O VINGADOR NEGRO – O BRILHO DA GANÂNCIA – CAPÍTULO 06


– Então existe alguém perambulando pela mina? – perguntou Jeff atônito.

– Sim, Jeff. Só não sei como ele consegue entrar, pois a vigilância é grande na entrada da mina. Somente eu e você temos autorização – Disse Gabriel abrindo os braços.

– Está me passando algo pela cabeça Gabriel.

– O que?

– Estou desconfiando que o ladrão é empregado da mina e deve conhecer bem a região. É a única maneira dele permanecer dentro. Amanhã vou mandar os homens vasculharem toda a mina.

– Se ele trabalha lá deve ser conhecido, Jeff.

– Amanhã vou mandar ficarem de olho em quem permanece por ultimo nas galerias.

– Grande ideia Jeff.

No dia seguinte, Gabriel vai até a entrada da mina para investigar um pouco…

– Hum… se a entrada é fortemente vigiada, e o ouro continua desaparecendo, somente pode haver duas opções. Ou o ladrão permanece na mina após os trabalhos, ou há outra entrada para a mina em algum outro lugar. A parte das galerias é inexplorada ainda por grande parte, talvez tenha algo interessante lá. Como não pode ser também na entrada principal e nem nos lados que é rocha pura até o riacho então na parte dos fundos pode conter alguma entrada que ninguém sabe.

Uma hora depois, Gabriel agora vestido de Vingador Negro, galopou até o riacho que ficava mais ou menos um quilômetro após os fundos da mina.

– Não tem nada por aqui. Vou seguir pela direita em direção aos fundos da mina.

Após um breve galope, algo chama a atenção do mascarado…

– Estranho. Aqui a vegetação aumenta, mas quando chega perto dos fundos da mina ela diminui bastante, como se alguém tivesse cortado a mesma deixando uma pequena parte para encobrir algo.

O justiceiro examinou a vegetação, até que na parte que havia menos folhas, ao passar as luvas negras, viu um buraco na parede na junção do chão com a parede do fundo da mina.

– Temos algo aqui. Vou dar uma olhada. Se for o que penso, as horas de roubo desse ladrãozinho estão contadas.

CONTINUA…

Por Alci Santos

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O VINGADOR NEGRO – O BRILHO DA GANÂNCIA – CAPÍTULO 05


Na entrada principal da mina…
– Não posso lhe deixar entrar amigo. Ordens do patrão – disse o vigia da mina barrando a entrada de Gabriel.
– Eu tenho uma autorização por escrito para vasculhar a mina vindo diretamente do seu patrão.
Gabriel pegou de seu bolso da camisa um pedaço de papel e entregou ao homem, que pegou e fez uma careta antes de ler.
“ Eu, Jeff Carter, autorizo o portador deste, a examinar de maneira total a mina seja a qualquer momento que o mesmo desejar.”
– Hummm, é a letra do patrão. Essa letra é ímpar. Você pode passar.
– Eu lhe agradeço, mas ouça: Somente eu e o detetive que Jeff falou na reunião, tem essa autorização. Então somente eu, ele e o Jeff podemos entrar aqui – disse Gabriel olhando nos olhos do vigia.
E assim, Gabriel pegou um candeeiro e partiu para adentrar na mina ao anoitecer. Ele precisava ser se encontrava alguma pista do meliante.
– Essa investigação à noite com somente um candeeiro, não será nada fácil, se não conseguir nada, amanhã tentarei durante o dia – disse Gabriel a si mesmo.
Então entrou na mina e foi cada vez mais avançando naquele ambiente sombrio. Ficou um certo tempo na mina e já estava para retornar quando ouviu passos à sua frente.
– Hum parece que tem alguém penetrando na mina durante a noite e não é ninguém autorizado – sussurrou Gabriel para si mesmo.
Resolveu então deitar e arrastar-se pelo solo da mina. Retirou sua camisa e colocou por cima do candeeiro, tendo o cuidado de deixar a parte de cima descoberta para a chama não apagar. Ao chegar mais á frente, um tiro ecoou nas paredes e estava relativamente próximo.
Gabriel teve que apagar a chama do candeeiro e imediatamente foi para outro lugar e disparou três tiros na direção de onde tinha ouvido o barulho anterior.
Os tiros pararam, mas ele preferiu voltar porque agora sem luz não se enxergava nada e com grande sorte, ele somente havia percorrido a reta inicial, sem ter entrado pelas maiores galerias que ficavam mais além.
Para ele era melhor não arriscar.Voltou então em linha reta até a entrada onde vários mineiros se encontravam assustados com armas e candeeiros.
– Calma pessoal. Sou eu Gabriel.

