O IGARAPÉ DO INFERNO – 18 DE 18 – FINAL


Manuel Bastos, entretanto, piorou e entrou em coma. Um dos seus últimos momentos lúcidos foi perguntar por seu gravador. Ele queria dizer algo, como que fazer um depoimento. Mas logo nada conseguiu falar e desfaleceu, sendo levado para o hospital.

Depois de sua morte não mais se ouviu falar dos depoimentos chamados por ele de “O igarapé do inferno”.
Aquelas páginas datilografadas ficaram esquecidas na gaveta de uma cômoda até que ser comprada pelo autor dessas linhas em 1972.
Na realidade, abandonei o incômodo móvel numa casa alugada na rua Prof. Eurico Rabelo, perto do rio Maracanã, que não existe mais.
Os textos permanecem comigo, até hoje.
Com Manuel Bastos morreu o último remanescente daquela época.
O Palácio Manixi desapareceu na floresta completamente. Hoje é difícil localizá-lo. As ruínas daquela construção talvez ainda estejam lá.

O relato de Benito Botelho, que o viu pela última vez, diz:
“Súbito, na margem do rio, apareceu uma mulher vestida de verde que dançava na parte elevada do terreno e com o braço erguido sustentava um vaso de onde partia uma seringueira já crescida. O tronco da árvore passava por trás da estátua de mármore agora verde que D. Ifigênia Vellarde tinha trazido da Europa no fim do Século passado.

ATRÁS daquela mulher congelada estava – magnífico, supremo, inominável, majestoso – o Palácio Manixi!
TINHAM chegado ao Manixi. O choque era alucinante e belo.
Das janelas abertas saíam grossos e longos galhos de árvores frondosas, nascidas por dentro, e assim parecia que o Palácio tinha criado asas e ia começar a voar.
O Palácio se cobrira de uma pátina de beleza extraordinária, de uma vitalidade monumental – estava ali, vivo, lavado, enlouquecido marco de seu tempo.

Era um santuário, dominava o ambiente, um templo antigo, perdido no meio da floresta, de uma outra era. Toda a luz ao redor irradiava dele, de uma civilização de um outro século, de um outro mundo desconhecido, limite vivo do luxo e do esplendor da borracha do fim do Império.

A floresta avançava contra ele, construindo um estranho cerco sobre a moldura e irisação de sua arquitetura antiga coberta de cipós e de galhos de uma folhagem abundante que vinham de dentro dos salões requintados e criavam a aura de um extasiante espetáculo.

 A lancha aportou e Benito desceu e se aproximou da escadaria de mármore. Uma cascavel se recolheu por baixo das pedras soltas da guarnição.
Ali estava todo o passado da Amazônia, sobre os degraus cobertos de folhas secas, sobre o fino e florido gradeado de ferro carcomido e enferrujado.

A porta estava aberta. Do pórtico, Benito viu, no meio do amplo salão, sobre o chão de tábuas corridas cobertas de plantas e a ruir, intacto, nobre, faústico, o reduzido piano de cauda Pleyel de Pierre Bataillon. Era a única peça do aposento, o único móvel que ficara e ali estava, abandonado, fechado, reprimido, sufocado, em silêncio, como após um concerto, quando se apagam as luzes e o teatro fica vazio e despovoado.

MAS todos os suntuosos fantasmas exsurgiam dali. Toda a História desfiava o seu curso. O tempo ali se congelava, inerme, no meio dos amplos salões, desaparecendo ao longo daqueles mesmos corredores, escorrendo ao longo das paredes pesadas de estuque, lúgubres, de uma decoração barroca. Eram seres invisíveis que despontavam, uma vez mais, arrastando longos e pesados vestidos de veludo verde, envergando reluzentes casacas, esquálidos, saídos daquele sepulcro do luxo daquele tempo, através daqueles amplos espaços povoados de símbolos, dentro daquela enorme construção de um outro mundo, do fim de um mundo de onde todos tinham fugido, povoado de demônios, culpados, expiando suas culpas mortas.

E à noite desfilavam, ao longo daqueles corredores, através da seriação de janelas e portas, refletindo suas sucessivas silhuetas nos espelhos apagados, misturando-se com figuras pintadas nas paredes, e famintos, gélidos, sem ousar sair ao jardim abandonado, aquém do porto as ornadas figuras de fino e feroz olhar que não permitiam a ninguém penetrar naquele santuário do desperdício da riqueza antiga e condenada, ninguém pudesse subir aquela escadaria e atravessar aquelas salas além daqueles mármores trazidos há incontáveis anos para ladear-se com o cinzento e o estilizado. Era como se dissessem: “Desaparecei!”. Ou como se ameaçassem: “Afastai-vos!”.

