CHAPÉUZINHO DE PALHA E O BOLO BOM 6 de 6 – FINAL


Chapeuzinho de Palha foi finalmente libertado de sua vida miserável. Estava agora muito feliz, e resolvera abrir uma construtora de estradas seguras e, principalmente, atalhos pelo meio da floresta.

À noite, os lobos deram grandes festas em comemoração à sua recém adquirida liberdade de expressão. Algum tempo depois abandonaram as casas de madeira e palha para construir casas de tijolos, que absorvem saliva.

E quanto ao Assador, ele me deu uma notícia muito desagradável.

— Na verdade, eu não tenho dinheiro pra te pagar…

— Como é que é????

— Bem, eu esqueci que tinha gasto todos os meus recursos pra fazer o Bolo Bom, agora eu fiquei sem dinheiro.

— Maldito! Mas a gente tem um contrato. Então não tem jeito, você vai trabalhar pra mim!

— O QUÊ???

— É claro! Vamos, pega os meus desentupidores e vamos. — (eu arranquei um pedaço do solo com meus desentupidores mágicos e estava carregando eles com as pedras grudadas nas pontas, até descobrir um jeito de tirá-los de lá.)”

— E assim, o Assador se tornou meu escravo companheiro de viagem. Portanto, eu gostaria de chamá-lo aqui agora, ele vai me ajudar com a narrativa das próximas histórias. Assador, vem cá!

O Assador se senta.

— Olá! — diz o Assador, em cumprimento ao Plebeu.

— Mas bem, — prossegue o Príncipe — continuando, a próxima história é a que eu gosto de chamar de “A Juíza das Chaves”…

— Espera! — interrompe o Plebeu. — Tem uma coisa que eu não entendi!

— O que foi?

— Se a floresta era tão perigosa, então como o Chapeuzinho de Palha passava por ela???

Silêncio.

— Não faça perguntas difíceis…

Por  Ramon Nogueira da Silva

CHAPÉUZINHO DE PALHA E O BOLO BOM 5 de 6


“Finalmente avistamos a terrível casa da Vovó.

Ao avistar o lugar, o Assador encheu-se de fúria(de novo!) e foi correndo em direção à porta. Com um chute enraivecido ele arrebentou a entrada da residência daquela vil criatura e adentrou aos berros.

— Vovó! — gritou ele — Seu reinado de terror chegou ao fim!

Antes que eu pudesse alcançar a porta e olhar para o interior, vi o Assador ser arremessado para fora envolto em uma saliva gosmenta.

— Que nojo! — Exclamei.

Me enchi de fúria(dessa vez fui eu) ao ver o que a velha fez com o Assador. Entrei pela porta quebrada.

— Velha desgraçada! Ele ainda não me pagou!

Um jato de saliva soprado por aquela mulher voou em minha direção, mas pulei para o lado no último instante.

Olhei finalmente para o interior do recinto. Chapeuzinho de Palha estava em um canto chorando, e a velha senhora do mal sentada em uma cadeira de balanço ao lado de uma mesa, sobre a qual se encontrava o Bolo Bom.

— Quem é você, verme insolente? — perguntou o Vegeta a Vovó.

— Quem você acha que eu sou? Eu sou o Príncipe Encan…

— ENCANTADO??? — Surpreendeu-se a velha senhora.

— Não… Encanador. E vim aqui para dar um fim às suas maldades e receber minha grana.

— AHAHAHAHAHAHA! — debochou minha inimiga. — Você acha que pode acabar comigo, verme?

— Vou te mostrar. — E peguei minha Chave de Boca Mágica, pronto para arremessá-la.

— ESPERE! — Berrou o Assador, que se libertava da baba que havia em seu corpo. — Não acerte o Bolo Bom. Chapeuzinho de Palha ainda tem que comê-lo!

— Idiota! Eu irei devorar esse bolo! — Contradisse a velha.

— Não, quem vai devorá-lo é o Chapeuzinho de Palha!

— Não, serei eu!

— Não, será o Chapeuzinho de Palha!

— Eu!

— Chapeuzinho de Palha!

— Eu!

— Chapeuzinho de Palha!

