A ÁGUIA, O FALCÃO E O DRAGÃO


Uma águia pegou dinheiro emprestado de um falcão. Acontece que a águia se gabava de nunca ter pago uma dívida sequer.
Por outro lado, o falcão nunca havia perdido nenhum centavo em transação alguma.
Passa o tempo e águia e se  escondendo do falcão e este na captura da águia. Até que um dia eles se cruzaram no bar de um dragão e começaram uma discussão.
A águia encurralada não encontrou outra saída, levantou uma de suas garras, encostou no seu pescoço e disse:
– Eu posso ir para o inferno, mas não pago essa dívida!  E rasgou o pescoço, caindo morta no chão.
O Falcão não quis deixar por menos, pegou , levantou uma de suas garras e disse: – Eu vou receber esta dívida, nem que seja no inferno! E também rasgou o pescoço, caindo morto no chão.
O Dragão, que observava tudo, levantou uma de suas garras ao seu pescoço e disse:
– Puta que pariu …….!!! – Essa briga eu não perco por nada!

Por Alci santos

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AS CINCO PANELAS DE OURO – 12 DE 12 – FINAL


Foi preciso explicar que era um desaforo. Homem não é bicho. Viver nas trevas é cuspir no progresso da humanidade. Depois a gente tem a obrigação de reagir contra os exploradores do povo. No preço da passagem está incluída a luz. O governo não toma providências? Não torna? A turba ignara fará valer seus direitos sem ele. Contra ele se necessário. Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia e a cousa pega fogo.
Todos gritavam discutindo com calor e palavrões. Um mulato propôs que se matasse o chefe do trem. Mas João Virgulino lembrou:
– Ele é pobre como a gente.
Outro sugeriu uma grande passeata em Belém com banda de música e discursos.
– Foguetes também?
– Foguetes também.
– Be-le-za!
Mas João Virgulino observou:
– Isso custa dinheiro.
– Que é que se vai fazer então? Ninguém sabia. Isto é: João Virgulino sabia. Magarefe-chefe do matadouro de Maguari, tirou a faca da cinta e começou a esquartejar o banco de palhinha. Com todas as regras do ofício. Cortou um pedaço, jogou pela janela e disse:
– Dois quilos de lombo! Cortou outro e disse:
– Quilo e meio de toicinho!
Todos os passageiros magarefes e auxiliares imitaram o chefe. Os instintos carniceiros se satisfizeram plenamente. A indignação virou alegria. Era cortar e jogar pelas janelas. Parecia um serviço organizado. Ordens partiam de todos os lados. Com piadas, risadas, gargalhadas.
– Quantas reses, Zé Bento?
– Eu estou na quarta, Zé Bento!
Baiano velho quando percebeu a história pulou de contente. O chefe do trem correu quase que chorando.
– Que é isso? Que é isso? É por causa da luz? Baiano velho respondeu:
– É por causa das trevas!
O chefe do trem suplicava:
– Calma! Calma! Eu arranjo umas velinhas.
João Virgulino percorria os vagões apalpando os bancos.
– Aqui ainda tem uns três quilos de colchão-mole!
O chefe do trem foi para o cubículo dele e se fechou por dentro rezando. Belém já estava perto. Dos bancos só restava a armação de ferro. Os passageiros de pé contavam façanhas. Baiano velho tocava a marcha de sua lavra chamada Às Armas Cidadãos! O taioquinha embrulhava no jornal a faca surripiada na confusão.
Tocando a sineta o trem de Maguari fundou na estação de Belém. Em dois tempos os vagões se esvaziaram. O último a sair, foi o chefe muito pálido.
Belém  vibrou  com  a  história.  Os jornais  afixaram  cartazes.  Era  assim  o  titulo  de  um:  Os Passageiros no Trem de Maguari Amotinaram-se Jogando os Assentos ao Leito da Estrada. Mas foi substituído porque se prestava a interpretações que feriam de frente o decoro das famílias. Diante do Teatro da Paz houve um conflito sangrento entre populares.
Dada a queixa à polícia foi iniciado  o inquérito  para apurar as responsabilidades. Perante grande  número  de  advogados,  representantes  da  imprensa,  curiosos  e  pessoas  gradas,  o delegado  ouviu  vários  passageiros.  Todos  se  mantiveram  na  negativa  menos  um  que  se declarou protestante e trazia um exemplar da Bíblia no bolso. O delegado perguntou:
– Qual a causa verdadeira do motim?
O homem respondeu:
– A causa verdadeira do motim foi a falta de luz nos vagões.
O delegado olhou firme nos olhos do passageiro e continuou:
– Quem encabeçou o movimento?
Em meio da ansiosa expectativa dos presentes o homem revelou:
– Quem encabeçou o movimento foi um cego!
Quis jurar sobre a Bíblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com a autoridade não se brinca.

Por Alcântara Machado

AS CINCO PANELAS DE OURO – 11 DE 12


O anspeçada primeiro não queria acordar o comandante. Eram ordens. Leônidas insistiu firme e o comandante teve de pular da cama. Leônidas fazendo continência explicou o caso. O coronel disse:
– Às seis estou lá.

