A LOIRA E O PORTUGUÊS INTERNAUTA


Um português viciado em internet ficou preso em uma ilha deserta uns dez anos, depois de um naufrágio.
Um belo dia ele avista um ponto brilhante no horizonte e fica acompanhando com o olhar.
-“Não parece um navio”, pensa o nosso amigo.
O ponto continua se aproximando.
-“Nem é uma barcaça”.
Passado mais um tempo…
-“Não é um barquinho também”.
De repente, sai das águas uma loira escultural, vestida com uma roupa de mergulho. A mulher tem um corpo digno de posar nua para a revista playboy, sem precisar de retoque com o photoshop.
Ela encontra-se com o náufrago e pergunta:
-Quanto tempo faz que você não fuma um cigarro?
-Uns dez anos…
Ela abre um bolso no interior da roupa de mergulho, que é impermeável, e lhe dá um cigarro. O português que era fumante convicto:
-Meu Deus, que bom que isto é!
-Quanto tempo faz que você não toma um whisky?-pergunta a loira.
-Pelo menos 10 anos.- responde o internauta português.
Então ela abre outro bolso interior, tira uma garrafinha de whisky.
Ele bebe tudo de uma só vez, mesmo sem acreditar muito no que estava acontecendo, mas muito, muito feliz!
Então a loiraça começa a baixar o zíper da roupa de mergulho e pergunta:
-E quanto faz que não você não se diverte de verdade(!)?…
Aí nosso internauta português náufrago endoida de vez. Começa a pular e grita, louco de felicidade:
-Não Acredito! Não vais me dizer que aí dentro você tem um notebook com internet?!…

Por Anônimo

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O ESPELHO


ESBOÇO DE UMA NOVA TEORIA DA ALMA HUMANA

Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.

Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão era a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:

— Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.

Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão, tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade de questões que se deduziram do tronco principal, e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião — uma conjectura, ao menos.

— Nem conjectura, nem opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas…

— Duas?

— Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; — e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior daquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. “Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração.” Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma…

— Não?

— Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora — na verdade, gentilíssima — que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a Rua do Ouvidor, Petrópolis…

— Perdão; essa senhora quem é?

— Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se Legião… E assim outros muitos casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos…

Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a ama da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que concerta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a narração:

— Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que estes perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos… Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o “senhor alferes”. Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o “senhor alferes”, não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples… Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom…

— Espelho grande?

— Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o “senhor alferes” merecia muito mais. O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?

— Não.

— O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?

— Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.

— Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos; os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando.* Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado, e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes de minuto a minuto. Nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.

— Matá-lo?

— Antes assim fosse.

— Coisa pior?

— Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo, nada, ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinham saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; e à tarde comecei a sentir uma sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século, no velho relógio da sala, cuja pêndula, tic-tac tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei com este famoso estribilho: Never, for ever! — For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: — Never, forever! — Forever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma… Riem-se?

— Sim, parece que tinha um pouco de medo.

— Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: — o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me, orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono, a consciência do meu ser novo e único — porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar… Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir?* Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como a tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne… Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.

— Mas não comia?

— Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. Às vezes fazia ginástica; outras dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac…

— Na verdade, era de enlouquecer.

— Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias, deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. — Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado… Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos… Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me… Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéia…

— Diga.

— Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento… Não, não são capazes de adivinhar.

— Mas, diga, diga.

— Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e… não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão, sem os sentir…

Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.

Por Machado de Assis

O ESTUDANTE


– Marisa desliga esse rádio!! – gritou ele, e não obteve resposta.

– Merda !! – praguejou.

Ele se levantou do sofá, caminhou até uma parede da sala, abriu uma porta e desceu uma pequena escada chegando a uma porta blindada de 30cm de espessura, que servia de entrada para o abrigo nuclear de sua casa.

– Que desperdício de grana!! – dizia a si mesmo enquanto digitava o código de abertura da porta.

Lá dentro ajeitou seus livros e logo depois voltou à porta para digitar o código de fechamento.

– Tanta coisa mais importante para se fazer e o cara constrói um abrigo nuclear subterrâneo – criticou o pai.

Ele apertou uma seqüência de números no painel e a porta pesada, silenciosamente se fechou. O som do rádio de sua irmã foi silenciado pelo isolamento e luzes automáticas se acenderam.

