LIÇÃO SANGRENTA – 02 DE 02 – FINAL


Eram guiados por aquela mulher alta que mordia e puxava as tranças para não gritar de dor. Tinha a pele branca e o coração generoso. Mas era um homem ou uma mulher?

O curandeiro, que se esforçava por extrair a bala, tinha 50 anos e há quarenta que tratava dos combatentes. Fabricava medicamentos e sabia curar as feridas. Toda a espécie de feridas.

Seria ele ou esse desejo ardente de viver que curava as feridas? Seria a mão do curandeiro ou o desejo de vingança e a sede de liberdade que restabelecia os homens?

Ele pensava as feridas, rasgava camisas velhas e com elas fazia ligaduras para estancar as hemorragias. Sabia extrair as balas embebidas na carne por meio de uma pinça aquecida ao rubro. Contudo, nunca pegara numa espingarda e isso pela boa razão de que era o curandeiro. Toda a gente o conhecia como tal.

Tinha cinquenta anos e nenhum estrangeiro lhe chamara ainda “bace” (nome que se dá aos que têm um mérito especial, unanimemente reconhecido), enquanto que todos os combatentes do destacamento chamavam por esse nome a doente que mordia as tranças, que era ainda jovem e que além disso era uma mulher. Estas ideias atravessavam

o espírito do curandeiro enquanto suava suor e sangue.

A mulher tinha a carne rija e aquela carne disputava a bala à pinça do curandeiro. Dir-se-ia que era gulosa por chumbo e pólvora, como se ela própria se tivesse tornado chumbo e pólvora.

Enquanto Sadri pensava nos sofrimentos daquela mulher, o curandeiro continuava torturado pela dúvida.

“Não é uma mulher”, dizia para si próprio. “Tem tranças compridas como usavam antigamente os nossos avós. Não pode ser uma mulher.”

Tinha iniciado o seu ofício de curandeiro com a idade de dez anos mas nunca vira uma mulher assim. Nenhuma poderia suportar tais dores. Como poderia aquela ser uma mulher? Lembrou-se então da história que o pai lhe havia contado a respeito de um combatente que tinha sete ferimentos. Não gemia, não se debatia na cama, apertava os punhos ao ponto de fazer esta- Jar os ossos enquanto as lágrimas lhe corriam silenciosamente pela cara.

– Era um verdadeiro homem, dissera-lhe o pai. Era inútil amarrá-lo, estava ali, quieto e não gritava. Pensa neste exemplo, meu filho, dele poderás tirar ensinamentos. O pai era médico e fixara-se ainda jovem naquela região. Quanto a ele, não pudera estudar porque não havia escolas para isso. Tornou-se portanto curandeiro. Até aquele momento nunca ouvira falar de ninguém mais forte a suportar a dor do que o homem evocado pelo pai, mas agora era obrigado a admitir que aquela mulher suportava muito mais que ele.

A mulher abriu os olhos e viu o rosto do curandeiro debruçado sobre a ferida.

– Deves tirar a bala, disse ela outra vez. É difícil combater a arrastar a perna. As crianças esperam-me e, além disso, a guerra não espera.

Mas ele não conseguia extraí-la. Esforçava-se o mais que podia mas nada conseguia. A bala parecia enterrar-se na carne ainda mais profundamente.

“Uma mulher”, disse o curandeiro para consigo, “ouvi dizer que uma mulher em qualquer sítio da França se pôs à frente do seu povo e combateu como um homem, mas os feudais mandaram-na queimar. Diziam que era uma feiticeira e morreu como o meu pai me contou”.

A ferida agitou-se um pouco e abafou com dificuldade um gemido.

Sadri tocou no ombro do curandeiro com a espingarda.

– Não temos tempo a perder, disse. Os estrangeiros vêm cá amanhã. Temos de partir ao amanhecer.

– Faz o teu trabalho, curandeiro, gritou Neki. Faz o teu trabalho e tira a bala. Já a torturaste bastante.

O curandeiro de novo se debruçou sobre a chaga, com a pinça na mão.

“Pelo menos não vai morrer?” perguntava o curandeiro a si próprio.

“Vai morrer”, pensou ele. “A bala não quer sair porque é uma mulher que se atreveu a tornar-se homem. O tempo está contra ela.”

O curandeiro atirou com a pinça e pousou no punho o queixo inundado de suor. Olhou para o berço que baloiçava ainda, rolando os olhos como um pássaro assustado, branco como um lençol.

“No fundo, pensava ele com compaixão e com medo, bastava-lhe ter ficado em casa a embalar o berço.”

– Não consigo tirá-la, disse em voz alta.

Os homens olharam-no enraivecidos. A ferida voltou a sentar-se e tirou o revólver de calibre grosso de baixo da almofada. A arma parecia pesar-lhe na mão.

Os homens calaram-se, preocupados.

“Ela tem razão”, pensou Sadri, “ele torturou-a durante horas para nada conseguir”.

Os olhos de Neki brilhavam de ódio.

– Este maldito homem não tem piedade, parecia dizer o seu rosto magro. Carrega no gatilho e acaba com este canalha!

O curandeiro, com a cara banhada em suor, não pensava no seu fim. Durante quarenta anos tratara das pessoas com as mesmas pomadas e unguentos por ele fabricados e curara-as todas. Por que razão o haviam de matar agora? Tratava de toda a gente, albaneses ou não, e encontrava-se entre as duas partes, vivendo ora das chagas de uns, ora das chagas dos outros.

Era um emigrado, foi talvez a primeira vez que se arrependeu disso e que maldisse os pais por se terem ido fixar naquela terra.

A mulher segurava a arma na mão e o curandeiro sabia que ela nunca falhava o alvo.

– Tens cinquenta anos, se não me engano, disse a doente ao curandeiro.

– Cinquenta anos, “bace”, disse o curandeiro estremecendo e pronunciando a palavra “bace” contra sua vontade.

– Cinquenta anos é muito e é pouco, disse a mulher, para ti é muito pouco.

– É pouco, disse ele a medo. Quero viver.

– E não aprendeste nada, acrescentou a mulher.

Os homens calavam-se, apenas a mulher falava com voz calma e tranquila e aquela calma parecia abafar o curandeiro.

– Quanto a nós, muito cedo aprendemos uma coisa, continuou a ferida. Aprendemo-la quando ainda estávamos no berço: a bala chama a bala, curandeiro.

“Que me vai ela fazer?” perguntava ele a si próprio. “Matar-me-á como a um simples coelho? Serei morto por uma mulher?”

Todos estavam mudos. A mulher fez um gesto como se quisesse coçar a perna com o revólver.

– Olha, disse ela dirigindo-se ao curandeiro.

Este virou a cabeça, a medo, e viu com espanto que ela tinha colocado o cano da arma sobre a ferida.

– Olha, disse ela mais uma vez. A bala chama a bala!

Carregou no gatilho, ouviu-se uma detonação abafada e o curandeiro julgou que estava morto.

As balas deslizaram sobre a barriga da perna. Dir-se-ia que se tinham reconhecido e caíram ambas no mesmo buraco do assoalho.

O curandeiro piscou os olhos, os dois homens armados pareciam pregados ao chão.

– Acabou-se, disse ela. Pensa-me a ferida, temos um longo caminho a percorrer.

                                                                        * * *

 Nessa manhã, cinco pés caminhavam sobre o empedrado da ruela estreita da aldeia. Uma mulher apoiava-se sobre os ombros sólidos de dois homens de porte imponente e andava sem se queixar. Tinha passado os braços sobre os ombros de dois dos seus camaradas, dois irmãos de cabelos loiros como o trigo do campo que atravessavam.

Por Faik Ballanca

LIÇÃO SANGRENTA – 01 DE 02


O sol declinava num céu esbraseado. Marchavam a passo certo na rua estreita da aldeia. Apenas cinco pés assentavam no chão. A mulher que tinha posto a espingarda a tiracolo, com o cano virado para baixo, trazia calças de montanhês e apoiava-se sobre os ombros sólidos de dois homens de alta estatura.

– Por aqui, disse Sadri atravessando um campo.

– Mais um pouco de paciência, disse um deles com simpatia, estamos quase a chegar.

Retomaram a marcha sustendo a mulher que sofria sem se queixar.

A bala penetrara na barriga da perna e não tinham conseguido extraí-la. Levavam-na agora para um local seguro onde a poderiam tratar sossegadamente.

Na casa que se encontrava na extremidade da aldeia, estenderam suavemente a mulher em cima de um cobertor que a mãe de Sadri tinha trazido. Todos a observaram durante bastante tempo.

– Estás melhor? perguntou um deles.

A mulher baixou a cabeça dando a entender que o ferimento continuava a fazê-la sofrer, mas não disse uma palavra.

– Vou chamar o curandeiro Ahmet, disse Sadri. Havemos de conseguir extrair o projétil.

Enquanto saía, o outro homem, que se chamava Neki, pegou na espingarda e começou a montar a guarda.

– Dá-me de beber, disse a ferida em voz alta. Sentou-se e tirou o grande revólver que trazia no bolso. Era um revólver de calibre grosso, que parecia pesar nas mãos de uma mulher, uma relíquia de ferro, do marido que tinha sido morto.

