KUÁT E IAÊ


No principio só havia a noite. Os irmãos Kuát e Iaê – o Sol e a Lua – já haviam sido criados, mas não sabiam como conquistar o dia. Este pertencia a Urubutsim (Urubu-rei), o chefe dos pássaros. Certo dia os irmãos elaboraram um plano para captura-lo. Construíram um boneco de palha em forma de uma anta, onde depositaram detritos para a criação de algumas larvas. Conforme seu pedido, as moscas voaram até as aves, anunciando o grande banquete que havia por lá, levando também a elas um pouco daquelas larvas, seu alimento preferido, para convencê-las. E tudo ocorreu conforme Kuát e Iaê haviam previsto.

Ao notarem a chegada de Urubutsim, os irmãos agarraram-no pelos pés e o prenderam, exigindo que este lhes entregasse o dia em troca de sua liberdade. O prisioneiro resistiu por muito tempo, mas acabou cedendo. Solicitou então ao amigo Jacu que este se enfeitasse com penas de araras vermelhas, canitar e brincos, voasse à aldeia dos pássaros e trouxesse o que os irmãos queriam. Pouco tempo depois, descia o Jacu com o dia, deixando atrás de si um magnífico rastro de luz, que aos poucos tudo iluminou. O chefe dos pássaros foi libertado e desde então, pela manhã, surge radiante o dia e à tarde vai se esvaindo, até o anoitecer.

Lenda Indígena

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ALÉM DA MIRAGEM – 3 DE 3 – FINAL


Desceu de um dos dromedários um lagarto leão que abatera durante a tarde e colocou-o para assar no fogo.  O sol já havia se posto por completo e a lua empalidecia o céu. Vendo o astro tomar o firmamento, o soldado voltou sua atenção para o ibn layla e acompanhou o ritual recorrente a todas as noites.

Ajoelhado na areia, Amin mantinha os olhos fechados enquanto fazia uma prece silenciosa. Ao mesmo tempo, com a mão direita, apanhava um punhado de areia do chão e jogava por sobre os ombros alternadamente. Por fim, reclinava-se para tocar o solo com os lábios e reiniciava todo o processo. Em geral, apenas após meia hora o nativo dava por encerrado o rito. Norris sempre reagiu com estranheza ao costume, como bem fazia com os demais, mas a curiosidade, a espontaneidade que a notícia do fim da jornada trouxe e uma certa intimidade de viajantes, o fez querer pela primeira vez entender a cerimônia.

—Sei de homens que beijam menos uma mulher do que você beija esse chão.- disse em uma zombaria. – O que significa?
—Por acaso você não seria um destes homens, não é i’anq?- continuou o outro risonho enquanto se levantava. -Oro para as setenta e sete sentenças de Qamar, para que elas rejam minha vida e por terem me guiado no meu passado. Para cada uma delas, beijo o chão como agradecimento por ainda estar no mundo, e jogo a terra pelos ombros pois sou grato por somarem outro dia ao meu passado. Tudo com a luminosa face de Qamar como testemunha.
—E Qamar é… a lua?
—A divindade de Qamar se manifesta no plano do homem como o belo astro, sim, mas ela é mais que isso. É mãe dos homens e de tudo que veio e virá. Antes, ela criou a vida por toda a terra. Porém, quando dormiu, o maligno Shams, o sol, queimou toda criação. No dia seguinte, a mãe chorou pelos filhos perdidos, e os sobreviventes se reuniram ao redor de suas lágrimas. Então elas tornaram-se duras como pedra, mas conservando parte da magia da Mãe. E os homens aprenderam a usar essa mágica a seu favor. Foi isto o que os permitiu sobreviverem aos dias que viriam, quando enfrentaram novamente a fúria de Shams, e é assim que sobrevivemos até hoje. Desta forma surgiram as ed-dam’a al-layla, as lágrimas da noite, trazendo para nossas jazidas toda a clemência da deusa. Sem as ed-dam’a e sua mágica, os ibn layla não viveriam.
—Ed-dam’a al-layla? Você quer dizer o lapis magicae?
—Sim, assim que vocês as chamam. Muito valiosas para o seu povo, não?
—Praticamente toda a base de nossos estudos arcanos se desenvolvem a partir dela. Infelizmente, são raros os depósitos desse mineral em meu continente, diferentemente daqui.
—Este sabe. Homens de todo o mundo pagam pelas dam’a dos ed-layla. Soldado Norris, em Vespúcia vocês têm muitos feiticeiros?
—Bem, há o Conselho Arcano de Magia e Maldições. Algumas dezenas de feiticeiros trabalhando a serviço do Império.
—Feiticeiros são todos perigosos. Um estalo de dedos e podem sumir com uma cidade. Outro, e podem sumir com o planeta.
—São úteis, se mantidos sob controle. O problema são as mãos que os controla.
—Por isso querem matar Allamr’ey?
—Sim. Desde quando há dois séculos seu povo derrubou os Pilares do Mundo de Vespúcia com o ataque das titânicas aves Rocas, o Império não vê prudência nas mãos dos ibn layla. Tirar um feiticeiro de vocês é uma medida profilática para o mundo. Certos dedos estalam com mais facilidade que outros.
—Aí que se engana, i’anq. Quem tem dedos, um dia sentirá tentado a estalá-los. Basta um único feiticeiro, e terá seu mundo condenado.

***

O sol avançava quando desmontaram o acampamento. Na noite anterior, Norris mal dormira devido à alusão de que finalmente alcançaria Allamr’ey. Por três vezes usou o pêndulo e se satisfez ao conseguir uma tênue alteração em seu percurso. Selando suas montarias, seguiram viagem.

Já próximos do meio dia, pequenas estruturas calcárias começaram a saltar esporadicamente da areia, como braços disformes inutilmente tentando tocar o céu. Pouco tempo depois, as formas foram se avolumando até darem espaço para paredes e construções inteiras ferindo a falsa lisura da areia.