Eram cinco, Leônidas voltou com o recado. O major, o tenente, o sargento estavam nervosos. De  vez em  quando  um  deles  chegava  mais  perto  da  margem  e o soldado  do outro  lado recomeçava a ginástica: bandeirinha na frente, bandeirinha atrás, bandeirinha apontando o céu, bandeirinha apontando o chão. Ia repetindo com uma paciência desgraçada.
Então já havia passarinhos cantando, barulho de vida em Boniteza, só a cara amarrotada dos insones  não  resplendia  na  luz  da  manhãzinha.  Toques  de  cometa  chegavam  de  longe despedaçados.  Na  banda  de  lá  do  Jacaré  o  homem  da  bandeirinha  habitava  sozinho  a paisagem com uma vontade louca de tomar café bem quente e bem forte. Era a hora da raiva e todos se espreguiçavam com o sol que chegava.
O Coronel Jurupari ouviu calado a narração do estranho caso. Fez em seguida duas ou três perguntas hábeis com o intuito de esclarecê-lo tanto quanto possível. Chamou de lado o major e o  tenente, os três discutiram muito, emitiram suas opiniões sobre assuntos de estratégia e balística que pareciam oportunos naquela emergência, fumaram vários cigarros. Afinal o coronel entre o major e o tenente avançou até a margem de binóculo em punho. Assim que ele assentou o binóculo, da outra banda do Jacaré recomeçou a dança das bandeirinhas. O coronel olhando. A sua primeira observação foi: – É um cabo e não tem má cara. Depois de uns minutos veio a segunda: – Hoje é dor de cabeça na certa com este noroeste. A terceira alimentou ainda mais a já angustiosa  incerteza dos presentes: – Mas que negócio será aquele? Daí a uns instantes repetiu: – Mas que diabo de negócio será mesmo aquele? Porém acrescentou numa ordem para o Leônidas: – Vá chamar o sinaleiro!
O sinaleiro veio chupando o nariz. Olhou, deu uma risadinha, tirou um papel e um lápis do bolso traseiro da calça, ajoelhou-se com uma perna só, pôs o papel na coxa da outra, passou a ponta do  lápis na língua, começou a tomar nota. Dava uma espiada, as bandeirinhas se mexiam, escrevia. O Coronel Jumpari, o major, o tenente, o sargento e o sorteado Leônidas Cacundeiro esperavam o resultado de armas na mão e ansiedade nos olhos.
O  sinaleiro  se  levantou,  ficou  em  posição  de  sentido  e  com  voz  pausada  e  firme  leu  a mensagem enviada pelos revolucionários de Caguaçu: Saúde e Fraternidade.
O coronel mandou responder agradecendo e retribuindo. Ex-corde.

APÓLOGO BRASILEIRO SEM VÉU DE ALEGORIA
O trenzinho recebeu em Maguari o pessoal do matadouro e tocou para Belém. Já era noite. Só se sentia o cheiro doce do sangue. As manchas na roupa dos passageiros ninguém via porque
não havia luz. De vez em quando passava uma fagulha que a chaminé da locomotiva botava. E
os vagões no escuro.
Trem misterioso. Noite fora noite dentro. O chefe vinha recolher os bilhetes de cigarro na boca. Chegava a passagem bem perto da ponta acesa e dava uma chupada para fazer mais luz. Via mal-e~mal a data e ia guardando no bolso. Havia sempre uns que gritavam:
– Vá pisar no inferno!
Ele pedia perdão (ou não pedia) e continuava seu caminho. Os vagões sacolejando.
O trenzinho seguia danado para Belém porque o maquinista não tinha jantado até aquela hora. Os que não dormiam aproveitando a escuridão conversavam e até gesticulavam por força do hábito brasileiro. Ou então cantavam, assobiavam. Só as mulheres se encolhiam com medo de algum desrespeito.
Noite sem lua nem nada. Os fósforos é que alumiavam um instante as caras cansadas e a pretidão feia caía de novo. Ninguém estranhava. Era assim mesmo todos os dias. O pessoal do matadouro já estava acostumado. Parecia trem de carga o trem de Maguari.
Porém aconteceu que no dia 6 de maio viajava no penúltimo banco do lado direito do segundo vagão um cego de óculos azuis. Cego baiano das margens do Verde de Baixo. Flautista de profissão dera um concerto em Bragança. Parara em Maguari. Voltava para Belém com setenta e quatrocentos no bolso. O taioca guia dele só dava uma folga no bocejo para cuspir.
Baiano velho estava contente. Primeiro deu uma cotovelada no secretário e puxou conversa. Puxou à toa porque não veio nada. Então principiou a assobiar. Assobiou uma valsa (dessas que vão subindo, vão subindo e depois descendo, vêm descendo), uma polca, um pedaço do Trovador. Ficou quieto uns tempos. De repente deu uma cousa nele. Perguntou para o rapaz:
– O jornal não dá nada sobre a sucessão presidencial? O rapaz respondeu:
– Não sei: nós estamos no escuro.
– No escuro?
– É.
Ficou matutando calado. Claríssimo que não compreendia bem. Perguntou de novo:
– Não tem luz? Bocejo.
– Não tem. Cuspada.
Matutou mais um pouco. Perguntou de novo:
– O vagão está no escuro?
– Está.
De tanta indignação bateu com o porrete no soalho. E principiou a grita dele assim:
– Não pode ser! Estrada relaxada! Que é que faz que não acende? Não se pode viver sem luz! A
luz é necessária! A luz é o maior dom da natureza! Luz! Luz! Luz!
E a luz não foi feita. Continuou berrando:
– Luz! Luz! Luz! Só a escuridão respondia.
Baiano velho estava fulo. Urrava. Vozes perguntaram dentro da noite:
– Que é que há? Baiano velho trovejou:
– Não tem luz!
Vozes concordaram:
– Pois não tem mesmo.