Pegou no copo de água e entornou uma parte em cima da ferida, com o resto refrescou a cara e escondeu o revólver debaixo da almofada, Aquela arma recordava-lhe o marido, por isso a tinha sempre ao alcance da mão.

Quando o curandeiro entrou no quarto, quis -se levantar, mas Sadri impediu-a de o fazer.

– Não irrites a ferida, disse ele. Ainda temos uma boa porção de caminho a percorrer e não há cavalos. Os camponeses não podem ajudar-nos. Na aldeia não há homens

nem cavalos. O inimigo levou tudo.

A mulher deitou-se outra vez de costas e pôs-se a observar um berço pendurado no tecto por uma corda. Nunca embalara um berço e, contudo, tinha nove filhos. Eram nove órfãos cujos pais haviam sido mortos em combate. Era a eles que dava a sua ternura maternal.

Queria curar-se e voltar a combater. Não chorava de dor, não sabia chorar porque tinha o peito grande e tranquilo como o peito de uma mãe que dá vida.

A paciência desta mulher espantava o curandeiro.

Neki balançava nervosamente o berço. Sadri percorria o quarto em todos os sentidos, a velha tinha os olhos cheios de lágrimas.

– Xherah (1), disse a mulher, acaba depressa o teu trabalho.

Este curvou-se sobre ela e, com uma pinça de ferro aquecida ao rubro, tentou retirar o projéctil. O cheiro sufocante da carne queimada invadiu o quarto. A mulher pensava nos pequenos órfãos.

Neki continuava a balançar o berço. Era um berço vazio, como dezenas e centenas de outros berços de Kosovo. Porque as crianças já não ficavam nos berços e as mães já não tinham tempo de as criar.

O curandeiro esforçava-se o mais possível mas não conseguia esconder o seu espanto.

“Esta mulher, pensava ele, não pode ser uma mulher. É mais corajosa a suportar a dor do que um homem. Deve haver qualquer coisa escondida por trás daqueles compridos cabelos negros.”

Teria dado tudo para tirar aquilo a limpo. Aquele mau pensamento torturava-o tanto como a pinça torturava a mulher.

“Ela vestiu-se assim para não ser reconhecida”, pensava ele.

Todos conheciam aquela mulher. Todos sabiam que era ela o chefe daquele destacamento, mas muitos pensavam que o espírito do marido revivia nela. Era essa de resto a opinião do curandeiro.

Durante anos, guiara valentemente aqueles homens e ninguém sabia então que o marido tinha morrido. Os homens partiam ao assalto gritando o nome do marido e aquela mulher não disse uma só vez que estava cansada de combater.

O nome do marido semeava o pânico por entre o inimigo, mas era a mulher que lutava, que guiava os homens no combate e que criava os filhos dos que tombavam na luta.

– Puxa a trança, disse o curandeiro. Puxa com força para não sentires a dor. Tem paciência.

Ela, entretanto, recordava-se de como tinha sepultado o cadáver do marido dentro de um poço natural, enterrando-o profundamente para que o inimigo nunca pudesse encontrá-lo. Para que o inimigo vivesse sempre no temor do seu nome.

– Se tens força, dissera-lhe ele, combate.

E ela combatia ainda e talvez melhor do que o seu homem.

– Tira essa bala maldita, gemeu a ferida.

– Puxa a trança, disse o curandeiro banhado em suor, puxa com força.

E admirava-se ao ver que aqueles cabelos não ficavam nas mãos da mulher.

“Será realmente uma mulher?”, pensava ele. “Neste caso, todos os qualificativos já nada representariam visto que a mulher seria mais forte que o homem.”

Neki continuava a balançar o berço, com os olhos fixos na ferida. Ninguém sabia atirar com a precisão desta mulher. O marido, cuja pontaria era famosa em toda a região, nunca se media com ela.

“Livra-te de me desafiar, dizia ele à mulher, serias capaz de me ridicularizar. Mas ela media-se com todos e ganhava.

Neki vira-a uma vez acender com uma bala um cigarro que alguém tinha posto em cima de um rochedo.

Há anos que ela comandava um destacamento de homens aguerridos e corajosos.

Neki continuava a balançar o berço vazio pendurado do tecto.

Aqueles homens reuniam-se à noite e partiam ao ataque. Lutavam contra os estrangeiros pelos seus lares e pela sua honra e era aquela mulher que os guiava no combate.

E não se queixava..

Por Faik Ballanca

TOCADO A VENTO


Liberto-te pra que vagues errante pelas coxilhas até que Deus lhe tenha piedade, disse a voz gutural à fogueira noturna.

Conta-se ainda pelas bandas de São Pedro, que o Capitão, destemido e bravo como um dragão das coxilhas, desaparecera depois de ser prisioneiro dos imperiais. Mas outros dizem que o viram troteando pelos campos tempos depois e ainda pelejando contra o Império com a mesma espada com que degolou tantos castelhanos a lavar a honra com o sangue que derramou por este Imperador ainda infante. Eis a história que contam os fantasiosos com um pouco de verdade e um pouco de mentira.

Entre as numerosas guerras que assolaram o Pampa, uma destoou do simples uso da força pela soberania de um Império. Pois a força dos dragões do regimento do Sul havia sido desonrada pela soberania imperial cuja segurança lhes havia sido motivo de orgulho e depois, causa de miséria. Ninguém lembra-lhe o nome, tampouco uma alcunha que o identificasse. Somente o lenço vermelho, as botas couro negro, o tradicional pala. Um capitão cuja bravura o eternizou por estes campos, por estas trevas desérticas, cariciadas pela costumeira ventania. Trazia consigo o cavalo e a espada companheira das execuções. Testemunha de coragem embainhada em sangue de vitórias. Honrava o posto de capitão, lutou em tantas pelejas que nem mais se lembra qual lhe vitimara. Esqueceu-se até o nome, fruto dum nefasto nebuloso, só sobrara-lhe a espada e o cavalo, fiéis companheiros e únicas almas que vagavam no ermo cruel de um lugar bem ao sul das Américas.

A última coisa que lembra é da voz dum homem, dizia que o libertava. Uma chaleira chiando, uma galhada queimando, cheiro de picanha assando, ressoar de canhões e os macabros tambores dos bugres. Atordoado pela surra do dia anterior e da guerra que travara contra meia dúzia de capangas imperiais, levava no peito uma lançada superficial, mas doída. Lembra-se ainda de que o aprisionaram numa barraca e que perto dela ficavam os cavalos. O bagual que o acompanhara nas lutas era ainda forte e troteador, lançava relinchos como se o chamasse nas madrugadas, para que enfim fugissem. Ao pensar nos ferimentos, confunde-se ao não sentir mais nenhum deles. Até que Deus lhe tenha piedade, ouvia a voz na cabeça e depois disso lembrou-se de ter corrido para o bagual, montá-lo num sobressalto e varar a coxilha feito um raio. Nem deram com o desaparecimento, nem deviam tê-lo visto fugir, eram na certa mui distraídos. Foi nas coxilhas de São Pedro que o Capitão sem nome nem passado, tampouco fisionomia, encontrara um vilarejo. Errante, a olhar para trás, no temor de o estarem perseguindo, entrara sorrateiro na vila em que o vento assobiava alto e a chuva contornava ruínas. Restos de comida e corpos pelo chão. Carne, pão amassado, cheiro de queimado… Seria carne humana? Parecia, lembrava-se. Tinha cheiro de mortos, era um cheiro que nem o vento dispersava. Ouvia murmúrios vindos duma cabana. Uma mulher. A moça tinha um horroroso ferimento na perna e trazia no colo uma criança duns três anos, notadamente morta, decomposta, de pele cinza e olhos comidos pelas larvas. Chorava e pedia-lhe que o cuidasse, que o levasse a cidade próxima para curá-lo.

Mais alguns passos pela vila em ruína e o capitão deu-se conta de que havia sido invadida por bugres e não imperiais. Mataram todos e comeram a carne duns muitos que sobraram entre a negra terra das lavouras desenterradas, úmidas carniças de gente podre entre uma bruma louca e misteriosa, um odor de picumã na nuvem campesina. Bugres canibais. Outro sobrevivente o chamou e teve um súbito ao acreditar reconhecer no rosto do capitão, um bravo guerreiro que o tinha salvo nas terras orientais, noutra grande guerra contra os castelhanos pela qual morreram muitos à glória do Império. Mas o capitão não se lembrava deste homem.

Viu uma coruja vislumbrar a ruína de cima da cruz do que outrora sustentava uma capela. Queimada e rodeada de mortos-vivos, a capela resistira somente sobre duas colunas. A coruja alçou-se a pousar numa delas e parecia olhar firme para o capitão desconhecido montado ao pingo. Baixou o chapéu em respeito aos mortos e partiu, acreditando que aquela era uma verdadeira terra de ruínas.

