LIÇÃO SANGRENTA – 02 DE 02 – FINAL


Eram guiados por aquela mulher alta que mordia e puxava as tranças para não gritar de dor. Tinha a pele branca e o coração generoso. Mas era um homem ou uma mulher?

O curandeiro, que se esforçava por extrair a bala, tinha 50 anos e há quarenta que tratava dos combatentes. Fabricava medicamentos e sabia curar as feridas. Toda a espécie de feridas.

Seria ele ou esse desejo ardente de viver que curava as feridas? Seria a mão do curandeiro ou o desejo de vingança e a sede de liberdade que restabelecia os homens?

Ele pensava as feridas, rasgava camisas velhas e com elas fazia ligaduras para estancar as hemorragias. Sabia extrair as balas embebidas na carne por meio de uma pinça aquecida ao rubro. Contudo, nunca pegara numa espingarda e isso pela boa razão de que era o curandeiro. Toda a gente o conhecia como tal.

Tinha cinquenta anos e nenhum estrangeiro lhe chamara ainda “bace” (nome que se dá aos que têm um mérito especial, unanimemente reconhecido), enquanto que todos os combatentes do destacamento chamavam por esse nome a doente que mordia as tranças, que era ainda jovem e que além disso era uma mulher. Estas ideias atravessavam

o espírito do curandeiro enquanto suava suor e sangue.

A mulher tinha a carne rija e aquela carne disputava a bala à pinça do curandeiro. Dir-se-ia que era gulosa por chumbo e pólvora, como se ela própria se tivesse tornado chumbo e pólvora.

Enquanto Sadri pensava nos sofrimentos daquela mulher, o curandeiro continuava torturado pela dúvida.

“Não é uma mulher”, dizia para si próprio. “Tem tranças compridas como usavam antigamente os nossos avós. Não pode ser uma mulher.”

Tinha iniciado o seu ofício de curandeiro com a idade de dez anos mas nunca vira uma mulher assim. Nenhuma poderia suportar tais dores. Como poderia aquela ser uma mulher? Lembrou-se então da história que o pai lhe havia contado a respeito de um combatente que tinha sete ferimentos. Não gemia, não se debatia na cama, apertava os punhos ao ponto de fazer esta- Jar os ossos enquanto as lágrimas lhe corriam silenciosamente pela cara.

– Era um verdadeiro homem, dissera-lhe o pai. Era inútil amarrá-lo, estava ali, quieto e não gritava. Pensa neste exemplo, meu filho, dele poderás tirar ensinamentos. O pai era médico e fixara-se ainda jovem naquela região. Quanto a ele, não pudera estudar porque não havia escolas para isso. Tornou-se portanto curandeiro. Até aquele momento nunca ouvira falar de ninguém mais forte a suportar a dor do que o homem evocado pelo pai, mas agora era obrigado a admitir que aquela mulher suportava muito mais que ele.

A mulher abriu os olhos e viu o rosto do curandeiro debruçado sobre a ferida.

– Deves tirar a bala, disse ela outra vez. É difícil combater a arrastar a perna. As crianças esperam-me e, além disso, a guerra não espera.

Mas ele não conseguia extraí-la. Esforçava-se o mais que podia mas nada conseguia. A bala parecia enterrar-se na carne ainda mais profundamente.

“Uma mulher”, disse o curandeiro para consigo, “ouvi dizer que uma mulher em qualquer sítio da França se pôs à frente do seu povo e combateu como um homem, mas os feudais mandaram-na queimar. Diziam que era uma feiticeira e morreu como o meu pai me contou”.

A ferida agitou-se um pouco e abafou com dificuldade um gemido.

Sadri tocou no ombro do curandeiro com a espingarda.

– Não temos tempo a perder, disse. Os estrangeiros vêm cá amanhã. Temos de partir ao amanhecer.

– Faz o teu trabalho, curandeiro, gritou Neki. Faz o teu trabalho e tira a bala. Já a torturaste bastante.

O curandeiro de novo se debruçou sobre a chaga, com a pinça na mão.

“Pelo menos não vai morrer?” perguntava o curandeiro a si próprio.

“Vai morrer”, pensou ele. “A bala não quer sair porque é uma mulher que se atreveu a tornar-se homem. O tempo está contra ela.”

