NOITES NO GELO – 4 DE 4 – FINAL


Rastros contínuos trilhavam a neve em um caminho que se perdia de vista. Seguido por um homem a cavalo, o velho, também usando uma montaria cedida pela estalagem, acompanhava o cavalgar ligeiro. Na outra montaria seguia um homem alto e de ombros largos que se revelou um minerador da região, numa conversa que vinham tendo pelo caminho. A cavalo eram capazes de cobrir maior trajeto em menos tempo e, com a ajuda dos deuses, podiam ter uma chance de encontrar os companheiros com vida. Mesmo desacreditados dessa possibilidade, deviam continuar. Era uma obrigação, até mesmo para enterrar os corpos caso fosse necessário.
Andaram o dia todo, parando a cada três ou quatro horas para descansar os animais, uma precaução importante se quisessem continuar o caminho montados. Cada parada durava cerca de meia hora, não variando muito esse tempo. Descanso para eles, mesmo o velho dando sinais de esgotamento físico pela noite sem sono e caminhada ininterrupta, era só quando os animais descansavam. Ademais, o frio intenso e a neve fina que caía afastavam qualquer possibilidade de um repouso eficiente.
Preocupado em chegar rápido, o grandalhão encorajava o velho a manter o pique, que já parecia abandoná-lo.
Ia chegando a noite. O dia sem sol terminava, levando consigo a fraca claridade que proporcionava segurança aos cavaleiros, obrigando-os a acenderem tochas para enxergarem o caminho. Percorriam a galope a tímida estrada que dividia espaço com as imponentes montanhas alvas que, em raros momentos, davam a chance de uma ou outra árvore mostrar seus galhos sobre a neve.
Percebendo os sinais de cansaço dos cavalos, o robusto lenhador ia alertar o velho da necessidade de fazerem uma parada, mesmo que curta, quando viu algo na estrada. Rompendo o padrão branco do cenário, uma mancha escura sob a neve da estrada chamou sua atenção. Apontou para o chão à frente, dirigindo para lá o olhar do exausto velho sobre o cavalo. Golpeando os animais, correram para a mancha o mais rápido possível.
Terrível e dolorosa visão tiveram os solitários cavaleiros ao se depararem com dois corpos ressequidos e contorcidos. Um deles deitado, como se estivesse desacordado no momento do ataque e o outro, ajoelhado, debruçado sobre o primeiro, talvez numa vã intenção de proteger o companheiro do mal que se lançava sobre eles. O velho reconheceu pelas roupas os companheiros de viagem. Caído na neve, e sem expressão no rosto, estava o homem com quem viajara por anos e, em cima ele, como se fizesse um casulo protetor, o novato debruçado. Em sua face óssea e sem vida, um brilho de horror nos olhos miúdos. O último registro do ataque dos Vultos da Neve.
Por um instante o velho orou aos deuses, em honra às vidas perdidas pelos amigos. Em seguida combinou com o outro homem de enterrá-los na neve, ali mesmo, no lugar onde morreram. O lenhador convenceu o velho a irem embora com os cadáveres para enterrá-los durante o dia, protegidos de possíveis ataques. Com o pesar angustiando os cavaleiros, mais ainda o velho, eles envolveram os corpos em cobertores e os amarraram às selas dos animais, montando e partindo sem demora.
No dia seguinte, enterraram os amigos de viagem.

Dor e culpa acompanharam aquele homem cansado e velho. Dor e culpa consumiram gradativamente sua vida depois do fatídico inverno, sem abandoná-lo um dia sequer. Eram como partes de sua alma, de sua vida; partes que o mantinham vivo apenas para que sofresse. Apesar de dia após dia ter desejado morrer o mais cedo possível, viveu por vinte anos, como um castigo dos deuses, condenado a suportar a culpa de ter deixado, além do amigo, um rapaz tão novo perecer nas mãos de criaturas sombrias. Nunca teve um instante de paz até o último dia de sua vida triste e nula.