—A Vila do Cego. – Amin estalou os dedos três vezes atrás de sua nuca e repetiu uma oração silenciosa para espantar o mau agouro. – Quando a feiticeira pisou nestas terras sob a proteção da noite, a população entrou em alvoroço para vê-la. No dia da celebração do pranto de Qamar, importunaram tanto Allamr’ey que ela deixou-se ser vista. Dizem que todo homem e mulher que voltou seus olhos para a feiticeira desapareceu no mesmo instante. Apenas um homem sobreviveu. Um desafortunado que teve os olhos roubados pelo flagelo da cegueira na infância. Passou o resto de seus dias repassando essa história e afastando os nômades da cidade. Isto foi há centenas de anos. Dizem que a voz do homem ainda corre com o vento prevenindo os forasteiros. O que temos aqui é o cemitério daquela vila. Aquilo que sobrou depois de o deserto reivindicá-la.

Norris sentiu algo tocar-lhe a espinha enquanto olhava as paredes esquecidas daquela vila, como se um choro manso de cem almas se desprendesse das construções. Vendo a magnitude da tragédia que apenas um vislumbre da feiticeira causou, sentiu-se como um menino caçando mamutes. Suas pernas tremiam conforme o ritmo que sua taquicardia ditava. A garganta seca e a língua colada ao céu da boca já não eram mais apenas uma resposta ao sol escaldante. Como que fazendo uso de um pequeno hábito para driblar o nervosismo, o soldado pegou em seu bolso o pêndulo, espalmou a mão esquerda sob ele e sussurrou:

– Perdido na vida, perdido na morte, encurte a ida e seja meu norte.

Mal soprou o instrumento e o cone metálico já ganhava velocidade em uma progressão absurda, abrindo o raio de sua rotação com vigor, a ponto de Norris precisar esticar o seu braço para que a extremidade não batesse contra seu peito. As correntes de aço zuniam enquanto cortavam rapidamente o ar.

—É ali. – a voz de Amin parecia vinda do passado, de tão distante e fraca. Com o dedo em riste, indicava um largo depósito a poucos metros de distância.

Dois viajantes mudos, os companheiros seguiram lado a lado até as sombras da opressiva construção. Como quem procura tarefas inadiáveis para procrastinar outra, Norris conferiu e enfeitiçou o rifle, vestiu-se com talismãs contra quebrantos e secretamente orou aos deuses e todos os seus nomes. Pego em um beco sem saída, decidiu entregar-se ao seu destino e enfrentar sua batalha.

—Vamos.- disse por fim a Amin.
—Não vou. Sinto, i’anq. – emendou enquanto baixava os olhos derrotados.
—Como não? Irá me trair agora?
—Há algo que não contei sobre a Vila do Cego. Não foi apenas um que sobreviveu. Houve outro. Um mercador do Continente Antigo que estava na vila e olhou nos olhos de Allamr’ey, mas a este não aconteceu nada. Partiu aos gritos enquanto os outros sumiam, sem nem ao menos notar o cego. Algum motivo impede os ibn layla de encarar a feiticeira, Norris. Algum motivo impede Amin de encarar a feiticeira. Já você, você é um i’anq. Só os forasteiros podem ver a face de Allamr’ey.
—Por isto precisava de mim?
—Na, i’anq. Sim. Sinto muito.
—Não é a primeira vez que fico sozinho, ibn layla. Não se culpe. Você cumpriu sua parte do trato.

***

O interior do galpão era amplo e abandonado. Várias lascas diminutas do teto de zinco já haviam cedido aos efeitos do tempo, fazendo com que as aberturas polvilhassem o chão com lascas de sol. No canto oposto do salão, um cortinado de seda diáfana contornava grandes almofadas de plumas. Em seu centro, uma mulher olhava-o faminta. Seus olhos eram cor de âmbar, e os cabelos do negro dos ibn layla. Vestia-se apenas com leves tecidos brancos que moldavam seu corpo acobreado, e, sobre eles, um manto dourado rasgado revestia-lhe as costas nuas.

—E então o destino me trouxe Yates Torrance Norris. – sua voz escorregava por seus lábios como o mais doce mel. – Alívio e angústia te acompanham, soldado… Aproxime-se.

Com passos falhos, o estrangeiro aproximou-se da mulher enquanto compensava sua respiração alterada. Mantendo sua arma erguida, fazia as pequenas porções de sol refletirem em sua superfície.

—Você é Allamr’ey?- disse com um vacilo na voz.
—Já fui muitas coisas, mas hoje a sou, sim. Agora abaixe esta arma, criança. Estou a tanto tempo sozinha que até uma conversa com meu carrasco me soa sedutora. Foi boa coisa tê-lo trazido até aqui.

Sem o controle de seus braços, Norris baixou guarda involuntariamente.

—E desde quando você tem parte em minha jornada, bruxa?- respondeu em protesto.
—Desde quando pisou nestes desertos, i’anq. Desde que encontrou o meu povo. Sou os nujum que matam os homens do Império; sou os homens que amaldiçoam o sol e bendizem a lua; sou Amin, aquele que quer matar Allamr’ey. Sou todos os ibn layla, e todos eles são eu.
—Que loucura é essa?
—Os ibn layla existem porque um dia eu assim o quis. Certa noite, adormeci e sonhei com estes homens e mulheres. Com seus rostos, gênios, gostos e cheiros, todo ínfimo detalhe da vida de cada um deles. O dia em que mataram um pássaro na infância e se penalizaram por isso, quando espancaram a esposa por adultério e já não sentiram o mesmo pesar, o primeiro beijo, o vislumbre do mar, o dia de sua morte. Cada instante de cada existência. Quando despertei, vi que havia trazido todos para o mundo. Mas isto foi há muito tempo, ah, muito tempo. Na época em que viver era uma novidade, e o peso da eternidade não era um farol solitário e assustador. E isto se tornou um velho hábito. A cada vez que cresce a lua, meu sono traz vida aos ibn layla.
—Você é Qamar?
—Não. Mas talvez ela tenha me sonhado. Ou talvez eu é que tenha sonhado ela.
—Então o quê é você?- Norris comprimia os olhos e se aproximava sem dar conta da autonomia de seus pés.
—Esta foi minha primeira resposta, i’anq. Já fui muitas coisas, hoje sou Allamr’ey.
—Ao menos diga se você é humana ou não-humana.
—A humanidade é um caráter muito vago para definir um parâmetro. Digamos simplesmente que sou.

