SAUDADE


Tento esquecer que é um novo dia e você não veio

Sinto falar com as estrelas, um solitário do ar

Cada vez que sua imagem me aparece

O meu coração se entristece

Pois sua falta, me faz chorar

Fico lamentando o tempo todo e você não vem

Sinto a hora do regresso e choro novamente

Na esperança de poder te abraçar,

Amar você a noite inteirinha,

Deixa disso, vem logo pra cá

Pra me amar, fica comigo

Não consigo ficar sem você

Pra me amar, fica comigo

É um castigo viver sem você

Por Luiz e Durval Caldas

 

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ROSA


Ela era uma menina ainda, tinha apenas quatorze anos. Rosa era seu nome. Embora tivesse nome de flor, não trazia em seu semblante nada que lembrasse pétalas; sua áura era carregada não por perfume, mas por pontiagudos espinhos.
As pessoas, quando a viam murmuravam em coro:

Pessoas:

Olha quem tá indo à feira
É a rosa
A asquerosa
A lixeira

O resto ela vai catar
Das coisas que cai no chão
Ela não tem nojo não
Dá ânsia só de pensar

Entre aquelas pessoas, poucas, bem poucas, sentiam alguma compaixão e não ridicularizavam a menina. Diziam sentir dó da sua situação infeliz.

Pessoa “boa”:

Amigos, pobre coitada
É essa menina Rosa
Coitada, tão maltratada
Se eu pudesse ajudava
Essa pobre tão judiada

Mas o que ganho
É tão pouquinho
Que não sobra nem um restinho
Pra fazer ação de graça

E assim, entre maledicências e caridade só da boca pra fora, Rosa seguia sua triste sina.
Toda quarta-feira, dia da feira local, Ela era despertada aos berros, por sua mãe:

Mãe:

Acorda logo Rosa
Vai lá pegar o que achar
Não tem nada pra preparar
Na peste dessa palhoça
E vê se não me enrola
Volte logo sem demora

O nenê está chorando
E meu leite ta secando
Seu pai já foi lá pro bar
Encher a cara de mé
Só volta de quatro pés
Com aquele bafo horrível
Então vai logo, anda!
E não demora
Senão acaba a sobra
Traga tudo que for possível

Rosa, embora fosse mulher, não costumava chorar com facilidade; aquela vida de sofrimento foi endurecendo seu coração. Mas em pensamento ela sofria demais. No caminho para feira, chorou, e chorou muito, mas foi um choro da sua alma; dos seus olhos não saíram uma lágrima.

Rosa

Oh, meu Deus que agonia
Como é triste minha vida
Minha alma está doída
E sinto isso todo dia

Por que tem que ser assim
Por que esse sofrimento
Oh meu Deus, por um momento
Por favor, pense em mim

Rosa estava muito triste, mas seguiu rumo ao seu destino. Chegando à feira, foi entrando embaixo das bancas de frutas e legumes, catando tudo aquilo que dava para aproveitar. Alguns feirantes não aprovavam a sua presença.

Feirante:

Sai pra lá! Sai pra lá
Senão minha freguesia
Você vai espantar

Vai! Some daqui!
Senão minha freguesia
Não compra o meu kiwi

Ela estava com bastante fome, pois não havia comido nada ainda, pega uma banana, metade estragada, metade boa e devora a parte aproveitável ali mesmo. Uma freguesa vendo aquilo se assusta:

Freguesa

Menina, não come isso não!
Pois isso caiu no chão
E o chão tem porcaria
Sua mãe não está aqui não?

Rosa balançou a cabeça negativamente. A freguesa continuou suas compras, indignada com a miséria daquela menina. Ainda comentou com outra mulher do seu lado: “ É fogo né! Tem gente que coloca filho no mundo somente para sofrer…”

Com o saco de estopa
Repleto até a boca
Rosa volta contente
Com a comida garantida
Já não sentia mais fome
Esse monstro que só consome
As pessoas esquecidas

No caminho Rosa encontrou-se com seu pai. Vinha cambaleando, costurando a rua, tropeçando nos próprios pés. Ela, pacientemente segura numa mão o pesado saco e na outra auxilia o pai a equilibrar-se.
Chegando em casa Rosa entregou o saco e o pai à sua mãe. O saco a mãe pegou. O marido a mãe xingou, bateu e empurrou para o quartinho imundo deles.

Mãe

Dorme lazarento
Traste vagabundo
Verme imundo
Burro! Jumento!