Conclui a seguir.

Por Alcântara Machado

AS CINCO PANELAS DE OURO – 10 DE 12


com Pixavon. A Livraria Cosmopolita ofereceu um rico exemplar do Paraíso Perdido. E assim por diante.
Miss Paraíba do Sul foi recebida em audiência especial pelo Presidente do Estado, respondeu com  muita graça às perguntas de S. Exa. e distribuiu cigarros Petit Londrinos (ovalados) aos presos da cadeia pública. Visitou também a Câmara Municipal. Aí foi saudada por um vereador que a comparou a mimosa violeta dos nossos vergéis que não só atrai pela beleza como prende pelo seu perfume e conquista pela sua modéstia exemplar.
Foram quinze dias bem cheios. Repletos. Não houve um minuto de folga. Miss Paraíba do Sul embora delicadamente deixou transparecer que a glória era um fardo pesado demais para seus ombros frágeis. E seguiu de vagão especial para a capital do país Todas as cidades do percurso enviavam à estação o juiz de direito, o promotor, o delegado, o prefeito, o coletor federal e o sacristão da matriz que se incumbia dos foguetes. O trem apitava, as palmas estalavam com o vívório, o trem seguia. Miss Paraíba do Sul chegou ao Rio com uma dor de cabeça que não agüentava mesmo.

Começou a torcida brava. Para disfarçar, festas e mais festas. E sonetos na seção livre dos jornais. E bilhetes de apaixonados anônimos. E baile na torpedeira Paraíba do Sul. E retratos de todo o jeito nas revistas. E chás com as rivais. E tesouradas gostosas nas rivais. E entrevistas, entrevistas, entrevistas. Um repórter mais audacioso penetrou no quarto de Miss Paraíba do Sul e tirou uma fotografia muito original. Com efeito. No dia seguinte o povo carioca abrindo o jornal deu de cara com um pé de sapato enquadrado pela seguinte nota: – Enquanto Miss Paraíba do Sul  jantava  conseguimos  penetrar  no  seu  aposento  e  cometemos  a  deliciosa  maldade  de fotografar  um perfumado sapatinho que se encontrava sobre o toucador. Levamos a nossa indiscrição ao ponto de verificarmos o número; era trinta e três e meio! Para encanto dos nossos leitores publicamos um clichê do sapatinho da nova Maria Borralheira da Graça e da Beleza.
Cousas  assim  comovem. Miss Paraíba do Sul deu  ao repórter como lembrança o famoso sapatinho. Mesmo porque (observou muito bem o irmão casado) já estava imprestável com a sola até fura-não-fura. Enorme multidão teve a felicidade de vê-lo exposto na redação do jornal. Não houve um parecer discordante: era de fato um amor de sapatinho.
Enfim vieram as provas do concurso. Miss Paraíba do Sul passeou de roupa de banho para os velhos do júri apreciarem bem as formas dela e submeteu-se ao exame antropométrico no Museu  Nacional.  Sua  ficha  foi  discutida  nas  sociedades  científicas,  empolgou  a  imprensa, provocou desinteligências entre pessoas que se davam desde os bancos escolares. Tudo inútil porém. Miss Paraíba do Sul não foi considerada a mais digna de representar o Brasil no torneio de Galveston.
Chorou é verdade. Não se pode negar. Chorou. Mas isso no hotel. Em público não perdeu a linha. Era toda sorriso diante de Miss Brasil. Entrevistada declarou que a escolha do júri tinha sido  justa.  Admiradores  seus  protestaram  com  energia.  Um  grupo  de  estudantes  deitou manifesto a seu favor. Ela sorria agradecida e dizia cousas muito amáveis a respeito de Miss Brasil. Foi consagrada a Miss Pindorama, a Miss Terra de Santa Cruz, a Miss Simpatia Verde- Amarela. Todos reconheceram que a vitória moral lhe pertencia. Era um consolo.
De volta à capital do seu Estado no entanto ela resolveu mudar de atitude. Criticou duramente a decisão do júri. Miss Brasil? Uma beleza sem dúvida. Mas beleza impassível. E que vale a formosura sem a graça? Depois sem gosto algum. Cada vestido que só vendo. Todos de carregação. E era visível nos seus traços a ascendência estrangeira. O Brasil seria representado em  Galveston.  A  raça  brasileira  não.  E  por  aí  foi.  Nem  os  organizadores  do  concurso escaparam.  Amáveis  sim.  Porém  parciais.  Um  deles,  careca  barbado,  vivia  amolando  as candidatas  com  galanteios  muito  bobos.  Por  isso  mesmo  levou  um  dia  a  sua.  Uma  das concorrentes lhe perguntou: Por que não corta um pedaço da barba e gruda na cabeça para fingir de cabelo? Disse isso sim. Como não. Na cara. Como não. E perto de gente. Ora se. Ele ficou enfiado.
Corisco recebeu de luto na alma a sua Venus. O pai de Miss Paraíba do Sul sacudiu a cabeça murmurando: Que injustiça! Que injustiça! Inutilmente ela e o irmão casado falavam na vitória moral, na simpatia do povo, nos protestos da imprensa. Ela contava: Uma vez quando saía do hotel um popular me disse que eu era a eleita do coração dos brasileiros! Então, papai, que tal?
Mas o velho não se convencia. É. Muito bonito. Realmente. Mas os oitenta e quatro contos foi outra que abiscoitou. Aí é que está. Os oitenta e quatro contos foi outra que abiscoitou. Injustiça. Injustiça. O Brasil vai de mal a pior. Mas depois era preciso jurar que não, que o Brasil ia muito bem, que a vitória moral era mais que suficiente, que dinheiro não faz a felicidade de ninguém porque Miss Corisco, Miss Paraíba do Sul, Miss Pindorama, Miss Terra de Santa Cruz, Miss Simpatia Verde-Amarela começava a chorar.