Desconcertado, Norris refletia sobre a possibilidade de toda uma raça ser fruto da imaginação de outro ser.

—O que disse sobre Amin…
—Sim, eu sou ele, assim como ele é eu. Uma diminuta manifestação daquilo que sou e sinto. Se bem que de minhas nuances, ele se saiu uma das mais interessantes.
—O que quer dizer?
—Amin surgiu a partir do meu cansaço com o mundo e com a vida. Do medo de ser por toda eternidade uma sombra solitária de Qamar. A solidão mata aos poucos, Norris, mas não mata de fato. Há muito, uma parte de mim anseia pela morte, mas sempre fui muito fraca para por fim a minha própria vida. Desta ânsia autodestrutiva, deste lampejo de libertação, surgiu Amin. E ele o encontrou.
—Se todos ao redor são produtos de sua mente, por que precisaria de mim quando tem uma nação a seus pés?
—Como te disse, apenas uma parte de mim desejava a morte. Cada uma dessas manifestações física, cada homem e mulher de meu povo, é formado por uma idéia autônoma, individual. De certa forma, possuem um livre arbítrio dentro do código de conduta que o formou. Os nujum, por exemplo, são um sinal de minha autopreservação. São a força que a todo custo quer me manter viva. Apenas com Amin podia contar,mas ele jamais poderia puxar o gatilho.
—E por que não? Por que os ibn layla não podem vê-la?
—Já viu um deus, Norris? Já confrontou a idéia de ser produto de uma mente, de não existir de fato, de ser dependente da vontade de outro? De ter sua existência fundamentada no jugo de um superior? Ninguém tolera tamanho confronto, jovem. Ao ver o criador, as criaturas simplesmente têm a certeza de sua natureza. É como quando sabemos que estamos dentro de um sonho, e ele perde todo o seu sentido de ser. Tudo soa artificial e plástico. Por isto, Amin deixaria de existir tão logo descesse os olhos sobre mim.

A cabeça de Norris girava com o bombardeio de informações.

—E o que quer de mim, Allamr’ey?
—Não pareci clara, Soldado Norris? Quero a morte.
—E o por que alguém a altura de um deus iria querer morrer?
—Os deuses são sós, Norris, e a solidão nos envenena.
—E quanto aos ibn layla?
—Partirão assim que eu me for. Um sonho não pode permanecer sem seu sonhador.
—Amin?
—Cumpriu seu motivo de existir. Deixará o gosto de um sonho bom, mas partirá com os outros.

Não sem um leve pesar pelo companheiro de viagem, Norris empunhou seu rifle assim que voltou a sentir o controle de seus braços.

—Pode mesmo um homem matar um deus?
—Vocês o fazem mais do que imaginam.
—Desperte bem, feiticeira. De certa forma, também acordou parte de mim.
—Gostaria de ter sido eu a sonhar com alguém como você, i’anq Norris.

Com um tiro certeiro, o soldado fez uma fenda na cabeça de feiticeira, queimando o cortinado de seda branca e manchado as almofadas de plumas com poças rubras e tristonhas. Atravessou pelas manchas de luz melancolicamente, com o peso do remorso por deixar o corpo da feiticeira solitário no deserto, tal como ela repudiara em vida.

Ao sair, Norris notou os dromedários soltos pelas areias, como que libertos por um velho amo. Olhou ao redor, mas não encontrou nenhum sinal de Amin. Dias depois, ficaria sabendo que o mundo estava perplexo com o desaparecimento de todos os ibn layla e como suas cidades fantasmas eram aos poucos devoradas pelo deserto. Com os meses, o Império Ocidental de Vespúcia solidariamente se proporia a pesquisar a relação do lapis magicae e sumiço, ao passo que aumentariam secretamente seus estoques do mineral. Mas a tudo isso Norris seria indiferente. Como saldo de sua jornada, apenas a amarga sensação de também ser parte de um sonho lhe pesava o peito.

Por Vitor TS

ALÉM DA MIRAGEM – 2 DE 3


Foi então que algo obstruiu a claridade vinda da porta de entrada da casa. Sob o umbral, duas figuras pálidas se mantinham lado a lado. Os homens possuíam os rostos morbidamente descoloridos por pó de arroz. Fortemente destacados em suas feições, os olhos eram marcados por uma linha negra intensa, ao passo que a boca era evidenciada por uma agressiva pintura vermelha. Usavam um turbante branco sobre os cabelos negros e tinham a face emoldurada por uma espessa barba, embora ambos aparentassem ter tenra idade. Pela porta do cômodo conseguinte, vinham o comandante e seus homens em resposta ao chamado de Norris. E foi aproveitando a desorientação dos soldados que o mais baixo deles rompeu a estática e, inesperadamente, deu um beijo no rosto de seu companheiro, que o aceitou com indiferença. Enquanto o que recebeu a carícia parecia repleto de uma fúria silenciosa e triunfante, o menor desembainhou sua cimitarra e comprimiu-a contra o pescoço do outro. Surpresos com a cena, Norris e Wade sacaram suas armas, mas não foram suficientemente rápidos.