Por Luciano Rodrigues

NOITES NO GELO – 3 DE 4


Voltara a nevar, mas com pouca intensidade, e o jovem largado ao próprio destino tentava manter vivo o amigo próximo à fogueira. E agora? Ficar ali e esperar o socorro que o velho tinha ido buscar, ou tentar o retorno pelo mesmo caminho, com o amigo apoiado nos ombros? Já ia escurecer e permanecer mais uma noite no mesmo lugar não era exatamente uma atitude segura e a neve caindo logo prejudicaria o rendimento da fogueira. Ainda que com muitas dores na barriga, a recuperação do ânimo por parte do homem ferido dava uma nova esperança aos dois. Podiam partir, se quisessem, mesmo indo devagar. Como o ferimento não era incapacitador, eles decidiram voltar ao encontro do terceiro integrante do grupo.

O final de tarde ia deixando o lugar para trás, forçando os viajantes a retornar pela trilha ao posto de repouso, a estalagem na beira da estrada. Mesmo sendo castigados por ventania e neve rala, a viagem de volta era imprescindível.

Apagando a fogueira, mas mantendo uma tocha acesa, eles partiram pelo caminho por onde vieram, cortando a neve que congelava os ossos nas pernas. O novato ia carregando, conforme conseguia, seu amigo nos ombros e, mesmo ele sendo grande e pesado, era preciso continuar suportando seu peso para terem alguma chance de escapar com vida. Demorariam muito para percorrer um espaço de meia légua, mas se entregar depois de tantos obstáculos superados, estava fora de questão. Determinação e medo falavam mais alto.

— Atento… — murmurava o homem semiconsciente. — Sombras… Neve.

Mas o jovem nada via nas encostas da montanha. Por mais que quisesse, ficando parado por uns instantes a observar, não enxergava movimentação de manchas escuras nem brilhos vermelhos na imensidão branca. Considerou que o mais importante era continuar e, de qualquer modo, seu amigo podia estar delirando. Arrastaram-se por mais de duas horas, deixando para trás duas linhas sulcadas na neve, indicando o destino dos viajantes desprotegidos.

Alguns sussurros foram ouvidos atrás dos dois e o mais jovem, tão rápido quanto pôde, virou-se para checar se eram seguidos por aquelas coisas. Aparentemente, só o vento silvando cruzava aquele corredor branco. Mesmo não tendo constatado presença alguma, o jovem decidiu que era melhor irem mais rápido. Alertou o amigo para a situação.

— Temos que correr. — disse o rapaz para o amigo ainda meio atordoado.

— Vamos — respondeu o homem. — Vou tentar, é preciso.

Reunindo as últimas forças que restavam, o mais velho pôs-se a correr, com as mãos tapando o ferimento, seguido pelo novato carregando a tocha, que não queria se adiantar e deixar o outro muito para trás. Caso ele caísse, o rapaz não teria como saber a uma distância longa. E o motivo dessa preocupação se materializou. O homem ferido caiu, esgotado, depois de poucos segundos correndo. Desesperado, o jovem não sabia o que fazer, quando percebeu estar cercado de sussurros por todos os lados e, apurando melhor a visão da área, notou leves brilhos vermelhos se destacando atrás de árvores velhas cobertas de neve, ou em fendas no gelo, nas encostas da montanha. E eles se moviam.