Rosa se afastou da casa para fazer aquilo que era a sua única diversão: cuidar da horta que havia feito junto com sua mãe. Chegando à horta ela se sentia no céu. Ali ela se esquecia de todas as mazelas da vida.

Minha querida plantinha
Que da semente vi nascer
Você é tão bonitinha
Com essas suas folhinhas
Como é bom vê-la crescer!

E você, linda abobrinha
Vejo que está bela
Já tem até cinturinha
Já, já estará gordinha
Com a casca toda amarela

Olá meus tomatinhos
Vocês, verdes ainda estão
Mas depois, bem vermelhinhos
Bonitos e graudinhos
Garanto que ficarão

Naquele lugarzinho Rosa não se sentia triste. Ali sua alma se libertava das amarguras da vida e era também ali que ela sonhava os mais belos sonhos, embora estivesse sempre acordada.
Estava viajando num mundo onde todas as pessoas eram felizes quando foi desperta por um homem que a chamava, no outro lado da cerca, seu nome era Gabriel:

Gabriel:

-Olá menina, estou vendo que você cuida bem da sua horta. Qual é o seu nome?
– Meu nome é Rosa.
-Muito bem Rosa, eu poderia conversar com seu pai ou sua mãe?

A vida da menina Rosa
Mudou naquele dia
Gabriel, alma bondosa
Conversou com a mãe da Rosa
E disse que compraria
Toda a produção da horta

E como adiantamento
Deu como garantia
Uma expressiva quantia
Num total de mil e quinhentos
Mas não foi em dinheiro não
Foi em alimentação
Pra família ter sustento

E comprou roupa prá Rosa
Para que ela fosse à escola
Essa era a condição
Que o contrato de ocasião
Foi imposto à família
Gabriel, homem bondoso
Aceitou com todo gosto
Ter a Rosa como filha

Os meses foram passando. A Rosa agora já não ia à feira buscar resto, muito pelo contrário, agora ia para trabalhar ao lado do seu segundo pai na barraca de legumes. Gabriel se sentia orgulhoso do que fez e sempre pensava contente: “Como foi bom eu seguir a minha intuição naquele dia, quando ouvi a Rosa conversando tão alegremente com as plantinhas…”.
A vida daquela menina, que outrora era tão triste, tal qual uma flor murcha, transbordava alegria. Sua mãe ajudava seu pai, que graças à ajuda do Gabriel, conseguira largar da bebida e pegava cedo no trabalho lá na horta. Dava prazer em ver o que aquele cantinho se transformara.

Com a graça do céu
Foi enviado Gabriel
Amigo, homem comum
Que tocado por Deus,
Sendo apenas um
Fez o que o coração
Pediu-lhe naquele dia
Quando ouviu o que Rosa dizia
Tão feliz na plantação

E assim a menina Rosa prosseguiu na sua nova vida. Quando passava na rua, as pessoas comentavam:

Lá vai a Rosa
Tão bonita
Tão cheirosa

Olha só as unhas dela
Tão lindas
Tão brilhantes

Olha o vestido dela
Parece uma linda flor
Com cores tão vibrantes….

É , a Rosa agora finalmente desabrochara.

Por Isaias Gresmés

PRESENTE DE NATAL


Era dezembro de mil novecentos e setenta, última semana antes do natal, toda a cidade de Fortaleza estava tomada pelo espírito natalino. Árvores de natal, vitrines decoradas com presépios, reis magos, estrelas e todo tipo de alusão ao natal. A cidade estava alegre e saltitante, o povo feliz e sorridente, todos esperando a grande data. Um rosto triste se destacava nessa euforia natalina. Era Leinad Azuif, um jovem ainda na flor da sua juventude; Ele trabalhava numa livraria e já ocupava o cargo de gerente, ganhava um bom salário e não tinha nenhum motivo para estar triste. Mas estava, muito triste, uma tristeza de se notar de longe. Dona Francisca Macedo, uma senhora viúva, distinta e chic, além de muito rica. Era uma das melhores freguesa da livraria, não ficava uma semana sem passar por lá e comprar vários livros. Fazia questão de ser atendida por Leinad, não só pela gentileza do seu atendimento, mas também por seus conhecimentos literários. Ela ficava horas conversando com o moço e só depois de muitos assuntos é que escolhia os livros que ia comprar. Leinad tinha muitos amigos, muitas garotas e toda uma vida pela frente, mas se encontrava naquele estado lastimável de melancolia. O motivo não era outro senão saudade, ele estava morrendo de saudade da família, foi o único membro da família que ficou em Fortaleza, todos os outros haviam emigrado para São Paulo. Leinad sempre foi muito ligado à família, e aquele seria o primeiro natal que ele passaria sozinho sem a mãe e os irmãos. Seu pai já havia falecido há muitos anos atrás. Dona Francisca havia enviuvado há mais de dez anos, devia ter cinqüenta anos, mas aparentava ter somente quarenta, era muito bem cuidada, se vestia elegantemente e tinha um porte físico exuberante. Era dama da alta sociedade, vira e mexe aparecia nas colunas sociais dos melhores jornais.