CONTINUA…

Por Alci Santos

O VINGADOR NEGRO – O BRILHO DA GANÂNCIA – CAPÍTULO 04


Dias depois Gabriel retornava. Ele precisava descobrir quem estava subtraindo o ouro e diminuindo seus lucros.

Agora que Jeff havia concordado com a vinda do Vingador Negro, ele poderia agir em segredo e assim resolver o caso de uma vez por todas.

– Então está tudo certo Gabriel? Perguntou Jeff com um copo de uísque na mão direita.

– Fique tranquilo que a partir de agora as coisas vão mudar por aqui –disse Gabriel batendo no ombro de Jeff.

No dia seguinte, Jeff convocou uma reunião com todos os escavadores para que pudesse informar que a partir de agora as coisas iam mudar.

– A partir de agora as coisas para o nosso ladrãozinho vão piorar. Eu contratei um detetive que está escondido entre nós.

– Chefe e como saberemos se ele é o ladrão se vermos algo estranho?

– Ele não deve se mostrar mas com certeza vocês saberão que é ele caso o homem achar necessário. Mais perguntas? Se não, tenham uma boa noite e vamos continuar a vigiar a mina.

Mais tarde…

– Quer dizer que colocaram um detetive em nosso meio? Tenho que ter cuidado.

Dizendo isso, o bandido andou até um pequeno riacho que saia de uma abertura coberta pela folhagem há dois quilômetros da mina.

– ahahah! Ninguém conhece esse buraco que vai dar nas galerias da mina. Graças ao fato de eu ter encontrado, ficarei rico.

E assim o homem entrou se arrastando no buraco.

CONTINUA…

Por Alci Santos

O VINGADOR NEGRO – O BRILHO DA GANÂNCIA – CAPÍTULO 03


– Ele é confiável?

– Jeff, se estou oferecendo para ele pegar esse ladrão do ouro, é porque confio nele.

– Vou pensar no seu caso.

– Certo, mas não demore porque senão os desfalques vão aumentar.

Dois dias se passaram e o ouro continuava desaparecendo. Foi então que Jeff não aguentou mais.

– Riley, chame Gabriel. Preciso falar urgente com ele.

– Sim chefe.

Quinze minutos depois…

– Aqui está ele chefe.

– E então Jeff já tomou sua decisão?

– Pode sair Riley, obrigado por chama-lo.

– De nada chefe.

Depois que Riley saiu Jeff falou:

– Gabriel já não aguento mais. Vamos fazer como você disse. Chame o vigilante e esperemos que isso não seja um erro.

– Calma Jeff. Ele é um vigilante, mas é a favor da lei.

– Muito bem Gabriel. Quando ele virá?

– Tenho que voltar até Austin para contatá-lo e em alguns dias estarei de volta e ele já vai estar agindo.

– Ok então. Mas vamos redobrar a vigilância enquanto você está fora

Gabriel aproveitou a oportunidade para voltar a Austin e rever os amigos e aproveitou para pegar sua roupa do Vingador Negro.

CONTINUA…

Por Alci Santos

O VINGADOR NEGRO – O BRILHO DA GANÂNCIA – CAPÍTULO 02


Dentro da mina…
– Eles nem imaginam que quem está ficando com o ouro está no meio dos trabalhadores.
– Depois que eu juntar ouro suficiente ficarei rico!
Começa o dia de trabalho na mina e o dia transcorre normalmente. À tardinha os vigias ficam atentos mas ninguém estranho se aproxima da mina.
Logo o ouro é juntado e enviado ao rancho para a divisão e no meio da pesagem…
– Jeff tem algo errado aqui disse Gabriel
– O que é ? – perguntou Jeff
– A balança está contrariando o peso que está escrito neste papel
– Você quer dizer que fomos roubados novamente?
– Exatamente Jeff!
– Mas como? Os vigias não viram ninguém estranho entrando na mina. A reunião do ouro para conferencia é dentro da mina então o ladrão não poderia ter entrado.
– Jeff só se…
– O que Gabriel?
– Só se o ladrão está entre os trabalhadores.
– Não é possível que isso esteja acontecendo.
– Lá na minha cidade existe um mascarado que luta contra os bandidos e no fim sempre resolve os casos. O que você acha de contratá-lo para pegar esse ladrão de Ouro?