Bem, enquanto eles estavam brincando de Pernalonga e Patolino, eu fiquei curioso para saber o que que esse Bolo Bom tinha de mais. Andei calmamente até a mesa e disse:

— O que que esse bolo tem de especial?

E enfiei o dedo nele.

— NÃO FAÇA ISSO! — Gritaram ambos, Vovó e Assador, ao mesmo tempo.

Coloquei o dedo na boca para sentir o gosto.

O meu mundo girou.

Aquele sabor. Aquela textura. Tudo era perfeito. A massa, a cobertura, o recheio! Era algo que eu jamais havia imaginado na minha vida. Meus olhos lacrimejaram. Nada mais importava, nem dinheiro. Meu corpo era apenas a vontade de comer aquele bolo. Aquela era a verdadeira felicidade, que eu havia encontrado após muito tempo…

— Me dá! — Gritou a velha e ENGOLIU o bolo inteiro com uma única bocada.

— Delicioso. — Concluiu a velha, com os olhos cheios de lágrimas.

O Assador encheu-se de fúria. Mas antes que ele pudesse fazer alguma coisa eu AGARREI O PESCOÇO DA VELHA e gritei, enquanto o sacudia:

— VELHA ORDINÁRIA! COSPE! COSPE!

Não escolhi as melhores palavras.

Arremessado pela saliva que a velha soprou em mim, aterrissei penosamente do outro lado do cômodo.

Aquilo era MUITO nojento.

Minha cabeça começou a rodar. Estava nauseado. Se ela cuspisse em mim de novo com certeza eu morreria.

— Eu vou acabar com você, verme. — disse ela.

Mal ela acabou de pronunciar essas palavras e eu já tinha arremessado a minha Chave de Boca Mágica contra ela, que voou com uma velocidade impressionante em sua direção. Porém, ela apenas deu uma cuspida na minha poderosa Chave, que foi repelida e voltou à minha mão.

— ECA! Ficou toda babada! Que nojo! — Exclamei, depois de pegar o instrumento, enquanto limpava minha mão na camisa.

— Você nunca me atingirá com esse brinquedinho!

Tive então minha última grande ideia.

Saí correndo!

— Coooooorreeeeeeeee! Essa velha rabugenta é pior que o demônio! — Gritei.

— Como é que é, seu príncipe de merda?! Eu vou cuspir na sua cara toda!

Então a senhora iniciou uma perseguição atrás de mim pela floresta, cuspindo ensandecidamente. Tal como planejei.

Assim que me certifiquei que ela estava totalmente fora de casa, esperei ela me dar uma de suas cuspidas. Arremessei minha Chave de Boca Mágica para a direita e saltei rapidamente para a esquerda.

A velha não desistiu, começou a cuspir feito louca em minha direção, enquanto eu corria alucinado para a esquerda, dando uma volta em torno dela.

— Agora eu te pego! — Urrou ela, preparando uma salivada decisiva.

Nesse momento, minha Chave de Boca Mágica, que eu havia arremessado pro outro lado e ainda estava vindo em minha direção, acertou a cabeça da velha em cheio por trás. A senhora esteve tão concentrada em me acertar que nem percebeu a aproximação do objeto.

Vovó, a terrível senhora do mal, fora derrotada.”

CONCLUI A SEGUIR…

Por  Ramon Nogueira da Silva

CHAPÉUZINHO DE PALHA E O BOLO BOM 4 de 6


“Adentramos na terrível Floresta Sombria munidos de toda nossa coragem em direção à casa da Vovó. A primeira hora de viagem foi tranquila, mas a segunda também. Comecei a achar que todo mundo naquela vila era um bando de cagão que não tinha coragem de entrar na floresta por pura superstição.

Após duas horas andando comecei a ficar um pouco cansado. A partir deste momento comecei a ouvir uns ruídos estranhos no meio da floresta.

— São os lobos. — sussurrou-me o Assador. — Mantenha-se atento. Devemos ver algum indício se nos aproximarmos do território deles.