Olhou a terra negra que já surgia entre colheitas fulminadas pela geada, travou pés fazendo alto numa das poucas savanas sombreadas que lhe acolhera. Ouvia rumores entre as árvores, mas concordou em não dá-los ouvido. Ocupou-se da fogueira e averiguar os ferimentos do animal. Dali a pouco, um suspiro encheu o ar e cairam folhas duma copa. Quem está aí, gritou o capitão, hesitante. Um homem de pele clara saiu das folhas dos arbustos com uma lança na mão e o capitão pôde então contar outros três em redor dele.

Diziam os homens, serem moradores da floresta e falavam numa língua estranha, mas amigada com o português hispânico que o capitão lhes falava. Vivem na floresta como bugres?, perguntou o capitão num certo ponto.

Era assim que nossos antepassados viviam, respondeu um deles. Vivemos assim para que um dia eles nos retornem as preces duma morte tranqüila para os que ficaram. E para que se alegrem quando nos visitam.

Mesmo sem entender o que eles diziam, o capitão os acompanhou para o interior dos arbustos que se transformaram em pouco em grandes árvores que pareciam trazer a noite para o dia, dentre esparsas rajadas de luz difusa que dava às suas habitações de barro, uma coloração dourada e paradisíaca, uma paisagem onírica e ao mesmo tempo perturbadora.

Amarrou o cavalo à vara que ficava na porta dos seus cercados, entrou numa das casas na companhia do mais velho dos homens que o guiava e conheceu o chefe deles, Servari um senhor de olhos verdes e semblante amigável. Nossa origem é Trento, na Itália, disse o velho. Mas há muito saímos de lá e por muito ainda ficaremos nestas terras. Nossos vilarejos pereceram nesta louca guerra e nos refugiamos nestas florestas. Mas não ache que aqui somos infelizes, do contrário. Aqui temos tudo o que precisamos. Nossas plantações dão sempre colheitas maravilhosas como em nenhum outro lugar dessa terra desértica de campos.

O capitão o perguntou se ele não pretende sair desta floresta, nem mesmo a fogo dos imperiais que rondam os campos fazendo mortes. O velho coçou a longa barba, bebeu dum chá morno que se derramava na sua mão tremula e disse furtivamente: Esta terra em qual vivemos é benevolente para conosco, mas não sem nos privar do que tínhamos antes dos imperiais aparecerem. Vivemos em fartura, mas à custa de nossa liberdade. Há nas folhas das copas, nos caules das árvores, no fruto que cai maduro, um mal que nos mantém prisioneiro. Este mal são as sombras da floresta. Elas vagueiam sobre o chão e matam nossos animais e colheitas quando do menor sinal de fuga dos seus aterradores domínios. Vivemos prisioneiros e não há esperança para nossas gerações, dizia o velho.

Ao passo dessa conversa, o capitão foi se deixando estupidificar ao ponto de perguntá-lo, tão rápido pudesse aproar o cavalo:

E eu? O que será de mim? Sou homem de campo, de liberdade, não posso ficar confinado à sombra duma floresta macabra…

Não terás problema algum no sair dessas imediações, disse Servari devagar. O soar das trombetas da guerra ainda não chegou e muito antes disso poderá seguir o seu destino de Dragão do Regimento republicano.

Mais calmo, capitão ficou impressionado com o conhecimento que o velho tinha sobre o que acontecia tão longe dali. Enquanto cuida do seu animal ferido, dizia o velho a arfar pesadamente o peito, ficas aqui na companhia do povo da floresta até que estejas pronto para lançar-se à guerra para que fora nascido.

Contam que o capitão ficou seis meses junto dos trentinos tratando de seu cavalo e afiando a espada para a briga que viria. Aprendeu a sobreviver na floresta e a usar de suas cores e formas para o intento da furtividade, da invisibilidade e dos meios maquinais com que podia vitimar estranhos. Mesmo sem memória, aprendeu novas técnicas de guerra com um povo acostumado à paz e à sofreguidão do exílio assombroso, mas de certa forma puro e idílico, daquela floresta em que sombras se arrastavam no entardecer. Devia pelear com os imperiais, era a única cousa que lembrava. Eles, que lhe tomaram a memória e destruíram seu passado, deviam pagar com juros, além disso, aos maus tratos do aprisionamento. Via, desde que fugira da coxilha campal, um rosto em sua mente. Uma mulher mui guapa e de cabelos negros que o parecia olhar, mirar os olhos a estarrecer de medo, como se morresse à sua custa, como se vitimada pelo algoz que zoneava os campos, malditos imperiais. Era uma linda moça que o arrancava da terra que jazia enterrado, um sonho que se repetia. Devia ser a esposa esquecida que estava perdida nos corredores labirínticos da sua mente confusa, trespassada por um sabre bandeirante. Não lhe vinha nem um nome.

Mesmo tendo percebido que o velho Servari sabia o bastante sobre o mundo exterior, o capitão não conseguiu extrair dele outras informações que o ajudassem na descoberta do seu passado misterioso, que levassem ao seu nome, ao nome da mulher que via em seus sonhos. Servari somente palrava em coisas como o espírito da floresta e das sombras que a regiam, pactos entre os trentinos e a própria floresta, terríveis tempestades e ventanias que varriam as lavouras e casas, os estranhos sacrifícios de animais que eram obrigados a fazer em toda a entrada de estação, assim como as luas e suas fases distintas, lendas que povoavam as cavernas do cânion e outras coisas que o capitão ouvia com atenção, mas sempre pensativo. Começou a achar que eles eram demasiado religiosos e achou que era hora de partir de encontro ao seu destino.

Na hora em que o capitão alçava-se sobre o cavalo, uma última palavra pareceu querer sair da boca do velho Servari, mas conteve-se e, ao invés disso, fez um sinal ao seu discípulo. Este por sua vez, trouxe ao capitão uma espada prateada muito límpida e com inscrições na guarda como uma letra ‘I’ em baixo relevo. Curioso, pensou em perguntar o que significava, mas ouviu um troar dos céus e recebeu um gesto apressado do velho sacerdote. Entendeu que devia ir-se dali o mais depressa possível e assim o fez.

Ao ocaso, não caiu nenhuma tempestade. À noite, também não chegara. O capitão não relutou em acreditar que aquela tempestade que se ensaiava, atravessou as montanhas e caiu-se somente sobre a floresta dos trentinos, tal era a sua sina. Compreendeu, mas tentou não tomar conhecimento de que àqueles seis meses que passou na floresta à companhia dos trentinos, conversava com mortos, fantasmas da floresta da sombra. No entanto, a misteriosa espada era real e a sua lâmina era marcada por degolas tal a sua que também trazia à cintura, e tal a adaga que lampejava ao sol. Naquela tarde, o capitão encontrou um riacho mui estreito. Ao perceber-se de que o fio se alargava, decidiu segui-lo. Chegou onde o pequeno riacho transformara-se num rio generoso e à beira de sua costa, havia um rancho.

Ao aproximar-se percebeu se tratar duma fazenda e ouviu em seguida, tiros vindos da colina qual iluminava um seleiro. Rompeu o trote até que os tiros ficassem tão mais alto que se podia sentir a nuvem de pólvora. No tilintar de espadas e gritos, o capitão desceu do cavalo e aproou perto da porta. Meio metro de distancia disparava um guarda regimentado. Sem olhar os lados e antes que o vissem, o capitão varou-lhe o peito com a espada prateada. Chutou um dos outros que aproximava e derrubou-o sobre um monte de feno. Viu um tiro atingir muito perto e puxou a pistola. Atirava sem mirar e os estampidos vinham acompanhados da espessa nuvem das explosões, começou-se uma correria pelo seleiro. O capitão esquentara uma briga que antes se arrastava em lentas fustigadas, trouxera a obrigação por um desfecho. Dois ou três tiros a mais se seguiram até que o capitão começou a enxergar no que estava metido. Era briga entre imperiais e camponeses, donos da terra. Até tiros do lado dos camponeses se viram vazar as poças e esboroar pipas de vinho. Eles não sabiam quem era aquele desconhecido que parecia que atirava a esmo. E o capitão ficou irado com a demora da briga a ponto de saltar sobre um dos guardas e o decapitar num só golpe, atirou-se no chão antes do tombo do último e já erguia a arma. Viu num lampejo que os olhos dos camponeses se elucidavam e eles notaram que o desconhecido não lhes era agressor, mas os havia ajudando. Daí, mais dois soldados do Império foram mortos com a ajuda dos camponeses e, ao tombar do último, eles ficaram muito gratos ao capitão.

Desculpe se nos confundimos, pensamos se tratar doutro invasor. Obrigado pela ajuda, disse o jovem com baioneta em mãos.

Eu ouvi o alarido e acertei que era briga, dizia o capitão. Tenho que encontrar o bando dos que matam imperiais. Quero ter briga até que logo eu morra e seja livre. Venho andando por essas terras errando e pastando a longos campos junto do meu cavalo e de minhas armas. Não me lembro de quem sou, nome ou profissão… nem ainda sei como é meu rosto. Mas sei que tenho de matar estes guardas fardados, pois sei que agem em favor dum Império ao norte deste país. Foram eles os culpados de todas as desgraças que tenho visto, exceto de uma cidade atacada, acredito, por bugres das cavernas.

