ILHA GRANDE – 2 DE 2 – FINAL


Passamos ainda alguns dias com o QG montado na Vila de Abraão, este povoado simpático, com PMs nem tão gentis assim. De lá é possível fazer várias caminhadas e conhecer lugares ótimos, como as praias da Enseada do Abraão, Enseada de Palmas e a maravilhosa Praia de Lopes Mendes, esta já voltada para o oceano, e point para surfistas e gatinhas. Partindo para a outra direção, pode-se ir para a Enseada da Estrela, passando pela Cachoeira da Feiticeira e chegando ao Saco do Céu. Este roteiro fica mais virado para o continente, e seguindo em frente se encontra ainda muitos lugares lindos, com boa estrutura para receber o turista e tudo o mais. Porém não era este o foco de nossa viagem, e sim o lado mais “selvagem” da Ilha.

Após terminar este rolê, e já tendo andado bastante, partimos para o que tanto esperávamos, o outro lado da Ilha. Caminhar costeando a Ilha é uma tarefa no mínimo ingrata, e de acordo com todos os moradores com quem conversamos, impossível. A trilha que existia antigamente não existe mais, e mesmo assim ela só iria até uma praia próxima a de Antônio Lopes, chamada Santo Antônio. Depois disso, a costa virava um emaranhado de pedras e mata atlântica. simplesmente impenetrável de forma ecológicamente correta. Para visitar estas praias a melhor maneira é desembolsar uma graninha e ir de barco. Para dizer a verdade, o acesso à maioria das praias é feito por trilhas montanhosas pelo interior da Ilha, pois as praias são divididas por esses perigosos rochedos. Bem diferente, por exemplo, do sul da Bahia, aonde é possível caminhar por dias sem tirar o pé da areia. O grande lance é que essa característica do litoral fluminense, torna a caminhada mais cansativa, cheia de sobes e desces, mas nem por isso deixa-a menos bonita! É aliás uma oportunidade maravilhosa de adentrar a mata atlântica, tão mirrada hoje em dia, e ter uma idéia do paraíso que este país era antes da devastação! Posso resumir tudo em uma única palavra; Maravilhoso! Mas ainda assim não é o suficiente…

 Andar pelo interior. Em um só dia fizemos uma caminhada de 16 Km, com todos os nossos equipamentos nas costas, para atravessar o interior da ilha até a praia de Dois Rios e depois até Parnaióca. A caminhada é cansativa e maravilhosa. Ouve-se o canto de vários pássaros, avista-se matas lindas, passa-se por cachoeiras e bicas d´água, sobe-se e desce morros intermináveis e chega-se à praia de Dois Irmãos. esta praia tem o Campus avançado da UERJ (sorte dos pesquisadores…), e é proibido acampar. Deste modo, nadamos um pouco, descansamos, almoçamos e partimos para Parnaióca. Esta parte da trilha é menos acidentada, mas a mata é bem fechada. Quando se chega a Parnaióca, descobre-se que o desafio vale a pena! A partir daí o negócio é descansar. Dá vontade de ficar lá para sempre…

Descobrimos que os nativos todos da região iriam para lá para uma festa da igrejinha local. Apesar de adorarmos festinhas, esta não estava nos nossos planos e estávamos a fim mesmo é de paz. Catamos nossas coisas e nos mandamos para a Praia de Aventureiro. Para chegar lá passamos ainda por um local intocado e apaixonante, as Praias do Leste e do Sul. Por fazerem parte de uma reserva ambiental é expressamente proibido acampar nesta região, que é vigiada por barcos e helicópteros. Para a travessia das Praias sugerimos levar uma boa quantidade de água, pois é muito mais longo do que parece, e a única fonte de água doce é um mangue depois de horas de caminhada. Aliás este mangue é a única passagem para a praia do outro lado, que também é enorme. Ao fim das duas cansativas praias de areia fofa e mar violento, chega-se a Aventureiro. Local realmente agradável, com área de camping e restaurante para recuperarmos as energias. Nosso rolê ainda não terminava por aí e para encurtar a história, depois de alguns dias pegamos um barco para Araçatiba, de onde iríamos pegar a barca de volta para Angra. A Ilha é linda e seu nome não mente, ela é realmente grande. Por isso temos desculpa para voltar e conhecer o que ainda não vimos. Adoro estas desculpas…

Por Parlos Ranna

ILHA GRANDE – 1 DE 2


Férias na faculdade. E melhor ainda, fora da alta temporada!

Partimos de BH eu, Carlos, que vocês já conhecem de outros Blues do Viajante, e meu querido camarada Geléia. Nosso destino era nada mais nada menos do que a linda e maravilhosa Ilha Grande, no Estado do Rio. Preparamos nossas mochilas com todo cuidado e esmero possível, pois tínhamos uma meta audaciosa; andar 80 Km em dez dias no terreno acidentado da ilha, fazendo desta forma boa parte do litoral voltado para o oceano, e mais uma considerável parte do litoral virado para o continente.