– Quanta baboseira ! – dizia ele a si mesmo, enquanto olhava tudo à sua volta mais uma vez – “Gás de hibernação”, que ridículo! “Alimentos desidratados e congelados”! É demais! – ele olhou tudo e concluiu :

– Bem, pelo menos aqui posso estudar sem ser incomodado. – pensando assim, ele se dirigiu à uma das camas e acomodou-se de forma a dar prosseguimento aos seus estudos.

– Hum… Vejamos… Onde foi que eu parei?

Logo o sono veio e ele não resistiu.

– Ahm… ! – bocejou ele esticando os braços, após o longo sono

 – Caramba!! Dormi muito! – exclamou.

 Quando, passou a mão direita pelo rosto, sentiu uma grande surpresa ao descobrir que, em seu outrora liso semblante, existia agora uma espessa barba.

 – O que é isso?! – ele correu até uma das paredes onde existia um espelho, e lá comprovou o seu tato.

 – Meu Deus!! Barba!!! – seus olhos se arregalaram e se dirigiram para as luzes de controle do abrigo.

 – Gás de hibernação liberado?!? Segurança fator 4! Eu hibernei ?? O que aconteceu ???

 Ele correu ao painel de controle da porta, apertou uma seqüência de números e a porta se abriu.

 Um forte raio de luz invadiu o ambiente e ele então verificou que sua casa, outrora em cima do abrigo, lá não mais se encontrava. Seu rosto era só espanto e perplexidade. Ele subiu apressadamente as escadas e só viu os escombros de seu bairro. Sua cidade não mais existia. Seu país desaparecera, e tudo, como era de fato, não havia resistido ao que quer, que seja lá, o que houvesse acontecido. Seus olhos se encheram de lágrimas e seus joelhos fraquejaram, e ele caiu de joelhos ao chão, levou as mãos ao rosto e então olhou para o céu e disse :

 – Oh Não!! Perdi o vestibular!!

 Humberto Amaral

ELA SEMPRE PENSARÁ EM VOCÊ


Você está aniquilado?
Sente-se sozinho e abandonado?
Está convencido de que ninguém
Se interessa por você?
Acredita que ninguém está dando
A mínima para os seus problemas?
E pouco se importa se sua vida está farta ou não  ?
Você pensa que ninguém repara nos
Seus sucessos ou nos seus fracassos?
Você está errado!
Existe alguém que se interessa MUITO
Por você, e acompanha todos os seus passos.
Ainda que todos lhe abandonem,
A RECEITA FEDERAL continuará pensando em você!!!

Por Anônimo

É DIA DE ALEGRIA


É com muita satisfação que declaro a volta de Contos.br

O blog volta com a mesma política de antes com apenas uma diferença:

Agora as publicações são eventuais, ou seja, não há data certa para sairem, assim, poderei manter no ar esse blog que muita gente gosta.

Um grande abraço a todos os fãs de Contos.br

Alci Santos – Editor

PASSANDO O TEMPO


 

A comissária de bordo se dirigiu rápido à fila de poltronas que tinha o sinal luminoso aceso. Após 10 anos realizando o mesmo trabalho, já estava acostumada a atender passageiros insatisfeitos com o ar condicionado e senhoras reclamando de dores nas costas por causa da poltrona. Deparou-se com um rapaz concentrado, preenchendo sua revista de palavras cruzadas.

– Em que posso servi-lo?

O rapaz a olhou, curioso:

– Estado brasileiro, com dez letras – disse ele. Ela não entendeu.

– Desculpe… ?

– Estado brasileiro, com dez letras – ele repetiu.

Ela pensou um pouco.

– Pernambuco?- disse, com expressão curiosa.

O rapaz voltou a se debruçar sobre a revista, tocou algumas casas com a ponta da caneta.

– Isso mesmo! Muito obrigado.

– Posso ajudá-lo em algo mais? – Disse ela, seguindo o roteiro de atendimento treinado à exaustão pelas companhias aéreas.

Ele pareceu surpreso com a oferta.

– Eu não ia pedir, mas já que você se prontificou a me ajudar, aqui tem uma que está me incomodando. Está escrito “Instituto Médico Legal” e mais nada. Que raios é isso?

A comissária sorriu.

– Quando tudo o que está escrito é um nome, você deve colocar a abreviação nas casinhas… veja só… I… M… L… pronto! Viu só? Coube certinho nas 3 casinhas.

Ele se impressionou.

– Nossa!!!! Você é um gênio!