Naquele dia que antecedeu a véspera do natal, dona Francisca passou na livraria para comprar alguns livros e levar uma lembrancinha para Leinad, logo que chegou já notou a tristeza do rapaz.

– Você está com algum problema? Ela perguntou preocupada.

– Coisa minha, coisa à-toa. Respondeu Leinad.

– Posso ajudar em alguma coisa? Perguntou dona Francisca com ar maternal.

– Não sei… Acho difícil! Respondeu cabisbaixo.

– Vamos tomar um lanchinho aqui perto? Assim você pode se abrir comigo e se aliviar dessa angustia. Falou num tom imperativo.

– Ta bom, vamos sim! Mas acho muito difícil a senhora resolver meu problema.

Já na lanchonete, Leinad, relatou para dona Francisca todo seu tormento, a sua imensa saudade da família. E salientou que não tinha lugar para passar o natal. Desabafando ainda: leinad contou que todos os natais eram iguais para ele, disse que na casa dele nunca teve uma mesa farta no natal, era um dia comum como qualquer outro. E que tinha recordações tristes da sua infância na época do natal. Nunca tinha ganhado nenhum presente que desejava ganhar. Sua família era pobre, só ganhava brinquedos usados dos primos mais abastados, refugos de outros natais. Mas agora era diferente, além dessas recordações tristes, não teria também a presença da mãe e dos seus irmãos. Ás lágrimas rolaram na face de dona Francisca.

– Não queria fazer a senhora chorar, dona Francisca. Falou Leinad.

– Por favor, não me chame de dona Francisca, detesto esse nome. Retrucou enxugando as lágrimas num lencinho imaculadamente branco.

– Me chama de Ciça, por favor, só ciça.

Passada a emoção da revelação, já quase no fim do lanchinho, dona Francisca perguntou para Leinad:

– Quer passar o natal na minha casa?

– Na sua casa? Falou assustado.

– Sim, quer ir?

– Mas não conheço ninguém! Vou ficar sem jeito por lá.

– Pode ficar tranqüilo, eu, estarei sempre do seu lado, te farei companhia o tempo todo! Falou enfática.

Depois de muita insistência Leinad acabou aceitando o gentil convite.

– O.k. Ciça, eu irei.

Ciça escreveu no guardanapo de papel o seguinte: Av. Monsenhor Tabosa, 2034 – Aldeóta. – natal de 1970 – chegar após ás 23 horas – Ciça.

Ao chegar naquele endereço ele ficou impressionado com o tamanho da casa, aquilo nem era casa, era uma imensa mansão. Tocou a campainha. A própria Ciça veio recebê-lo Leinad estranhou que uma mansão daquelas não tivesse um porteiro ou mordomo para atende a porta. Ciça parecia que adivinhava seus pensamentos.

– Entre, disse ela. – Dei folga á todos os empregados para que pudessem passar o natal com suas famílias.

Na beira da piscina havia uma grande mesa, forrada com uma toalha branca de linho, repleta de comidas e bebidas de todos os tipos, e ao redor da piscina e nas árvores uma discreta decoração natalina.

– Onde estão os outros convidados? Perguntou Leinad.

– Não há outros convidados! Respondeu Ciça. – Somente eu e você.

Ciça explicou que os dois filho dela nunca passavam o natal com ela, eles sempre viajavam para a Europa nessa época do ano e levavam os netos também. Meia noite, Leinad entregou timidamente Seu presente. Ciça abriu, era um livro. (Eros e a civilização de Herbert Marcuse). Ciça adorou o presente, pois procurava por esse livro fazia tempo, mas como era muito vendido andava em falta.

– O seu presente é surpresa, Falou Ciça. Pegou Leinad pela mão e foi caminhando para dentro da casa, na direção do seu quarto. Dentro do quarto ela disse:

– Aguarde um momentinho aqui que vou buscar seu presente, será uma surpresa. Leinad Ficou realmente surpreso ao ver Ciça totalmente embrulhada em papel de presente, com uma grande fita de seda azul, formando um grande laço na cintura.