O mais velho dos camponeses tinha uma barba rala e era muito magro. Aproximou-se e disse irado:

Pois aquela cidade que viste, transformada em ruínas, na certa, com gente morta por todo o lado, foi obra indireta do regimento imperial. Eles atacaram uma aldeia de índios no baixo da serra, no fundo do abismo, há cerca de três semanas. Os bugres são selvagens, não diferenciam imperial de republicano, pra eles é tudo branco. O que viste foi uma vingança à moda bugre.

O capitão assentiu com eles, aceitou a comida que lhe ofereceram, mas recusou-se a ficar com eles alegando que buscava a guerra. Foi-se pelo curso do rio atentando-se a vestígios humanos e obras desumanas. No caminho lutou com o ódio de si mesmo, por não saber quem era e quem deixava de ser. Sentiu um gosto amargo nos campos, como se a solidão do ermo o tivesse desgastando, oxidando, lhe tirando forças. Trazia dalgum lugar um sentimento de revolta que crescia assustadoramente. Foi então que encontrou um acampamento.

Dizimados por canibais, desta vez o regimento imperial teve a sorte que semeou e recebeu o troco dos bugres. O capitão riu-se ao ver os corpos fardados sem carne, com ossos a mostra, entranhas entumecidas e expostas ao sol. Roubou-lhes moedas e uma nova sela de cavalo. Acampou nas imediações durante a noite e temeu que os bugres novamente passassem por ali e o fizessem morto a frechadas tal os coitados que por ali fediam. É certo que houveram estranhos sons na madrugada e um ronronar ressoante que pôde ser ouvido longe dali. Mas era a madrugada e os seus mistérios. O mundo não devia estar cheio de imperiais. Eles certamente se escondiam muito bem e o capitão sabia também se ocultar na mata, conhecimento que herdou do pouco tempo com os trentinos, além dum passado oculto sobre o nevoeiro que rondava o acampamento.

Durante este período de erro, o capitão passou por colinas, florestas, fazendas e até chegou a passar a noite numa caverna. Dizem que lá ele teve assustadores pesadelos e que saiu de lá dizendo que havia uma tribo que vivia debaixo da terra. Não foram tão infundadas as declarações do capitão, pois quando ele saiu de dentro da caverna, saiu muito machucado, como se tivesse brigado com uma dúzia de cachorros e disseram que ele só sobreviveu graças a espada dos trentinos que estimulou algum tipo de temor nos aborigenes. Mas o ponto alto dessa estranha e heróica história se inicia quando ele encontra o grupo de guerreiros revolucionários e, reconhecendo-o, eles o convidam a liderá-los. Sem titubear, ante uma batalha eminente, o capitão aceitou e foi numa noite de terça-feira, com um lunar azul e crescente sobre os campos, que as tropas se dirigiram na espreita para uma batalha que decidiria o domínio daquelas terras ermas.

De manhã, no entanto, os campos onde o general do império mantinha guarda, amanheceram desertos e nada além do vento andava por aquele vale. O tenente, cujo nome também não se sabe, mandou que andassem mais dois quilômetros campo a dentro até que dessem com os sinais de ocupação demarcados pelo Império. Mas por mais que conhecessem aquela região, eles não imaginavam que naquele campo vazio e sem viva alma, tivessem erigido uma capela sobre a colina. E como se ela guardasse a floresta atrás dela e os mortos a protegessem no cemitério em seu derredor, a capela ostentava uma alta torre com um sino grande e negro dentro dela.

À porta, os soldados bradavam por alguém que os recebesse. Na certa abandonava-se no meio do descampado, devido algum ataque castelhano das décadas passadas, pois parecia muito mal cuidada. Mas era estranho e o capitão nunca tinha visto nada igual. Uma capela em meio do nada, sem casas na volta, só o cemitério a impor-lhe o silêncio. Sabia que igrejas só emergiam à sombra de povoados fundados por abonados senhores que as mandassem construir, depois de plantarem uma figueira e a batizassem de praça central.

Bateram na porta com toda a força até que uma voz assustada e sufocada implorou-lhes paciência. Era um padre baixo e esguio, muito velho, com o cabelo branco como algodão. Tinha a pele muito branca e olhos azuis. Disse solenemente:

Aqui é a casa de Deus e não há lugar para desordeiros. Mas se o que querem é orar por seus pecados e confessar-se com o Senhor, posso interceder por suas almas junto ao Pai.

Vimos pedir que deixe a capela, padre, disse um dos que vestiam farrapos a contemplar a torre e as vigias. Os imperiais estão às voltas e não terão piedade do senhor se estiver em terreno de batalha. Sua casa de Deus servirá de esconderijo ao inimigo e vosmecê será posto neste cemitério.

O velho largou um sorriso no rosto.

Ora, filho, nenhum de nos deve temer a guerra, uma vez que aqui estão protegidos pela graça do Senhor. Eles não podem entrar aqui. Também são filhos de Deus, cristãos como nós.

O capitão então pareceu zangar-se com o vigário.

Eles não têm piedade nem de velhos como o senhor. Na guerra não há lugar para religião. O senhor está no lugar errado, a não ser que tenha o seu Deus o poder de abrandar a nossa fúria e a insensatez dos regimentados.

O tenente pareceu contagiado pelas palavras do capitão.

Terá ele o poder, além disso, de proclamar, com força de exércitos, a República dos Mortos, qual vivemos, onde o terrível poder do império seja varrido por nossos ventos para fora dessa terra para sempre?

O vigário moveu-se lentamente abrindo as portas da capela e, com um gesto a convidar todos, disse:

Eu vos convido a abrigarem-se neste santuário divino. Lembre-se, meu filho, este é um lugar sagrado.

De repente, como se alguém munido de mal agouro quisesse contradizer as palavras do padre, um estrondo correu sobre os céus e uma explosão ouviu-se diante da capela. Todos flexionaram os joelhos ao mesmo tempo e o padre foi rapidamente até a janela olhar o que sucedia. Sai daí, padre, gritou um dos farrapos. Outra explosão e o trote de cavalos.Uma trombeta zombeteira pareceu declarar a impotência dos farrapos, pois eles não conseguiam ver de que lado vinham os canhões.

A batalha na Capela de São Pedro ficou famosa entre os que conhecem a lenda do Capitão. Naquela batalha, o tenente farrapo comandou um grupo que subiria a torre. Outro pequeno grupo, liderado pelo capitão, sustentaria o combate na porta e janelas da igreja. O padre, como bom cristão, foi orar no confessionário e só saiu de lá morto. Os farrapos logo ficaram encurralados quando os guardas entraram, à força de canhões, pela porta e deram inicio ao combate corpo a corpo. Neste o capitão sofreu alguns ferimentos, mas enfim percebeu que ali dentro não haveria como ganhar aquela peleja. Foi então que ordenou que todos fossem para o cemitério às voltas a fim de ganhar a floresta que dominava os fundos da capela já em chamas. Como o capitão previu, os guardas regimentados e portando seus estandartes imperiais, invadiram a floresta com seus cavalos e não tardou para que muitos se atolassem no lamaçal ou se enroscassem nos cipós e barbas de pau, galhos espinhosos cujo perigo o capitão e os outros conheciam a distancia. Alguns foram surpreendidos por farrapos enquanto lutavam com os galhos secos em que os seus cavalos se prendiam, outros até pereceram na própria lama ou atacados por pumas, cujas tocas invadiram sem conhecer. Até mesmo os farrapos liderados pelo capitão se admiraram do perigo que aquela floresta nativa representava para os que não a conheciam.

A batalha da capela de São Pedro, que a chama fulminou até as fundações, trouxe ao capitão a lembrança dos trentinos e do tempo que passou na floresta e, ao lembrar das palavras do velho vigário, imaginou se seria correto chamar uma construção, erigida pelas mãos do homem, de sagrada. Uma construção por mãos que só semeiam a destruição e que pode ser facilmente destruída por elas. E a floresta que lhes havia salvado dos imperiais seria verdadeiramente um mundo fantástico e sagrado. O capitão dava-se conta, aos poucos, dos detalhes de tudo aquilo que lhe vinha acontecendo. A capela perdida no meio do nada, a floresta das sombras. Tudo aquilo parecia-se com um sonho. Mas não era um sonho. Era a terra do sul que, aos seus olhos, formava-se de esplendores jamais vistos antes. Foi preciso perder a memória para que percebesse o quão onírica era aquela paisagem do outono austral.