GUERRA CIVIL
Em Caguaçu os revolucionários. Em São Tiago os legalistas. Entre os dois indiferente o rio Jacaré. O delegado regional de Boniteza mandara recolher as barcas e as margens só podiam mesmo estreitar relações no infinito. De dia não acontecia nada. Os inimigos caçavam jararacas esperando ataques que não vinham. Por isso esperavam sossegados. Inutilmente os urubus no vôo  lindo deles se cansavam indo e vindo de bico esfomeado. Os guerreiros gozavam de perfeita saúde.
De noite tinha o silêncio. Qualquer barulho assustava. Os soldados de guarda se preparavam para  morrer  no  seu  posto  de  honra.  Mas  era  estalo  de  árvores.  Ou  correria  de  bicho.  A madrugada se levantava sem novidades. Por isso a luta entre irmãos decorria verdadeiramente fraternal.
Porém uma manhã chegou a Boniteza a notícia de que do lado de Caguaçu qualquer coisa de muito grave se preparava. Tropas marchavam na direção do rio trazendo canhões, carros de combate, grande provisão de gases asfixiantes comprada na Argentina, aeroplanos, bombas de dinamite, granadas de mão e dinheiro, todos esses elementos de vitória. Um engenheiro russo construiria em dois tempos uma ponte sobre o Jacaré e o resto seria uma corrida fácil até a capital do país. Desta vez a cousa iria mesmo.
Boniteza  se  surpreendeu  mas  não  se  acovardou.  Com  rapidez  e  entusiasmo  começou  a preparar tudo para a defesa. Ao longo do rio se abriu uma trincheira inexpugnável. Caminhões descarregaram  tropas  em  todos  os  pontos.  As  metralhadoras  foram  ajustadas,  os  fuzis engraxados, os caixotes de munições abertos. Costureiras solícitas pregaram botões nas fardas das  praças mais relaxadas. Nas barbearias os vidros de loção estrangeira se esvaziaram na cabeça dos sargentos. Era de guerra o ar que se respirava.
A noite encontrou os combatentes a postos. Na trincheira eles velavam apoiados nos fuzis. Sentinelas foram destacadas para vigiar a margem inimiga. Entre elas o sorteado Leônidas Cacundeiro.

Era infeliz porque sofria de dor de dentes crônica, piscava sem parar e gaguejava. Foi para o seu  posto de observação, deitou-se de barriga num cobertor velho. Só o busto meio erguido, ficou olhando na frente dele de fuzil na mão. Tinha ordens severas: vulto que aparecesse era mandar tiro nele. Sem discutir.
Leônidas Cacundeiro deu de pensar. Pensava uma cousa, o ventinho frio jogava o pensamento fora, pensava outra. Tudo quieto. Ainda bem que havia luar. Do alto da ribanceira ele examinava as  águas  do Jacaré. Ou então erguia o olhar e descobria nas nuvens a cabeleira de um maestro, um cachorro sem rabo, duas velhinhas, pessoas conhecidas.
Agora  o  frio  era  o  frio  da  madrugada.  O  Doutor  Adelino  costumava  dizer:  Quando  vocês sentirem frio pensem no Pólo Norte e sentirão logo calor. Pensou no Pólo Norte. Lembranças vagas  de  uma  fita  vista há  muito  tempo.  Gelo  e gelo  e  mais  gelo.  No  meio  do  gelo  um naviozinho encalhado. Homens barbudos, jogando fumaça pela boca, encapotados e enluvados, com cachorros felpudos. Duas barracas à esquerda. E aquela branquidão. Forçou bem o olhar. Um urso pardo com duas bandeirinhas. Um urso em pé com uma bandeirinha na pata direita, outra bandeirinha na pata esquerda. Nenhuma arma.
Deu um berro: – Alto!
Ficou em posição de tiro. O soldado não podia mesmo dar um passo à frente senão caía no rio. Começou a mexer com os braços. Levantava uma bandeirinha, abaixava outra, levantava as duas.

Leônidas pensou: – Que negócio será aquele?
Foi chamar o sargento. O sargento veio, olhou muito, disse: – Que negócio será aquele? Vá chamar o tenente!
Leônidas foi chamar o tenente, veio correndo com ele. O tenente limpou os óculos com o lenço de  seda, verificou se o revólver estava armado, olhou muito, falou coçando a nuca: – Que negócio será aquele? Vá chamar o major!
Leônidas partiu em busca do major. No acampamento não estava. Foi até Boniteza. Encontrou um cabo. O cabo mandou Leônidas bater na casa da viúva Dona Birigüi ao lado do Correio. O major apareceu na janela com má vontade. Resmungou: – Já vou. Leônidas comboiou o major até o rio, o major teve uma conferência com o tenente, subiu num pé de pitanga, falou lá de cima: – Que negócio será aquele? Vá chamar o comandante!