-Qamar! – urrou enquanto deslizava a lâmina pela garganta do cúmplice, até que seu gume riscou-lhe as vértebras. O corpo abandonado tombou no chão, onde agonizou enquanto o coração fazia minar as últimas torrentes de sangue, terminando em uma minguada maré póstuma.

Norris apenas teve tempo para uma rajada cega de disparos, dos quais apenas um atingiu de resvalo o braço do assassino antes que este partisse em disparada. Porém, antes que pudesse perseguir o fugitivo atravessando a porta, toda a atenção da sala voltou-se para a poça funesta de sangue deixada sob o umbral. A princípio, os presentes na sala teriam dito que o estranhamento apenas se trava de um misto de imaginação e o efeito do ângulo diverso que a luz do sol seguia ao incidir sobre o líquido, mas isto seria antes do sangue começar a borbulhar. Recoberto por uma espuma rósea, as bolhas estouravam liberando um odor férreo e nauseabundo. Aproximando-se, era possível sentir o calor emancipado pela reação. Os soldados apontavam suas armas na espera pelo pior.

—Comandante, é um sacrifício de sangue. O senhor acha que o najm…

Rompendo a superfície da poça sanguínea, um braço musculoso rasgou o ar. Possuía garras longas e uma pelugem cor de cobre, e logo buscou e conseguiu apoio na terra batida que margeava o líquido. Em pouco tempo, içou o restante de seu horrendo corpo, arrastando para a superfície sua quimérica anatomia. Tinha todo o corpo recoberto por pêlos espessos, salvo pelas mãos e peito. De sua cabeça leonina, dois grandes cornos recurvavam-se em direção às costas. Nas patas, dois grandes cascos partidos sustentavam seu peso. Sua simples presença retorcia o ar em ondas de calor, feito as miragens nascidas das temperaturas do deserto. Lançou um olhar furioso com suas pupilas horizontais em direção ao grupo e urrou.

—Uma magia de invocação. – completou o comandante absorto. – Norris! Norris,siga o outro najm. Ele não pode se distanciar muito da criatura se não quiser quebrar o vínculo. Mate-o. Só isso anulará o contrato. O desgraçado invocou um ifrit! Um maldito gênio de fogo! Iremos retardá-lo como pudermos, mas essas balas não farão muito. Agora vá. Vá!

Saindo do choque, Norris correu para a outra sala enquanto ouvia o zumbido dos disparos ressoando pelas paredes ásperas. Saltou pela janela do segundo cômodo e contornou a casa em busca do conjurador. O veneno de anfisbena irá pará-lo, pensava consigo mesmo, mais com desejo do que uma certeza. Por sorte, encontrou o najm prostrado em uma viela a oeste da parede solitária onde estiveram há pouco. Com um dos pés, virou o corpo do homem enquanto mantinha a mira em sua cabeça. No mesmo instante, agradeceu pelo veneno não ser uma fraude. A boca pintada do nativo se desmanchava em meio à espuma que lhe saltava pelos lábios, enquanto os olhos negros buscavam fixamente algo invisível nos céus. Com três tiros no peito, Norris encerrou sua angústia.

***

A fumaça escapava da casa por suas paredes porosas. Nas janelas, largas línguas de fogo saboreavam o ar fresco. Escorado na parede próxima a porta, o comandante agonizava em seus minutos finais. Metade de seu rosto estava carbonizado, e uma mancha avermelhada crescia na altura de seu ventre.

— Caímos feito idiotas na armadilha desses lunáticos. – disse com uma voz já sem esplendor algum. – Norris, a miudeza era nossa dessa vez, não é?
—Foi deles também, senhor.- disse o soldado enquanto se ajoelhava ao lado de seu superior.- O outro najm foi vencido pela anfisbena. A paralisia tornou fácil encontrá-lo. – com zelo, afastou o uniforme do comandante e deparou-se com uma perfuração de um punho de largura que o trespassava.
—Feio, não? Não imaginava que os chifres de um ifrit eram tão perigosos. – um filete de sangue juntou-se a sua saliva e desceu pelo canto de sua boca. – Agora pare de perder tempo comigo, Norris. Meu tempo chegou. Só te faço um pedido; mate aquela vadia por nós. Mate Allamr’ey!- sua mão sem força fechou-se na gola da roupa de Norris, mas logo cedeu ao cansaço e tombou no chão. – Wade… O pêndulo… Vá! Vá!

Enquanto os olhos do comandante reviravam em suas órbitas e sua respiração morria, Norris correu para dentro da casa em chamas. A fumaça queimava-lhe os olhos e irritava seus pulmões, mas eram as labaredas que temia. No cômodo conjugado da direita encontrou um corpo que julgou ser o de Wade, uma tarefa difícil, visto que não tivera a mesma sorte em encontrar sua cabeça. Rapidamente, meteu a mão em seus bolsos a procura da fina corrente metálica. O fogo fazia o suor empossar seus dedos, os fazendo atrapalharem-se uns aos outros. Virou em seguida o corpo e averiguou os bolsos traseiros. Já olhava o segundo quando sentiu o toque duro do metal. Aliviado, puxou o objeto e bendisse por de fato ser o pêndulo. Contudo, quando se preparava para abandonar aquela pequena escala de inferno, uma viga de madeira crepitante tombou sobre suas costas em um impacto surdo.

O ar incandescente inflava seus pulmões, e a falta de oxigênio fazia sua consciência oscilar. Tentava levantar-se, mas já não tinha forças para tanto. Pensou em sua casa na Vespúcia, na família problemática que deixara, nos anos em exercício pelo Império e nas miudezas. Sobretudo nas miudezas. Já aceitava a morte com menos rancor quando viu uma estranha figura contorná-lo e parar a sua frente. Trazia um turbante e roupas largas. Tentou dizer algo, mas sua voz morreu. Preferia morrer pelo fogo que por um najm, diria. Mas a força esvaiu-se em um instante, e tudo desapareceu em um turbilhão de fogo e fumaça.