— Tipo aquilo ali? — Apontei para uma casa de palha rústica com uma placa na entrada que dizia: ‘Auuu au au auuuuu aauuuh aul u!’ (Casa da matilha Steeves!). ”

— Você sabe ler na língua dos lobos? — pergunta o Plebeu

— Não.

— Então como você sabia o que estava escrito?

— Eu não sei.

— Mas você não acabou de falar?

— É, mas é assim que se reportam fatos hoje em dia. A gente reporta o que sabe, o que não sabe a gente inventa. Você não lê jornal, não?

“Mas continuando… não vendo ninguém por perto resolvi entrar na casa pra descansar. Ao ver o que eu estava pra fazer o Assador gritou:

— Você é doido? Você não pode fazer isso!

— Por quê?

— Você se esqueceu de bater o pé no tapete antes de entrar!

— É mesmo! Que cabeça a minha…

Então ambos limpamos nossos pés e entramos.

A casa tinha uma sala, um quarto e uma cozinha. Sentei no sofá da sala e liguei a TV… ”

— TV??? — interrompe o Plebeu. — O que é isso?

— Ah! Foi mal. Esqueci que ainda não inventaram.

“Então na verdade eu fui para o quarto, que tinha duas camas, e me deitei. O Assador queria que prosseguíssemos, mas como estava cansado resolveu deitar também.

Fechei os olhos por um momento e senti uma respiração incomum por perto. Quando os reabri percebi um dos lobos me encarando. Não sou bom em reconhecer fisionomias, mas ele me pareceu um pouco aborrecido.

Quando ele tentou me morder e arrancou um pedaço da cama com os dentes, — e por reflexo consegui saltar para longe — concluí que ele realmente estava aborrecido.

Mas não é qualquer um que consegue me matar. Se fosse assim, eu não me tornaria o lendário Príncipe Encanador. Nesse momento em que ele achava que poderia me comer, mostrei meu verdadeiro talento: corri o mais rápido que podia.

O tal lobo me perseguiu pela floresta, mas em segundos percebeu a inutilidade de seguir alguém tão veloz. Distanciei-me da casa e respirei aliviado em segurança, mas sentindo de que havia esquecido alguma coisa. Daí, ouvi um grito:

— SOCORRO!

Sobressaltei-me! O Assador chamava por socorro! E eu ainda não tinha lembrado o que havia esquecido! Corri velozmente em direção à casa. Ao avistá-la, arremessei minha Chave de Boca Mágica, que arremessou a casa longe. E também o lobo! E também o Assador!

Olhei para minha mangueira. Poderia usá-la para puxar o Assador. Enquanto a tirava da cintura fui atingido na cabeça!

Caí. Olhei para o lado e vi minha Chave de Boca Mágica, que tinha caído próximo a mim. Percebi que fora ela que me atingira. Normalmente já teria desmaiado, mas não podia desistir ali. Apoiei-me no meu Desentupidor Mágico para me levantar. Agora eu não tinha nenhum.

Corri desesperadamente em direção ao Assador. De repente avistei-o correndo em minha direção. Corri desesperadamente em direção contrária ao Assador. Havia um lobo atrás dele.

Mas então eu parei. Não era certo o que eu estava fazendo. Ele havia me contratado para protegê-lo. Eu fui até ali por causa disso. E eu estava fugindo, abandonando-o. Se eu fugisse ali e deixasse ele morrer sem ter me pagado ainda, eu iria certamente me arrepender depois.

Tive uma ideia genial.

Peguei um graveto no chão, arremessei-o longe e gritei:

— PEGA!

O graveto voou. Enquanto estava no ar, o lobo olhava fixamente para ele, como que hipnotizado. O objeto caiu longe, numa distância segura para nós, se o lobo corresse atrás dele.

Não funcionou. O animal foi mais esperto do que eu previa. Eu realmente achei que ele ia cair nessa.

Nesse momento, quando tudo parecia perdido. O rosto do Assador encheu-se de determinação(e fúria). Ele agarrou sua pá, virou-se irado, e acertou o lobo com uma pazada que arremessou longe o animal.

Olhei satisfeito. O lobo caiu com a boca no meu graveto. Sem dúvida, a natureza operou como imã natural para o bicho. MEU plano foi um sucesso.