Mais adiante, as tropas da horda imperial acabaram por encontrar os farrapos numa batalha campal que seria, antes de tudo, premeditada. O velho Servari, dos trentinos, havia falado sobre os presságios que afligem-nos as corujas. E o capitão lembrou-se disso quando olhou o alto da araucária naquela manhã em que ouvia, de quando em quando, o trotar de cavalos numerosos e a trombeta insistente do outro lado das colinas onde os imperiais preparavam-se para o embate. Por muito tempo, questão de horas, os preparativos causavam alaridos entre os farrapos que afiavam facões, espadas, adagas, faziam lanças e, tomados duma sedenta e doentia alegria, engraxavam botas, lavavam os encarnados lenços e lustravam até reluzirem ao sol, aquelas espadas crioulas que se encontravam tingidas do sangue imperial, de castelhanos e de tantas guerras que empreenderam. De pouca pólvora dispunham, de modo que o exército farrapo era, em verdade, um exército de armas brancas. O que não lhes atemorizava os ânimos, pois uns muitos já bradavam ao alto teor do vinho e das cachaças que guardavam nas barricas, à honra reconquistada sobre o sangue dos estrangeiros, tal chamavam aqueles bandeirantes. O capitão isolava-se daquela festa, pois temia por sua vida. Ou algo ainda pior que não sabia bem o que era. Teve uma impressão de repetição quando viu no alto da colina uma daquelas corujas do outono novamente a lhe dizer com os olhos. E pensou no que havia de ter deixado para trás, mulher, filhos, sabe lá. Não lembrava de nada.

Finalmente, ao toque duma trombeta que diferia das outras, um toque que agudava em fina e trêmula insistência, sentiu que aquela era a primeira trombeta. A que daria inicio á guerra. Não mais temia. Seus sentidos tomaram-se pela avermelhada fúria da guerra e ele puxou para si a garrafa de cachaça da mão dum farrapo gordo. Vamos tingir os campos de vermelho, disse o outro. Isso, respondeu. Vamos encarnar o campo. E de inicio uma correria, um trotar que fazia a terra tremer. O general imperial era de longe o mais ostentoso e glorioso dos soldados. Via-se lá de baixo da colina, a sua postura ereta de bandeirante. Tinha mais de cinqüenta anos e dava pra ver as cicatrizes no rosto.

A julgar pelo número, os farrapos estavam em clara desvantagem. Ainda os muitos problemas que lhes afligia, como a falta de armas de fogo, trouxeram grandes tormentos e horrores no inicio da peleja que se restringia em combate de cavalaria. Os muitos canhoneiros deram problemas ao capitão quando este tentou aproximar-se da colina a qual eles se acastelavam. Enrodilhados por cavaleiros exímios, os imperiais não creram na sua aparente decaída e nas baixas sucessivas que ocorreram num determinado momento. Mas havia por iniciar as baixas também do lado dos farrapos que começaram a cair acavalados como peças de dominó. Na última das fileiras houveram lanceiros farrapos que derrubaram enormes colunas humanas dos bandeirantes imperiais. No entanto, as poderosas bombas lançadas pelos canhões chegavam a derrubar uma ou duas dúzias de ginetes. Por força deles, porém, muitas estruturas de canhões sofreram quebras em suas rodas e os impedia de chegar mais perto. Isso possibilitou uma retirada estratégica, novamente amparados pela floresta. Desta vez, no entanto, não foram todos os imperiais que os seguiram guiados pelo calor da batalha. Alguns pareciam temer as florestas e entravam à custa de muitas ordens e gritarias que faziam no campo.

Nem bem os imperiais amontoavam-se sobre a lama do pântano, envolvidos por espinheiros e cipós, os soldados apressavam-se a varar-lhes com espadas e lanças fazendo-os afundarem como troncos pesadamente. Alguns até se apropriaram das armas de fogo dos imperiais e isso trouxe substancial avanço às tropas do capitão. Mas os olhos do capitão estavam bem acima daquela colina que reinava no horizonte trêmulo. O general. Alguns podiam pensar que o capitão fugia da batalha. Enrolou-se no pala que atava ao cavalo, trespassou a floresta, desembainhou a espada de prata, presente dos trentinos. Voava como o vento e com o vento. Achava-se num mar de campos repleto de mortos, de cadáveres, de almas. Podia ver-lhes o espírito. No correr do vento, o capitão sentiu que via os mortos andarem pelo campo ainda a guerrearem sem darem-se conta de que haviam morrido. Fazia tempo que os estava vendo. Não percebia. Mas ainda preso aos olhos do general, tão longe, alvo certo que havia de perfurar com a espada, via estilhaços zunirem em seu redor. Balas vazavam a terra e estouravam em fumaça nos estampidos costumeiros. Pouco podia ver. Mas corria já mais que o vento. Pouco mais de três metros do general, levantara a espada. O trotar o confundia a visão. O torpor e a fúria o embaciava os sentidos, os muitos tiros, até que o chão o atingiu. Caiu de borco sobre corpos empapados de sangue. Pensou ter apenas caído do cavalo, mas havia sido atingido e sangrava. Levantou-se e encontrou o rosto do general na sua frente. As cicatrizes eram reais assim como as via na distancia e na sua mente enlouquecida. Em roda dele, os soldados ameaçavam com as baionetas o pescoço do capitão e o general aproximou-se sorrateiro e risonho.

Tens muita sorte de ter conseguido chegar ao meu encalço, capitão desertor. O capitão cerrava os olhos, tentava visualizar o que se passava. Estás mal!, disse o general. Tens uma ferida grande na barriga. O capitão então juntou forças e disse: O meu fim não vai terminar com essa guerra, nem fazê-lo avançar sobre este campo.Não lembras de mim, capitão?, disse o general aproximando-se. O outro alardeou os olhos e os sentidos, aquele homem o conhecia. O poderia dizer quem era, descobrir seu passado.

Lembro de ti, disse o capitão a fim de que o homem desse novas pistas a seu respeito. Se soubesse da perda de memória, o faria morrer sem saber.

Então deves saber que não vou mandar que te libertem novamente, dizia o general dando-lhe as costas. E virara-se mais uma vez. Serás meu prisioneiro até que entendas que não há refúgio simples aos que revolucionam a terra do Santo Império.

Espere, ainda gritou o capitão.

Mas o general não deu ouvidos.

Naquele descampado atingido pela guerra, havia somente sangue pelo chão e o capitão percebeu que os seus homens haviam sido também aprisionados. A batalha chegara ao fim, o Sul e o deserto seriam julgo dos senhores imperiais e do exército de seus dragões, enforquilhados em cavalos fantasmagóricos, tal os seus rivais mortos em tempo de guerras, sem dar conta da própria morte, por tanto tempo vagando pelos campos. Aquela havia sido uma batalha pós-morte. O trote, o alarido e as trombetas não puderam ser ouvidos por ninguém.

Foi levado novamente ao acampamento da prisão e por lá foi ficando. Sentia aquela assustadora agonia de não lembrar-se quem era nem de quem deixara para trás. Achou que aquela incerteza duraria séculos, milênios. Às tardes, permitiam que tomasse o seu chimarrão com os companheiros aprisionados e assim o capitão permaneceu por longo tempo. Compreendeu o recado da coruja outonal e viu que às voltas da prisão, havia uma mulher com o filho no colo, um padre esguio e farrapos com ferimentos mortais.

Naqueles meses em que vagou sem destino, com a única idéia de encontrar os inimigos, ele já era como todos que encontrou no caminho. Meras almas sem nome, tocadas pelo vento dos campos.

Por Cristian Derosa

AS CINCO PANELAS DE OURO – 12 DE 12 – FINAL


Foi preciso explicar que era um desaforo. Homem não é bicho. Viver nas trevas é cuspir no progresso da humanidade. Depois a gente tem a obrigação de reagir contra os exploradores do povo. No preço da passagem está incluída a luz. O governo não toma providências? Não torna? A turba ignara fará valer seus direitos sem ele. Contra ele se necessário. Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia e a cousa pega fogo.
Todos gritavam discutindo com calor e palavrões. Um mulato propôs que se matasse o chefe do trem. Mas João Virgulino lembrou:
– Ele é pobre como a gente.
Outro sugeriu uma grande passeata em Belém com banda de música e discursos.
– Foguetes também?
– Foguetes também.
– Be-le-za!
Mas João Virgulino observou:
– Isso custa dinheiro.
– Que é que se vai fazer então? Ninguém sabia. Isto é: João Virgulino sabia. Magarefe-chefe do matadouro de Maguari, tirou a faca da cinta e começou a esquartejar o banco de palhinha. Com todas as regras do ofício. Cortou um pedaço, jogou pela janela e disse:
– Dois quilos de lombo! Cortou outro e disse:
– Quilo e meio de toicinho!
Todos os passageiros magarefes e auxiliares imitaram o chefe. Os instintos carniceiros se satisfizeram plenamente. A indignação virou alegria. Era cortar e jogar pelas janelas. Parecia um serviço organizado. Ordens partiam de todos os lados. Com piadas, risadas, gargalhadas.
– Quantas reses, Zé Bento?
– Eu estou na quarta, Zé Bento!
Baiano velho quando percebeu a história pulou de contente. O chefe do trem correu quase que chorando.
– Que é isso? Que é isso? É por causa da luz? Baiano velho respondeu:
– É por causa das trevas!
O chefe do trem suplicava:
– Calma! Calma! Eu arranjo umas velinhas.
João Virgulino percorria os vagões apalpando os bancos.
– Aqui ainda tem uns três quilos de colchão-mole!
O chefe do trem foi para o cubículo dele e se fechou por dentro rezando. Belém já estava perto. Dos bancos só restava a armação de ferro. Os passageiros de pé contavam façanhas. Baiano velho tocava a marcha de sua lavra chamada Às Armas Cidadãos! O taioquinha embrulhava no jornal a faca surripiada na confusão.
Tocando a sineta o trem de Maguari fundou na estação de Belém. Em dois tempos os vagões se esvaziaram. O último a sair, foi o chefe muito pálido.
Belém  vibrou  com  a  história.  Os jornais  afixaram  cartazes.  Era  assim  o  titulo  de  um:  Os Passageiros no Trem de Maguari Amotinaram-se Jogando os Assentos ao Leito da Estrada. Mas foi substituído porque se prestava a interpretações que feriam de frente o decoro das famílias. Diante do Teatro da Paz houve um conflito sangrento entre populares.
Dada a queixa à polícia foi iniciado  o inquérito  para apurar as responsabilidades. Perante grande  número  de  advogados,  representantes  da  imprensa,  curiosos  e  pessoas  gradas,  o delegado  ouviu  vários  passageiros.  Todos  se  mantiveram  na  negativa  menos  um  que  se declarou protestante e trazia um exemplar da Bíblia no bolso. O delegado perguntou:
– Qual a causa verdadeira do motim?
O homem respondeu:
– A causa verdadeira do motim foi a falta de luz nos vagões.
O delegado olhou firme nos olhos do passageiro e continuou:
– Quem encabeçou o movimento?
Em meio da ansiosa expectativa dos presentes o homem revelou:
– Quem encabeçou o movimento foi um cego!
Quis jurar sobre a Bíblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com a autoridade não se brinca.