Continua…

Por Alcântara Machado

AS CINCO PANELAS DE OURO – 9 DE 12


– Toca, seu covarde!
Não esperou o Ford parar. Saltou, tropeçou, quase caiu, entrou no cemitério de revólver na mão. Deu poucos passos, parou. Estava tonto. Olhava de um lado para outro. Pensava: Que é que eu vim fazer, meu Deus?
Com um enxadão Crispim surgiu por detrás da capela. Longe ainda. Nicolau deu com ele, correu  para  o  túmulo  do  Padre  Dito,  sem  largar  o  revólver  começou  a  desmanchar  um canteirinho. Crispim correu também gritando:
– Que é isso, Seu Nicolau? Não faça isso!
Nicolau viu Crispim já perto, pulou na frente do túmulo, apontou para o gavetão, atirou.
– Larga esse revólver, Seu Nicolau!
Nicolau enfrentou Crispim, disse com voz sumida:
– Me dá essa enxada!
– Eu dou se o senhor largar o revólver!
– Me dá essa enxada! Me dá essa enxada!
– Não se chegue, Seu Nicolau!
– Me dá essa enxada! Me dá essa enxada! Nicolau ia avançando, Crispim recuando.
– Por que que o senhor quer?
– Me dá essa enxada!
A voz sumia cada vez mais, o revólver tremia, os olhos se enchiam de lágrimas.
– Eu mato! Me dá essa enxada!
Mal podia suster o revólver, segurou com as duas mãos. Crispim recuou até o túmulo do padre. Com o enxadão erguido.
– No túmulo do Padre Dito o senhor não toca, Seu Nicolau!
– Eu te mostro!
Mas antes de apertar o gatilho, levou com o enxadão no alto da cabeça, caiu com os miolos de fora.
– Acuda! Acuda! – deu de gritar Crispim.
Foi quando  no  portão do  cemitério  pararam  vários  automóveis  e  seguida  dos dois  irmãos Tarantelli, do Tenente Messias Jesus Conrado, do Alcibíades Valentim vulgo Ali-Babá, do Bibi, do Dadau, do Zizi, do Doutor Teotônio, todos, até o Prefeito Idílio até o Doutor Salomão, até o Major  Mourão  com  o  chapéu  de  Nicolau  na  mão  (O  doido  esqueceu  a  cabeça!),  Dona Esmeralda entrou de carreira. Deu um grito, se jogou sobre o cadáver. Mas não chamava pelo marido não. Dizia só:
– Ah minha mãe, minha mãe!