– Eu sou o seu presente. Disse Ciça sorrindo.

– Que belo presente!

Depois daquele feliz natal, e do maravilhoso presente que Ganhou, Leinad ainda viveria o amor com Ciça por um ano e meio. Depois viajou para São Paulo e nunca mais teve notícia daquela extraordinária mulher.

Um pequeno trecho foi suprimido para adaptar-se mais como conto de Natal, mas se você quiser ver o texto original do autor Daniel Fiuza, clique aqui

Por Daniel Fiuza

AOS VINTE ANOS – PARTE 2 DE 2 – FINAL


– Não estamos de acordo.

– E se eu me entender com ele ? Se lhe pedir que me dê, suplicar, de joelhos, se preciso for ?… Pode ser que o homem, bom, como a senhora diz que é, se compadeça de mim, ou de nós, e…

– É inútil ! Ele só tem uma preocupação na vida : ser meu marido !

– Fujamos então !

– Deus me livre ! Estou certa de que com isso causaria a morte do meu benfeitor !

– Devo, nesse caso, perder todas as esperanças de… ?

– Não ! Deve esperar com paciência. Pode bem ser que ele mude ainda de idéia, ou, quem sabe ? Pode ser que morra antes de realizar o seu projeto…

– E acha a senhora que esperarei, sabe Deus por quanto tempo ! Sem sucumbir à violência da minha paixão ?…

– O verdadeiro amor a tudo resiste, quando mais ao tempo ! Tenha fé e constância é só o que lhe digo. E adeus.

– Pois adeus !

– Não vale zangar-se. Trepe de novo ao muro e retire-se. Vou buscar-lhe uma cadeira.

– Obrigado. Não é preciso. Faço todo o gosto em cair, se me escorregar a mão ! Quem me dera até que morresse da queda, aqui mesmo !

– Deixe-se de tolices ! Vá !

Saí ; saí ridiculamente, trepando-me pelo muro, como um macaco, e levando o desalento no coração. „Ÿ Ah ! maldito tutor dos diabos ! Velho gaiteiro e libertino ! Ignóbil maluco, que acabava de transformar em fel todo o encanto e toda a poesia da minha existência ! „Ÿ A vontade que eu sentia era de matá-lo ; era de vingar-me ferozmente da terrível agonia que aquele monstro me ferrara no coração !

– Mas não as perdes, miserável ! Deixa estar ! Prometia eu com os meus botões.

Não pude comer, nem dormir, durante muitos dias. Entretanto, a minha adorável vizinha falava-me sempre, sorria-me, atirava-me flores, recitava os meus versos e conversava-me sobre o nosso amor. Eu estava cada vez mais apaixonado.

Resolvi destruir o obstáculo da minha felicidade. Resolvi dar cabo do tutor de Ester.

Já o conhecia de vista ; muita vez encontramo-nos à volta do espetáculo, em caminho de casa. Ora a rua em que habitava o miserável era escusa e sombria… Não havia que hesitar : comprei um revólver de seis tiros e as competentes balas.

– E há de ser amanhã mesmo ! jurei comigo.

E deliberei passar o resto desse dia a familiarizar-me com a arma no fundo da chácara ; mas logo às primeiras detonações os vizinhos protestaram ; interveio a polícia, e eu tive de resignar-me a tomar um bode da Tijuca e ir continuar o meu sinistro exercício no hotel Jordão.

Ficou, pois, transferido o terrível desígnio para mais tarde. Eram alguns dias de vida que eu concedia ao desgraçado.

No fim de uma semana estava apto a disparar sem receio de perder a pontaria. Voltei para o meu cômodo de rapaz solteiro ; acendi um charuto ; estirei-me no canapé e dispus-me a esperar pela hora.

– Mas, pensei já à noite, quem sabe se Ester não exagerou a cousa ?… Ela é um pouquinho imaginosa… Pode ser que, se eu falasse ao tutor de certo modo… Hein ? Sim ! É bem possível que o homem se convencesse e… Em todo o caso, que diabo, nada perderia eu em tentar !… Seria até muito digno de minha parte…

– Está dito ! resolvi, enterrando a cabeça entre os travesseiros. Amanhã procuro-o ; faço-lhe o pedido com todas as formalidades ; se o estúpido negar „Ÿ insisto, falo, discuto ; e, se ele, ainda assim, não ceder, então bem „Ÿ Zás ! Morreu ! Acabou-se !