***

Sua cabeça latejava quando abriu os olhos. O crepúsculo corria sobre as areias do deserto, varrendo todo sinal de calor de suas dunas. Com dificuldade, içou seu corpo e arrastou-se para o apoio de uma palmeira próxima. Sentado, inflava os pulmões doloridos, agraciando-os com o ar puro. E foi justo esta dor pungente a responsável por reviver as memórias dos ocorridos nas últimas horas. Correu os olhos pela penumbra daquela mata lembrando-se de que não podia ter chego ali sozinho, e assim deparou-se com uma figura enigmática analisando-o a distância. Instintivamente, tentou pôr-se de pé, mas as forças falharam e ele caiu sobre os joelhos. Procurou por sua arma para apenas deparar-se com o óbvio, e entendeu que estava indefeso.

—Tenha calma, i’anq. Amim não faz mal, se i’anq não faz mal.- disse o homem, enquanto a passos curtos aproximava-se de Norris.
—Não farei mal se você não merecer, ibn layla. Quem é você? – retrucou Norris enquanto tateava o chão em busca de algo que pudesse fazer a vez de arma.
—Pode chamar este de Amin Abudul-Sami ibn Zahid. Ou então pode chamar este de meu salvador, porque é isso que chamamos gratidão nestas terras. Não fosse Amin, agora seria carne cozida para os gênios da noite, i’anq. – a poucos metros de distância, a feição do homem descortinou-se da penumbra. Trazia um turbante negro e um xale rústico acinzentado que lhe descia pelo pescoço. Seus traços eram fiéis aos de seu povo, com seus olhos amendoados, pele olivada e cabelos negros e lisos. Como era costume dos ibn layla, ostentava uma barba bem aparada e orgulhosa. Completando seu vestuário, usava uma túnica cinza escura e, sobre as pernas, uma cirwal branca.
—Não abuse da sorte, ibn layla. Só me diga por que me tirou de lá e o que quer comigo. Não acredito que a boa ação tenha vindo de graça.
—Ora, i’naq, o mundo é desconfiado na Vespúcia? Mas sim, sim, deixe este ser franco. Preciso do seu ‘eml… Como se diz? Preciso do seu serviço.
—E o que te faz pensar que eu te ajudaria? – retrucou Norris como que se divertindo com a ignorância do outro.
—Porque o i’anq precisa mais ainda dos serviços de Amin. Ou ele acha que vai encontrar Allamr’ey com mágica de criança?- tirando de um dos bolsos de seu cirwal, puxou a correntinha com o cone metálico suspenso. Seu sorriso foi devastador.

Norris tateou instintivamente os bolsos para apenas averiguar o evidente.

—Devolva o pêndulo. – sem perceber o quão ridículo pareceu, empunhou a única coisa que suas mãos encontraram nos arredores; um galho apodrecido de certo calibre, mas inteiramente inútil. A reação pareceu divertir ainda mais o ibn layla.
—Amin conhece muitas crianças que gostariam de brincar de cavaleiro com o i’anq, mas Amin tem pressa. Este não é ladrão, fique com o pêndulo. –disse enquanto arremessava o artefato. -Só não confie tanto nele. Acha que são os únicos que tem pedaços do manto de Allamr’ey?
—Não seja estúpido, se os nujum têm Allamr’ey, é óbvio que tem acesso não só ao manto, mas até a sinalizadores mais potentes, como fios de cabelo ou saliva. –Norris apanhou o pêndulo no ar e, deixando seu galho de lado, abriu o fundo do cone metálico para conferir se as fibras do manto ainda se mantinham lá dentro. – Só fomos ingênuos ao pensar que eles não entenderiam ou descobririam como interceptar nosso rastreamento.
—Rá! Os i’anqs são tão estúpidos assim? Os nujum sabem tanto onde está Allamr’ey quanto os invasores rosados. Por que pensa que só agora usaram fios do manto? E por que sempre fios, se tivessem Allamr’ey? Porque usam os trapos que recuperam quando atacam suas bases, aí a verdade. Por isto, e nada mais! Enquanto dois distraíram você e os companheiros de tarde, muitos outros passaram seus homens na espada do outro lado da cidade. Seu acampamento está devorado pelo fogo, e mais manto nenhum há por lá.

Norris sentiu o estômago embrulhar, mesmo sem saber se acreditava ou não no estranho, mas a simples sugestão do fato já o fazia ruir.

—Sem tempo para perder, i’anq. O pêndulo já não é mais confiável, te levará para muitos lugares errados, como o que visitou hoje. Amin sim é bom guia. Este sabe a verdadeira morada da feiticeira.
—Se isso é tão secreto, como o sabe?
—Amin simplesmente sabe, assim como sabe manter segredos. Não precisa entender como sei, apenas que sei.
—Com isso posso lidar. Mas e como saberei que não é um najm?
—Um najm? – pela primeira vez, o nativo pareceu perder o controle. Cuspiu no chão antes de prosseguir energeticamente. – Os nujum sujam a imagem de Qamar quando dizem que Allamr’ey é sua encarnação, e os nujum convencem o povo. Qamar está nos planos do samaa’, do céu, não perdida no deserto como uma mulher sem sombra. Allamr’ey precisa morrer, ou tomará o lugar da grande Qamar no coração dos homens! Só morte e sangue a afastarão da divindade. Só morte e sangue não farão Allamr’ey ser Qamar.

Aos poucos, a respiração de Amin voltou a se nivelar e ele recompôs sua postura. Logo, seu sorriso zombeteiro voltou a estampar-lhe o rosto.

—Então, i’anq soldado, temos um trato? – disse enquanto estendia a mão direita.
—Somos dois que a queremos morta, mas não chamemos isto de trato, e sim de trégua. Ainda não confio em você. – respondeu o outro enquanto lhe tomava a mão e a usava como apoio para levantar-se. – E me chame de Norris.