E à noite a figura do antigo e descamado dono poderia ser vista, através das janelas, como se o iluminasse uma catedral, mostrando-lhe a face horrível e desesperada, os olhos mergulhados no escuro, à procura de algo, à procura do tempo, à procura de si – e passando sem que ninguém o visse na sua infinita miséria. “E todo o esplendor daquele luxo antigo era uma torturação sinistramente mergulhada na destruição de um império ali por fim silenciado”.

Por Rogel Samuel

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O IGARAPÉ DO INFERNO – 17 DE 18


– Sim, vida, vida. Fecundada vida! Erotizada vida! Mas vida é o que peço nesses meus últimos momentos. Pois foi a vida, da vida, ela que me fez viver durante tanto tempo neste meu corpo hoje tão perto da morte. O quê? Sim sim, mas ainda posso viver muitos anos… Muito mais do que você, menino! Ainda sinto, ainda sinto. Mas sinto. Se aperto doem. Isto tudo vai acabar comigo, um dia desses, vai. O novo remédio está atuando. Mas não se assuste menino, ainda estou vivo e continuo contando e terminando, ah, ah, ah, não. A vida é minha, a noite é minha, com as estrelas. Passo as noites fora, sabe, depois que você dorme, eu saio. Ninguém me controla. Não! Eu quero e mereço. São talvez nas últimas noites de minha vida, talvez, mas as quero, as mereço, eu as quero e mereço. Gosto de andar, sobretudo de noite. Nas ruas escuras e desertas.
Eu estou morrendo e vem você perguntar se não tenho medo de ser assaltado!
Conto é continuo. Conto. Como no meu Amazonas. Como naquele dia do ataque dos Numas à aldeia Caxinauá. Mas tenho de atar as peias para poder explicar umas coisas fundamentais. Estou confuso. Sim, sim…
“Querida mamãe:
“Um fato extraordinário aconteceu: meu patrão, aquele velho que eu disse para a senhora que estava para morrer, de repente melhorou com um novo remédio e já sai de casa sozinha e à noite, sem que ninguém saiba para onde ele vai.
Dizem até que ele vai visitar uma casa de mulheres, que está aqui perto, ou que ele voltou a beber nos bares que ficam abertos por aqui.
Ele é muito corajoso, pois a Lapa é muito perigosa durante a noite e ele tem chegado por volta de 3 horas da manhã, e aí passa quase todo o dia dormindo.
Mas ele me disse que vai continuar a me contar aquela estória que eu estou gravando para ele, chamada “O igarapé do inferno.
Eu fico preocupado, pois se ele parar de gravar eu fico sem ter o que fazer no apartamento, e posso perder o emprego.
Ninguém sabe o que ele vai fazer se continuar a melhorar com o novo remédio que está tomando.
Espero que a senhora esteja bem, junto com todos.
João Manuel”.

Conclui a seguir…

Por Rogel Samuel

O IGARAPÉ DO INFERNO – 16 DE 18


Durante anos não choveu. Oh, oh, tá espantado? Susto? Oh, oh, oh, esta é uma garrucha antiga, não funciona mais. Peça de museu. Como eu. Já vivi demais. Estou morrendo, ah, ah, ah. Muito aprendi com a lição da vida. Não tenho a quem deixar esta lição senão a você, a este gravador. Falo com as paredes, falo com um gravador? Você é um gravador, menino?

Ah, ah, vê lá, muda a fita, ótimo, ótimo, você é perfeito, vou contratar você como meu ouvinte exclusivo, com bom salário… O quê? Se sou rico? Já fui, menino. Já fui muito rico. Como vê este apartamento velho não é de ouro. Você é ingênuo, meu menino, ingênuo e bobo. Vou te ensinar, bem que vou, vou te dizer umas coisas, sabe? Você vai ficar logo esperto, você não sabe com quem está falando, você vai ver. Tá com medo? Ah, ah, ah, mas que, sou apenas um velho, você é o neto que não tive. Viu como o chofer te tratou? Era o vovô com seu neto, todo mundo viu, tá? Ah. Ah.
Deixa eu te contar, deixa. Sim e sim. Aquela casa era cercada de chão de tabatinga. Tinha duas entradas: uma que dava para o igarapé, e era aquilo de se ver, bonita, imponente. A outra dava para a mata. Não havia nada plantado ali. Porque naquela terra não se pode plantar nada, sabe? As saúvas vêm tirando logo. Aquelas saúvas matavam tudo.