– Sou nada… é que eu faço palavras cruzadas lá na parte de trás do avião quando não tenho nada pra fazer, principalmente nos vôos longos.

O olhos do rapaz brilharam. Além de comissária de bordo ela era expert em palavras cruzadas. Lembrou-se da mãe, fanática por palavras cruzadas. Concluiu que a comissária era a nora que sua mãe gostaria de ter. Ele gostava de comissárias e a mãe gostava de palavras cruzadas. Gostou da idéia.

A comissária olhou para o livreto mais uma vez e apontou para uma das casas:

– Aqui é “SALVADOR” e você preencheu “BRASÍLIA”. Mas a descrição diz que é uma antiga capital do Brasil, e Brasília é a nova capital.

– Mas é que eu…

– E aqui também está errado. Você escreveu “PINGA”, mas a pinga não é russa. O certo é “VODKA”.

– Pô… me deixa! – Respondeu ele, nervoso. Ela continuou.

– Aqui você preenche com “CONVERSA” e naquela vertical pode colocar “ESTRANHO”.

– Caramba… me deixe terminar sozinho!

Outra comissária se aproxima e puxa a que estava ajudando. Leva-a até a parte de trás do avião e retorna em seguida.

– Senhor, peço desculpas. A comissária que estava aqui possui um distúrbio psiquiátrico e não consegue se controlar quando faz palavras cruzadas. Ela pode fazer palavras cruzadas por dias seguidos, sem sequer comer ou banhar-se. Ela já foi medicada e está dormindo na última fileira.

– Ainda bem – responde o rapaz – De agora em diante, só farei sudoku em avião. Números não atraem tanto a atenção das pessoas.

Ele abriu a bolsa, pegou um livreto de sudoku e começou a resolver uma das páginas. A comissária se abaixou, olhou atentamente e apontou para uma casa e disse:

– Olha só: Aqui vai um nove. E ali pode colocar um sete. Nesta casa aqui cabem um 3 e um 5, mas não anote ainda porque preciso verificar a vertical.

O rapaz fechou o livro e começou a chorar.

Por Ricardo Augusto Almeida

OS SOBREVIVENTES – I DE III


Do ponto onde se encontrava, ele podia ver quase toda cidade, ou o que restara dela. Não restara muita coisa, apenas alguns esqueletos daquilo que um dia fora os mais altos arranha-céus daquele país. O resto era apenas uma massa uniforme de entulhos, onde era impossível encontrar alguma coisa, que permitisse identificar o que fora aquilo, ou parte daquilo, um dia.

O espesso manto negro que cobria o céu, ainda não se dissipara totalmente, mas alguns discretos focos de luz do sol, como se fora pequenas chamas de um amarelo pálido, já podiam ser vistos em dois ou três pontos por trás das nuvens; eram poucos, apenas cinco pontinhos haviam sido mapeados em todo o planeta, sem mudança alguma nos últimos 1500 anos. Mas aquilo já representava um progresso importante, perto dos 80.000 anos de escuridão quase total de antes.

Naquele mundo quase sem cor, pouca coisa havia para se observar. As plantas eram mirradas e aquelas que eram consideradas gigantes, não mediam mais que dois palmos de altura. Suas folhas agora possuíam uma cor acinzentada, e as árvores frutíferas, além de produzirem poucos frutos, dois ou três por safra, só produziam variedades envenenadas. O ar também se tornara excessivamente tóxico, e uma neblina permanente tornava a visão de qualquer um, eficaz apenas para curtas distâncias. Para médias ou longas distâncias, todos se contentavam em apenas contemplar silhuetas difusas se esgueirando por dentre a névoa.

Com o tempo, às gerações sobreviventes desenvolveram a capacidade de se adaptar a tais condições ambientais, assim como a de enxergar na escuridão quase total. Graças a isso, ele podia enxergar a cidade do ponto onde agora se encontrava. Não estava sozinho, dois amigos o acompanhavam. Aquela cidade por muito tempo ficara de quarentena, e só nos últimos cinco anos, as autoridades haviam permitido aos sobreviventes, pouco a pouco, a retornarem para tentar recolonizar o lugar. Como ainda era uma situação incerta, o governo criara incentivos especiais para aqueles que desejassem estabelecer moradia no local. Cada um receberia um bônus alimentação, suporte à moradia, e um emprego vitalício, onde estaria garantido por toda vida, um cargo de supervisor especial da secretaria do meio ambiente.

Por Alberto Grimm