No dia imediato, de casaca e gravata branca, entrava eu na sala de visitas do meu homem.

Era domingo, e apesar de uma hora da tarde, ouvi barulho de louça lá dentro.

Mandei o meu cartão. Meia hora depois apareceu-me o velhote, de rodaque branco, chinelas, sem colete, palitando os dentes.

A gravidade do meu trajo desconcertou-o um tanto. Pediu-me desculpa por me receber tão à frescata, ofereceu-me uma cadeira e perguntou-me ao que devia a honra daquela visita.

Que, lhe parecia, tratava-se de cousa séria…

– Do que há de mais sério, senhor comendador Furtado ! Trata-se da minha felicidade ! Do meu futuro ! Trata-se da minha própria vida !…

– Tenha a bondade de pôr os pontos nos ii…

– Venho pedir-lhe a mão de sua filha…

– Filha ?

– Quer dizer : sua pupila…

– Pupila !…

– Sim, sua adorável pupila, a quem amo, a quem idolatro e por quem sou correspondido com igual ardor ! Se ela não o declarou ainda a V.S.a é porque receia com isso contrariá-lo ; creia, porém, senhor comendador, que…

– Mas, perdão, eu não tenho pupila nenhuma !

– Como ? E D. Ester ?…

– Ester ? !…

– Sim ! A encantadora, a minha divina Ester ! Ah ! Ei-la ! É essa que aí chega ! exclamei, vendo que a minha estremecida vizinha surgiu na saleta contígua.

– Esta ? !… balbuciou o comendador, quando ela entrou na sala, « mas esta é minha mulher !…

– ? !…

Por Aluísio Azevedo

AOS VINTE ANOS – PARTE 1 DE 2


Abri minha janela sobre a chácara. Um bom cheiro de resedás e laranjeiras entrou-me pelo quarto, de camaradagem com o sol, tão confundidos que parecia que era o sol que estava recendendo daquele modo. Vinham ébrios de Abril. Os canteiros riam pela boca vermelha das rosas ; as verduras cantavam, e a república das asas papeava, saltitando, em conflito com a república das folhas. Borboletas doidejavam, como pétalas vivas de flores animadas que se desprendessem da haste.

Tomei a minha xícara de café quente e acendi um cigarro, disposto à leitura dos jornais do dia. Mas, ao levantar os olhos para certo lado da vizinhança, dei com os de alguém que me fitava ; fiz com a cabeça um cumprimento quase involuntário, e fui deste bem pago, porque recebi outro com os juros de um sorriso ; e, ou porque aquele sorriso era fresco e perfumado como a manhã daquele Abril, ou porque aquela manhã era alegre e animadora como o sorriso que dasabotoou nos lábios da minha vizinha, o certo foi que neste dia escrevi os meus melhores versos e no seguinte conversei a respeito destes com a pessoa que os inspirou.

Chamava-se Ester, e era bonita. Delgada sem ser magra ; morena, sem ser trigueira ; afável, sem ser vulgar : uns olhos que falavam todos os caprichosos dialetos da ternura ; uma boquinha que era um beijo feito de duas pétalas ; uns dentes melhores que as jóias mais valiosas de Golconda ; cabelos mais lindos do que aqueles com que Eva escondeu o seu primeiro pudor no paraíso.

Fiquei fascinado. Ester enleou-me todo nas teias da sua formosura, penetrando-me até ao fundo da alma com os irresistíveis tentáculos dos seus dezesseis anos. Desde então conversamos todos os dias, de janela contra janela. Disse-me que era solteira, e eu jurei que seríamos um do outro.

Perguntei-lhe uma vez se me amava, e ela, sorrindo, atirou-me com um bogari que nesse momento trazia pendente dos lábios.

Aí ! Sonhei com a minha Ester, bonita e pura, noites e noites seguidas. Idealizei toda uma existência de felicidade ao lado daquela meiga criatura adorável ; até que um dia, já não podendo resistir ao desejo de vê-la mais de perto, aproveitei-me de uma casa à sua contígua, que estava para alugar, e consegui, galgando o muro do terraço, cair-lhe aos pés, humilde e apaixonado.

– Ui ! Que veio o senhor fazer aqui ? perguntou-me trêmula, empalidecendo.

– Dizer-te que te amo loucamente e que não sei continuar a viver sem ti ! suplicar-te que me apresente a que devo pedir a tua mão, e que marques um dia para o casamento, ou então que me emprestes um revólver e me deixes meter aqui mesmo duas balas nos miolos !