MISS CORISCO
Embora alguns nacionalistas teimassem em chamá-la de senhorita o título oficial era Miss Corisco. Dez casas no bairro tomavam conta da igreja pobre que primeiro nem caixa de esmolas tinha. Depois compraram unia caixa. Mas nunca viu um tostão porque o dinheiro que havia se gastou todo com ela. Miss Corisco foi eleita pelo sistema de exclusão. A filha do Bentinho era sardenta. A irmã do João tinha um defeito nas cadeiras. Logo de saída a Conceição se impôs: foi aclamada Miss Corisco.
Aí deu uma entrevista para o O Cachoeirense. Perguntaram: Qual a maior emoção de sua vida? Respondeu: Três: minha primeira comunhão. uma fita do Rodolfo Valentino que eu vi na capital do meu querido Estado e… não conto porque é segredo. Respeitamos o segredo (escreveu o jornal) pois naturalmente encobria urna linda história de amor. Depois perguntaram: Qual o seu maior desejo? Respondeu: Sempre ver o Brasil na vanguarda de todos os empreendimentos. Resposta admirável (comentou O Cachoeirense) que revela em Miss Corisco uma patriota digna de  emparelhar  com  Clara  Camarão,  Anita  Garibaldi,  Dona  Margarida  de  Barros  e  outras heroínas  da nacionalidade. Finalmente perguntaram: O que pensa do amor? Respondeu: O amor, minha fraca opinião, é uma cousa incompreensível mas que governa o mundo. Palavras (acentuou o órgão) que encerram uma profunda filosofia muito de admirar atentos o sexo e a juventude da encantadora Miss.
Miss Corisco foi retratada em várias posições: com um cachorrinho no colo, apanhando rosas no jardim, as costas das mãos sustentando o queixo. Deu também um autógrafo. Papel cor-de-rosa de  bordas douradas, risquinhos de lápis para sair bem direitinho e as letras se equilibrando neles.  O cunhado ditou. Os representantes do O Cachoeirense se retiraram. Miss Corisco foi varrer a cozinha como era de sua obrigação todos os dias inclusive domingos e feriados e na manhã seguinte tomou a jardineira em companhia do irmão casado para comparecer na cidade perante o júri estadual.
O Cine-Teatro Esmeralda estourava de tão cheio. No palco atrás do júri a Corporação Musical C. Gomes-G. Puccini tocava dobrados. De minuto em minuto a assistência entusiasmada erguia vivas ao Brasil e à raça. As candidatas desfilaram vestidas com apurado gosto. Os juizes eram cinco: um  brasileiro, dois italianos, um filho de italiano e um português. Predominava neles o espírito  nacionalista.  Queriam  escolher  um  tipo  bem  brasileiro.  O  Doutor  Noé  Cavalheiro desenhou em dois traços incisivos o tipo-padrão: boca grande e olhos ternos. Miss Corisco foi eleita Miss Paraíba do Sul por quatro votos.
Ouviu então o primeiro discurso que foi proferido com emoção que lhe embargava a voz e lenço de  seda  na  mão,  pelo  Doutor  Noé  Cavalheiro,  segundo  promotor  público.  Principiou  este fazendo  o elogio da beleza notadamente da beleza feminina. Falou do culto que na antiga Grécia se votava à formosura física. Acentuou depois a desvantagem de uma mens sana desde que não seja  num corpore sano. Disse que a beleza da mulher se tem provocado guerras e catástrofes tem também mais de uma vez contribuído para o progresso geral dos povos, citando vários exemplos  históricos. Prosseguiu afirmando que o Brasil deveu muito do amor que lhe dedicou Dom Pedro I à influência benéfica da Marquesa de Santos. Referiu-se à competência do júri, à sua isenção de ânimo e confessou que a única nota dissonante tinha sido ele orador, o que provocou os protestos  unânimes da assistência. Perorando entoou um hino inflamado à peregrina formosura de Miss Corisco. Disse então: Unindo à beleza clássica da Vênus de Milo a sedução estonteante da lendária rainha de Nínive, Miss Paraíba do Sul, maior do que Beatriz e mais feliz do que Natércia, conquistou o coração de toda uma região! A Pátria não é somente, como soem pensar certos espíritos imbuídos de materialismo, a lei que garante a propriedade privada! A Pátria é mais  alguma cousa de sublime e divino! A Pátria é a estrela que nos contempla do céu e a mulher que nos santifica o lar! A Pátria sois vós, Miss Paraiba do Sul, são os vossos olhos onde se espelham todas as forças viris da nacionalidade! Para nós, patriotas conscientes e eternos enamorados da Beleza, Miss Paraiba do Sul é neste momento o Brasil! (Aplausos prolongados. O orador é vivamente cumprimentado. Vozes sinceras gritam: Bis! Bis!)
Um a um os membros do júri beijaram as mãozitas róseas e espirituais de Miss Paraíba do Sul enquanto  a  Corporação  Musical  C.  Gomes-G.  Puccini,  sob  a  regência  do  Maestro  Pietro Zaccagna, atacava vigorosamente a imortal protofonia do Guarani.
Muito vermelha  e  batendo  com  ar  ingênuo  as  pálpebras  aveludadas  Miss  Paraíba  do  Sul concedeu  então  as  primeiras  entrevistas.  Externou  sua  opinião  sobre  a  futura  sucessão presidencial, a cultura da laranja, a questão religiosa no México, Mussolini, Padre Cícero, a estabilização  cambial,  Victor  Hugo,  Coelho  Neto,  os  perfumes  nacionais,  a  sentença  que absolveu Febrônio, o diabo. No Grande Hotel Mundial era uma romaria de manhã à noite. Muito afável Miss Paraíba do Sul recebia toda a gente com um encantador sorriso brincando nos lábios purpurinos. O camareiro do apartamento chegou a declarar quando entrevistado por um jornalista: É de uma amabilidade extraordinária. Recebe todos. Quem bate no quarto entra. Mas o irmão pelo sim pelo não caiu de bofetadas em cima do camareiro. O caso foi parar na policia onde o prestígio de Miss Paraíba do Sul conseguiu arranjar tudo do melhor modo possível.
Puseram à sua disposição um automóvel fechado, uma máquina de escrever portátil e um binóculo de corridas. Todos os dias choviam os presentes. O futuro arquiteto Barros Jandaia pôs gratuitamente seus serviços profissionais às ordens de Miss Paraíba do Sul. O cabeleireiro não lhe quis cobrar nada e ainda por cima lhe deu vinte vales dando direito a outras tantas lavagens
Continua…