Certamente eram os Vultos que iam na direção deles, deixando à mostra suas formas escuras como uma fumaça preta, mesclados a sombras no ambiente. Eram muito rápidos e, em instantes, um pequeno grupo se formava ao redor do jovem desesperado e seu companheiro desmaiado. Recorrendo a um último lampejo de razão, o rapaz teve a imediata reação de buscar em seu bolso a pedra protetora, para afastar as criaturas e poder arrastar seu colega para um esconderijo, caso achasse um ali perto. Mas nada encontrou em seu bolso, nem em nenhum outro que procurasse, tendo o corpo todo consumido por uma inegável sensação de prostração. Sua mente, num lampejo , vasculhou as lembranças até o único lugar possível de se encontrar sua pedra perdida: a fenda na neve. Ironia do destino. Antes não tivesse descido para resgatar o amigo! Ou o fizesse com mais cuidado e presteza. Suas forças o abandonaram de tal forma que mal conseguiu esboçar reação com a tocha e, quando se lembrou do outro cristal no bolso do homem ferido, os fantasmas já estavam sobre ele.

CONTINUA…
Por Luciano Rodrigues

NOITES NO GELO – 2 DE 4


Todo viajante que passasse pela Muralha Branca levando um cristal, o fazia em algum bolso de fácil acesso, permanecendo, assim, preparado para um ataque imediato. Na verdade, o cristal para se espantar Sombras não era tão eficiente como se propunha. É a mais pura verdade que essa pedra peculiar, originária das regiões montanhosas do sudeste, tinha a singular e misteriosa propriedade de causar medo nos Vultos.
Não se sabe o por quê de tal reação. Sabe-se, contudo, que o efeito é temporário e só na primeira vez a criatura o sofre por completo. Apenas muito tempo depois, talvez dias, é que a Sombra da Neve voltará a temer uma pedra daquelas novamente. A intenção ao usar tal objeto é a de afastar o inimigo e ter tempo para escapar, indo o mais longe que puder. Ficando parado no mesmo lugar, uma pessoa se torna presa fácil das Sombras, justamente por ela saber onde procurar assim que expirar o efeito do afastamento.
O velho avançava além do que o seu físico jamais ousou parecer possível, cortando a neve por onde haviam passado há pouco, desaparecendo na imensidão branca que cobria o caminho entre as montanhas. Perto da fenda, o frio e o medo se engajavam numa luta pelo controle da consciência do homem que montava guarda junto ao amigo. Voltou nevar um pouco.
Transpondo a passos largos o gélido tapete branco, o velho praticamente jogava seu corpo para frente, devido ao desespero de alcançar o destino o quanto antes. Temia mais pela vida dos dois que ficaram do que pela sua própria. Sentia algum remorso por ter proposto ao mais novo ficar e guardar o lugar, pois no fundo sabia que um ato de verdadeira coragem seria o de se oferecer para ficar e encarar o perigo enquanto o outro saísse atrás de socorro.
Covarde. Covarde. A palavra ribombava dentro de seu mais profundo pensamento. Covarde. Abandonar um jovem sem experiência como se fosse um sacrifício a criaturas abomináveis. Entretanto, algo como uma sensação de alívio o preenchia por ter saído de lá. E tal sensação subjugava sua auto-condenação, pois, antes um covarde vivo do que um mártir, pensava ele. Enquanto se trancava contra pensamentos vexatórios e torturantes, andava tão rápido e desengonçado a ponto de suas botas se encherem de neve, que rapidamente derretiam e molhavam seus pés, diminuindo ainda mais a temperatura do corpo, um descuido grave que podia ter seu preço.
Para se andar na neve com segurança e eficiência, os homens tomavam alguns cuidados com os pés. Primeiro, devia-se cobrir os pés com meias grossas, tiras de grosso tecido e enfiar as barras da calça dentro das botas para evitar molhá-las. E, fora da bota, era necessário amarrar panos nas pontas e na sola, para que houvesse aderência à neve, agilizando os passos. Parecia claro que nenhuma dessas precauções ajudava muito o velho esbaforido, que continuava depressa, sabendo que as vidas de seus amigos dependiam dele conseguir ajuda o quanto antes.
Arfante e cansado, o pobre velho só pensava em como encontraria os companheiros de viagem. Vivos, ou mortos e ressecados pelo dreno de vida dos Vultos? Sabia que não era capaz de voltar com ajuda antes da noite seguinte. Se os jovens sobrevivessem à noite fria e perigosa, talvez pudessem… Não! Era praticamente impossível. Por que diabos foi abandoná-los? Mas que chance teriam eles, os três ficando lá? Quem sabe pudesse ter convencido o mais novo a ir embora com ele? Deixou lá o novato, exalando medo pelos poros. Tantos pensamentos povoavam a cabeça do velho que o distraiam, de um modo grosseiro, do cansaço das pernas e do corpo.