Ela, em vez de responder, tratou de tirar-se do meu alcance e fugiu para a porta do terraço.

– Então ?… Nada respondes ?… inquiri no fim de alguns instantes.

– Vá-se embora, criatura !

 – « Não me amas ?

– Não digo que não ; ao contrário, o senhor é o primeiro rapaz de quem eu gosto, mas vá-se embora, por amor de Deus !

– Quem dispõe de tua mão ?

– Quem dispõe de mim é meu tutor…

– Onde está ele ? Quem é ? Como se chama ?

– Chama-se José Bento Furtado. É capitalista, comendador, e deve estar agora na praça do comércio.

– Preciso falar-lhe.

– Se é para pedir-me em casamento, declaro-lhe que perde o seu tempo.

– Por quê ?

– Meu tutor não quer que eu case antes dos vinte anos e já decidiu com quem há de ser.

– Já ? ! Com quem é ?

– Com ele mesmo.

– Com ele ? Oh ! E que idade tem seu tutor ?

– Cinqüenta anos.

– Jesus ! E a senhora consente ?…

– Que remédio ! Sou órfã, sabe ? De pai e mãe… Teria ficado ao desamparo desde pequenina se não fosse aquele santo homem.

– É seu parente ?

– Não, é meu benfeitor.

– E a senhora ama-o ?…

– Como filha sou louca por ele.

– Mas esse amor, longe de satisfazer a um noivo, é pelo contrário um sério obstáculo para o casamento… A senhora vai fazer a sua desgraça e a do pobre homem !

– Ora ! O outro amor virá depois…

– Duvido !

– Virá à força de dedicação por parte dele e de reconhecimento por minha parte.

– Acho tudo isso imoral e ridículo, permita que lho diga !

CONCLUI A SEGUIR…

Por Aluísio Azevedo

JÉSSICA


E eu sentado na janela de minha casa… Olhando a rua, as pessoas, os carros, algo que eu fazia toda à tarde. Foi quando uma determinada pessoa magnetizou meu olhar. Foi a primeira vez que a vi.

Lembro-me desse momento como se fosse agora. Ela estava com uma blusa vermelha, uma calça preta, e seus cabelos castanhos voavam com o vento. Linda! Como nunca eu havia visto. Talvez tenha sido amor à primeira vista, não sei.

Ela passou, olhando para frente, orgulhosa. Não me viu, mas eu a vi, até o momento em que ela entrou em sua casa. Ela era minha nova vizinha!

Fiquei confuso, pois eu, um rapaz de apenas 18 anos, que vivia a vida como louco, sem medo das conseqüências dos atos, eu estava me sentindo inferior àquela moça frágil que passou pela minha frente. Eu não estava entendendo, eu estava com medo, eu estava feliz!

Depois que ela entrou em sua casa, não tirei os olhos de lá, esperando que ela aparecesse. Mas ela não saiu de casa, e eu não saí da janela!

Fechei a janela e entrei. Já era tarde, eu estava com fome, com sono, e até com vontade de ir ao banheiro. Mas ela não saiu da minha cabeça. Fiz tudo que precisava e fui deitar. Liguei uma música, tentei dormir, mas ela não saía da minha cabeça, eu estava muito curioso para saber quem era aquela garota linda e encantadora que estava morando na minha rua. Uma hora, duas horas, três horas, e eu não conseguia dormir. Nunca havia acontecido algo assim comigo. Só peguei no sono depois das cinco horas. Sorte minha que era domingo!

Acordei uma hora da tarde, tomei banho, fui para o quarto, eu nem lembrava da garota! Foi quando eu saí do quarto e fui até a sala e eu a vi, na sala da minha casa, conversando com minha irmã. Eu fiquei assustado de certo modo. Fui até a cozinha e perguntei a minha mãe quem era a garota que estava conversando com Julie, minha irmã. Ela disse que era a filha dos padrinhos de Julie que haviam se mudado para a rua.

Eu só a conheci quando ela tinha cinco anos de idade. Eu não me lembrava da pequena Jéssica. A menininha chata e arrogante que atordoava a minha vida. E que eu odiava.

Fui até o quintal, cumprimentei os pais dela. Fui até a sala, fui direto a ela, olhei em seus olhos azuis brilhantes e disse “Oi!”, ela respondeu o meu cumprimento e completou:

“Você é patético!”.

Eu ri, e ela me olhou séria. Eu pensei que ela estivesse brincando, mas ela me olhou com nojo, virou a cara e voltou a falar com a minha irmã. Eu realmente fiquei sem entender nada.