***

Várias semanas foram arrastadas pelos ventos secos do deserto enquanto Norris e Amin seguiam em sua corrompida peregrinação. Tendo perdido seus grifos para os nujum, tiveram que recorrer ao uso do dromedário, o foi de grande incômodo para o soldado, não tanto pela demora que a troca resultou quanto pelo desconforto que introduzir mais um hábito estrangeiro em sua rotina significava. Os dias de convivência, se não capazes de criar um elo de confiança, ao menos apaziguaram a relação entre os homens. Amin já mostrava a forma de viver dos ibn layla e como sabiam pisar na areia sem afundar os pés, e Norris se vangloriava do alcance do Império e de como a lapis magicae rodava o mundo. Com o deserto e o dever solitário dos dois homens, as desavenças tornaram-se um segundo plano velado ao passado.

Em um desses dias, uma quinzena após terem deixado o Vale do Desterro, quando a noite já caia e o acampamento era erguido as beiras de um poço de beduínos, Amin disse que estavam a meio dia de viagem de Allamr’ey. Sem esconder seu entusiasmo, Norris cantarolava alguma canção de guerra enquanto acendia a fogueira com suas pedras de dragão, aproveitando as chamas para acender um de seus últimos cigarros.

Conclui amanhã…

Por Vitor TS

ALÉM DA MIRAGEM – 1 DE 3


O sol rasgava o manto de areia a leste, causando em Norris a incômoda sensação de que o mundo incendiava. A bem da verdade, a ele tudo naquelas terras milenares, em suas devidas proporções, poderia converter-se em alguma imagem de morte imediata, não tanto pelo caráter bélico de sua empreitada quanto pelo ar hermético e conspiratório daquele povo. Afastando os resquícios da madrugada de vigília de seus músculos, o soldado levantou-se para caminhar pela guarita improvisada feita sob o teto de uma torre em ruínas. Lá fora, o burburinho dos comerciantes de camelos começava mansamente. Norris afagou sua barba rala enquanto instintivamente metia a outra mão no bolso para apanhar um cigarro. Prendeu-o entre os lábios, roçou duas pedras de dragão entre os dedos até faiscarem e tragou.  Segurou a fumaça o quanto pode, pois naquele mundo estranho ela era como uma velha amiga. Por fim, soltou uma baforada espessa e adocicada pela erva de sente-bem. E o mundo pegava fogo.

***

O sol já batia a pino quando foi interceptado por outro oficial para a troca de turnos. Não sem certo alívio, cedeu o posto e já descia as escadas desniveladas da ruína quando foi informado pelo outro sobre interesse do capitão em ter com ele. Gingando entre a fadiga e a obrigação, atravessou o umbral dos restos da torre oblíqua e seguiu em direção ao acampamento itinerante. Ao aproximar-se, sentia como se as grandes bandeiras o saudassem enquanto tremeluziam ao jugo do vento arenoso. Era como se o Império Ocidental de Vespúcia recebesse novamente um filho desgarrado. Mas ainda assim, o vento continuava salgado e aquele era o sol de outras terras.

***

—Soldado Yates Torrance Norris se apresentando, senhor!

A saudação proferida logo a frente da grande tenda cortinada teve resposta imediata. De dentro da estrutura, uma voz grave e imperativa autorizou-lhe a entrada. Afastando o tecido, que debilmente fazia a vez de porta, com uma das mãos, Norris torceu o corpo e caminhou em direção ao comandante enquanto acostumava os olhos à diferença de luminosidade entre os ambientes. A luz âmbar suave que se destilava dos tecidos da tenda pareciam trevas para quem a pouco estava no mar de luz do deserto. Mantendo uma postura ereta e com os braços rijos ao lado do corpo, o oficial novamente apresentou-se ritualisticamente, como mandam os protocolos militares.

—Senhor.
Parado ali, deu conta de sua deplorável aparência. Seu cabelo castanho estava embebido em suor sob o capacete, fazendo que o pouco de sua franja aderisse à testa. A barba por fazer em outros tempos poderia significar represália, mas o rosto liso era uma tradição paulatinamente abandonada nos tempos de guerra. Sua pele seca já havia tomado um tom levemente olivado nas partes desprotegidas do sol, aproximando-o mais dos nativos do que imaginara. Os lábios racharam, as unhas quebraram e tudo parecia ter a textura de areia. Para seu alívio, todos ali compadeciam com sua apresentação, pois não se distanciavam muito daquele estado. O próprio comandante parecia ter dobrado seus quarenta anos durante o tempo de serviço. Os cabelos aos poucos se enevoaram, como que em um protesto irônico ao calor do deserto, e ele parecia curvar-se sobre si mesmo, seja por magreza ou pelo peso da responsabilidade. Dos tempos áureos, apenas a voz gutural conservara.

—Descansar, soldado.  – proferiu com o timbre encorpado. – Agora se aproxime, sente-se e descanse. Nossos batedores voltaram. Teremos algo para você em pouco tempo. – terminou o comandante, indicando com a cabeça outros dois oficiais postados a sua direita em uma mesa. Do lado oposto, outros três homens aguardavam as ordens.

Seguindo o comando, Norris sentou-se na cadeira sobressalente ao lado dos dois batedores. Com um olhar significativo e um maneio de cabeça, o comandante incitou um dos dois homens a prosseguir com o discurso interrompido:

—Então aos poucos a radiestesia nos levou até a Cidade Velha, no extremo norte da cidade. Logo ao fim da feira livre, o pêndulo pareceu ficar louco. Girava rapidamente sobre minha mão em circunferências de uns três, quatro centímetros de raio. Esquadrinhamos a área até conseguirmos um pico em frente aos restos de um sobrado ilhado em um pequeno monte nos limites da cidade. Comandante, com as poucas fibras do manto da feiticeira que dispomos para o pêndulo, um sinal destes é tremendamente significativo. Ainda não ouvi relato de sintonização tão boa quanto a esta conseguida por outros esquadrões. Não quero ser precipitado, mas acredito que a encontramos.