Não. É impossível acabar de todo com as saúvas da Amazônia. Só bomba atômica. Você destrói um formigueiro aqui e ali e ao redor todos. Mas certa noite você ouve um crepitar de fogo: são elas, as filhasdaputa!, vorazes, saúvas em correição, vindas de qualquer lugar e já destruíram tudo, tudo tudo, todo o trabalho de um mês um ano, toda a comida que você esperava comer e todo o dinheiro que você esperava receber depois de trabalho. Uma merda! Ali você tem de virar índio. Que povo, aqueles índios!Eu, meu filho, já estou cansado e morro feliz, passei todos aqueles anos lutando, o povo que se trate de defender, é melhor, quebrei a cabeça durante todos esses anos todos – sabe? Político?! Fui deputado! – mas sim, sim, vamos à nossa estória que você está aqui para isso, e eu tirei você de seus cuidados, oh, que lá sua vida era melhor do que viver aqui nessa sala escura, cheirando a mofo e morte, onde vivo.
Pois foi assim mesmo que o digo, eu, o narrador.
Vou mais, sigo. Por muito tempo ainda tenho o que contar. A peripécia mal começou. Fique sossegado. Pois o melhor ainda está por vir.

CONTINUA…

Por Rogel Samuel

O IGARAPÉ DO INFERNO – 15 DE 18


– A Curva do Tucumã era ali, disse ele.
Todos olharam em silêncio respeitoso.
– Além daquela ponta era o território numa. Porque até hoje, passados tantos anos, ninguém foi lá, conferir?
– O tapiri de Ribamar era por aqui. Tudo pegou fogo, naquela noite.
– E onde ele viu aquelas meninas numas?
– Ali mesmo, respondeu. Os numas vinham do rio Pique Yaco, do Toro. Era muitos, centenas, mas nunca foram vistos. Ficaram invisíveis, na floresta. Eles vinham na vazante. Era possível saber que estavam ali porque a caça desaparecia. Eles comiam tudo, o porco, o mutum, a anta. Caçavam com flecha de cana brava, com arco de palmeira. Os paus d’arcos eram a pupunha, a bacaba, o patauá, o paracoúba, itaúba. Na caça, as flechas eram pequenas e não tinham veneno.
– Eles não mataram Ribamar porque não quiseram…
– Por que não mataram Ribamar?
– Não sei.
– Talvez as meninas estivessem apaixonadas por ele.
– Talvez.
– Naquela noite morreram todos, o tio e o irmão.
– Mas não ele! Mas não ele!
– Sim, disse o outro. Ele pulou n’água e desapareceu. Foi levado pela correnteza e acabou chegando ao Manixi.
– De noite.
– Sim, de noite.
– Cara de sorte.
– Ele sempre teve sorte na vida.
– Vamos fotografar.
– Sim, vamos.
– Cuidado com este galho. Está cheio de aranhas.
– Daqui ele foi levado até ao Manixi, onde passou a ser empregado do palácio.
– Pierre Bataillon o tinha sempre perto de si.
– Ele foi protegido da Ifigênia Vellarde, mulher de Bataillon.
– Temos uma foto de Pierre?
– Acho que não. Não sobrou nada do palácio.
– Dizem que era baixinho e magro. Mas muito arrogante.
– Aqui está: “Bataillon homem magro, baixo. Bem vestido. Empertigado. Gestos largos, modos aprumados. Nervosos. Dignidade, cortesia, à moda antiga. Nariz aquilino. Cabelos finos. Bigodinho. Negro. A cabeça levantada, nobre. Aura. A gravata borboleta, o paletó de linho branco, abas, calças largas, sapatos verniz. Parece suportar, nas costas retas, barbatanas retiformes de manequim retígrado. Olha. O gesto, o olhar. Com que, altaneiro, superior, soberbo, se dirige aos demais. Soberano, concessão real. Atrapalha. Representa. Apesar da estatura baixa, como se olhasse de cima. De patamar superior. Polidez, dignidade”.
– Um dia apareceu num antiquário um relógio de ouro John Bull com o nome dele inscrito.
– E um revólver de prata, um revólver Smith, cabo de marfim.
– Dizem que ele atirava bem.
– Tinha uma coleção de armas.
– Vamos voltar, vai chover.
– Sim vamos.