Visto que nos livramos do perigo continuamos nossa viagem, que decorreu sem mais surpresas desagradáveis. Mas o pior ainda estava por vir: a casa da Vovó.”

Por  Ramon Nogueira da Silva

CHAPÉUZINHO DE PALHA E O BOLO BOM 2 de 6


“Passava eu pela vila de Marlombee, ainda nos primeiros dias de minha promissora jornada. Tanto tempo fora de casa começava a me dar saudades. Mas eu estava determinado. Cheguei à pacata cidadezinha pouco antes do entardecer e pus-me a procurar um lugar para descansar. Os plebeus ignorantes moradores agradáveis da região me indicaram o caminho para a estalagem principal, chamada de Pato Saltitante.

Lá chegando, perguntei o preço do pernoite e pedi um terço quarto. Tive um pouco de dificuldade porque o dono do estabelecimento era um pouco surdo. Reparei que estavam todos muito silenciosos, provavelmente porque já tinham ouvido falar da minha força lendária. Ou talvez porque o estabelecimento estava vazio, mas esses detalhes realmente não me eram muito do interesse. Também pude perceber um jovem saindo da cozinha muito triste, com uma caixa na mão e um chapéu vermelho na cabeça. Aquele era Chapeuzinho de Palha, como eu viria a saber depois.”

— Espera um pouco! Se ele usava um chapéu vermelho ele não deveria se chamar Chapeuzinho Vermelho?

— Não, não pode. Aí seria plágio.

— Mas a ideia já não está toda plagiada?

— Está, mas não é assim que funciona. Roubar ideia não tem problema, é só trocar o nome e fazer dinheiro suficiente em cima dela pra comprar o juiz contratar um bom advogado depois. Mas nome não tem jeito.

— É, faz sentido. Mas aqui, como que você consegue falar frases riscadas?

Assim? Qualquer dia eu te ensino. Como assim?!

— Deixa pra lá…

“Como o garoto me pareceu muito triste, resolvi ir lá e dormir. Odeio ter que ouvir gente com problema me enchendo o saco. Acordei no dia seguinte perto do meio-dia, pronto para dar continuidade às minhas andanças, quando sentei para almoçar na estalagem e aquele sujeito entrou.

Cada pelo do meu corpo se arrepiou ao ver aquele homem. Corpo grande, mau encarado, com aquela presença dominadora que a gente só sente quando… quando… quando a gente sente. Sentou numa mesa próxima à minha, e imediatamente mudei-me para o balcão. Claro, com minha incrível força não seria façanha derrotá-lo, mas os sábios dizem que é melhor evitar a fadiga.

Sussurrei para o balconista, num volume surdo, imperceptível:

— Quem é aquele homem?

— O QUÊ???

Lembrei que a audição do rapaz era ruim, mas não iria desistir. Com muito cuidado, peguei meu canivete e comecei a talhar as letras que formariam a frase no balcão.

— Não estraga o balcão, animal! — disse o proprietário.

— QUEM É ELE? — berrei, desesperado.

— ELE? — O sujeito apontou para o homem.

— É!

— FALE BAIXO! — Gritou-me o homem, visivelmente aterrorizado. E então sussurrou — Ele é… o Assador!

Sussurrou muito baixo. Não deu pra escutar.

— QUEM?

— O ASSADOR!

Arrepiei-me. O homem continuou:

— Dizem que sua obsessão na caça a bolos se assemelha a de um caçador na caça a lobos!

Horrorizei-me. Era muito pior do que eu jamais havia imaginado.

— NÃO! — Gritei — Tenho que fugir, antes que ele perceba que estamos falando dele!

— Eu já percebi há um tempão.

Minhas esperanças se esvaíram. Não havia mais nada que eu pudesse fazer. ”

— Isso não me pareceu assustador. — interrompe o Plebeu — Pareceu idiota.

O príncipe encara o plebeu. O silêncio domina o recinto. A distância entre os dois parece ser engolida por uma outra dimensão, enquanto seus olhares permanecem cruzados e vigilantes. O príncipe abre a boca para falar:

— Tá, na verdade ele era do meu tamanho e chegou gritando o nome na estalagem, mas eu quis fazer um pouco de suspense.