Por Alcântara Machado

AS CINCO PANELAS DE OURO – 8 DE 12


– Não há acordo! – disse Nicolau.
Para o Doutor Salomão era chegada a hora de todos usarem da máxima franqueza. O Senhor Nicolau Foz não queria fazer acordo. Prescindia assim da colaboração alheia. Mas que essa colaboração era indispensável para ele estava patente no fato do Senhor Nicolau Foz, embora conhecendo o lugar onde se encontrava o tesouro, não haver até então se apossado dele.
– Porque fui educado na escola da honestidade! Sou brasileiro legítimo! De raça!
O Doutor Salomão insistiu em que a hora só admitia cartas na mesa. A honestidade do Senhor Nicolau Foz estava acima de toda e qualquer suspeita. Mas ele era de carne e osso como os outros. Se tivesse jeito de se apossar sozinho do tesouro já teria feito. Achava pois conveniente que  antes  de  mais  nada  fosse  revelado  o  lugar  onde  as  cinco  panelas  de  ouro  estavam escondidas.  O  que  foi  aprovado  com  calor.  As  considerações  do  Doutor  Salomão  tinham abalado a assembléia. Nicolau sentia sobre ele e através dele sobre o tesouro o olhar ávido dos dois  irmãos Tarantelli, do Tenente Messias Jesus Conrado, do Alcibíades Valentim vulgo Ali- Babá, do  Bibi, do Dadau, do Zizi, do Doutor Teotônio de todos os presentes, de todos os ausentes. Canalhada. Felizmente estava armado. Matava. Morria. Mas não dizia.
O Doutor Salomão sentara-se fixando Nicolau. A assembléia sentou-se fixando Nicolau. O major se levantou:
– Somos todos pessoas de respeito e que se prezam, não é verdade? Pois muitíssimo bem. O que há a fazer é entrar num entendimento cordial com o nosso simpático amigo Nicolau a fim de que ele, certo de que não será prejudicado, possa revelar o lugar em questão. Pois não lhes parece assim?
– Compreendo – disse o Doutor Salomão. – O Senhor Nicolau impõe condições.
– Condições não! – falou o major. – Ou melhor: existem condições mas quem as impõe é o próprio Padre Dito que Deus tenha.
– Que condições? – perguntou o Doutor Salomão.
– Razoáveis, muito razoáveis – disse o major.
– Justíssimas até. E é preciso que sejam respeitadas. Está claro.
– Mas quais são elas? – insistiu o Doutor Salomão.
–  O  saudoso  Padre  Dito  faz  absoluta  questão  que  noventa  por  cento  do  dinheiro  fique pertencendo ao nosso prestante amigo Nicolau empregando-se os dez por cento restantes nas obras da matriz… Então? São ou não…
– O quê?
– Está brincando!
– Bandalheira!
– Quanto leva no negócio?
– Que piratas!
– A assembléia gritava de pé. O Doutor Salomão tornou a subir na cadeira, ameaçou dissolver a reunião com o destacamento, pediu calma, obteve relativa. E falou:
– O Senhor Nicolau sustenta o que disse o Maior Mourão? Nicolau disse:
– Sustento até morrer!
O major suspirou aliviado. O Doutor Teotônio disse:
– Eu proponho para harmonizar as coisas que o dinheiro seja todo entregue ao benemérito governo provisório para ajudar o resgate da dívida nacional!
Houve uma salva de palmas. Mas não unânime.
– Nunca! berrou Nicolau. – Ao menos cinqüenta por cento eu exijo pra mim porque foi pra minha mulher que Padre Dito apareceu em sonho!
O major falou sincopado:
– Como? Cinqüenta por cento? Mas.. Ora essa! Cinqüenta por cento? Não pode ser! Há aí engano! Não… não é… não está certo!
Antônio Vicente se ergueu com altivez, foi até a porta, virou-se antes de sair e disse:
– Com traidor eu não discuto!
O Prefeito Idílio disse:
– Eu proponho que cinqüenta por cento sejam para as obras da matriz mesmo e cinqüenta por cento entregues à prefeitura para serviços de utilidade pública!
– Nunca! – berrou Nicolau. – Cinqüenta por cento pra mim! O resto pode ficar pro que quiserem! Zizi disse:
– Eu proponho que o dinheiro inteirinho…
– Nunca! – berrou Nicolau. – A metade tem que ser pra mim! O Tenente Messias disse engrossando a voz:
– Eu proponho que se obrigue o Nicolau a dizer já, mas já, imediatamente, nem que seja à força, onde é que está o cobre!
Nicolau quis falar mas não pôde. E os dois irmãos Tarantelli, o Tenente Messias Jesus Conrado, o  Alcibíades Valentim vulgo Ali-Babá, o Bibi, o Dadau, o Zizi, o Doutor Teotónio, os outros, todos, até o Doutor Salomão, até o Prefeito Idílio, até o Major Mourão que já não sabia direito o que fazia, com os punhos erguidos cercaram Nicolau. Aí Nicolau puxou o revólver.
– Cachorros! Ca… chorros!
Foi andando de costas até a porta, saiu correndo. Na rua o Afonso Henriques esperava o pai de baratinha. Nicolau brandindo o revólver entrou no auto. Mandou:
– Toca pro cemitério!
Afonso Henriques começou a chorar.
– Toca senão te mato!
O Ford pulava na Rua da Expiação. Afonso Henriques suplicava:
– Vamos… vamos voltar, Seu Nicolau! Por favor! O senhor está… está tão nervoso! Nicolau dizia:
Continua…