Por Alcântara Machado

AS CINCO PANELAS DE OURO – 11 DE 12


O anspeçada primeiro não queria acordar o comandante. Eram ordens. Leônidas insistiu firme e o comandante teve de pular da cama. Leônidas fazendo continência explicou o caso. O coronel disse:
– Às seis estou lá.

Eram cinco, Leônidas voltou com o recado. O major, o tenente, o sargento estavam nervosos. De  vez em  quando  um  deles  chegava  mais  perto  da  margem  e o soldado  do outro  lado recomeçava a ginástica: bandeirinha na frente, bandeirinha atrás, bandeirinha apontando o céu, bandeirinha apontando o chão. Ia repetindo com uma paciência desgraçada.
Então já havia passarinhos cantando, barulho de vida em Boniteza, só a cara amarrotada dos insones  não  resplendia  na  luz  da  manhãzinha.  Toques  de  cometa  chegavam  de  longe despedaçados.  Na  banda  de  lá  do  Jacaré  o  homem  da  bandeirinha  habitava  sozinho  a paisagem com uma vontade louca de tomar café bem quente e bem forte. Era a hora da raiva e todos se espreguiçavam com o sol que chegava.
O Coronel Jurupari ouviu calado a narração do estranho caso. Fez em seguida duas ou três perguntas hábeis com o intuito de esclarecê-lo tanto quanto possível. Chamou de lado o major e o  tenente, os três discutiram muito, emitiram suas opiniões sobre assuntos de estratégia e balística que pareciam oportunos naquela emergência, fumaram vários cigarros. Afinal o coronel entre o major e o tenente avançou até a margem de binóculo em punho. Assim que ele assentou o binóculo, da outra banda do Jacaré recomeçou a dança das bandeirinhas. O coronel olhando. A sua primeira observação foi: – É um cabo e não tem má cara. Depois de uns minutos veio a segunda: – Hoje é dor de cabeça na certa com este noroeste. A terceira alimentou ainda mais a já angustiosa  incerteza dos presentes: – Mas que negócio será aquele? Daí a uns instantes repetiu: – Mas que diabo de negócio será mesmo aquele? Porém acrescentou numa ordem para o Leônidas: – Vá chamar o sinaleiro!
O sinaleiro veio chupando o nariz. Olhou, deu uma risadinha, tirou um papel e um lápis do bolso traseiro da calça, ajoelhou-se com uma perna só, pôs o papel na coxa da outra, passou a ponta do  lápis na língua, começou a tomar nota. Dava uma espiada, as bandeirinhas se mexiam, escrevia. O Coronel Jumpari, o major, o tenente, o sargento e o sorteado Leônidas Cacundeiro esperavam o resultado de armas na mão e ansiedade nos olhos.
O  sinaleiro  se  levantou,  ficou  em  posição  de  sentido  e  com  voz  pausada  e  firme  leu  a mensagem enviada pelos revolucionários de Caguaçu: Saúde e Fraternidade.
O coronel mandou responder agradecendo e retribuindo. Ex-corde.

APÓLOGO BRASILEIRO SEM VÉU DE ALEGORIA
O trenzinho recebeu em Maguari o pessoal do matadouro e tocou para Belém. Já era noite. Só se sentia o cheiro doce do sangue. As manchas na roupa dos passageiros ninguém via porque
não havia luz. De vez em quando passava uma fagulha que a chaminé da locomotiva botava. E
os vagões no escuro.
Trem misterioso. Noite fora noite dentro. O chefe vinha recolher os bilhetes de cigarro na boca. Chegava a passagem bem perto da ponta acesa e dava uma chupada para fazer mais luz. Via mal-e~mal a data e ia guardando no bolso. Havia sempre uns que gritavam:
– Vá pisar no inferno!
Ele pedia perdão (ou não pedia) e continuava seu caminho. Os vagões sacolejando.
O trenzinho seguia danado para Belém porque o maquinista não tinha jantado até aquela hora. Os que não dormiam aproveitando a escuridão conversavam e até gesticulavam por força do hábito brasileiro. Ou então cantavam, assobiavam. Só as mulheres se encolhiam com medo de algum desrespeito.
Noite sem lua nem nada. Os fósforos é que alumiavam um instante as caras cansadas e a pretidão feia caía de novo. Ninguém estranhava. Era assim mesmo todos os dias. O pessoal do matadouro já estava acostumado. Parecia trem de carga o trem de Maguari.
Porém aconteceu que no dia 6 de maio viajava no penúltimo banco do lado direito do segundo vagão um cego de óculos azuis. Cego baiano das margens do Verde de Baixo. Flautista de profissão dera um concerto em Bragança. Parara em Maguari. Voltava para Belém com setenta e quatrocentos no bolso. O taioca guia dele só dava uma folga no bocejo para cuspir.
Baiano velho estava contente. Primeiro deu uma cotovelada no secretário e puxou conversa. Puxou à toa porque não veio nada. Então principiou a assobiar. Assobiou uma valsa (dessas que vão subindo, vão subindo e depois descendo, vêm descendo), uma polca, um pedaço do Trovador. Ficou quieto uns tempos. De repente deu uma cousa nele. Perguntou para o rapaz:
– O jornal não dá nada sobre a sucessão presidencial? O rapaz respondeu:
– Não sei: nós estamos no escuro.
– No escuro?
– É.
Ficou matutando calado. Claríssimo que não compreendia bem. Perguntou de novo:
– Não tem luz? Bocejo.
– Não tem. Cuspada.
Matutou mais um pouco. Perguntou de novo:
– O vagão está no escuro?
– Está.
De tanta indignação bateu com o porrete no soalho. E principiou a grita dele assim:
– Não pode ser! Estrada relaxada! Que é que faz que não acende? Não se pode viver sem luz! A
luz é necessária! A luz é o maior dom da natureza! Luz! Luz! Luz!
E a luz não foi feita. Continuou berrando:
– Luz! Luz! Luz! Só a escuridão respondia.
Baiano velho estava fulo. Urrava. Vozes perguntaram dentro da noite:
– Que é que há? Baiano velho trovejou:
– Não tem luz!
Vozes concordaram:
– Pois não tem mesmo.

Conclui a seguir.

Por Alcântara Machado

AS CINCO PANELAS DE OURO – 10 DE 12


com Pixavon. A Livraria Cosmopolita ofereceu um rico exemplar do Paraíso Perdido. E assim por diante.
Miss Paraíba do Sul foi recebida em audiência especial pelo Presidente do Estado, respondeu com  muita graça às perguntas de S. Exa. e distribuiu cigarros Petit Londrinos (ovalados) aos presos da cadeia pública. Visitou também a Câmara Municipal. Aí foi saudada por um vereador que a comparou a mimosa violeta dos nossos vergéis que não só atrai pela beleza como prende pelo seu perfume e conquista pela sua modéstia exemplar.
Foram quinze dias bem cheios. Repletos. Não houve um minuto de folga. Miss Paraíba do Sul embora delicadamente deixou transparecer que a glória era um fardo pesado demais para seus ombros frágeis. E seguiu de vagão especial para a capital do país Todas as cidades do percurso enviavam à estação o juiz de direito, o promotor, o delegado, o prefeito, o coletor federal e o sacristão da matriz que se incumbia dos foguetes. O trem apitava, as palmas estalavam com o vívório, o trem seguia. Miss Paraíba do Sul chegou ao Rio com uma dor de cabeça que não agüentava mesmo.