O curandeiro atirou com a pinça e pousou no punho o queixo inundado de suor. Olhou para o berço que baloiçava ainda, rolando os olhos como um pássaro assustado, branco como um lençol.

“No fundo, pensava ele com compaixão e com medo, bastava-lhe ter ficado em casa a embalar o berço.”

– Não consigo tirá-la, disse em voz alta.

Os homens olharam-no enraivecidos. A ferida voltou a sentar-se e tirou o revólver de calibre grosso de baixo da almofada. A arma parecia pesar-lhe na mão.

Os homens calaram-se, preocupados.

“Ela tem razão”, pensou Sadri, “ele torturou-a durante horas para nada conseguir”.

Os olhos de Neki brilhavam de ódio.

– Este maldito homem não tem piedade, parecia dizer o seu rosto magro. Carrega no gatilho e acaba com este canalha!

O curandeiro, com a cara banhada em suor, não pensava no seu fim. Durante quarenta anos tratara das pessoas com as mesmas pomadas e unguentos por ele fabricados e curara-as todas. Por que razão o haviam de matar agora? Tratava de toda a gente, albaneses ou não, e encontrava-se entre as duas partes, vivendo ora das chagas de uns, ora das chagas dos outros.

Era um emigrado, foi talvez a primeira vez que se arrependeu disso e que maldisse os pais por se terem ido fixar naquela terra.

A mulher segurava a arma na mão e o curandeiro sabia que ela nunca falhava o alvo.

– Tens cinquenta anos, se não me engano, disse a doente ao curandeiro.

– Cinquenta anos, “bace”, disse o curandeiro estremecendo e pronunciando a palavra “bace” contra sua vontade.

– Cinquenta anos é muito e é pouco, disse a mulher, para ti é muito pouco.

– É pouco, disse ele a medo. Quero viver.

– E não aprendeste nada, acrescentou a mulher.

Os homens calavam-se, apenas a mulher falava com voz calma e tranquila e aquela calma parecia abafar o curandeiro.

– Quanto a nós, muito cedo aprendemos uma coisa, continuou a ferida. Aprendemo-la quando ainda estávamos no berço: a bala chama a bala, curandeiro.

“Que me vai ela fazer?” perguntava ele a si próprio. “Matar-me-á como a um simples coelho? Serei morto por uma mulher?”

Todos estavam mudos. A mulher fez um gesto como se quisesse coçar a perna com o revólver.

– Olha, disse ela dirigindo-se ao curandeiro.

Este virou a cabeça, a medo, e viu com espanto que ela tinha colocado o cano da arma sobre a ferida.

– Olha, disse ela mais uma vez. A bala chama a bala!

Carregou no gatilho, ouviu-se uma detonação abafada e o curandeiro julgou que estava morto.

As balas deslizaram sobre a barriga da perna. Dir-se-ia que se tinham reconhecido e caíram ambas no mesmo buraco do assoalho.

O curandeiro piscou os olhos, os dois homens armados pareciam pregados ao chão.

– Acabou-se, disse ela. Pensa-me a ferida, temos um longo caminho a percorrer.

                                                                        * * *

 Nessa manhã, cinco pés caminhavam sobre o empedrado da ruela estreita da aldeia. Uma mulher apoiava-se sobre os ombros sólidos de dois homens de porte imponente e andava sem se queixar. Tinha passado os braços sobre os ombros de dois dos seus camaradas, dois irmãos de cabelos loiros como o trigo do campo que atravessavam.

Por Faik Ballanca

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LIÇÃO SANGRENTA – 01 DE 02


O sol declinava num céu esbraseado. Marchavam a passo certo na rua estreita da aldeia. Apenas cinco pés assentavam no chão. A mulher que tinha posto a espingarda a tiracolo, com o cano virado para baixo, trazia calças de montanhês e apoiava-se sobre os ombros sólidos de dois homens de alta estatura.

– Por aqui, disse Sadri atravessando um campo.

– Mais um pouco de paciência, disse um deles com simpatia, estamos quase a chegar.

Retomaram a marcha sustendo a mulher que sofria sem se queixar.

A bala penetrara na barriga da perna e não tinham conseguido extraí-la. Levavam-na agora para um local seguro onde a poderiam tratar sossegadamente.

Na casa que se encontrava na extremidade da aldeia, estenderam suavemente a mulher em cima de um cobertor que a mãe de Sadri tinha trazido. Todos a observaram durante bastante tempo.