CONTINUA…

Por Alci Santos

O VINGADOR NEGRO – O BRILHO DA GANÂNCIA – CAPÍTULO 01


Na manhã seguinte na entrada da mina principal…
– Então atenção. Vocês dois ai vão ficar de guarda na entrada da mina – disse Jeff para dois dos mineiros.
– Não adianta eles ficarem visíveis. Assim o bandido não aparece – disse D. Gabriel abrindo os braços.
– E o que você sugere D. Gabriel?
– Jeff, eles devem ir na parte de trás da mina e subir na mesma. Quando subirem devem voltar pelo alto até a entrada da mina e se abaixarem para não serem vistos.
– Certo Gabriel, faremos como você quer.
Mais tarde na fazenda de Jeff Donovan…
– Espero que agora nós possamos pegar os bandidos que estão roubando o ouro Gabriel.
– Vamos torcer para dar certo Jeff. Foi uma boa nós estabelecermos este contrato.
– É verdade o problema todo é descobrir como o ouro está desaparecendo
– Calma homem, vamos descobrir.
Nisso…
– Esses trabalhadores são muito otários. Mal eles sabem que quem rouba o ouro está entre eles. Em breve ficarei rico e não precisarei mas trabalhar ahahahahaha!
Na entrada da mina principal…
– Pronto homens, vamos voltar ao trabalho, mas fiquem de olho vivo. Temos que descobrir o meliante que está nos roubando. Em breve ele vai curtir vendo a lua nascer quadrada.

CONTINUA…

Por Alci Santos

O RELÓGIO DE OURO


Agora contarei a história do relógio de ouro. Era um grande cronômetro, inteiramente novo, preso a uma elegante cadeia. Luís Negreiros tinha muita razão em ficar boquiaberto quando viu o relógio em casa, um relógio que não era dele, nem podia ser de sua mulher. Seria ilusão dos seus olhos? Não era: o relógio ali estava sobre uma mesa da alcova, a olhar para ele, talvez tão espantado, como ele, do lugar e da situação.

Clarinha não estava na alcova quando Luís Negreiros ali entrou. Deixou-se ficar na sala, a folhear um romance, sem corresponder muito nem pouco ao ósculo com que o marido a cumprimentou logo à entrada. Era uma bonita moça esta Clarinha, ainda que um tanto pálida, ou por isso mesmo. Era pequena e delgada; de longe parecia uma criança; de perto, quem lhe examinasse os olhos, veria bem que era mulher como poucas. Estava molemente reclinada no sofá, com o livro aberto, e os olhos no livro, os olhos apenas, porque o pensamento, não tenho certeza se estava no livro, se em outra parte. Em todo o caso parecia alheia ao marido e ao relógio.

Luís Negreiros lançou mão do relógio com uma expressão que eu não me atrevo a descrever. Nem o relógio, nem a corrente eram dele; também não eram de pessoas suas conhecidas. Tratava-se de uma charada. Luís Negreiros gostava de charadas, e passava por ser decifrador intrépido; mas gostava de charadas nas folhinhas ou nos jornais. Charadas palpáveis ou cronométricas, e sobretudo sem conceito, não as apreciava Luís Negreiros.

Por esse motivo, e outros que são óbvios, compreenderá o leitor que o esposo de Clarinha se atirasse sobre uma cadeira, puxasse raivosamente os cabelos, batesse com o pé no chão, e lançasse o relógio e a corrente para cima da mesa. Terminada esta primeira manifestação de furor, Luís Negreiros pegou de novo nos fatais objetos, e de novo os examinou. Ficou na mesma. Cruzou os braços durante algum tempo e refletiu sobre o caso, interrogou todas as suas recordações, e concluiu no fim de tudo que, sem uma explicação de Clarinha qualquer procedimento fora baldado ou precipitado.

Foi ter com ela.

Clarinha acabava justamente de ler uma página e voltava a folha com o ar indiferente e tranqüilo de quem não pensa em decifrar charadas de cronômetro. Luís Negreiros encarou-a; seus olhos pareciam dois reluzentes punhais.

— Que tens? perguntou a moça com a voz doce e meiga que toda a gente concordava em lhe achar.

Luís Negreiros não respondeu à interrogação da mulher; olhou algum tempo para ela; depois deu duas voltas na sala, passando a mão pelos cabelos, por modo que a moça de novo lhe perguntou:

— Que tens?

Luís Negreiros parou defronte dela.