Começou a torcida brava. Para disfarçar, festas e mais festas. E sonetos na seção livre dos jornais. E bilhetes de apaixonados anônimos. E baile na torpedeira Paraíba do Sul. E retratos de todo o jeito nas revistas. E chás com as rivais. E tesouradas gostosas nas rivais. E entrevistas, entrevistas, entrevistas. Um repórter mais audacioso penetrou no quarto de Miss Paraíba do Sul e tirou uma fotografia muito original. Com efeito. No dia seguinte o povo carioca abrindo o jornal deu de cara com um pé de sapato enquadrado pela seguinte nota: – Enquanto Miss Paraíba do Sul  jantava  conseguimos  penetrar  no  seu  aposento  e  cometemos  a  deliciosa  maldade  de fotografar  um perfumado sapatinho que se encontrava sobre o toucador. Levamos a nossa indiscrição ao ponto de verificarmos o número; era trinta e três e meio! Para encanto dos nossos leitores publicamos um clichê do sapatinho da nova Maria Borralheira da Graça e da Beleza.
Cousas  assim  comovem. Miss Paraíba do Sul deu  ao repórter como lembrança o famoso sapatinho. Mesmo porque (observou muito bem o irmão casado) já estava imprestável com a sola até fura-não-fura. Enorme multidão teve a felicidade de vê-lo exposto na redação do jornal. Não houve um parecer discordante: era de fato um amor de sapatinho.
Enfim vieram as provas do concurso. Miss Paraíba do Sul passeou de roupa de banho para os velhos do júri apreciarem bem as formas dela e submeteu-se ao exame antropométrico no Museu  Nacional.  Sua  ficha  foi  discutida  nas  sociedades  científicas,  empolgou  a  imprensa, provocou desinteligências entre pessoas que se davam desde os bancos escolares. Tudo inútil porém. Miss Paraíba do Sul não foi considerada a mais digna de representar o Brasil no torneio de Galveston.
Chorou é verdade. Não se pode negar. Chorou. Mas isso no hotel. Em público não perdeu a linha. Era toda sorriso diante de Miss Brasil. Entrevistada declarou que a escolha do júri tinha sido  justa.  Admiradores  seus  protestaram  com  energia.  Um  grupo  de  estudantes  deitou manifesto a seu favor. Ela sorria agradecida e dizia cousas muito amáveis a respeito de Miss Brasil. Foi consagrada a Miss Pindorama, a Miss Terra de Santa Cruz, a Miss Simpatia Verde- Amarela. Todos reconheceram que a vitória moral lhe pertencia. Era um consolo.
De volta à capital do seu Estado no entanto ela resolveu mudar de atitude. Criticou duramente a decisão do júri. Miss Brasil? Uma beleza sem dúvida. Mas beleza impassível. E que vale a formosura sem a graça? Depois sem gosto algum. Cada vestido que só vendo. Todos de carregação. E era visível nos seus traços a ascendência estrangeira. O Brasil seria representado em  Galveston.  A  raça  brasileira  não.  E  por  aí  foi.  Nem  os  organizadores  do  concurso escaparam.  Amáveis  sim.  Porém  parciais.  Um  deles,  careca  barbado,  vivia  amolando  as candidatas  com  galanteios  muito  bobos.  Por  isso  mesmo  levou  um  dia  a  sua.  Uma  das concorrentes lhe perguntou: Por que não corta um pedaço da barba e gruda na cabeça para fingir de cabelo? Disse isso sim. Como não. Na cara. Como não. E perto de gente. Ora se. Ele ficou enfiado.
Corisco recebeu de luto na alma a sua Venus. O pai de Miss Paraíba do Sul sacudiu a cabeça murmurando: Que injustiça! Que injustiça! Inutilmente ela e o irmão casado falavam na vitória moral, na simpatia do povo, nos protestos da imprensa. Ela contava: Uma vez quando saía do hotel um popular me disse que eu era a eleita do coração dos brasileiros! Então, papai, que tal?
Mas o velho não se convencia. É. Muito bonito. Realmente. Mas os oitenta e quatro contos foi outra que abiscoitou. Aí é que está. Os oitenta e quatro contos foi outra que abiscoitou. Injustiça. Injustiça. O Brasil vai de mal a pior. Mas depois era preciso jurar que não, que o Brasil ia muito bem, que a vitória moral era mais que suficiente, que dinheiro não faz a felicidade de ninguém porque Miss Corisco, Miss Paraíba do Sul, Miss Pindorama, Miss Terra de Santa Cruz, Miss Simpatia Verde-Amarela começava a chorar.

GUERRA CIVIL
Em Caguaçu os revolucionários. Em São Tiago os legalistas. Entre os dois indiferente o rio Jacaré. O delegado regional de Boniteza mandara recolher as barcas e as margens só podiam mesmo estreitar relações no infinito. De dia não acontecia nada. Os inimigos caçavam jararacas esperando ataques que não vinham. Por isso esperavam sossegados. Inutilmente os urubus no vôo  lindo deles se cansavam indo e vindo de bico esfomeado. Os guerreiros gozavam de perfeita saúde.
De noite tinha o silêncio. Qualquer barulho assustava. Os soldados de guarda se preparavam para  morrer  no  seu  posto  de  honra.  Mas  era  estalo  de  árvores.  Ou  correria  de  bicho.  A madrugada se levantava sem novidades. Por isso a luta entre irmãos decorria verdadeiramente fraternal.
Porém uma manhã chegou a Boniteza a notícia de que do lado de Caguaçu qualquer coisa de muito grave se preparava. Tropas marchavam na direção do rio trazendo canhões, carros de combate, grande provisão de gases asfixiantes comprada na Argentina, aeroplanos, bombas de dinamite, granadas de mão e dinheiro, todos esses elementos de vitória. Um engenheiro russo construiria em dois tempos uma ponte sobre o Jacaré e o resto seria uma corrida fácil até a capital do país. Desta vez a cousa iria mesmo.
Boniteza  se  surpreendeu  mas  não  se  acovardou.  Com  rapidez  e  entusiasmo  começou  a preparar tudo para a defesa. Ao longo do rio se abriu uma trincheira inexpugnável. Caminhões descarregaram  tropas  em  todos  os  pontos.  As  metralhadoras  foram  ajustadas,  os  fuzis engraxados, os caixotes de munições abertos. Costureiras solícitas pregaram botões nas fardas das  praças mais relaxadas. Nas barbearias os vidros de loção estrangeira se esvaziaram na cabeça dos sargentos. Era de guerra o ar que se respirava.
A noite encontrou os combatentes a postos. Na trincheira eles velavam apoiados nos fuzis. Sentinelas foram destacadas para vigiar a margem inimiga. Entre elas o sorteado Leônidas Cacundeiro.

Era infeliz porque sofria de dor de dentes crônica, piscava sem parar e gaguejava. Foi para o seu  posto de observação, deitou-se de barriga num cobertor velho. Só o busto meio erguido, ficou olhando na frente dele de fuzil na mão. Tinha ordens severas: vulto que aparecesse era mandar tiro nele. Sem discutir.
Leônidas Cacundeiro deu de pensar. Pensava uma cousa, o ventinho frio jogava o pensamento fora, pensava outra. Tudo quieto. Ainda bem que havia luar. Do alto da ribanceira ele examinava as  águas  do Jacaré. Ou então erguia o olhar e descobria nas nuvens a cabeleira de um maestro, um cachorro sem rabo, duas velhinhas, pessoas conhecidas.
Agora  o  frio  era  o  frio  da  madrugada.  O  Doutor  Adelino  costumava  dizer:  Quando  vocês sentirem frio pensem no Pólo Norte e sentirão logo calor. Pensou no Pólo Norte. Lembranças vagas  de  uma  fita  vista há  muito  tempo.  Gelo  e gelo  e  mais  gelo.  No  meio  do  gelo  um naviozinho encalhado. Homens barbudos, jogando fumaça pela boca, encapotados e enluvados, com cachorros felpudos. Duas barracas à esquerda. E aquela branquidão. Forçou bem o olhar. Um urso pardo com duas bandeirinhas. Um urso em pé com uma bandeirinha na pata direita, outra bandeirinha na pata esquerda. Nenhuma arma.
Deu um berro: – Alto!
Ficou em posição de tiro. O soldado não podia mesmo dar um passo à frente senão caía no rio. Começou a mexer com os braços. Levantava uma bandeirinha, abaixava outra, levantava as duas.

Leônidas pensou: – Que negócio será aquele?
Foi chamar o sargento. O sargento veio, olhou muito, disse: – Que negócio será aquele? Vá chamar o tenente!
Leônidas foi chamar o tenente, veio correndo com ele. O tenente limpou os óculos com o lenço de  seda, verificou se o revólver estava armado, olhou muito, falou coçando a nuca: – Que negócio será aquele? Vá chamar o major!
Leônidas partiu em busca do major. No acampamento não estava. Foi até Boniteza. Encontrou um cabo. O cabo mandou Leônidas bater na casa da viúva Dona Birigüi ao lado do Correio. O major apareceu na janela com má vontade. Resmungou: – Já vou. Leônidas comboiou o major até o rio, o major teve uma conferência com o tenente, subiu num pé de pitanga, falou lá de cima: – Que negócio será aquele? Vá chamar o comandante!