Minutos depois chegaram dois amigos meus, Jonathan e Victor. Me “convocando” para sair com o pessoal. Eu fui. Contei a eles sobre a garota. Eles acharam tudo uma idiotice, o que realmente era verdade! Bebi muito naquele dia, tentando descobrir o porquê de ela ter me tratado daquela maneira! Cheguei em casa, deitei e dormi.

Conseqüentemente faltei aula. Quando acordei perguntei a minha irmã o porquê daquele tratamento que a Jéssica teve comigo. Ela riu e disse:

“Nada não! Só falei um pouco de você para ela…”.

Naquele momento meu maior desejo era matar a minha irmã.

Não adiantava eu falar com Jéssica, ela não queria falar comigo, só por aquelas besteiras que minha maldita irmã falou!

Mas era infantil da parte dela não querer me ouvir. Parecia que minha “fama” de cafajeste era doença contagiosa!

E a cada dia que passava aquela sensação estranha aumentava. Eu não conseguia mais beijar ninguém. Eu não saía de casa. Eu só pensava nela, em beijá-la, abraçá-la, olhar em seus olhos e dizer “Eu te amo”, amaciar seu cabelo, só isso, não precisava mais nada.

Eu ligava para ela, ouvia a voz dela dizendo “Alô!” E desligava. Eu não conseguia falar com ela. Era estranho, logo eu que sempre fui tão atrevido, sem medo dessas coisas! Sempre era assim.

E foi assim por seis meses. Até o dia em que decidi falar com ela. Foram seis meses de preparação para me declarar sem nem saber se eu era correspondido! Ela estava passando em frente a minha casa, chamei por seu nome, e ela fingiu não ouvir. Fui até onde ela estava e puxei-a para dentro de minha casa a força. Fui covarde, mas eu estava desesperado!

Olhei para ela, quase não tive coragem de dizer, meus olhos lacrimejaram. E eu comecei a dizer:

“Pareço idiota! Aliás, sou idiota! Perdoe-me por isso, eu não escolhi, mas eu sinto algo muito forte por você, eu só quero que você entenda, não precisa dizer que sente o mesmo, pois eu sei que não sente, só entenda! Estou desesperado! Com medo! E louco por você! Jéssica eu realmente te amo!”.

Ela me olhou com ódio, mas ao mesmo tempo com dor! Era como se ela sentisse ódio de algo, que não era eu. E dor por ouvir aquilo! Ela pediu para ir embora, eu abri a porta e a deixei sair. Ela saiu, olhou para trás e disse: “Desculpa, não é você, sou eu!”,

E foi…

Eu não entendia nada mais. Fiquei cuidando ela até entrar em casa. Foi quando vi algo estranho, seu pai a pegou com força pelo braço e puxou para dentro de casa. Eu pensei naquela cena por dias. Pois não a vi mais.

Eu estava totalmente diferente, totalmente inferior, totalmente isolado, totalmente esquecido por todos. O amor chegou a mim com muita força e me derrubou. Eu sofri muito!

Alguns dias depois recebi uma carta. O papel estava sujo e a letra estava tremula. Era da Jéssica. Era uma pequena carta:

“Alex, dói muito escrever algo assim, eu sei que você gosta de mim há muito tempo, também gosto de você, mas eu não poderia levar isso em frente. Estou com muitos problemas. É meu pai. Ele me trata diferente. Você me entende? Eu não suporto mais. Minha mãe não acreditou em mim, tive medo de contar para outras pessoas. Você é a primeira pessoa que ficará sabendo disso. Por favor, não me julgue pelo que fiz, não é minha culpa, mas era a única forma de escapar disso tudo. Eu não quis me envolver com você porque meu pai não poderia ficar sabendo, senão ele me matava. Prefiro eu acabar com a minha própria dor. Não se esqueça de mim. Amei-te muito! Perdoe-me! E me entenda! Adeus!”.

Eu não estava conseguindo entender! Eu não estava acreditando! Naquele mesmo momento minha irmã chegou em casa chorando.

Haviam encontrado Jéssica, em seu quarto, com uma corda em seu pescoço, morta!

A primeira coisa que senti foi dor, a segunda foi ódio! Fui até a cozinha, peguei uma faca, a maior, e fui até a casa de Jéssica. Jéssica estava lá! Mas o ódio era maior que a dor! Chorando, cheguei até o pai dela, e acertei. Foi por instinto! Eu não conseguia parar de acertar ele. Ninguém conseguia me parar. Eu tinha muito ódio! Eu a amava!