— Que é isto? disse ele tirando do bolso o fatal relógio e apresentando-lho diante dos olhos. Que é isto? repetiu ele com voz de trovão.

Clarinha mordeu os beiços e não respondeu. Luís Negreiros esteve algum tempo com o relógio na mão e os olhos na mulher, a qual tinha os seus olhos no livro. O silêncio era profundo. Luís Negreiros foi o primeiro que o rompeu, atirando estrepitosamente o relógio ao chão, e dizendo em seguida à esposa:

— Vamos, de quem é aquele relógio?

Clarinha ergueu lentamente os olhos para ele, abaixou-os depois, e murmurou:

— Não sei.

Luís Negreiros fez um gesto como de quem queria esganá-la; conteve-se. A mulher levantou-se, apanhou o relógio e pô-lo sobre uma mesa pequena. Não se pôde conter Luís Negreiros. Caminhou para ela, e, segurando-lhe nos pulsos com força, lhe disse:

— Não me responderás, demônio? Não me explicarás esse enigma?

Clarinha fez um gesto de dor, e Luís Negreiros imediatamente lhe soltou os pulsos que estavam arrochados. Noutras circunstâncias é provável que Luís Negreiros lhe caísse aos pés e pedisse perdão de a haver machucado. Naquela[1] nem se lembrou disso; deixou-a no meio da sala e entrou a passear de novo, sempre agitado, parando de quando em quando, como se meditasse algum desfecho trágico.

Clarinha saiu da sala.

Pouco depois veio um escravo dizer que o jantar estava na mesa.

— Onde está a senhora?

— Não sei, não[2] senhor.

Luís Negreiros foi procurar a mulher, achou-a numa saleta de costura, sentada numa cadeira baixa, com a cabeça nas mãos a soluçar. Ao ruído que ele fez na ocasião de fechar a porta atrás de si, Clarinha levantou a cabeça, e Luís Negreiros pôde ver-lhe as faces úmidas de lágrimas. Esta situação foi ainda pior para ele que a da sala. Luís Negreiros não podia ver chorar uma mulher, sobretudo a dele. Ia enxugar-lhe as lágrimas com um beijo, mas reprimiu o gesto, e caminhou frio para ela: puxou uma cadeira e sentou-se em frente de Clarinha.

— Estou tranqüilo, como vês, disse ele, responde-me ao que te perguntei com a franqueza que sempre usaste comigo. Eu não te acuso nem suspeito nada de ti. Quisera simplesmente saber como foi parar ali aquele relógio. Foi teu pai que o esqueceu cá?

— Não.

— Mas então…

— Oh! não me perguntes nada! exclamou Clarinha; ignoro como esse relógio se acha ali… Não sei de quem é… deixa-me.

— É demais! urrou Luís Negreiros, levantando-se e atirando a cadeira ao chão.

Clarinha estremeceu, e deixou-se ficar aonde estava. A situação tornava-se cada vez mais grave; Luís Negreiros passeava cada vez mais agitado, revolvendo os olhos nas órbitas, e parecendo prestes a atirar-se sobre a infeliz esposa. Esta, com os cotovelos no regaço e a cabeça nas mãos, tinha os olhos encravados na parede. Correu assim cerca de um quarto de hora. Luís Negreiros ia de novo interrogar a esposa, quando ouviu a voz do sogro, que subia as escadas gritando:

— Ó seu Luís! ó seu malandrim!

— Aí vem teu pai! disse Luís Negreiros; logo me pagarás.

Saiu da sala de costura e foi receber o sogro, que já estava no meio da sala, fazendo viravoltas com o chapéu de sol, com grande risco das jarras e do candelabro.

— Vocês estavam dormindo? perguntou o sr. Meireles tirando o chapéu e limpando a testa com um grande lenço encarnado.

— Não, senhor, estávamos conversando…

— Conversando?… repetiu Meireles.

E acrescentou consigo:

— Estavam de arrufos… é o que há de ser.

— Vamos justamente jantar, disse Luís Negreiros. Janta conosco?

— Não vim cá para outra coisa, acudiu Meireles; janto hoje e amanhã também. Não me convidaste, mas é o mesmo.

— Não o convidei?…

— Sim, não fazes anos amanhã?

— Ah! é verdade…

Não havia razão aparente para que, depois destas palavras ditas com um tom lúgubre, Luís Negreiros repetisse, mas desta vez com um tom descomunalmente alegre:

— Ah! é verdade!…

Meireles, que já ia pôr o chapéu num cabide do corredor, voltou-se espantado para o genro, em cujo rosto leu a mais franca, súbita e inexplicável alegria.