Continua…

Por Alcântara Machado

AS CINCO PANELAS DE OURO – 9 DE 12


– Toca, seu covarde!
Não esperou o Ford parar. Saltou, tropeçou, quase caiu, entrou no cemitério de revólver na mão. Deu poucos passos, parou. Estava tonto. Olhava de um lado para outro. Pensava: Que é que eu vim fazer, meu Deus?
Com um enxadão Crispim surgiu por detrás da capela. Longe ainda. Nicolau deu com ele, correu  para  o  túmulo  do  Padre  Dito,  sem  largar  o  revólver  começou  a  desmanchar  um canteirinho. Crispim correu também gritando:
– Que é isso, Seu Nicolau? Não faça isso!
Nicolau viu Crispim já perto, pulou na frente do túmulo, apontou para o gavetão, atirou.
– Larga esse revólver, Seu Nicolau!
Nicolau enfrentou Crispim, disse com voz sumida:
– Me dá essa enxada!
– Eu dou se o senhor largar o revólver!
– Me dá essa enxada! Me dá essa enxada!
– Não se chegue, Seu Nicolau!
– Me dá essa enxada! Me dá essa enxada! Nicolau ia avançando, Crispim recuando.
– Por que que o senhor quer?
– Me dá essa enxada!
A voz sumia cada vez mais, o revólver tremia, os olhos se enchiam de lágrimas.
– Eu mato! Me dá essa enxada!
Mal podia suster o revólver, segurou com as duas mãos. Crispim recuou até o túmulo do padre. Com o enxadão erguido.
– No túmulo do Padre Dito o senhor não toca, Seu Nicolau!
– Eu te mostro!
Mas antes de apertar o gatilho, levou com o enxadão no alto da cabeça, caiu com os miolos de fora.
– Acuda! Acuda! – deu de gritar Crispim.
Foi quando  no  portão do  cemitério  pararam  vários  automóveis  e  seguida  dos dois  irmãos Tarantelli, do Tenente Messias Jesus Conrado, do Alcibíades Valentim vulgo Ali-Babá, do Bibi, do Dadau, do Zizi, do Doutor Teotônio, todos, até o Prefeito Idílio até o Doutor Salomão, até o Major  Mourão  com  o  chapéu  de  Nicolau  na  mão  (O  doido  esqueceu  a  cabeça!),  Dona Esmeralda entrou de carreira. Deu um grito, se jogou sobre o cadáver. Mas não chamava pelo marido não. Dizia só:
– Ah minha mãe, minha mãe!

MISS CORISCO
Embora alguns nacionalistas teimassem em chamá-la de senhorita o título oficial era Miss Corisco. Dez casas no bairro tomavam conta da igreja pobre que primeiro nem caixa de esmolas tinha. Depois compraram unia caixa. Mas nunca viu um tostão porque o dinheiro que havia se gastou todo com ela. Miss Corisco foi eleita pelo sistema de exclusão. A filha do Bentinho era sardenta. A irmã do João tinha um defeito nas cadeiras. Logo de saída a Conceição se impôs: foi aclamada Miss Corisco.
Aí deu uma entrevista para o O Cachoeirense. Perguntaram: Qual a maior emoção de sua vida? Respondeu: Três: minha primeira comunhão. uma fita do Rodolfo Valentino que eu vi na capital do meu querido Estado e… não conto porque é segredo. Respeitamos o segredo (escreveu o jornal) pois naturalmente encobria urna linda história de amor. Depois perguntaram: Qual o seu maior desejo? Respondeu: Sempre ver o Brasil na vanguarda de todos os empreendimentos. Resposta admirável (comentou O Cachoeirense) que revela em Miss Corisco uma patriota digna de  emparelhar  com  Clara  Camarão,  Anita  Garibaldi,  Dona  Margarida  de  Barros  e  outras heroínas  da nacionalidade. Finalmente perguntaram: O que pensa do amor? Respondeu: O amor, minha fraca opinião, é uma cousa incompreensível mas que governa o mundo. Palavras (acentuou o órgão) que encerram uma profunda filosofia muito de admirar atentos o sexo e a juventude da encantadora Miss.
Miss Corisco foi retratada em várias posições: com um cachorrinho no colo, apanhando rosas no jardim, as costas das mãos sustentando o queixo. Deu também um autógrafo. Papel cor-de-rosa de  bordas douradas, risquinhos de lápis para sair bem direitinho e as letras se equilibrando neles.  O cunhado ditou. Os representantes do O Cachoeirense se retiraram. Miss Corisco foi varrer a cozinha como era de sua obrigação todos os dias inclusive domingos e feriados e na manhã seguinte tomou a jardineira em companhia do irmão casado para comparecer na cidade perante o júri estadual.
O Cine-Teatro Esmeralda estourava de tão cheio. No palco atrás do júri a Corporação Musical C. Gomes-G. Puccini tocava dobrados. De minuto em minuto a assistência entusiasmada erguia vivas ao Brasil e à raça. As candidatas desfilaram vestidas com apurado gosto. Os juizes eram cinco: um  brasileiro, dois italianos, um filho de italiano e um português. Predominava neles o espírito  nacionalista.  Queriam  escolher  um  tipo  bem  brasileiro.  O  Doutor  Noé  Cavalheiro desenhou em dois traços incisivos o tipo-padrão: boca grande e olhos ternos. Miss Corisco foi eleita Miss Paraíba do Sul por quatro votos.
Ouviu então o primeiro discurso que foi proferido com emoção que lhe embargava a voz e lenço de  seda  na  mão,  pelo  Doutor  Noé  Cavalheiro,  segundo  promotor  público.  Principiou  este fazendo  o elogio da beleza notadamente da beleza feminina. Falou do culto que na antiga Grécia se votava à formosura física. Acentuou depois a desvantagem de uma mens sana desde que não seja  num corpore sano. Disse que a beleza da mulher se tem provocado guerras e catástrofes tem também mais de uma vez contribuído para o progresso geral dos povos, citando vários exemplos  históricos. Prosseguiu afirmando que o Brasil deveu muito do amor que lhe dedicou Dom Pedro I à influência benéfica da Marquesa de Santos. Referiu-se à competência do júri, à sua isenção de ânimo e confessou que a única nota dissonante tinha sido ele orador, o que provocou os protestos  unânimes da assistência. Perorando entoou um hino inflamado à peregrina formosura de Miss Corisco. Disse então: Unindo à beleza clássica da Vênus de Milo a sedução estonteante da lendária rainha de Nínive, Miss Paraíba do Sul, maior do que Beatriz e mais feliz do que Natércia, conquistou o coração de toda uma região! A Pátria não é somente, como soem pensar certos espíritos imbuídos de materialismo, a lei que garante a propriedade privada! A Pátria é mais  alguma cousa de sublime e divino! A Pátria é a estrela que nos contempla do céu e a mulher que nos santifica o lar! A Pátria sois vós, Miss Paraiba do Sul, são os vossos olhos onde se espelham todas as forças viris da nacionalidade! Para nós, patriotas conscientes e eternos enamorados da Beleza, Miss Paraiba do Sul é neste momento o Brasil! (Aplausos prolongados. O orador é vivamente cumprimentado. Vozes sinceras gritam: Bis! Bis!)
Um a um os membros do júri beijaram as mãozitas róseas e espirituais de Miss Paraíba do Sul enquanto  a  Corporação  Musical  C.  Gomes-G.  Puccini,  sob  a  regência  do  Maestro  Pietro Zaccagna, atacava vigorosamente a imortal protofonia do Guarani.
Muito vermelha  e  batendo  com  ar  ingênuo  as  pálpebras  aveludadas  Miss  Paraíba  do  Sul concedeu  então  as  primeiras  entrevistas.  Externou  sua  opinião  sobre  a  futura  sucessão presidencial, a cultura da laranja, a questão religiosa no México, Mussolini, Padre Cícero, a estabilização  cambial,  Victor  Hugo,  Coelho  Neto,  os  perfumes  nacionais,  a  sentença  que absolveu Febrônio, o diabo. No Grande Hotel Mundial era uma romaria de manhã à noite. Muito afável Miss Paraíba do Sul recebia toda a gente com um encantador sorriso brincando nos lábios purpurinos. O camareiro do apartamento chegou a declarar quando entrevistado por um jornalista: É de uma amabilidade extraordinária. Recebe todos. Quem bate no quarto entra. Mas o irmão pelo sim pelo não caiu de bofetadas em cima do camareiro. O caso foi parar na policia onde o prestígio de Miss Paraíba do Sul conseguiu arranjar tudo do melhor modo possível.
Puseram à sua disposição um automóvel fechado, uma máquina de escrever portátil e um binóculo de corridas. Todos os dias choviam os presentes. O futuro arquiteto Barros Jandaia pôs gratuitamente seus serviços profissionais às ordens de Miss Paraíba do Sul. O cabeleireiro não lhe quis cobrar nada e ainda por cima lhe deu vinte vales dando direito a outras tantas lavagens
Continua…

Por Alcântara Machado