. Ele tinha antecipado um caso de abusos sexuais ou desvio financeiro, não o trabalho do diabo. Certamente, ninguém acreditava que o descendentes de Satanás poderia ser nada mais do que um personagem de “O Bebê de Rosemary” e “A Profecia”. A própria idéia era medieval.

– Eu sou um membro de uma ordem muito especial, continuou o Padre Matolli.

– O seu único objetivo no século passado foi vigiar os sinais que anunciam a chegada do filho do mal. Durante o ano passado, cada um destes sinais apareceram.

– Sinto muito, disse Maurício, sacudindo a cabeça. Acabei de descobrir que é difícil acreditar …
– O Padre Matolli está correto”, insistiu o Papa, silenciando as novas objeções do seu bispo. O Anticristo já nasceu. É será você quem vai encontrá-lo e eliminá-lo.

-Você acha que sua fé é forte o suficiente para tal tarefa? O idoso Padre perguntou. Você é capaz de destruir uma criança?

– Eu acredito que eu sou, se eu estiver certo de que a criança for o anticristo. Mas como vou encontrá-lo?

– Sabemos que ele é um filho homem caucasiano. Sabemos  o momento exato em que ele nasceu. Em certa cidade, havia oitenta e sete bebês brancos do sexo masculino nascidos naquela exata ocasião, respondeu Matolli.

– Ainda assim, o senhor não espera me igualar a Herodes e o massacre de oitenta e seis crianças inocentes no processo de destruir o mal?

– Não. Você irá a procurar os bebês, um por um. Você vai reconhecer o Anticristo quando vê-lo.

– Como?

– Não é por qualquer meio físico. A você será dado discernimento.

– Se eu encontrá-lo e for capaz de determinar, sem sombra de dúvida que ele é filho do diabo, como vou destruí-lo?

– Embora ele seja o filho de Satanás, ele nasceu de uma mulher mortal, por isso há diversas maneiras que você pode destruí-lo: afogá-lo numa banheira, sufocá-lo com um travesseiro, estrangulá-lo com as mãos.

Este foi o momento mais surreal na vida de Maurício Cooperfield. Ali estava ele, no Vaticano, na presença do Papa, o chefe de uma religião que era contra o aborto e o controle de natalidade, com calma sobre o assassinato de um bebê recém-nascido.

– Eu sei que você deve estar em conflito, meu filho, disse o papa. É muito pedir isso a alguém. É preciso ter fé para crer e à coragem e dedicação a Deus para realizar a escritura. De todos os homens que eu conheço, você é minha maior esperança.

– Estou emocionado por sua confiança em mim, Vossa Santidade, declarou Maurício.
– Então você vai fazer o que nós pedimos?

– Sempre, Sua Santidade.

Maurício Cooperfield começou sua investigação com o próximo filho, que nasceu nos arredores de Roma. Não querendo chamar a atenção para si mesmo, ele vestia uma camisa preta simples e colarinho clerical. Pagar as chamadas para os doentes era uma prática comum dos padres, para que ninguém questionasse a sua presença no hospital. Quando ele viu o bebezinho no berçário da maternidade, ela não parecia ser diferente de milhares de outros bebês que ele havia visto ao longo dos anos.

E se este for o único? perguntou-se. Como eu posso dizer? Padre Matolli tinha assegurado que não haveria nenhum sinal exterior, sem “666” tatuado em seu couro cabeludo ou pequenos chifres saindo da testa. Por quase 20 minutos, Maurício olhou para o bebê, mas não podia discernir nada fora do normal sobre ele.

Por Alci Santos

O BEBÊ – PARTE 2 DE 5


– O que quer dizer com você não está indo  para a faculdade de direito? Mauro Cooperfield rugiu quando seu filho lhe informou que não ia fazer direito.

– Eu não quero me tornar um advogado ou um político, disse Maurício.

Mauro mesmo com o seu temperamento, não quis se indispor com seu único filho.

– Tudo bem. medicina é uma profissão nobre.

– Eu também não serei um médico. Quero me tornar um padre.

Mauro não poderia ter tido maior surpresa.

– Um padre? Em nome de Deus, por quê?

– Porque eu recebi um chamado.

Uma vez decidido o seu caminho, Maurício perseguiu seu objetivo com a determinação de seu pai, que a contragosto teve que aceitar. Com seu excelente desempenho acadêmico, ele recebeu uma nomeação ao Vaticano depois de ser ordenado. Enquanto servia na Cúria Romana, ele finalmente passou para o cargo de bispo e se tornou um dos  assessores do Papa de maior confiança.