Para começar pegamos um ônibus para Angra dos Reis. Nosso ônibus chegaria na cidade de Angra aproximadamente às 6h30 da manhã, e para deixar tudo mais gostoso, foi assim que encontramos nosso primeiro obstáculo a ser superado: A barca de Angra para a Ilha só saía às 15hs. Isso significava que perderíamos o dia inteiro na cidade, quando planejávamos chegar cedo em Ilha Grande e já sair caminhando. A solução era se mandar de Angra para Mangaratiba, de onde sairia uma outra barca, esta, às 8hs da matina. Tínhamos portanto pouquíssimo tempo para chegar lá, e o ônibus não ia direto. Tivemos que parar em outra cidadezinha e de lá pegar um terceiro ônibus para Mangaratiba. Fomos uns dos últimos a comprar as passagens e entramos correndo na barca para não perder a viagem.

Graças a Deus tudo corria bem, como planejado. Íamos sorridentes olhando o continente se afastar, já pensando nos dias maravilhosos que teríamos pela frente. Ao chegar na Ilha porém, me ocorreu algo que me deixou muito assustado e injuriado. Em minha opinião pessoal o ocorrido foi uma afronta aos meus direitos pessoais, e uma total falta de respeito ao turista que chega na Ilha. Me explico no próximo parágrafo, e peço total atenção a ele, pois esta dica pode salvar as férias de muita gente!

Quando a barca aporta na Ilha e os passageiros descem, somos recepcionados por um bando de moradores, turistas e policiais à paisana. Os caras não perdem tempo, e ao ver um cabeludo como eu, pedem-nos para acompanhar-lhes à delegacia. No caminho começam um papo intimidador, do tipo:

– Ô malandro, o negó é o seguin, tamu procurandu por tóxicus. Tú tem aí contigu? – Tenhu não sinhô. – Ó! Nóis vai procurar! Se tivé é milhó falá agora! Se a gente achar tú tá ferrado mermão! Sem medo nenhum retuquei: – Tenho nada não cara! Tô te falando, só vim passar uns dias aqui, fazer um ecoturismo, um trekking. – Intão nóix vão vê!

Daí então, fui levado para um quartinho sinistro, e começaram a revistar meus bolsos, não acharam nada. me mandaram abrir a mochila e tirar tudo que eu tinha dentro. Ao que eu disse:

– Pôxa, minha mala está preparada para dez dias de caminhada! Os pesos estão divididos cuidadosamente, as roupas estão dentro de sacos plástico, vai dar um trabalho tremendo, gente. – Tem probrema não! Tira tudo daí!

 Revista minuciosa

Vocês não acreditam que busca minuciosa! Dificilmente alguém sair de lá sem ser incriminado caso esteja carregado. Tiraram tudo de dentro da minha mochila, abriram todos os sacos plásticos, olharam os bolsos de todas as roupas, procuraram por espaços entre as alças da mochila, e eu lá tranquilo da vida, rindo pra eles. Quanto mais eu sorria e puxava conversa sobre a ilha, mais eles procuravam! Até que desistiram. Perguntaram como é possível um cara com cara de malandro como eu não ter nada. Um deles, o que me escolheu na saída da barca quis recomeçar a busca. Sorte que o mais velho lá se mostrou um pouquinho, mas pouquinho mesmo, mais sensato e me liberou para que eu arrumasse a mala e saísse de lá. Arrumei rapidinho e saí vazado, torcendo para nunca mais ver aqueles manés. Foi ainda um trabalho extra achar meu amigo, que acabou escolhendo um camping qualquer e saiu à minha busca. Mas depois de encontrado, susto superado. AGORA COMEÇAM AS FÉRIAS!

CONTINUA…

Por Parlos Ranna

MÃE NATUREZA, NA CHUVA ENCONTREI TEU FILHO AMADO


Elevo meu pensamento o mais alto que posso alcançar… Crio Asas…
Sopro no vento a minha saudação… Suave beijo entrego à natureza; ao abrir de meus braços ecoa o cantar silencioso de meu coração.
Crio Asas, posso voar, mas prefiro contemplar do chão toda a grandeza do céu. São tantas nuvens, iluminadas pelo sol, parecem banhadas de ouro, solidas… Obra prima da perfeição.
Crio Asas, mas não quero voar, Não posso tão longe de sua alma ficar… Todas estas maravilhas, Mares, Rios, flores, borboletas, pássaros… Enfim a vida nesta esfera é o amor que refletia em teu doce olhar. Doce pequeno Príncipe da paz, Soberano do Rio sem fim.
As árvores sussurram sobre ti…“os olhos que contemplou a beleza, não sentem prazer na tristeza”Abraço a mãe natureza, e sinto seu amor, e ela se mostra linda mulher idosa, que mal pode caminhar, cabelos brancos como a neve, brilhantes feito a prata polida, rugas profundas, olhos azuis como os mares, cansados, mas transbordantes de amor.
Suas vestes trás a marca de cada povo, e seu sorriso é inocente como o sorrir de uma criança feliz.