Com o raiar de um novo dia, aquele esgotado homem desesperado avistou fumaça deitando ao longe, através dos morros e das árvores nuas, repletas de neve, que ali já se faziam presentes em alguns pontos. Era provável que chegasse à estalagem ao meio-dia.
No vasto nada de montanhas brancas, a fogueira improvisada, suspensa sobre o tronco na estrada para se manter afastada da neve, oferecia o calor tão bem recebido pelo jovem guardião. Era dia, mas não havia perigo em se acender fogueiras a qualquer hora, e, mesmo à noite, era importante viajar com tochas acesas. Esses tais Vultos enxergavam perfeitamente no escuro e, sem uma luz com que se guiar, os viajantes ficariam em desvantagem imensa. Bem aquecido e deitado sobre o tronco, o jovem se protegia do frio como conseguia, se cobrindo e recebendo o calor do fogo, sem pensar em como seu amigo sofria no fundo do fosso na neve. Dentro de poucas horas, quando esse temor lhe passou pela cabeça, correu para ver como estava seu parceiro, mas não o encontrou em boa situação.
— Ei! — gritou o rapaz.
Mas a resposta demorou.
— Eu… — respondeu o homem no fundo da rachadura.
— Como você está se sentindo? — perguntou o jovem.
— Não consigo sentir minhas pernas… cabeça dói… dedos estão roxos… acho que vou morrer antes da ajuda chegar. Não sinto calor em nenhuma parte do… meu corpo.
De repente, um plano se formou no coração do novato aflito. Um plano arriscado e que possivelmente lhe custaria a vida, em caso de falha, mas ele devia tentar, não podia deixar o amigo morrer ali. Foi até sua mochila e a do velho, encostadas ao tronco, onde sabia que encontraria um machadinho, que eles usavam para rachar lenha nas viagens. Dirigiu-se até a fogueira, onde tomou um gole do chá que tinha deixado esquentando e voltou para a fenda.
Sem dizer palavra ao seu colega, amarrou a outra extremidade da corda à cintura, prendeu o machadinho na cinta e iniciou sua descida até o local onde seu amigo permanecia preso. A corda amarrada em sua cintura era um recurso que ele concebeu para não cair no abismo além o alcance da visão. Se caísse ali, jamais voltaria a ser encontrado, vivo ou morto. Só isso já lhe congelava a espinha ainda mais do que o vento frio. Agarrando firmemente a corda presa na arvore, foi descendo devagar, se apoiando com os pés onde podia e escorregando pela corda quando não encontrava apoio.
Depois de uns bons minutos, chegou à pedra que prendia o companheiro pela barriga. Apoiou-se nela e tocou a face do homem, para confirmar alguma reação e obteve resposta. O homem abriu o olho, mas, com a mente perturbada, não compreendeu nada daquilo e voltou a desmaiar. Até ali, o plano parecia estar funcionando corretamente e o jovem até se repreendeu por não ter tido aquela ideia antes. Empunhando o machadinho, começou a bater na pedra, para arrebentar a ponta que prendia seu companheiro. Como um escultor talhando uma rocha, desferia os golpes com cuidado, com as costas do machadinho, para não desmoronar alguma parede da fenda sobre eles. Aí sim estaria tudo perdido, para ele e o amigo.
Passado um longo período de tempo martelando, que mais dava a impressão de ter sido uma tarde toda, o rapaz conseguiu romper a rocha e libertar seu amigo, agora suspenso na mesma altura, graças à corda presa ao tronco. Não havia tempo, entretanto, para perder com qualquer coisa. O homem corria o risco de se desprender da corda e cair para a morte, a visitante que já lhe batia à porta.
Subindo rapidamente, sem voltar a olhar para baixo, com o corpo tremendo e as mãos frias de tanto martelar, o novato, quando chegou ao topo, percebeu o dia ainda claro e começou a puxar seu amigo lentamente, para que não o despertasse e ocasionasse movimentos bruscos. Enquanto puxava, pensou em como seu parceiro de viagem era resistente ao sobreviver por tanto tempo dentro da fenda fria e úmida. Imaginou que ele próprio não aguentaria por tanto tempo lá no fundo, preso à pedra, sob o manto de gelo levemente azulado ameaçando cair sobre sua cabeça. Sua respiração doía-lhe as narinas, e as mãos e os pés davam a impressão de não responderem mais. Mesmo o amigo tendo se envolvido em cobertores, ainda era difícil acreditar naquela vida que era salva.
Enfim, puxou o corpo frio e inerte para fora do buraco e o arrastou até a fogueira, deitando-o sobre o enorme tronco, onde ele próprio dormia horas atrás. Tratou de descansar, enquanto forçava o outro a beber um pouco de chá para aquecer o interior do corpo. Precisariam de ânimo para escolher o que fazer a seguir.
CONTINUA…
Por Luciano Rodrigues