CONTINUA…

Por Rogel Samuel

O IGARAPÉ DO INFERNO – 14 DE 18


– A Curva do Tucumã era ali, disse ele.
Todos olharam em silêncio respeitoso.
– Além daquela ponta era o território numa. Porque até hoje, passados tantos anos, ninguém foi lá, conferir?
– O tapiri de Ribamar era por aqui. Tudo pegou fogo, naquela noite.
– E onde ele viu aquelas meninas numas?
– Ali mesmo, respondeu. Os numas vinham do rio Pique Yaco, do Toro. Era muitos, centenas, mas nunca foram vistos. Ficaram invisíveis, na floresta. Eles vinham na vazante. Era possível saber que estavam ali porque a caça desaparecia. Eles comiam tudo, o porco, o mutum, a anta. Caçavam com flecha de cana brava, com arco de palmeira. Os paus d’arcos eram a pupunha, a bacaba, o patauá, o paracoúba, itaúba. Na caça, as flechas eram pequenas e não tinham veneno.
– Eles não mataram Ribamar porque não quiseram…
– Por que não mataram Ribamar?
– Não sei.
– Talvez as meninas estivessem apaixonadas por ele.
– Talvez.
– Naquela noite morreram todos, o tio e o irmão.
– Mas não ele! Mas não ele!
– Sim, disse o outro. Ele pulou n’água e desapareceu. Foi levado pela correnteza e acabou chegando no Manixi.
– De noite.
– Sim, de noite.
– Cara de sorte.
– Ele sempre teve sorte na vida.
– Vamos fotografar.
– Sim, vamos.
– Cuidado com este galho. Está cheio de aranhas.
– Daqui ele foi levado até ao Manixi, onde passou a ser empregado do palácio.
– Pierre Bataillon o tinha sempre perto de si.
– Ele foi protegido da Ifigênia Vellarde, mulher de Bataillon.
– Temos uma foto de Pierre?
– Acho que não. Não sobrou nada do palácio.
– Dizem que era baixinho e magro. Mas muito arrogante.
– Aqui está: “Bataillon homem magro, baixo. Bem vestido. Empertigado. Gestos largos, modos aprumados. Nervosos. Dignidade, cortesia, à moda antiga. Nariz aquilino. Cabelos finos. Bigodinho. Negro. A cabeça levantada, nobre. Aura. A gravata borboleta, o paletó de linho branco, abas, calças largas, sapatos verniz. Parece suportar, nas costas retas, barbatanas retiformes de manequim retígrado. Olha. O gesto, o olhar. Com que, altaneiro, superior, soberbo, se dirige aos demais. Soberano, concessão real. Atrapalha. Representa. Apesar da estatura baixa, como se olhasse de cima. De patamar superior. Polidez, dignidade.”
– Um dia apareceu num antiquário um relógio de ouro John Bull com o nome dele inscrito.
– E um revólver de prata, um revólver Smith, cabo de marfim.
– Dizem que ele atirava bem.
– Tinha uma coleção de armas.
– Vamos voltar, vai chover.
– Sim vamos.

CONTINUA…

Por Rogel Samuel

O IGARAPÉ DO INFERNO – 13 DE 18


Noite escura. Chuva. João tirou da gaveta o lápis e o caderno e começou a escrever. Molhou primeiro a ponta do lápis com saliva. “Querida mamãe, daqui espero que a senhora esteja bem, junto com a maninha e todos aí. Eu estou trabalho agora, na casa de um senhor muito idoso, muito doente, chamado Manuel. Meu patrão é meio louco, mas é um bom patrão. Ele diz que vai morrer logo, os médicos dizem que ele tá pra morrer e ele não vai durar muito.”
Pela janela, João via cair a chuva, pesadamente. Ouvia a chuva. A luz do quarto oscilava. João sentiu-se perseguido e sozinho. E continuou a escreveu:
“Querida mamãe (outra lambida na ponta do lápis), meu patrão tem câncer, como a vovó Lucília, e sente muitas dores. Quando ele tá com muita dor, ele aplica uma injeção nele, e às vezes ele dorme, e ele desmaia. Ele diz que é injeção de cocaína, ou morfina, ou heroína, eu não sei. Ele diz que se sente bem depois da injeção. Quando ele não tem aquela injeção em casa ele fica muito nervoso, grita comigo, telefona para o amigo dele aos gritos para conseguir aquela injeção. Quando começa a doer o fígado, ele grita grita e toma a injeção. Ele mesmo aplica. Ele diz que vai morrer tomando aquilo.”
Relâmpago forte. João olhou para a página onde escrevia. Debaixo dela havia uma revista pornográfica, já velha. João tinha comprado aquela revista num sebo, na esquina. Continuou:
“Sabe, mãe, quando ele tá melhor eu tenho de gravar para ele uma estória maluca passada aí no Amazonas chamada o igarapé do inferno. Ele tem um gravador e eu gravo gravo numas fitas K7 numeradas. Vai até a madrugada. De manhã vem a Lurdinha aqui para datilografar. A senhora nem sabe como ela faz rápido. A Lurdinha fica trabalhando num quarto separado o dia todo. Mas só quando tem fita nova. E ela datilografa e entrega os papéis para o Sr. Manuel, que é o nome do meu patrão. Depois ela vai embora. Foi ela quem copiou e corrigiu está carta que estou escrevendo pra senhora, pois ela é especialista. Eu tenho poucas letras, mas aqui continuei estudando no Mabe, de noite. Mas agora tive de parar porque o meu patrão não pode ficar sozinho e as aulas eram à noite.
Espero que a senhora receba esta carta com saúde e paz,
Um beijo, João Manuel”