— Está maluco! disse baixinho Meireles.

— Vamos jantar, bradou o genro, indo logo para dentro, enquanto Meireles seguindo pelo corredor ia ter à sala de jantar.

Luís Negreiros foi ter com a mulher na sala de costura, e achou-a de pé, compondo os cabelos diante de um espelho:

— Obrigado, disse.

A moça olhou para ele admirada.

— Obrigado, repetiu Luís Negreiros; obrigado e perdoa-me.

Dizendo isto, procurou Luís Negreiros abraçá-la; mas a moça, com um gesto nobre, repeliu o afago do marido e foi para a sala de jantar.

— Tem razão! murmurou Luís Negreiros.

Daí a pouco achavam-se todos três à mesa do jantar, e foi servida a sopa, que Meireles achou, como era natural, de gelo. Ia já fazer um discurso a respeito da incúria dos criados, quando Luís Negreiros confessou que toda a culpa era dele, porque o jantar estava há muito na mesa. A declaração apenas mudou o assunto do discurso, que versou então sobre a terrível coisa que era um jantar requentado — qui ne valut jamais rien.

Meireles era um homem alegre, pilhérico, talvez frívolo demais para a idade, mas em todo o caso interessante pessoa. Luís Negreiros gostava muito dele, e via correspondida essa afeição de parente e de amigo, tanto mais sincera quanto que Meireles só tarde e de má vontade lhe dera a filha. Durou o namoro cerca de quatro anos, gastando o pai de Clarinha mais de dois em meditar e resolver o assunto do casamento. Afinal deu a sua decisão, levado antes das lágrimas da filha que dos predicados do genro, dizia ele.

A causa da longa hesitação eram os costumes pouco austeros de Luís Negreiros, não os que ele tinha durante o namoro, mas os que tivera antes e os que poderia vir a ter depois. Meireles confessava ingenuamente que fora marido pouco exemplar, e achava que por isso mesmo devia dar à filha melhor esposo do que ele. Luís Negreiros desmentiu as apreensões do sogro; o leão impetuoso dos outros dias, tornou-se um pacato cordeiro. A amizade nasceu franca entre o sogro e o genro, e Clarinha passou a ser uma das mais invejadas moças da cidade.

E era tanto maior o mérito de Luís Negreiros quanto que não lhe faltavam tentações. O diabo metia-se às vezes na pele de um amigo e ia convidá-lo a uma recordação dos antigos tempos. Mas Luís Negreiros dizia que se recolhera a bom porto e não queria arriscar-se outra vez às tormentas do alto mar.

Clarinha amava ternamente o marido, e era a mais dócil e afável criatura que por aqueles tempos respirava o ar fluminense. Nunca entre ambos se dera o menor arrufo; a limpidez do céu conjugal era sempre a mesma e parecia vir a ser duradoura. Que mau destino lhe soprou ali a primeira nuvem?

Durante o jantar Clarinha não disse palavra — ou poucas dissera, ainda assim as mais breves e em tom seco.

— Estão de arrufo, não há dúvida, pensou Meireles ao ver a pertinaz mudez da filha. Ou a arrufada é só ela, porque ele parece-me lépido.

Luís Negreiros efetivamente desfazia-se todo em agrados, mimos e cortesias com a mulher, que nem sequer olhava em cheio para ele. O marido já dava o sogro a todos os diabos, desejoso de ficar a sós com a esposa, para a explicação última, que reconciliaria os ânimos. Clarinha não parecia desejá-lo; comeu pouco e duas ou três vezes soltou-se-lhe do peito um suspiro.

Já se vê que o jantar, por maiores que fossem os esforços, não podia ser como nos outros dias. Meireles sobretudo achava-se acanhado. Não era que receasse algum grande acontecimento em casa; sua idéia é que sem arrudas não se aprecia a felicidade, como sem tempestade não se aprecia o bom tempo. Contudo, a tristeza da filha sempre lhe punha água na fervura.

Quando veio o café, Meireles propôs que fossem todos três ao teatro; Luís Negreiros aceitou a idéia com entusiasmo. Clarinha recusou secamente.

— Não te entendo hoje, Clarinha, disse o pai com um modo impaciente. Teu marido está alegre tu pareces-me abatida e preocupada. Que tens?