– Estás melhor? perguntou um deles.

A mulher baixou a cabeça dando a entender que o ferimento continuava a fazê-la sofrer, mas não disse uma palavra.

– Vou chamar o curandeiro Ahmet, disse Sadri. Havemos de conseguir extrair o projétil.

Enquanto saía, o outro homem, que se chamava Neki, pegou na espingarda e começou a montar a guarda.

– Dá-me de beber, disse a ferida em voz alta. Sentou-se e tirou o grande revólver que trazia no bolso. Era um revólver de calibre grosso, que parecia pesar nas mãos de uma mulher, uma relíquia de ferro, do marido que tinha sido morto.

Pegou no copo de água e entornou uma parte em cima da ferida, com o resto refrescou a cara e escondeu o revólver debaixo da almofada, Aquela arma recordava-lhe o marido, por isso a tinha sempre ao alcance da mão.

Quando o curandeiro entrou no quarto, quis -se levantar, mas Sadri impediu-a de o fazer.

– Não irrites a ferida, disse ele. Ainda temos uma boa porção de caminho a percorrer e não há cavalos. Os camponeses não podem ajudar-nos. Na aldeia não há homens

nem cavalos. O inimigo levou tudo.

A mulher deitou-se outra vez de costas e pôs-se a observar um berço pendurado no tecto por uma corda. Nunca embalara um berço e, contudo, tinha nove filhos. Eram nove órfãos cujos pais haviam sido mortos em combate. Era a eles que dava a sua ternura maternal.

Queria curar-se e voltar a combater. Não chorava de dor, não sabia chorar porque tinha o peito grande e tranquilo como o peito de uma mãe que dá vida.

A paciência desta mulher espantava o curandeiro.

Neki balançava nervosamente o berço. Sadri percorria o quarto em todos os sentidos, a velha tinha os olhos cheios de lágrimas.

– Xherah (1), disse a mulher, acaba depressa o teu trabalho.

Este curvou-se sobre ela e, com uma pinça de ferro aquecida ao rubro, tentou retirar o projéctil. O cheiro sufocante da carne queimada invadiu o quarto. A mulher pensava nos pequenos órfãos.

Neki continuava a balançar o berço. Era um berço vazio, como dezenas e centenas de outros berços de Kosovo. Porque as crianças já não ficavam nos berços e as mães já não tinham tempo de as criar.

O curandeiro esforçava-se o mais possível mas não conseguia esconder o seu espanto.

“Esta mulher, pensava ele, não pode ser uma mulher. É mais corajosa a suportar a dor do que um homem. Deve haver qualquer coisa escondida por trás daqueles compridos cabelos negros.”

Teria dado tudo para tirar aquilo a limpo. Aquele mau pensamento torturava-o tanto como a pinça torturava a mulher.

“Ela vestiu-se assim para não ser reconhecida”, pensava ele.

Todos conheciam aquela mulher. Todos sabiam que era ela o chefe daquele destacamento, mas muitos pensavam que o espírito do marido revivia nela. Era essa de resto a opinião do curandeiro.

Durante anos, guiara valentemente aqueles homens e ninguém sabia então que o marido tinha morrido. Os homens partiam ao assalto gritando o nome do marido e aquela mulher não disse uma só vez que estava cansada de combater.

O nome do marido semeava o pânico por entre o inimigo, mas era a mulher que lutava, que guiava os homens no combate e que criava os filhos dos que tombavam na luta.

– Puxa a trança, disse o curandeiro. Puxa com força para não sentires a dor. Tem paciência.

Ela, entretanto, recordava-se de como tinha sepultado o cadáver do marido dentro de um poço natural, enterrando-o profundamente para que o inimigo nunca pudesse encontrá-lo. Para que o inimigo vivesse sempre no temor do seu nome.

– Se tens força, dissera-lhe ele, combate.

E ela combatia ainda e talvez melhor do que o seu homem.

– Tira essa bala maldita, gemeu a ferida.

– Puxa a trança, disse o curandeiro banhado em suor, puxa com força.

E admirava-se ao ver que aqueles cabelos não ficavam nas mãos da mulher.

“Será realmente uma mulher?”, pensava ele. “Neste caso, todos os qualificativos já nada representariam visto que a mulher seria mais forte que o homem.”