NOITES NO GELO – 1 DE 4


— Você nem faz ideia se vamos conseguir comer essa noite, quanto mais o quê. — comentou um deles.
— Eu caço qualquer coisa, sou bom de caça, idiota! — respondeu o outro, o novato.
O mais velho dos três, sabiamente, decidiu intervir na disputa juvenil dos seus companheiros de viagem, que vinha se estendendo demasiadamente.
— Parem de brigar, pelos deuses! Concentrem suas atenções nas encostas das montanhas. Eles podem aparecer a qualquer momento e, como não tem lua essa noite, fica mais difícil enxergar um se aproximando.
O homem e o jovem se calaram, entreolhando-se. Suas tochas quase se apagavam expostas ao inclemente poder da ventania. Os conselhos do velho não eram à toa.
Esses viajantes noturnos cobriam a passos largos a região, caminhando o máximo que podiam à noite e deixando para repousar durante o dia, e ainda assim revezando o sono. O motivo para tanta precaução era as criaturas sombrias e fantasmagóricas denominadas Sombras da Neve, ou Vultos da Neve, segundo relatos. Seres notívagos, esses espectros em forma de sombra, com dois reluzentes olhos vermelhos, caçam e transformam suas vítimas em um dos seus, ao drenar suas essências de vida. Na estação do frio, como era aquela, a neve cobria quase todo o caminho entre as montanhas. No verão, apenas parte das montanhas preservava o gelo mais resistente ao calor, fazendo os Vultos terem receio de se aventurar fora da área nevada.
As montanhas conhecidas como Muralha Branca são a fronteira entre o norte e o sul de Anerás e para atravessá-las é preciso uma certa dose de coragem, ou talvez insanidade. Entretanto, é também uma região cortada por rotas de mercadores e, se um viajante permanecer nas rotas antigas, as mais usadas, suas chances de uma travessia com sucesso serão maiores. Essas rotas foram traçadas durante os séculos, através de trilhas e estradas onde os ataques das criaturas eram menos frequentes. Mas, movimento atrai olhares.
Com pouca neve, os seres sombrios eram obrigados a caçar apenas quando tinham fome de almas, mas com a neve cobrindo tudo, eles se deliciavam a contento, atacando sem receio quaisquer pobres inexperientes viajando pelas trilhas no gelo.
Apesar de estarem na estação do frio, não nevava na Muralha há dois dias. A noite corria pela metade, quando um incidente, naquele tapete branco traiçoeiro, interrompeu a viagem dos passantes. Ao encontrar um enorme tronco velho impedindo o caminho da estrada, resolveram contorná-lo para seguir adiante. Como à esquerda do grupo, bem ao lado da trilha, uma escarpa se projetava em abismo de maneira muito íngreme, optaram por subir uns poucos metros o sopé da montanha à direita, onde notavam menos inclinação no terreno sem risco de cair.
No meio do caminho, porém, uma fenda na neve se abriu debaixo dos pés de um dos rapazes, fazendo-o cair e ficar preso, com a cintura enroscada a uma rachadura horizontal entre o gelo e a rocha, onde se via o buraco além, seguindo mundo adentro. Nenhum dos seus companheiros puderam ou tiveram tempo de reagir, a queda aconteceu rápido demais. E o buraco, bastante profundo, desaparecendo na escuridão sob os pés da vítima, era de causar medo e pânico. O desespero tomou conta dos colegas. Geralmente, uma fenda no gelo não dá uma segunda chance para vítimas de quedas, são buracos traiçoeiros sob um tênue manto de neve que, ao menor sinal de peso ou abalo, se mostram, tragando para suas entranhas as vítimas desavisadas. Portanto, quando uma chance de escapar surge, não se pode negá-la.