O comandante olhava catatônico para o centro da mesa, comprimindo e relaxando esporadicamente os olhos enquanto sustentava o queixo com os dois indicadores unidos.

—E pensar que um pedaço de pano poderia virar uma guerra.- disse por fim, abandonando o seu transe.- Allamr’ey perder-se por esta miudeza será como o rei imponente que morreu ao cair do cavalo numa manhã de domingo. Figuras lendárias não deveriam morrer por insignificâncias. Mas é sempre assim, não é?
—São as miudezas que nos matam a todos, senhor.- emendou Norris.
—São. Sim, são elas, soldado.- continuou o comandante, dirigindo-lhe um sorriso cansado.- O dedo que escorrega do gatilho, o sono que cai na vigília, a esquina errada dobrada… Sempre as miudezas. Mas não hoje. Hoje a miudeza é outra. É o trapo do manto dourado rasgado por Allamr’ey. E, pelos deuses, as mortes não serão as nossas. Selem os grifos. Iremos até este sobrado. E, por favor… muito zelo com os pequenos detalhes. A roda da fortuna é muito volátil.

***

Em poucos instantes de vôo, Norris atravessou a caótica cidade do deserto enquanto desviava das pipas coloridas que revestiam o céu. Vista por cima, as ruelas que serpenteavam entre templos e mercados pareciam as artérias de um ser maior; opressivo e pulsante. Súbito, direcionando o grupo, os dois batedores mergulharam rumo ao chão, mirando uma mata fechada que ornava um pequeno oásis no fim da cidade. Ali, encontraram um lugar suficientemente amplo e sigiloso para esconder suas montarias.

—Fica a poucas centenas de metros daqui, não mais que um quilômetro. – disse o mais velho dos batedores enquanto metia uma mão no bolso para retirar o pêndulo. Segurou com a mão direita a corrente estendida e manteve suspenso o cone de metal da outra extremidade sobre a mão esquerda espalmada. Aguardou alguns instantes até que o objeto se estabilizasse, ficando estático no centro de sua palma, para então sussurrar:

– Perdido na vida, perdido na morte, encurte a ida e seja meu norte.

Com um leve sopro, deu o movimento inicial ao pêndulo, que por sua vez gradativamente ganhou velocidade e definiu um percurso. Girava rapidamente e com uma abertura ampla, tal como havia dito na reunião de horas antes.

—Ainda está aqui. Ganhará mais força quando nos aproximarmos do sobrado, verão. – retirou o olhar por alguns instantes do pêndulo. – Comandante?
—Mostre o caminho, Wade. Até o fim do dia, quero que este pêndulo não tenha mais por quem oscilar.

***

Sorrateiro, o grupo se esgueirou por entre dunas e edificações ancestrais na porção antiga da cidade, orientados pelos giros do pêndulo. Já a poucos metros do sobrado, encontraram abrigo em uma parede solitária que resistira a alguma batalha antiga, seja contra o tempo ou contra homens, e puseram-se a repassar os detalhes da invasão. Agachado, Norris sacou seu rifle e conferiu o pente de balas. Cautelosamente, abriu o reservatório traseiro da arma e verificou a carga de pó de lápis magicae, o qual tratou de completar. Roçando um dos compartimentos de seu cinto, pinçou uma porção de chifre de unicórnio triturado e salpicou por toda a superfície metálica. Em seguida, apanhou de outro compartimento uma minúscula garrafa de líquido lilás espesso e odor adocicado. Desrolhando o recipiente, fez o líquido escoar por dentro da boca do cano. Por fim, baixou os olhos, aproximou-se da arma e sussurrou:

—E o que fazemos quando escapam da morte? Desejamos-lhes sorte, desejamos-lhes sorte.

Um estalido seguiu o verso, emanando conjuntamente um brilho intenso e momentâneo no rifle, atraindo assim a atenção do comandante.

—Estamos impiedosos hoje, não?- até mesmo em um murmúrio, sua voz parecia exageradamente alta. Com um maneio, indicou a arma. – Unicório e mantícora?
—Anfisbena. Unicórnio e anfisbena. Soube que essas serpentes de duas cabeças liquidaram com um pelotão inteiro de nossos homens a serviço no Primeiro Continente. Consegui um pouco disto com um comerciante local.

O comandante franziu o cenho.

—Não é adequado confiar tanto nos nativos, soldado. Somos invasores, e invasores nunca são bem quistos.
—Não confio, senhor. Mas o comerciante me pareceu verdadeiramente aflito quando o fiz beijar o lado embebido da rolha deste veneno. – encerrou com um sorriso de soslaio.
—Ora, já não sei se te castigo ou se te promovo. Espero que o coitado tenha sobrevivido. Aos dois mil diabos e todos os seus nomes, Norris! – prosseguiu o comandante afogando o riso. Guinou a cabeça na direção oposta conferindo os preparativos de seus homens. – Todos prontos?

Um a um, os soldados anuíram, trazendo seus rifles para junto do corpo. Norris arrastou-se contra o muro até sua extremidade e, cuidadosamente, observou a entrada do sobrado. De prima, constatou que sobrado nada mais era do que uma mera alcunha para classificar aquela casa que obviamente não tinha um segundo andar, mas era relativamente maior do que suas vizinhas.  No mais, a casa era erguida em barro cru e madeira, ostentando a mesma fragilidade aparente que todas naquela porção da cidade ofereciam. Uma porta entreaberta e duas janelas eram as três rotas possíveis para a invasão.