Neki continuava a balançar o berço, com os olhos fixos na ferida. Ninguém sabia atirar com a precisão desta mulher. O marido, cuja pontaria era famosa em toda a região, nunca se media com ela.

“Livra-te de me desafiar, dizia ele à mulher, serias capaz de me ridicularizar. Mas ela media-se com todos e ganhava.

Neki vira-a uma vez acender com uma bala um cigarro que alguém tinha posto em cima de um rochedo.

Há anos que ela comandava um destacamento de homens aguerridos e corajosos.

Neki continuava a balançar o berço vazio pendurado do tecto.

Aqueles homens reuniam-se à noite e partiam ao ataque. Lutavam contra os estrangeiros pelos seus lares e pela sua honra e era aquela mulher que os guiava no combate.

E não se queixava..

Por Faik Ballanca

O IGARAPÉ DO INFERNO – 18 DE 18 – FINAL


Manuel Bastos, entretanto, piorou e entrou em coma. Um dos seus últimos momentos lúcidos foi perguntar por seu gravador. Ele queria dizer algo, como que fazer um depoimento. Mas logo nada conseguiu falar e desfaleceu, sendo levado para o hospital.

Depois de sua morte não mais se ouviu falar dos depoimentos chamados por ele de “O igarapé do inferno”.
Aquelas páginas datilografadas ficaram esquecidas na gaveta de uma cômoda até que ser comprada pelo autor dessas linhas em 1972.
Na realidade, abandonei o incômodo móvel numa casa alugada na rua Prof. Eurico Rabelo, perto do rio Maracanã, que não existe mais.
Os textos permanecem comigo, até hoje.
Com Manuel Bastos morreu o último remanescente daquela época.
O Palácio Manixi desapareceu na floresta completamente. Hoje é difícil localizá-lo. As ruínas daquela construção talvez ainda estejam lá.

O relato de Benito Botelho, que o viu pela última vez, diz:
“Súbito, na margem do rio, apareceu uma mulher vestida de verde que dançava na parte elevada do terreno e com o braço erguido sustentava um vaso de onde partia uma seringueira já crescida. O tronco da árvore passava por trás da estátua de mármore agora verde que D. Ifigênia Vellarde tinha trazido da Europa no fim do Século passado.

ATRÁS daquela mulher congelada estava – magnífico, supremo, inominável, majestoso – o Palácio Manixi!
TINHAM chegado ao Manixi. O choque era alucinante e belo.
Das janelas abertas saíam grossos e longos galhos de árvores frondosas, nascidas por dentro, e assim parecia que o Palácio tinha criado asas e ia começar a voar.
O Palácio se cobrira de uma pátina de beleza extraordinária, de uma vitalidade monumental – estava ali, vivo, lavado, enlouquecido marco de seu tempo.

Era um santuário, dominava o ambiente, um templo antigo, perdido no meio da floresta, de uma outra era. Toda a luz ao redor irradiava dele, de uma civilização de um outro século, de um outro mundo desconhecido, limite vivo do luxo e do esplendor da borracha do fim do Império.

A floresta avançava contra ele, construindo um estranho cerco sobre a moldura e irisação de sua arquitetura antiga coberta de cipós e de galhos de uma folhagem abundante que vinham de dentro dos salões requintados e criavam a aura de um extasiante espetáculo.

 A lancha aportou e Benito desceu e se aproximou da escadaria de mármore. Uma cascavel se recolheu por baixo das pedras soltas da guarnição.
Ali estava todo o passado da Amazônia, sobre os degraus cobertos de folhas secas, sobre o fino e florido gradeado de ferro carcomido e enferrujado.

A porta estava aberta. Do pórtico, Benito viu, no meio do amplo salão, sobre o chão de tábuas corridas cobertas de plantas e a ruir, intacto, nobre, faústico, o reduzido piano de cauda Pleyel de Pierre Bataillon. Era a única peça do aposento, o único móvel que ficara e ali estava, abandonado, fechado, reprimido, sufocado, em silêncio, como após um concerto, quando se apagam as luzes e o teatro fica vazio e despovoado.