Por Alcântara Machado

AS CINCO PANELAS DE OURO – 7 DE 12


– Abotoa aí! – disse o major.
A sala das sessões já estava apinhada. Padre Zoroastro na presidência explicou os fins da reunião e deu a palavra para Antônio Vicente. Este falou:
– Os que como nós costumam buscar no passado os ensinamentos para o presente sabem que na  Idade  Média  várias  expedições  armadas  chamadas  Cruzadas  deixaram  a  Europa  para arrancar Jerusalém das garras sacrílegas dos muçulmanos!
– Que é que nós temos com isso? – perguntou o genro de Zéquinha Silva.
– Muita coisa! Vossa Excelência não me deixou terminar o paralelo que pretendo esboçar! Com efeito, meus senhores, ao grito de Deus o quer! os cristãos do Ocidente mais de uma vez se levantaram de armas nas mãos para expulsar da Cidade Santa os infiéis do Oriente! Pois bem! Nós, os fundadores da República Nova, também nos levantamos ao grito de Revolução o quer! para exigir que os membros da atual comissão das obras da matriz, infiéis de 24 de Outubro, sejam destituídos e imediatamente substituídos pelos fiéis de Copacabana, pelos heróis…
Padre Zoroastro interrompeu:
– Eu acho que a discussão deve ser curta não é? – e se cingir aos fatos. É. Devemos economizar nosso tempo.
– Também acho, excelentíssimo senhor presidente desta augusta assembléia! E é por isso…
– O que o Senhor Antônio Vicente pede é a substituição da comissão atual. Não é? E funda seu pedido no fato do Senhor José Silva e demais membros da referida comissão não serem revolucionários. Pois então. Já estamos cientes. E eu vou dar a palavra ao Senhor José Silva para dizer o que julgar conveniente a respeito. Fica bem assim. Não é? Tem a palavra o Senhor José Silva.
Zéquinha Silva principiou dizendo que desconhecia revolucionários em Jataí-Vila a não ser alguns de última hora. Colocava pois a questão em outro terreno. Achava que se devia somente indagar se a atual comissão era ou não composta de gente trabalhadeira e honesta. Porque ser revolucionário só não adianta.
– Eu sou produto do meu trabalho honrado – gritou o major.
– Como é mesmo? – perguntaram.
– Ficam proibidos os apartes – falou Padre Zoroastro. – Não é melhor? Continue, Seu Zéquinha.
Zéquinha provou documentadamente que a comissão presidida por ele sempre se houve com diligência e probidade. Em todo o caso desistia, por si e pelo genro, de continuar nela se a maioria dos presentes quisesse. Mesmo porque confiança não se impõe.
Padre Zoroastro disse que era melhor recolher logo o voto dos presentes. Os presentes (com exceção do major, Antônio Vicente e Nicolau que queria a palavra para uma explicação pessoal) concordaram. E Padre Zoroastro falou que antes de proceder à votação desejava ler para governo de todos uma carta do bispo de Samburá. Na carta do bispo dizia que, caso fosse destituída a comissão atual que lhe merecia a mais absoluta confiança, não autorizaria outra que se formasse a dirigir as obras da matriz e suspenderia estas até melhores tempos.
– Ah! É assim? – berrou Nicolau. – O senhor, Padre Zoroastro, quer fazer pressão? O senhor se engana! Não estamos mais sob o domínio do perrepismo!
E a confusão se fez com injúrias pesadas. Mas Padre Zoroastro ameaçou se retirar e conseguiu assim restabelecer a calma. Então disse:
– Senhor Nicolau Foz, saiba que eu não fiz mais do que cumprir o meu dever de pároco lendo a carta do excelentíssimo senhor bispo desta diocese. Não é?
– Perfeitamente! – apoiaram.
– Mas se o senhor tem algum esclarecimento importante a dar e promete não se exaltar eu lhe concedo a palavra por cinco minutos.
Nicolau de olhos fechados fungava forte entre o major e Antônio Vicente.
– Não tem nada a dizer? – perguntou Padre Zoroastro.
Nicolau abriu os olhos, viu o sorriso vitorioso de Zéquinha Silva, pulou da cadeira, afirmou:
– Tenho! Tenho uma coisa a dizer!
– Não diga! – disse Antônio Vicente baixinho. Nicolau se virou para o companheiro e falou:
– Digo!
– Diga de uma vez! – gritaram.
– Pois digo! Se a comissão atual não for destituída.
– Ela tem a seu favor a honestidade com que tem agido! aparteou o prefeito.
– Em face da revolução não há direitos adquiridos! – berrou Antônio Vicente.
– Que asneira é essa? – falou o Doutor Salomão.
– Que que o senhor está dizendo? Asneira? São palavras textuais do Ministro da Justiça!
– Está com a palavra o Senhor Nicolau Foz! – advertiu Padre Zoroastro.
– Se não destituírem a comissão do P.R.P. eu não revelarei um segredo…
– Não revelaremos! – secundou o major excitadíssimo.
– … o qual segredo foi contado pelo falecido Padre Dito à minha senhora!
E a confusão se fez de novo. E Padre Zoroastro de novo conseguiu restabelecer a ordem.
– Temos o direito de saber, não é?
Então aos berros Nicolau soltou tudo menos o lugar onde se achava escondido o tesouro. E Padre  Zoroastro  desistiu  de  restabelecer  mais  uma  vez  a  calma.  Impossível.  O  genro  de Zéquinha Silva subiu na cadeira e começou a arengar sem ser ouvido. Antônio Vicente só sabia dizer: Conheceram, papudos? Entre os que achavam que aquilo era uma mistificação ignóbil e os que pensavam que por via das dúvidas convinha verificar a coisa direito houve ameaças de tiros. O turumbamba estava armado. Puxaram o genro de Zéquinha Silva por uma perna, deram uns tabefes  nele, ele rolou no chão gritando: Basta assassinos! Padre Zoroastro com muito custo salvou o coitado e se retirou com ele e Zéquinha abanando a cabeça.
– Sempre a maldita história do espiritismo estragando tudo! Não é? A mãe, a sogra, a mãe de
Esmeralda, a sogra do Nicolau, já eram assim!
Aos poucos os mais chegados a Zéquinha Silva foram também saindo.
Disposto a aclarar o negócio do tesouro o Doutor Salomão em pé na cadeira da presidência perguntou  se  estavam  numa  terra  de  bugres.  O  silêncio  respondeu  que  não.  E  o  Doutor Salomão se declarou pronto a servir de intermediário entre os grupos adversos e fazer um acordo honroso.
Continua…

Por Alcântara Machado