Silêncio.

— Prossiga. — cede o Plebeu.

“Então, na verdade o Assador era esse cara magro, feio e que entrou gritando na estalagem na hora que eu estava almoçando.

— ONDE ESTÁ MEU BOLO?

— É tarde demais, Assador. — disse o dono do estabelecimento — Chapeuzinho de Palha já foi embora. Ele está indo para a casa da Vovó. Com o Bolo Bom.

— NÃO! — Gritou o homem, e em seguida pôs-se a chorar.

Olhei para aquela cena comovente, de um grande homem ajoelhado no chão, tendo seus sonhos fugindo de si. Meus olhos encheram-se de lágrimas. Não consegui ter outra reação:

— HAHAHAHAHAHA! — Gargalhei, com lágrimas por não conseguir conter o riso. — Um homem desse tamanho chorando! HAHAHAHAHA!

O homem olhou para mim e encheu-se de fúria.

— E você? Quem é? — Perguntou.

— Eu sou o Príncipe Encan…

— ENCANTADO??? — surpreendeu-se o homem.

— Não… Encanador. Estou à procura da Princesa Amaldiçoada. Também trabalho como mercenário nas horas vagas.

— Então você também é um valente guerreiro que tenta salvar a princesa para livrar seu reino da desgraça?

— É isso mesmo. — Confirmei com determinação de herói.

— HÁ! — debochou o dono do lugar — Tá na cara que você é só mais um príncipe pobretão que espera ficar rico salvando a princesa!

O outro homem me olhou curioso.

— Estraga prazer. — Finalizei.

— Não me interessa. — cortou o homem que chorava — Tenho que atravessar a Floresta Sombria para encontrar Chapeuzinho de Palha antes que ele chegue à casa da Vovó.

E dizendo isso, o homem pôs-se a sair.

— Se você for sozinho, você vai morrer. — disse o dono da estalagem — Melhor contratar um guarda-costas.

— Ei, ei, ei… — disse eu — se você precisa de um guarda-costas, então eu posso te ajudar. Contem-me de novo essa história de Chapeuzinho de Palha.

Não gosto de me envolver em problemas dos outros. Mas com dinheiro na jogada, a coisa muda de figura. ”

Por  Ramon Nogueira da Silva

CHAPÉUZINHO DE PALHA E O BOLO BOM 1 de 6


Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança.

Contudo, o ser humano não é perfeito, pois a perfeição é algo tão único que não pôde ser reproduzido.

O ser humano mente. O ser humano omite. O ser humano é hipócrita.

O ser humano esconde seus pensamentos dos seres humanos.

O ser humano tenta esconder seus pensamentos de Deus.

O ser humano acha que sua máscara é perfeita.

O ser humano pensa que palavras não reveladas garantem segurança.

E por trás de suas nobres ações, escondem pensamentos de hipocrisia.

Mas a máscara a que o ser humano se apega é frágil. Ineficiente perante Deus.

E, com o tempo, torna-se também ineficiente perante os homens.

No fim, torna-se ineficiente para si mesmo, pois o ser humano também se mascara para si.

Lembre-se: você também é um ser humano.

***

O príncipe se senta.

Seu amigo, o Plebeu (seu nome não importa, é só um plebeu mesmo…) prostra-se atento à sua frente, para ouvir-lhe as histórias de aventuras.

Começa o príncipe:

— Essa é uma história que aconteceu há muito, muito tempo atrás, em um reino muito, muito distante…

— Ué… — interrompe o Plebeu — não foi no nosso reino?

— Foi, mas toda história começa desse jeito.

— Ah tá.

— Então… mas essa é uma história que aconteceu há muito, muito tempo atrás, em um reino muito, muito distante…

— Mas isso você já disse.

Silêncio.

— Posso contar?

— Ah, desculpa. Continue.

— Então… foi quando nosso reino…

— Mas não era num reino distante?

— CALA A BOCA, MERDA!

— Foi mal, desculpa.