—Algum najm?
—Nenhum, comandante. E isto é estranho.
—Não tanto, considerando ainda ser dia. Não expor-se ao sol não chega a ser um tabu para eles, mas ainda assim é algo que consideram tremendamente desaconselhável. E as entradas?
—Pela frente uma porta, duas janelas. Posso sondar o prédio, se ordenar.
—Não. Iremos pela frente. Lá dentro checaremos outras saídas. Quero um batedor e outro soldado em cada janela. Norris, Willis, comigo pela porta. Vamos.

Norris tomou a dianteira de seu grupo e correu curvado até a porta do prédio, abrindo-a lentamente com o ombro enquanto mantinha o rifle a sua frente. O lugar estava tomado pelo cheiro de bolor, putrefação e abandono. No canto da primeira sala, algumas cabeças de galinha cediam ao calor e as moscas. No cômodo conjugado, deu com o outro grupo, onde Wade empenhava-se com sua radiestesia, o pêndulo perdido em giros alucinados. Contudo, quanto mais a fundo seguiam na casa, mais a escuridão se condensava, o que forçou Norris a pegar de seu bolso traseiro um tubo de fogo frio e jogar um punhado de lapis magicae em seu interior, criando um feixe de luz levemente  azulado a partir do cilindro. Uma mesma luminosidade brotou no terceiro quarto, logo à frente e à direita, trazendo consigo os homens restantes e, desta forma, reintegrando o grupo. Ainda não haviam encontrado nada, embora o pêndulo insistisse em indicar uma presença sob aquele teto.

Afastando o breu, Norris percorreu os cantos dos três cômodos na busca por alguma portinhola ou escotilha secreta que levassem a um quarto ambiente. Sem sucesso, retornou para a entrada para refazer sua busca. Foi então que, por mero capricho da sorte, a luz de seu tubo de fogo frio banhou o grotesco monte de cabeças de galinha, tendo como resposta um minúsculo lampejo dourado. Agachando-se ao lado das partes mutiladas, pôs-se a afastá-las com a ponta de seu rifle, até que por fim deu com uma pasta enegrecida de onde um fio dourado e espesso brotava. Deslizando o indicador pela goma, o soldado pinçou um punhado da substância e testou sua consistência. Pegajosa. Granulosa. Com um toque do mindinho, averiguou o sabor básico da mistura, cuspindo logo em seguida. Em um estalo, agarrou o fio dourado e removeu-o da pasta, ostentando um brusco e inesperado entendimento da situação.

—Wade! Wade! Rápido, aqui.- sinalizou para o batedor.

Vindo do cômodo ao lado, Wade aproximou-se de Norris intrigado, ao que ele apenas estendeu a espessa fibra dourada. Com a aproximação, a oscilação do pêndulo abria-se e acelerava proporcionalmente.

—Os desgraçados usaram uma parte do manto! Meteram essa porcaria junto a um monte de lápis magicae engomada para potencializar seu sinal. Comandante! O senhor precisa ver…

Continua…

Por Vitor TS

DIAS CLAROS


“Ah, Hugo, que dia lindo que se forma além de nossa janela, anda, abri os olhos que é cedo para dormir, e tarde para acordar! Anda, veja, que lindas nuvens a pairar”.

Ele, Hugo, se vira na cama, sem muito pensar, ainda de olhos fechados, para à luz se acostumar.

“Acalma-te mulher, que os olhos já abrirei para ver teu sol” abre-os. “Mas que está acontecendo? Estás louca, Mariana? Que feio dia está se formando bem diante de meus olhos. Nuvens negras, espessas, sem sol ou beleza oportuna. Estás louca, só pode ser. Cala-te. Não sabes o que diz.” Vira para o lado, novamente. Fecha os olhos e tenta cochilar.

Dias claros

“Ah, Hugo, se soubesses que nos espera, não faria tais comentários. O dia está lindo, sem pássaros a ralhar ou gira-sóis a desabrochar. Que bonita imagem vejo. O sol a tentar sair de trás das negras nuvens a impedir. Lindo, lindo. Bravo!” Palmas. “Nada de cores fúteis a impedir minha visão. Veja! Veja a magnitude das rosas tristes ao nosso peitoril. Veja! Veja os crisântemos abatidos do jardim do vizinho. Veja, Hugo, veja!”.

“Cala-te, mulher. Cala-te, que dormir preciso, daqui a pouco me levanto para ganhar nosso pão irei. Cala-te”.

“Ah Hugo, por que não me escutas? Abri bem os olhos e olhai. Verás quão bela é a vida. Verás quão solitário é o ser. Veja! Veja as montanhas tão deprimidas, à espera de seu deus. Veja!”.

Resmungos.

Horas mais tarde…

“Mariana! Onde estão as minhas meias pretas?”

“Qual é a diferença meu amor? O dia está tão maravilhoso. Use qualquer uma”

“Não, Mariana, quero minhas meias pretas!”

“Olha, estão molhadas, no varal. Use qualquer uma”

Baixinho “Não usarei meia nenhuma, se é assim”

Mais alguns minutos…

“Mariana! Onde está o meu jornal?”

“Não sei, querido. Deve ainda estar à porta. Mas, por que se aborrecer, com notícias ruins? Tão logo raiou o dia e já queres abespinhar-se com bobagens? Fica de bom humor, que hoje é um dia lindo, e preciso de ti bem”

Resmungos.

Hugo sai de casa mais cedo, com raiva. Pára na porta, dá um suspiro furioso. Abaixa-se. Pega o jornal e o coloca embaixo do braço. Anda calmamente pela calçada, tentando desanuviar os pensamentos naquela horrenda palavra que Mariana insistia em pronunciar desde o nascer do sol: dia.

Maldita palavra.

Pensava no quanto a amava e como a queria bem. Mas a raiva agora tomava conta de todo o seu ser.

Um caminhão desgovernado vinha em sua direção. Um grito de pânico tomou conta da rua.

Mariana, preocupada com seus afazeres domésticos, assobiava uma linda canção, acompanhada do pensamento “que lindo dia”.

Por Anna Kiyra Yosamura