Clarinha não respondeu: Luís Negreiros, sem saber o que havia de dizer, tomou a resolução de fazer bolinhas de miolo de pão. Meireles levantou os ombros.

— Vocês lá se entendem, disse ele. Se amanhã, apesar de ser o dia que é, vocês estiverem do mesmo modo, prometo-lhes que nem a sombra me verão.

— Oh! há de vir, ia dizendo Luís Negreiros, mas foi interrompido pela mulher que desatou a chorar.

O jantar acabou assim triste e aborrecido. Meireles pediu ao genro que lhe explicasse o que aquilo era, e este prometeu que lhe diria tudo em ocasião oportuna.

Pouco depois saía o pai de Clarinha protestando de novo que, se no dia seguinte os achasse do mesmo modo, nunca mais voltaria à casa deles, e que se havia coisa pior que um jantar frio ou requentado, era um jantar mal digerido. Este axioma valia o de Boileau, mas ninguém lhe prestou atenção.

Clarinha fora para o quarto; o marido, apenas se despediu do sogro, foi ter com ela. Achou-a sentada na cama, com a cabeça sobre uma almofada, e soluçando. Luís Negreiros ajoelhou-se diante dela e pegou-lhe numa das mãos.

— Clarinha, disse ele, perdoa-me tudo. Já tenho a explicação do relógio; se teu pai não me fala em vir jantar amanhã, eu não era capaz de adivinhar que o relógio era um presente de anos que tu me fazias.

Não me atrevo a descrever o soberbo gesto de indignação com que a moça se pôs de pé quando ouviu estas palavras do marido. Luís Negreiros olhou para ela sem compreender nada. A moça não disse uma nem duas; saiu do quarto e deixou o infeliz consorte mais admirado que nunca.

— Mas que enigma é este? perguntava a si mesmo Luís Negreiros. Se não era um mimo de anos, que explicação pode ter o tal relógio?

A situação era a mesma que antes do jantar. Luís Negreiros assentou de descobrir tudo naquela noite. Achou, entretanto, que era conveniente refletir maduramente no caso e assentar numa resolução que fosse decisiva. Com este propósito recolheu-se ao seu gabinete, e ali recordou tudo o que se havia passado desde que chegara à casa. Pesou friamente todas as razões, todos os incidentes, e buscou reproduzir na memória a expressão do rosto da moça, em toda aquela tarde. O gesto de indignação e a repulsa quando ele a foi abraçar na sala de costura, eram a favor dela; mas o movimento com que mordera os lábios no momento em que ele lhe apresentou o relógio, as lágrimas que lhe rebentaram à mesa, e mais que tudo o silêncio que ela conservava a respeito da procedência do fatal objeto, tudo isso falava contra a moça.

Luís Negreiros, depois de muito cogitar, inclinou-se à mais triste e deplorável das hipóteses. Uma idéia má começou a enterrar-se-lhe no espírito, à maneira de verruma, e tão fundo penetrou, que se apoderou dele em poucos instantes. Luís Negreiros era homem assomado quando a ocasião o pedia. Proferiu duas ou três ameaças, saiu do gabinete e foi ter com a mulher.

Clarinha recolhera-se de novo ao quarto. A porta estava apenas cerrada. Eram nove horas da noite. Uma pequena lamparina alumiava escassamente o aposento. A moça estava outra vez assentada na cama, mas já não chorava, tinha os olhos fitos no chão. Nem os levantou quando sentiu entrar o marido.

Houve um momento de silêncio.

Luís Negreiros foi o primeiro que falou.

— Clarinha, disse ele, este momento é solene. Responde-me ao que te pergunto desde esta tarde?

A moça não respondeu.

— Reflete bem, Clarinha, continuou o marido. Podes arriscar a tua vida.

A moça levantou os ombros.

Uma nuvem passou pelos olhos de Luís Negreiros. O infeliz marido lançou as mãos ao colo da esposa e rugiu:

— Responde, demônio, ou morres!

Clarinha soltou um grito.

— Espera! disse ela.

Luís Negreiros recuou.

— Mata-me, disse ela, mas lê isto primeiro. Quando esta carta foi ao teu escritório já te não achou lá: foi o que o portador me disse.

Luís Negreiros recebeu a carta, chegou-se à lamparina e leu estupefato estas linhas:

Meu nhonhô. Sei que amanhã fazes anos; mando-te esta lembrança.

Tua Iaiá.

Assim acabou a história do relógio de ouro.

Por Machado de Assis