“Tá… há muito tempo atrás havia uma princesa muito, muito feia, mas muito bondosa. Essa princesa se apaixonou pelo Príncipe Encantado, que era muito, muito bonito. E o seu amor foi correspondido, pois o príncipe se apaixonou pelas virtudes da princesa…”

— Ela era tão bondosa assim?

— Não, é que o príncipe tava sem dinheiro… aí você sabe, né? Princesa rica… castelo grande…

— Ah, bom.

“Mas bem, antes de eles se casarem, aconteceu algo terrível: A princesa foi amaldiçoada pela Fada Foda.”

— Espera aí. Se ela amaldiçoou a princesa ela não seria uma bruxa?

— Claro que não. Ela é a Fada Foda.

— Mas fadas não amaldiçoam pessoas…

— Não. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ela era gostosa.

— E daí?

— Se é gostosa é fada. Já viu bruxa bonita?

— Não.

— Então.

— Mas se ela era uma fada, por que ela era má?

— Porque ela era foda.

— E daí?

— Quem é bom nunca é foda nessas histórias. Quem é bom se fode, pelo menos até o final. Porque no final o bem sempre vence.

— Por que no final o bem sempre vence?

— Você é burro, hein? Plebeu é tudo ignorante mesmo… Porque senão a história não vende! É estratégia do comércio. Plebeus ignorantes como você só gostam de histórias em que tudo acontece do jeito que eles querem. Se o final for triste, eles não gostam. Então todo mundo escreve finais felizes.

— Entendi…

“Continuando… Por sorte, a bruxa do pântano lançou um contrafeitiço que impediu a princesa de morrer. Mas ela foi selada em algum lugar desconhecido.”

— Mas se ela salvou a princesa ela não seria uma fada?

— Claro que não!

— Por quê?

— Porque ela mora no pântano, é velha, é feia igual o diabo, corcunda, com os peitos caídos e com verruga na cara. Fada tem que ser bonita e peituda. As ações não importam quando se categoriza alguém, o que conta é a aparência.

— To sacando.

“Então, para salvar a princesa, alguém teria que encontrá-la para dar-lhe um beijo que a fizesse despertar apaixonada. Obviamente, o Príncipe Encantado saiu nessa empreitada. E é aí que começa minha história.”

— Você é o Príncipe Encantado?

— Não, eu sou o Príncipe Encanador.

— E o Príncipe Encantado?

— Morreu, é lógico! Olha a ideia do imbecil. Sai por aí lutando com dragões e duendes em busca do amor e acha que vai sobreviver? Tem que morrer mesmo. É burro.

— Mas e você?

— Eu não. Eu sou o personagem principal, aí num tem problema. Personagem principal não morre.

— Por quê?

— Por que a história tem que ter final feliz! É o comércio, o comércio! Eu não disse antes?

— Ah é…

“Pois bem, depois que o Príncipe Encantado morreu, o reino ficou UMA MERDA. Sem uma princesa que pudesse governar tudo, todo mundo ficou sem rumo e vários jovens valentes saíram para dar continuidade à empreitada do Príncipe Encantado. Jovens corajosos que se preocupavam com seu reino e que eram verdadeiramente apaixonados pela princesa. As minhas aventuras começaram quando eu também resolvi sair nessa empreitada.”

— Então você também era apaixonado por ela?

— Claro que não! Aquela gorda horrorosa?

— Mas então por que você…?

— Sabe como é… eu tava meio sem dinheiro… Princesa rica… castelo grande… uma vida de mordomia…

— Entendi, igual o Príncipe Encantado!

— Nem a pau! Não me compare com aquele idiota!

O Plebeu olha assustado. Parece que o Príncipe realmente se enfureceu. Passa pela mente do plebeu que talvez os dois príncipes tenham se conhecido, mas ele julga prudente não levantar tais indagações.

“Então, deixe-me narrar minha série de aventuras por esse mundo insano, em busca da Princesa bruaca. A primeira delas foi a que se passou em uma pequena vila, com moradores muito distintos. Eu chamo essa história de ‘Chapeuzinho de Palha e o Bolo Bom’…”

Por  Ramon Nogueira da Silva