— Temos que jogar a corda! — gritou o velho, tentando começar a pensar.
O outro rapaz, mais jovem que o amigo no fundo da fenda, além de viajante novato, aparentava não ter os nervos no lugar. Temia pelas aparições que rondavam as montanhas. E agora à noite ainda! Eram alvos fáceis ali parados. Arrancou a corda presa à mochila e jogou-a para o velho, que imediatamente começou seu laço meio improvisado, uma técnica primitiva que conhecia e funcionava muito bem.
— Agora, nós vamos puxá-lo pra cima, entendeu? — o velho atacou, forçando o mais novo a se concentrar.
Rompendo as fronteiras do medo, eles se posicionaram na beirada da fenda e desceram a corda para o amigo, instruindo-o a prendê-la sob os braços e segurar firme. Puxaram uma vez, mas sem resultado; puxaram novamente, e, novamente, não obtiveram êxito. O velho pediu para tentarem com mais força e foi o que fizeram, mas o amigo no fundo da fenda gritou de dor.
— Estou ferido, não puxem! — gritou ele. — Acho que a pedra perfurou minha barriga e… aaaaaaaaaahhh… se vocês puxarem vai entrar mais ainda na carne.
Só o mais novo deles dava a impressão de não estar pensando numa solução, amedrontado como se apresentava aos olhos do velho. Mas foi o primeiro a romper a agitação do vento gelado assoviando em seus ouvidos e gritou ao velho:
— Vamos buscar ajuda!
— O quê? — O velho ficou intrigado. — Como?
— Há duas léguas passamos por um posto de repouso fora das montanhas, naquela mata de árvores secas, podem os ajudar.
— Duas léguas não são duas horas de caminhada na neve! E nosso companheiro vai ficar aqui, esperando ser encontrado por uma Sombra?
— Ele tem um cristal, vai ficar protegido.
— É uma solução, mas muito arriscada.
— Eu sei, senhor, mas…
— Mas tem que ser feito — o velho completou, sabendo que não tinha outro jeito de resolver o problema.
Pensaram por um tempo antes de agir e o homem preso na fenda, que tinha ouvido partes da discussão em voz alta dos colegas, gritou:
— Se alguém vai buscar ajuda, já é hora! Não dá pra ficar aqui esperando, com a barriga furada congelando por dentro, esperando pra morrer!
O velho então teve uma ideia e começou a colocá-la em prática. Segurando a corda de maneira firme, pediu ao jovem para amarrá-la a um galho do tronco caído na estrada. Como a corda tinha uns 30 metros, o intento funcionou e até sobrou mais corda do que o necessário para a outra parte do plano. Arrancou duas grossas cobertas de lã, que usavam nas viagens e desceu-as pela outra ponta da corda, até o seu amigo preso. Mandou que enrolasse uma em seu tronco, o melhor que conseguisse, e se cobrisse com a outra. Feito isso, voltou-se para seu jovem companheiro, com instruções a dar.
— Eu vou, você fica.
O rapaz, apavorado com a possibilidade de ficar ali sozinho, parado, em pleno território de Sombras da Neve, estremeceu. Mas num ímpeto de coragem, chamou a responsabilidade para si próprio e consentiu. Antes de partir, o velho ainda falou ao amigo:
— Vocês têm o cristal, vão ficar bem — comentou ele, aludindo à frase dita antes pelo rapaz.
Instantes depois, o homem observava o velho desaparecendo na estrada.
CONTINUA…
Por Luciano Rodrigues