MAS todos os suntuosos fantasmas exsurgiam dali. Toda a História desfiava o seu curso. O tempo ali se congelava, inerme, no meio dos amplos salões, desaparecendo ao longo daqueles mesmos corredores, escorrendo ao longo das paredes pesadas de estuque, lúgubres, de uma decoração barroca. Eram seres invisíveis que despontavam, uma vez mais, arrastando longos e pesados vestidos de veludo verde, envergando reluzentes casacas, esquálidos, saídos daquele sepulcro do luxo daquele tempo, através daqueles amplos espaços povoados de símbolos, dentro daquela enorme construção de um outro mundo, do fim de um mundo de onde todos tinham fugido, povoado de demônios, culpados, expiando suas culpas mortas.

E à noite desfilavam, ao longo daqueles corredores, através da seriação de janelas e portas, refletindo suas sucessivas silhuetas nos espelhos apagados, misturando-se com figuras pintadas nas paredes, e famintos, gélidos, sem ousar sair ao jardim abandonado, aquém do porto as ornadas figuras de fino e feroz olhar que não permitiam a ninguém penetrar naquele santuário do desperdício da riqueza antiga e condenada, ninguém pudesse subir aquela escadaria e atravessar aquelas salas além daqueles mármores trazidos há incontáveis anos para ladear-se com o cinzento e o estilizado. Era como se dissessem: “Desaparecei!”. Ou como se ameaçassem: “Afastai-vos!”.

E à noite a figura do antigo e descamado dono poderia ser vista, através das janelas, como se o iluminasse uma catedral, mostrando-lhe a face horrível e desesperada, os olhos mergulhados no escuro, à procura de algo, à procura do tempo, à procura de si – e passando sem que ninguém o visse na sua infinita miséria. “E todo o esplendor daquele luxo antigo era uma torturação sinistramente mergulhada na destruição de um império ali por fim silenciado”.

Por Rogel Samuel

O IGARAPÉ DO INFERNO – 17 DE 18


– Sim, vida, vida. Fecundada vida! Erotizada vida! Mas vida é o que peço nesses meus últimos momentos. Pois foi a vida, da vida, ela que me fez viver durante tanto tempo neste meu corpo hoje tão perto da morte. O quê? Sim sim, mas ainda posso viver muitos anos… Muito mais do que você, menino! Ainda sinto, ainda sinto. Mas sinto. Se aperto doem. Isto tudo vai acabar comigo, um dia desses, vai. O novo remédio está atuando. Mas não se assuste menino, ainda estou vivo e continuo contando e terminando, ah, ah, ah, não. A vida é minha, a noite é minha, com as estrelas. Passo as noites fora, sabe, depois que você dorme, eu saio. Ninguém me controla. Não! Eu quero e mereço. São talvez nas últimas noites de minha vida, talvez, mas as quero, as mereço, eu as quero e mereço. Gosto de andar, sobretudo de noite. Nas ruas escuras e desertas.
Eu estou morrendo e vem você perguntar se não tenho medo de ser assaltado!
Conto é continuo. Conto. Como no meu Amazonas. Como naquele dia do ataque dos Numas à aldeia Caxinauá. Mas tenho de atar as peias para poder explicar umas coisas fundamentais. Estou confuso. Sim, sim…
“Querida mamãe:
“Um fato extraordinário aconteceu: meu patrão, aquele velho que eu disse para a senhora que estava para morrer, de repente melhorou com um novo remédio e já sai de casa sozinha e à noite, sem que ninguém saiba para onde ele vai.
Dizem até que ele vai visitar uma casa de mulheres, que está aqui perto, ou que ele voltou a beber nos bares que ficam abertos por aqui.
Ele é muito corajoso, pois a Lapa é muito perigosa durante a noite e ele tem chegado por volta de 3 horas da manhã, e aí passa quase todo o dia dormindo.
Mas ele me disse que vai continuar a me contar aquela estória que eu estou gravando para ele, chamada “O igarapé do inferno.
Eu fico preocupado, pois se ele parar de gravar eu fico sem ter o que fazer no apartamento, e posso perder o emprego.
Ninguém sabe o que ele vai fazer se continuar a melhorar com o novo remédio que está tomando.
Espero que a senhora esteja bem, junto com todos.
João Manuel”.

Conclui a seguir…

Por Rogel Samuel

O IGARAPÉ DO INFERNO – 16 DE 18


Durante anos não choveu. Oh, oh, tá espantado? Susto? Oh, oh, oh, esta é uma garrucha antiga, não funciona mais. Peça de museu. Como eu. Já vivi demais. Estou morrendo, ah, ah, ah. Muito aprendi com a lição da vida. Não tenho a quem deixar esta lição senão a você, a este gravador. Falo com as paredes, falo com um gravador? Você é um gravador, menino?