Ele morreu, estou numa cela, mas não estou arrependido, fiz o que deveria ter feito!

A carta não modificou a minha pena. Mas isso não importa! Ela já se foi. E eu ainda não a esqueci! E nunca esquecerei da última vez que a vi, e da última coisa que me disse “Desculpa, não é você, sou eu!”, essa frase se repete várias vezes em minha cabeça.

A linda garota dos cabelos castanhos ao vento e dos olhos azuis brilhantes que tinha sentimentos secretos que ninguém sabia! A linda Jéssica! Já se foi!

Por Channe Mikea

GAROTA DOS OLHOS DE ESMERALDA


Vejo teus cabelos se moverem. Estou aqui, sentado a poucos metros de ti. Posso ver cada fio, cada cacho, cada tom de dourado tocando levemente as tuas costas. Posso quase senti-los, macios entre meus dedos. Por que não me notas?

Estás sorrindo. Queria fazer-te rir também. Ficas tão linda rindo… Isso é redundante. Ficas linda de qualquer maneira. És linda. Eu poderia levantar e dizer-te isso. Dizer que te amo há tanto tempo que nem me lembro. Dizer que te ver é o único motivo para eu estar aqui todos os dias. Dizer que te desejo mais que qualquer um poderia te desejar. Por que não me notas?

Levanto-me. Aproximo-me. Sinto teu perfume. Por um instante meu corpo fica mais leve, como se fosse flutuar, mas não posso fechar os olhos agora e perder-me. Não desta vez. Tenho que ser forte, tenho que te encarar e expor esses sentimentos que há tanto me atormentam. Estou a alguns centímetros de ti. Posso ver em detalhes os teus ombros, as tuas costas, a tua cintura. Por que não me notas?

Dou alguns passos e fico em frente a ti. Estás conversando descontraída com uma amiga. Fico alguns segundos tomando coragem para chamar teu nome, para finalmente ser notado. Levanto os olhos devagar. Vejo teu queixo, teus lábios, teu nariz e… Toda a minha coragem se esvai em menos de um instante. Teus olhos me encaram. Verdes. Belos como as mais belas esmeraldas. Atravessam-me e invadem-me. Tudo ao meu redor parece desaparecer. O tempo ou o espaço já não existem. Teus olhos são tudo o que eu vejo e sinto

És uma feiticeira? Um anjo? Um demônio? Não és humana, não podes ser. Mas isso não importa. Eu te amo. Quero gritar essas três palavras o mais alto que eu puder. Eu te amo, eu te amo, eu te amo! Quero segurar-te em meus braços, acariciar teu rosto, beijar-te

Mas não consigo gritar, não há ar em meus pulmões. Tento me mover, mas estou completamente entorpecido. Demoro um pouco para notar: há lágrimas em teus olhos. Por que choras? Por favor, diga-me… Farei o que for preciso para livrar-te dessa tristeza. Dar-te-ei todo o meu amor, toda a minha vida, apenas para te ver sorrir novamente

Tuas pálpebras começam lentamente a se fechar. Meu corpo recupera o movimento, posso novamente respirar. O espaço ao meu redor parece voltar a se preencher de cores e sons. O tempo volta a existir. Dou um passo em tua direção. Sem teus olhos para me enfeitiçar, consigo novamente ver teu rosto e teu corpo. Tento tocar tua face, mas minhas mãos a atravessam. Tento abraçar-te, mas tudo o que sinto é o ar. Estás desvanecendo, deixando-me sozinho neste mundo frio.

Ajoelho-me e começo a chorar. Não posso viver em um mundo sem ti, sem tua beleza para trazer luz à minha vida, sem teu sorriso para me aquecer, sem a esperança de que um dia tu me ames e eu a tenha em meus braços. Fecho os olhos, desolado.

Nas profundezas da minha mente, uma voz começa a ecoar. É apenas um sussurro, que aos poucos vai se tornando audível. Reconheço o doce som da tua voz, dizendo apenas: “Encontre-me”.

Abro os olhos, estou em minha cama. Foi tudo um sonho. Por alguns segundos reflito, e a imagem dos teus olhos retorna ao meu pensamento. Sorrio. Sinto-me feliz como há muito tempo não sentia. Sei que tu existes e sei que tu me amas. Vou encontrar-te, aonde quer que estejas, garota dos olhos de esmeralda.

Por  Guilherme Gurgel