ALIEN


Sou Íquero, um perfeito elemento alienígena, recriado na Terra, primeiramente em discreto e perigoso laboratorio ! O primeiro na Terra!
Meu papel é especialmente grande: Viver interpretando um bom humano; reproduzir alguns “filhos mistos”; para em breve dominarmos a Terra!
Já estamos agindo: espalhamos as agressões, a violência e a solidão. Não é um horror?! Pois é, amigo. Já dominamos tudo!
Você já sentiu nossa presença ao lado de todos?
Eu sou o próximo para dominá-lo. Espere!!

Por Thera Lobo

RESTO DO QUE FUI UM DIA


Quem sou eu?
Fui me dar contar disso esta tarde. Eu não sei mais quem sou.
Mas não se trata de perda de memória. Muito pelo contrário, minha memória está tão boa que me lembra a toda hora daquilo que já não sou mais.
Parece que na nossa língua falta uma palavra, aquela que poderia dizer quem sou eu.
Foi assim, havia uma criança caminhando displicentemente pela rua, roupa por lavar, cabelo por pentear, talvez até banho tivesse em atraso. No momento em que olhei para ela me lembrei, era um dos órfãos da dona Carmosina, coitado.
Dona Carmosina era uma viúva, jovem ainda, foi deixada pelo marido vítima de um infarto fulminante. Ficou com três filhos pequenos para criar e dívida no armazém para pagar. Seu marido lhe deixou além desses três filhos, uma conta para ela pagar em cada boteco e muita roupa suja para lavar.
A roupa suja era aquela que precisava lavar para sustentar os filhos e pagar as cachaças que o marido bebeu depois que acabou com o dinheiro da venda do seu barraco onde moravam. Mas essa ela lavou numa boa. A roupa suja que ela não suportou lavar foi com aquelas cobranças das mulheres de suas aventuras noturnas. Que ele fizesse suas farras com as prostitutas, mas não deixasse a conta para ela pagar, que ela não era santa.
Assim ela não suportou e se foi, tomou a cachaça que sobrara no litro até não poder mais, e depois foi pro quintal e tomou o veneno de rato que ela mesma havia posto dias antes. E agora os filhos ficaram órfãos de pai e mãe.
Por mais desgraçado que seja, por mais triste que seja a história, tem sempre uma palavra, um adjetivo ou um nome que define a situação. Quem perde o marido é viúva, que perde a mulher é viúvo, quem perde os pais é órfão. Mas e eu? Quem eu sou?
Quando perdi meus pais virei órfão, casei virei marido, eu tive filhos e virei pai, perdi a mulher e fiquei viúvo. Mas agora que perdi meus filhos, não sei mais quem sou eu.
Eu sou só no mundo, mas não é essa a minha dor. A minha dor é tão forte que não há um nome que possa designá-lo. Eu sou um pai que não tem filhos, pode? Claro que não! Quem não tem filho não é pai e nem mãe.
Um dia já fui filho, já fui neto, já fui marido e pai. Hoje não, hoje não sou mais um pai, sou apenas o resto do que fui um dia…

Por Hiromi Isozaki