Ah, ah, vê lá, muda a fita, ótimo, ótimo, você é perfeito, vou contratar você como meu ouvinte exclusivo, com bom salário… O quê? Se sou rico? Já fui, menino. Já fui muito rico. Como vê este apartamento velho não é de ouro. Você é ingênuo, meu menino, ingênuo e bobo. Vou te ensinar, bem que vou, vou te dizer umas coisas, sabe? Você vai ficar logo esperto, você não sabe com quem está falando, você vai ver. Tá com medo? Ah, ah, ah, mas que, sou apenas um velho, você é o neto que não tive. Viu como o chofer te tratou? Era o vovô com seu neto, todo mundo viu, tá? Ah. Ah.
Deixa eu te contar, deixa. Sim e sim. Aquela casa era cercada de chão de tabatinga. Tinha duas entradas: uma que dava para o igarapé, e era aquilo de se ver, bonita, imponente. A outra dava para a mata. Não havia nada plantado ali. Porque naquela terra não se pode plantar nada, sabe? As saúvas vêm tirando logo. Aquelas saúvas matavam tudo.

Não. É impossível acabar de todo com as saúvas da Amazônia. Só bomba atômica. Você destrói um formigueiro aqui e ali e ao redor todos. Mas certa noite você ouve um crepitar de fogo: são elas, as filhasdaputa!, vorazes, saúvas em correição, vindas de qualquer lugar e já destruíram tudo, tudo tudo, todo o trabalho de um mês um ano, toda a comida que você esperava comer e todo o dinheiro que você esperava receber depois de trabalho. Uma merda! Ali você tem de virar índio. Que povo, aqueles índios!Eu, meu filho, já estou cansado e morro feliz, passei todos aqueles anos lutando, o povo que se trate de defender, é melhor, quebrei a cabeça durante todos esses anos todos – sabe? Político?! Fui deputado! – mas sim, sim, vamos à nossa estória que você está aqui para isso, e eu tirei você de seus cuidados, oh, que lá sua vida era melhor do que viver aqui nessa sala escura, cheirando a mofo e morte, onde vivo.
Pois foi assim mesmo que o digo, eu, o narrador.
Vou mais, sigo. Por muito tempo ainda tenho o que contar. A peripécia mal começou. Fique sossegado. Pois o melhor ainda está por vir.

CONTINUA…

Por Rogel Samuel

O IGARAPÉ DO INFERNO – 15 DE 18


– A Curva do Tucumã era ali, disse ele.
Todos olharam em silêncio respeitoso.
– Além daquela ponta era o território numa. Porque até hoje, passados tantos anos, ninguém foi lá, conferir?
– O tapiri de Ribamar era por aqui. Tudo pegou fogo, naquela noite.
– E onde ele viu aquelas meninas numas?
– Ali mesmo, respondeu. Os numas vinham do rio Pique Yaco, do Toro. Era muitos, centenas, mas nunca foram vistos. Ficaram invisíveis, na floresta. Eles vinham na vazante. Era possível saber que estavam ali porque a caça desaparecia. Eles comiam tudo, o porco, o mutum, a anta. Caçavam com flecha de cana brava, com arco de palmeira. Os paus d’arcos eram a pupunha, a bacaba, o patauá, o paracoúba, itaúba. Na caça, as flechas eram pequenas e não tinham veneno.
– Eles não mataram Ribamar porque não quiseram…
– Por que não mataram Ribamar?
– Não sei.
– Talvez as meninas estivessem apaixonadas por ele.
– Talvez.
– Naquela noite morreram todos, o tio e o irmão.
– Mas não ele! Mas não ele!
– Sim, disse o outro. Ele pulou n’água e desapareceu. Foi levado pela correnteza e acabou chegando ao Manixi.
– De noite.
– Sim, de noite.
– Cara de sorte.
– Ele sempre teve sorte na vida.
– Vamos fotografar.
– Sim, vamos.
– Cuidado com este galho. Está cheio de aranhas.
– Daqui ele foi levado até ao Manixi, onde passou a ser empregado do palácio.
– Pierre Bataillon o tinha sempre perto de si.
– Ele foi protegido da Ifigênia Vellarde, mulher de Bataillon.
– Temos uma foto de Pierre?
– Acho que não. Não sobrou nada do palácio.
– Dizem que era baixinho e magro. Mas muito arrogante.
– Aqui está: “Bataillon homem magro, baixo. Bem vestido. Empertigado. Gestos largos, modos aprumados. Nervosos. Dignidade, cortesia, à moda antiga. Nariz aquilino. Cabelos finos. Bigodinho. Negro. A cabeça levantada, nobre. Aura. A gravata borboleta, o paletó de linho branco, abas, calças largas, sapatos verniz. Parece suportar, nas costas retas, barbatanas retiformes de manequim retígrado. Olha. O gesto, o olhar. Com que, altaneiro, superior, soberbo, se dirige aos demais. Soberano, concessão real. Atrapalha. Representa. Apesar da estatura baixa, como se olhasse de cima. De patamar superior. Polidez, dignidade”.
– Um dia apareceu num antiquário um relógio de ouro John Bull com o nome dele inscrito.
– E um revólver de prata, um revólver Smith, cabo de marfim.
– Dizem que ele atirava bem.
– Tinha uma coleção de armas.
– Vamos voltar, vai chover.
– Sim vamos.