-Filha, Porque tanta tristeza?

Sua voz era terna, tocou-me, era como se todos os pássaros cantassem sendo orquestrados pelo divino amor, fazendo o mundo inteiro ser coberto por compaixão.

– Não tinha a quem recorrer amada mãe, eis que corri a seu encontro…
Sorrindo a velhinha me estendeu a mão…

-Filha, vamos nos sentar embaixo de uma árvore…

Caminhei com Gaia em direção da arvore mais próxima, não pude deixar de reparar em seu perfume, era suave, e então, eu senti em meu ser o viço de todas as Flores.
Me sentei na grama, à sombra era fresca e convidativa, encantei-me ao ver as raízes da arvore furando o solo; entrelaçavam-se em um balé surreal, e assim formaram uma poltrona confortável Para que a amada mãe pudesse sentar-se.

Ela cruzou suas trêmulas mãos uma sobre a outra se inclinou em minha direção, olhou-me profundamente nos olhos, como quem espera a conclusão de uma historia.
Hesitei, por um momento pensei, Gaia sabe por que busquei seu espírito, ela podia com sua própria boca falar, mas ela queria ouvir o que eu tinha a dizer. Suspirei e então com contida emoção me dirigi a ela…

– Meu coração está aflito, pois queria ter noticias de um ser querido, mas ele está inacessível, não consigo achá-lo em parte alguma, ninguém sabe me dizer de seu paradeiro. E ele era tão intimo teu, um de teus melhores filhos.

Baixei minha cabeça, pois minhas falas pareciam absurdas, eu estava com a mãe Terra, Deveria ela ter assuntos mais importantes do que se preocupar com meus devaneios.
Depois de alguns minutos de silencio… Sua voz cristalina fez-me erguer a cabeça.

– Os pais às vezes chegam à idade avançada e necessitam ser carregado por seus filhos, necessitam da retribuição dos anos de amor dedicado, não por força da obrigação, mas por amor.
Existe um ditado belo ecoando no proclame de homens religiosos, que diz…
Aquele que honra pai e mãe, terá seus dias prolongados na Terra. E certa vez uma luz se fez presente em forma humana e disse…
deixem vir a mim os pequeninos, porque estes herdarão o paraíso, e ensinou aos meus filhos a serem inocentes como as crianças. E isso quer dizer, nunca deixar-se contaminar pela maldade, pelo egoísmo, pela crueldade.
-Gaia fez uma pausa de segundos, com ar de quem revelaria um segredo, continuou- Eu me mostro a ti como a velha e cansada mãe, que foi carregada nos braços de um filho, que mesmo homem, nunca deixou de ser criança.

Chorei, e Gaia me presenteou com a chuva… Paz era o que eu sentia, e minhas lágrimas eram as mais puras emoções humanas, que se mostravam em forma de gratidão e incondicional amor.

-Filha – continuou Mãe Gaia enquanto trovões ecoavam – Achas que eu o deixaria se perder?
Ou que teu irmão se perderia?
Ele está aqui – levantou as trêmulas mãos, pousando-as em seu peito- Em meu coração, de forma alguma é inacessível… Sorria minha Criança, saia da sombra da árvore, pode ir dançar na chuva!
Beijei suas mãos e ela linda idosa, descontraída e de forma carinhosa deu uma sonora risada, que me preencheu de felicidade…

-Ande vá, vá… Pois Amo vela girar de braços abertos enquanto chovo sobre ti…

Mais que de pressa corri, as águas molhavam meu corpo, e eu bailei, girei, girei, girei, cantei…
A Chuva tinha ritmo, som, magia… Dancei na chuva como nunca antes, e eu sei que não dancei sozinha!

Por Thoreserc Poeta

MATA VIRGEM


Raul Seixas é consagrado por suas músicas psicodélicas. Mas em sua discografia podemos achar verdadeiras pérolas como esta que tomei ciência em um disco de vinil ainda de Ney Matogrosso que os brindo em singelas quadras.

I

Você é um pé de planta

Que só dá no interior

No interior da mata

Coração do meu amor

II

Você é roubar manga

Com os moleques no quintal

É manga rosa, espada

Guardiã do matagal

III

Qual flor de uma estação

Botão fechado eu sou

Se amadurecendo

Pra se abrir pro meu amor

IV

Úmida de orvalho

Que o sol não enxugou

Você é mata virgem

Pela qual ninguém passou

V

É capinzal noturno

Escuro e denso protetor

De um lago leve e morno

Teu oásis meu amor

Raul Seixas