CONTINUA…

Por Rogel Samuel

O IGARAPÉ DO INFERNO – 12 DE 18


– Você está dormindo, seu viadinho de merda! Não? Não está?
Pois digo: Pierre Bataillon avançou naquela parte mais íntima, mais esotérica da floresta, igarapé acima.
Ele costeava os limites imprecisos da morte. Da sua morte!
Entre a tropa de guerra e a floresta dos Numas se estabelecia uma reciprocidade tática de respeito e de raivas.
É o que digo, Pierre deixava presentes, miçangas, facas e frutas, em bandejas de madeira.
Os Numas nunca tocavam naquilo.
Entre o Seringal e os Numas não havia comunicação.
O quê? Sim, sim, o Seringal, à espera.
Os Numas, na observação, invisíveis, os putos.
Pierre evitava a guerra, buscava solução política, economizava-se, agia conforme a natureza de seus princípios, sem o risco de pagar pelo preço elevado da morte.
Você sabe o que é a morte? A morte? A morte é isto, o que eu hoje sou… olhe pra mim… olhe pra mim!… nos meus olhos você a vê… nos meus olhos você vê o espelho da morte, à medida que morro estou e sou a própria morte!
Não, não se assuste. Apenas ouça.
Pierre era aquele homem magro, baixinho, tinha 1,50m de altura, elegante no cotidiano, no dia a dia, já saía do quarto todo vestido, arrumado, empertigado, ereto, a cabeça levantada, bigode à Vercingetórix, como o de Nietzsche, com quem se parecia, altivo, mas sem ridículo, ele era neto do Duque de Cellis, uma das linhagens mais nobres de Espanha, família de reis, que vinha da antiga Roma, passava pelos reis de Espanha, inteligente, culto, falante em vários idiomas, sempre ao lado de sua silenciosa mulher, D. Ifigênia Vellarde, peruana de Resvalladero, católica, filha bastarda de índia quíchua com o primo do nobre boliviano D. Angel Vellarde – derrotado em 1902 por Plácido de Castro, na Batalha de Santa Rosa – ela não gostava do luxo, era doceira, bordadeira exímia de vestidos de seda rosa cálido, tinha dois grandes diamantes como grossas lágrimas caindo dos lóbulos das orelhas, quais espantosos sóis, e sua ascendência foi usada pelo marido em alianças e pactos durante a Guerra do Acre, quando ele fez o hábil jogo da duplicidade, com brasileiros e bolivianos, ficando em paz com os dois lados, dos dois tirando proveito, principalmente valendo-se do fato de estar protegido da guerra por uma impenetrável massa de 400 km de floresta, de pântanos e de flores, sim, era impossível conceber como sobrevivia aquele fidalgo, engastado na floresta, cercado de luxo, de livros, de violinos, de quadros e de móveis…
– “Assim é o látex”, dizia ele – “elástico como o caráter”. E sai daquelas árvores como coisa fundamental, gomosa, líquido viscoso sob a casca do corpo, o pus, o plasma aquoso branco, a goma, a seiva selvagem do muco que faz sangrar a floresta pegajosamente, o pus, a terra e o esperma…
– “É assim a seringa… o sangue da Amazônia que colhemos como um estranho mal e que um dia teremos de pagar, muito caro”.
Sim, sim, Pierre se mantinha moralmente firme, naquele tempo, quando se sitiava o Seringal num cerco, num campo de concentração durante o cerco da dominação Numa.

CONTINUA…

Por Rogel Samuel