Quando Maurício anunciou suas intenções de se tornar um padre, seus pais supuseram erradamente que ele não tinha nenhuma ambição. Na verdade, ele tinha mais ambição do que seu pai empresário e sua mãe alpinista social. Suas aspirações eram tão grandes, que a presidência não era suficiente para ele. Um executivo brasileiro poderia esperar por oito anos, na melhor das hipóteses, antes de desaparecer no reino dos ex-presidentes. A Igreja Católica, no entanto, ofereceu-lhe poder de qualquer posição secular que  pudesse corresponder. Por que se contentar em ser presidente, ele pensou, quando poderia ser um Sumo Pontífice? Ele queria ser o primeiro papa brasileiro. O jovem bispo nunca disse a ninguém de sua meta, nem mesmo a seus próprios pais, e ninguém nunca soube sua verdadeira motivação. Por fora, ele era um bispo, humilde e trabalhador, altruísta dedicado à sua vocação e a cumprir o que seus superiores lhe pediam.

Foi a sua reputação como um “homem de empresa” que fez Maurício de valor inestimável para o Papa. Durante seu mandato, no Vaticano, ele tinha sido chamado para lidar com vários assuntos delicados que poderiam ter resultado em escândalos estarrecedores. O bispo brasileiro expedia estes assuntos com uma habilidade inigualável em qualquer igreja.

Quando Maurício foi convocado pelo secretário papal em uma manhã de outubro, ele supôs uma outra situação potencialmente danosa. Com pouca dúvida de que ele estava à altura da tarefa, ele passeava com confiança junto à Guarda Suíça e no apartamento pontifício. Ele entrou no estúdio particular do Papa, onde dois homens estavam sentados conversando em voz baixa. Um deles era o próprio Santo Padre, o outro era um homem desconhecido de Maurício. O segundo homem era de uma idade tão avançada que ele fez o  papa o olhar como um garoto da escola.

Maurício inclinou-se diante do pontífice, beijou seu anel e soltou:

– Sua Santidade.

– Este, disse o Papa, virando-se para o padre idoso, é Padre Mattoli. Ele está aqui a negócios extremamente urgentes.

– Sua Santidade diz-me que de todos os seus padres, você é a pessoa mais qualificada para me ajudar, disse Padre Mattoli.

– Eu farei o meu melhor, Maurício respondeu, pensando que o homem idoso provavelmente não precisava de um padre como ele que era um bom homem de relações públicas.

Por Alci Santos

O BEBÊ – PARTE 1 DE 5


Maurício Cooperfield nasceu rico. Do mesmo jeito teve apenas a solidão como amiga em sua infância. A mãe, só vivia na roda de madames, e o pai em escritórios puxando o saco dos mais altos políticos. Quando era adolescente, Maurício foi cuidado por uma amiga de sua mãe que precisava de dinheiro para sobreviver. Tudo isto antes de ser enviado a uma escola de prestígio imenso em São Paulo.

Quando concluiu a escola Maurício ingressou na mais prestigiosa faculdade do país. Desnecessário dizer que ele participou dessas empresas educacionais caríssimas e famosíssimas de acordo com a idéia que seu pai tinha que era que ele iria começar na faculdade de direito e termina na Presidência da República. Em seu segundo ano de direito, ele conheceu a única pessoa que iria amar verdadeiramente. Lídia Cordeiro era filha de um motorista de ônibus de Natal. Ela freqüentou uma escola pública e graduou-se em uma faculdade  particular de pouca importância.

Quando Maurício entrou em um café da manhã em um dia de outubro, ele não esperava se apaixonar. Ele nunca acreditou em bobagens, como amor à primeira vista. Quando aquela bela jovem com o rosto angelical perguntou qual o seu pedido, imediatamente ele se sentiu atraído por ela.

Ele achou que era um caso simples de paixão. Ele já havia sido atraído fisicamente por mulheres antes. Não era como se ele ainda fosse virgem. Ele conquistou muitas tanto na escola como na faculdade. Mas o desejo físico que ele sentia por outras mulheres, jamais seria comparado com o anseio irresistível que sentia por Lídia. No início de dezembro, Maurício sabia o que sentia era amor verdadeiro. Então prometeu a si mesmo que um dia ele iria tornar essa linda mulher bela e jovem em sua esposa. Duas semanas antes do Natal, Maurício entrou na lanchonete que ela trabalhava.

– Oi, Maurício – Lidia disse com um sorriso cativante.

– Vai querer o mesmo de sempre?

– Não. Eu acho que vou ser ousado e pedir um chocolate quente.

– É para já.

– Estou feliz  que o Natal esteja quase chegando, disse ele.

– Eu nem tanto.

– Hã? Você tem algo especial planejado?

– Meu namorado está chegando de viagem. Ele sempre vai á Pernambuco, e eu não o tenho visto desde agosto.

Um namorado! Maurício sentiu como se um punho invisível tivesse lhe dado um soco.  Meninas rompem com o namorado o tempo todo. Imediatamente ele resolveu que iria declarar o seu amor em janeiro e tentaria conquistá-la. Quando ele retornou para a lanchonete, um mês depois, ele soube que Lídia tinha deixado seu emprego e se mudado para a Pernambuco para estar sempre com o namorado. Maurício foi “esmagado” e nunca se recuperou totalmente do golpe.

Por Alci Santos