CONTINUA…

Por Rogel Samuel

O IGARAPÉ DO INFERNO – 14 DE 18


– A Curva do Tucumã era ali, disse ele.
Todos olharam em silêncio respeitoso.
– Além daquela ponta era o território numa. Porque até hoje, passados tantos anos, ninguém foi lá, conferir?
– O tapiri de Ribamar era por aqui. Tudo pegou fogo, naquela noite.
– E onde ele viu aquelas meninas numas?
– Ali mesmo, respondeu. Os numas vinham do rio Pique Yaco, do Toro. Era muitos, centenas, mas nunca foram vistos. Ficaram invisíveis, na floresta. Eles vinham na vazante. Era possível saber que estavam ali porque a caça desaparecia. Eles comiam tudo, o porco, o mutum, a anta. Caçavam com flecha de cana brava, com arco de palmeira. Os paus d’arcos eram a pupunha, a bacaba, o patauá, o paracoúba, itaúba. Na caça, as flechas eram pequenas e não tinham veneno.
– Eles não mataram Ribamar porque não quiseram…
– Por que não mataram Ribamar?
– Não sei.
– Talvez as meninas estivessem apaixonadas por ele.
– Talvez.
– Naquela noite morreram todos, o tio e o irmão.
– Mas não ele! Mas não ele!
– Sim, disse o outro. Ele pulou n’água e desapareceu. Foi levado pela correnteza e acabou chegando no Manixi.
– De noite.
– Sim, de noite.
– Cara de sorte.
– Ele sempre teve sorte na vida.
– Vamos fotografar.
– Sim, vamos.
– Cuidado com este galho. Está cheio de aranhas.
– Daqui ele foi levado até ao Manixi, onde passou a ser empregado do palácio.
– Pierre Bataillon o tinha sempre perto de si.
– Ele foi protegido da Ifigênia Vellarde, mulher de Bataillon.
– Temos uma foto de Pierre?
– Acho que não. Não sobrou nada do palácio.
– Dizem que era baixinho e magro. Mas muito arrogante.
– Aqui está: “Bataillon homem magro, baixo. Bem vestido. Empertigado. Gestos largos, modos aprumados. Nervosos. Dignidade, cortesia, à moda antiga. Nariz aquilino. Cabelos finos. Bigodinho. Negro. A cabeça levantada, nobre. Aura. A gravata borboleta, o paletó de linho branco, abas, calças largas, sapatos verniz. Parece suportar, nas costas retas, barbatanas retiformes de manequim retígrado. Olha. O gesto, o olhar. Com que, altaneiro, superior, soberbo, se dirige aos demais. Soberano, concessão real. Atrapalha. Representa. Apesar da estatura baixa, como se olhasse de cima. De patamar superior. Polidez, dignidade.”
– Um dia apareceu num antiquário um relógio de ouro John Bull com o nome dele inscrito.
– E um revólver de prata, um revólver Smith, cabo de marfim.
– Dizem que ele atirava bem.
– Tinha uma coleção de armas.
– Vamos voltar, vai chover.
– Sim vamos.

CONTINUA…

Por Rogel Samuel